Pintura Contemporânea Não Vulgar Seguir história

uanine uanine oliveira

O professor de Artes e Tecnologias Contemporâneas, Min Yoongi, já tinha desistido da ideia de achar sua alma gêmea, frustrado com o risco feio que o destino havia pintado em seu braço. Na verdade, ele passa a questionar a sutilidade do amor e de como encontrá-lo até conhecer o aluno do terceiro semestre, Kim Taehyung, que está decidido a entregar o melhor trabalho da turma enquanto faz Yoongi ver os traços por outro lado.


Fanfiction Bandas/Cantores Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#drama #arte #bts #suga #v #taegi #min-yoongi #soulmateau #bangtan-boys #kim-taehyung
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Complexidade de círculos e retas

O café quente e o espelho quebrado já eram tão vivos na rotina de Yoongi que ele não mais se impressionava quando queimava a língua ou estranhava seu reflexo distorcido. Assim como esses dois objetos específicos, o doutor em Artes Visuais tinha se habituado, também, ao risco em seu ombro, que não dizia muito sobre si ou sobre o seu outro alguém. Um risco que nunca tinha se desenvolvido mais do que a reta que já era, e Yoongi dizia para si mesmo todo dia, antes de deitar-se, que não seria mais que aquilo nunca.

No caminho para o trabalho era comum ser o único desacompanhado na calçada, onde casais exibiam seu amor junto às suas tatuagens combinadas, almas gêmeas perfeitas que se encaixavam em uma imagem já pré-criada sobre paixão e destino na cabeça de todos que não passavam de estranhos antes de se descobrirem. Era clichê, bizarro e estereotipado, mas, um dia, já foi o que Yoongi desejou. Andar de mãos dadas, beijos apaixonados, declarações desnecessárias, exibição pública.

Hoje não mais. Já estava velho demais, considerava, tinha várias turmas para dar aula e procurar alguém que nem sabia se existia iria ser cansativo e inútil para si. Além disso, gostava do traço único no seu ombro, nunca vira em alguém, tatuagem mais bonita e formosa. Acreditava nisso ou fingia para não parecer sozinho.

Quando o desenho começou, aos seus dezesseis, apegou-se tanto a ele que dormia e acordava imaginando as possíveis combinações para seu risco charmoso. Lá pelos seus vintes, passou a odiar a tatuagem, ela não evoluía para nada, sua alma gêmea nunca iria decifrar aquilo. Yoongi nunca usava blusa sem mangas, não dizia para os amigos que tinha a tatuagem, preferia mentir. Se formou e tornou-se professor na universidade de artes, deixou de importar um risco em meio às tintas e quadros.

Fumou um cigarro do lado de fora da sala, esperando os alunos entrarem na sala. Era a turma do terceiro semestre, já, ainda não tinha dado aula para eles e haviam pelo mesmo quarenta e cinco alunos matriculados naquela cadeira — Artes e Tecnologias Contemporâneas. Deu uns dez minutos e respirou fundo, entrando na sala. Cumprimentou os presentes, organizou a mesa, escreveu o nome no quadro. Quadro não, quadro é termo que outros professores usam, não os de Artes, aquilo era uma lousa. Quadro é onde tem arte, e o nome de Yoongi não era arte nenhuma.

— Boa tarde, bem-vindos à cadeira de Artes e Tecnologias Contemporâneas. Meu nome é Min Yoongi e eu não faço apresentações porque vou ter um semestre inteiro para conhecer vocês. Bem, eu faço um intermediário de aulas em sala e em laboratório, acho que vão gostar da minha metodologia. As aulas em sala são para debater obras e projetos, alguns anteriores e outros contemporâneos até demais, e no laboratório nós vamos pôr em prática os conceitos da arte hodierna. Eu já marquei nossa avaliação prática para o fim do semestre no sistema, o que vou pedir é que façam uma pintura contemporânea não vulgar. E no decorrer das nossas aulas vão descobrir que isso, pode, na verdade, ser muito difícil.

No final da aula, um dos alunos lançou a pergunta a mim, após eu chamar seu nome da lista de presença.

— Professor, onde está sua tatuagem?

Yoongi respirou fundo; para ele era falta de educação, mas aquela pergunta era tão comum a todos que não respondê-la pareceria falta de educação da parte dele. As pessoas queriam encontrar suas almas gêmeas, nada mais justo do que saber se era seu professor ou não.

— Ainda não tenho uma — sorriu pequeno, voltando a fazer a chamada imediatamente.



Umas duas semanas depois, quando estavam no laboratório, Yoongi pediu para que desenhassem algo que os representassem, um autorretrato abstrato, e voltou à mesa para organizar as coisas das outras turmas em que dava aula. Deu quarenta minutos para que produzissem, o que era ridículo pois arte se cria em um segundo, não é filosofia para ser pensada e redigida; quando o tempo se esgotou, chamou atenção dos alunos e pôs-se a andar pelos quadros pintados. Alguns tão desleixados que acabava sendo realmente um autorretrato para imprimir o desleixo de seus pintores, outros tão bem produzidos que beiravam o real e não o abstrato que o professor Min havia pedido. Yoongi até tentou ver algo além da vulgaridade indecisa e contemporaneidade forçada entre eles, mas não achou, e não tinha que ser bondoso com seus alunos.

— Eu entendo que essa pode não ser a matéria favorita de vocês, mas se quiserem passar nela vão ter que se esforçar ou querem ficar comigo nas férias? Muitos de vocês podem não se familiarizar com esse estilo de pintura...

— Professor Min — uma voz rouca o chamou do fundo do laboratório, afastado dos outros alunos. — O senhor não olhou minha pintura.

Yoongi parou seu sermão com a turma e franziu os lábios. Kim Taehyung não era seu melhor aluno, nem o pior. Ele nunca lia os textos que eram passados como leitura obrigatória e por isso sempre estava afastado nas aulas, no fundo, mexendo no celular ou rabiscando o caderno. Era quase invisível, mas algumas vezes o Min o notava bebendo com os amigos no térreo, ou fumando nos corredores.

Andou na direção do garoto, parando atrás do mesmo para admirar a tela pintada com poucas cores além do preto. Aquilo era exatamente o que tinha pedido — a essência não só abstrata, mas irreconhecível do pintor, uma obra que fizesse qualquer um querer descobrir o que aquilo representava para quem o pintara, e apesar de, aparentemente, ser só um círculo mal desenhado, aquilo poderia ser muito mais. E por sua potência estar aberta em um leque tão amplo que possibilitava a imaginação e sensação do espectador, era muito mais, era arte.

Yoongi sorriu, finalmente satisfeito com o tempo que passou ensinando teoria para aqueles jovens. Um tinha conseguido se sobressair.

— Ficou muito bom, Taehyung-ssi. O melhor do turma.

O menino se surpreendeu, arregalando os olhos.

— Sério?

— Sim — Yoongi acalentou o aluno com um sorriso leve, batendo em seu ombro e se afastando. — Não é do meu feitio, mas vou passar um dever de casa. Vocês têm uma semana para refazer, do 0, os autorretratos de vocês, da forma que quiserem, o laboratório está sempre aberto, sintam-se a vontade para me procurar e pedir ajuda, mas pensem nisso como algo seu. Como uma tatuagem, por exemplo! Uma coisa individual, intrínseca de cada um. Me tragam na próxima semana, valendo nota.

Liberou os alunos, a maioria saiu bufando da sala, já odiando aquele baixinho que nunca se satisfazia com nada e talvez iriam falar mal dele e de sua metodologia no grupo da sala, mas o professor apenas se sentou atrás da sua mesa, arrumando suas coisas para partir para a próxima turma em que daria aula.

— Professor Min?

Levantou os olhos, encontrando a figura do Kim na sua frente, com a roupa manchada pela diversidade de tons de tinta.

— Obrigado por gostar da minha pintura, mas eu vou aperfeiçoá-la para entregar na semana que vem. Ainda não está “eu” o suficiente, nem eu mesmo me entendo naquele quadro — sorriu.

— Como quiser, mas não precisa se entender, se quiser, eu mesmo posso lhe explicar para você — O mais novo franziu as sobrancelhas, não sabendo o que o professor queria dizer. — Daqui pro final do semestre você vai entender o que estou querendo dizer.

— Ok — riu. — Obrigado mais uma vez.

Yoongi deixou o aluno sair com um sorriso no rosto, provavelmente satisfeito consigo mesmo por conseguir um elogio de reconhecimento do professor. Pelo canto do olho observou o círculo de Taehyung, vazio, borrado, incompleto. É, Yoongi entendia.



Aquela criança prodígio estava empolgada, ou talvez aquela fosse sua matéria favorita, mas no laboratório, onde Min Yoongi usualmente estava planejando as aulas e estudando, a presença de Kim Taehyung havia se tornado constante. Ele chegava com sorrisos e uma barrinha de cereal, cumprimentava o professor, normalmente único na sala, e se sentava no banquinho, escolhendo seus pincéis e cores favoritas para começar a pincelar o quadro. Yoongi tentava se concentrar em seus livros e vídeos, mas sempre era atraído para a concentração de Taehyung quando este estava produzindo, tentando entender o que ele estava fazendo ao sempre desenhar círculos cada vez mais diferentes uns dos outros.

Quando terminava de tentar fazer algo além dos círculos que não entendia aparecer, ia com mais um sorriso aberto para a mesa do professor e puxava assunto. Primeiro foi sobre as aulas, depois sobre as exposições da cidade, acabaram aquela semana discutindo sobre seus pincéis favoritos e suas decepções em meio artístico, rindo e se entendendo. Yoongi elogiava cada dia mais o trabalho de Taehyung; apesar do mais novo não estar conseguindo fazer seu dever de casa (ele não se entendia o suficiente para se autorretratar), suas pinturas sempre conseguiam instigar o interesse do mais velho.

— Você está avançando muito rápido, Kim — disse, aproximando-se do aluno. — Meus parabéns. O que é agora?

— Obrigado, Yoongi-ssi — sorriu, largando o pincel por um segundo e respirando fundo para observar a tela pintada apenas com as cores de sempre. — Ainda não sei, vou me arriscar no que sair sem ser círculos e vou fingir que isso me representa totalmente.

Yoongi riu.

— Ousado — comentou. — Bem, espero que sua arte o traduza.

— Ei, sunbaenim — o mais novo se atentou em chamar o professor antes que esse se afastasse demais e a coragem morresse com a distância. — Estão expondo O Projeto Climático de Olafur Eliasson no Museu da Universidade até a quinta-feira, e eu vou dar uma olhada nesse final de semana. Por que não aparece por lá? Podemos tomar café depois — sorriu, simpático.

Yoongi não queria ir. Odiava aparecer em lugares públicos, mesmo que a melhor das exposições de arte, onde a verdadeira exibição seriam os casais apaixonados, com rasgos nas vestes apenas para mostrarem seus desenhos eternos de amor. O Min não odiava o amor, pelo contrário, era o mais belo dos sentimentos, e por isso mesmo temia sua banalização numa sociedade em que o desleixo e a preguiça tomavam conta, os indivíduos apenas esperando as tatuagens aparecerem e não se permitindo se aventurar. Não que ele fosse um bom exemplo, vivia trancafiado na sua casa, com seu risco incompreendido, bebendo café. Tinha que corrigir provas, planejar aulas, mesmo assim foi.

Taehyung era um bom aluno, e tinha sido uma boa companhia naquela semana agitada, não queria fazer feio com o menino, ainda mais que teria que inventar uma desculpar na segunda-feira para não ter ido e odiava isso também. Não iria doer passar um tempo a mais com o Kim, aceitar seu convite, pelo menos em nome da arte! O pior que poderia acontecer era ficarem sem assunto, mas Yoongi duvidada dessa hipótese baseando-se na hiperatividade de Taehyung. Se empacotou todo, estava frio, e seguiu até o Museu, um pouco atrasado apenas para garantir que não fosse o único desacompanhado num lugar como aquele.

Ele mesmo não entendia o porquê de não sair tanto para eventos como aquele, quando chegou e sentiu a atmosfera do lugar, adorou a sensação. Fazia tempo que não visitava um museu, mesmo sendo professor de artes, era irônico e trágico. Ficou tão imerso nas esculturas apresentadas que mal notou o menino se apresentando de si.

— Professor Min — Taehyung cumprimentou, sorrindo. — Ah, não achei que viesse, é bom ver você!

— Olá, Taehyung. Está aqui a muito tempo?

— Eu estava olhando lá dentro, já viu?

— O sol?

— Sim!

— Ainda não — riu da empolgação do mais novo.

— Vamos, vamos, é incrível.

Yoongi sorriu para o aluno, acompanhando os pulinhos deste até a sala do pôr do sol. Era até bom que a exposição já estivesse aberta há um tempo, assim não haviam tantas pessoas lotando o espaço e agora poucos casais preenchiam a sala, uns batendo foto, outros deitados, simulando naquela quentura, um pôr do sol genuíno. Taehyung desviou das pessoas, levando Yoongi ao mais próximo do “sol” que poderiam ficar. O professor se apoiou na grade mas logo o aluno estava espatifando-se no chão, colocando as mãos atrás da cabeça como muitos ali para simular um final de tarde agradável. O Min riu. Aquela exposição fazia bem o estilo do Kim.

— Tem que se deitar para sentir melhor a arte — provocou o mais velho, sorrindo.

— Não tenho não, deveria ter aprendido isso no primeiro semestre — argumentou, observando o aluno relaxado. — Esse não é meu estilo.

— Qual o seu estilo, então?

— Qual o seu? — Yoongi rebateu. Não gostava de falar de si.

— Vamos tomar um café a aí a gente conversa — Taehyung deu de ombros, sorrindo e encantando o Min mais velho ao ponto dele aceitar o convite.

Sabia que não deveria, mas aceitou, porque sentiu um formigamento gostoso no estômago como a espera adolescente do surgimento da tatuagem que completa sua alma gêmea, e por mais que tenha estranhado e fingido ignorar, olhou para Taehyung como se o amasse, e achou que poderia. Ninguém entendia seu risco, e seria fácil para seu aluno favorito entender.

Sentaram-se, pediram suas bebidas favoritas, riram e Taehyung terminou sabendo que Yoongi adorava Bieniek e Twombly, e sua fala se permitia ser mais objetiva e concreta, sem gaguejos, ao falar dos artistas preferidos e suas obras. Já o Kim se empolgava tanto que chegava a gaguejar ao discursar sobre Ante Badzim e Domenic Bahman, gesticulava e sorria o tempo todo, mostrando ao professor as fotografias armazenadas no celular. Yoongi não podia evitar não ficar feliz com a felicidade do mais novo, sentia falta dessa juventude em si mesmo, de quando acreditava em tudo ao mesmo tempo, de quando tinha esperança.

A tatuagem de Taehyung ainda não tinha aparecido, ele confessou depois de um gole do milk-shake. E Yoongi sorriu, começando a criar o que mais o mataria: esperança.



No começo da outra semana, quando Yoongi chegou na sala, junto com seus materiais, um amontoado de pessoas no fundo atrapalhava seu cumprimento matinal aos alunos. Espalhou os livros pela mesa, curioso pelo interesse dos outros. Espiou mais concentrado, encontrando a cabeleira conhecida por si, pelo sábado que passaram juntos numa cafeteria, discursando sobre arte contemporânea não vulgar. Era Taehyung, o centro das atenções. Yoongi chegou a estranhar, porque ele não era o mais popular da turma, mal falava com os colegas e estava sempre escondido no fundo, mas de alguma forma aquele alvoroço o deixou com medo.

O que mais poderia ser que já não soubesse que iria acontecer?

Para falar a verdade, o que sentiu foi alívio. Por Taehyung, por ter conseguido tão cedo o que Yoongi ainda não tinha feito. Por si mesmo, por ter matado esperanças que disse que não alimentaria mas foi fraco ao ser pego de surpresa. Não sabia o que poderia querer com um aluno seu, sorrisos bonitos não fazem romance, não quando romances são escritos com tatuagens.

Conseguiu visualizar a tinta pintada na pele do Kim. Permanentemente. Ele até tinha arrancado a manga da camisa para mostrar mais claramente o desenho abstrato. Não era impressionante que a tatuagem era linda, aos olhos de Yoongi, todas eram, menos a dele. O seu traço que não combinava com nada. Ficou mudo — talvez chorasse se abrisse a boca. Não se sentia capaz de dar aula, era um homem forte mas não conseguia esconder cicatrizes como aquela.

Pigarreou, conseguindo atenção dos alunos que aos poucos foram se dispersando pelas cadeiras na sala de aula. Yoongi não podia deixar aquilo o abalar, Taehyung não era seu, ao menos o conhecia suficientemente para sentir algo, mas enxergou nele uma sombra do que gostaria de ter, e não tinha. Talvez ainda estivesse agarrado a uma ideia de que tinha que esperar, tinha que parar de parecer bobo, sua vida estava toda feita, com alma gêmea ou sem ela, não faria diferença.

Ao começar a aula, olhou para cada canto da turma, menos para o Kim e sua tatuagem. Não aguentaria mais um lembrete da sua solidão.

— Boa tarde, eu espero que me entreguem os trabalhos hoje, para os que gostariam de acrescentar alguma coisa ainda nas pinturas, vou deixar essa aula vaga para que continuem seus retratos. Lembrando que vale nota, espero que tenham se esforçado.

Essa foi a desculpa dada para abaixar a cabeça e não falar nada pelas próximas horas, também não prestando atenção no livro diante de si. Os alunos não questionaram, conhecia essa alma universitária de fazer tudo em cima da hora, mas não conseguiu evitar algumas olhadas para o Kim, no seu canto afastado da sala, analisando o quadro que tinha o pressuposto de o traduzir. Yoongi sabia que estava sendo difícil para o menino se enxergar dentro de si mesmo e se pintar, era muito preocupado com o que passar e não com o que veriam. Na arte, eram duas coisas diferentes.

Aos poucos, foi sendo requerido para avaliar os trabalhos pronto, pontuando as qualidades e erros de cada um, o que foi ótimo para afastar sua cabeça das vulgaridades melancólicas sobre as quais vivera a vida toda. Não vulgar não queria dizer implícito ou pura e, sim, original, autêntico, singular, único. Havia explicado isso na primeira aula, talvez, e os alunos entenderam porque pelo que percebia, alguns haviam deixado realmente o intrínseco de si em tintas em uma tela.

O professor sentia orgulho de si, mas sentia ainda mais dos alunos, havia os instigado o bastante para no período de uma semana terem se entregado à arte. Yoongi sentia saudade de quando era aluno, dessas irresponsabilidades e inseguranças. Caminhou corajosamente para onde o Kim se escondia, com o queixo apoiado na mão, observando a própria criação. Min hesitou, se ouvisse sua voz talvez piorasse o dilema amoroso dentro de si.

— Ficou maravilhoso, Taehyung — murmurou. — Consegue se ver nele?

— Hm, mais ou menos — o mais novo fez uma cera, desviando da obra para encarar o professor. — É como se faltasse alguma parte, na verdade falta, acabou sendo minha tatuagem — ele sorriu. — Espero encontrar minha alma gêmea logo.

— Também espero — fungou, se afastando.

Os alunos foram liberados após terminarem seus trabalhos, deixando o professor sozinho. Jimin ainda veio o choramingar mais um dia que com certeza entregava o seu, Yoongi estava sem cabeça para essa manha toda e permitiu, tirando logo o aluno da sua frente para ficar sozinho no laboratório. Observou bem a pintura de Taehyung, seus círculos, seus meio-círculos, seus círculos deformados, desenhados por um pincel muito desleixadamente, sua reta, duas retas, e triângulos soltos pela tela, desorganizados, ligados por nada mas parecendo ter uma noção e conceito simplesmente coerentes. Como todas as tatuagens, e a própria arte, faltava algo.

Yoongi sentiu ciúmes, a alma gêmea do estudante iria ter uma sorte enorme, pela energia e beleza dele, pela delicadeza e inteligência, pela sua confiança e paixão. Assim, era mesmo melhor que ele não tivesse uma, iria dar prejuízo por ser ranzinza, frio, introspectivo. Largou as provas não corrigidas para se direcionar ao fundo da sala, tirando uma tela em branco para si. Catou um pincel fino e tinta preta, não demorou mais de meio segundo para desenhar a sua tatuagem, um risco, uma linha reta não começava e não terminava em lugar nenhum, era só dele. Numa exposição, era de todos. E mesmo pertencendo ao Min, era de ninguém.

Correu o dedo sobre a tinta, deixando-a borrada no plano. Levantou a manga da camiseta, enxergando a arte pintada e ultrapassada sobre a pele. Não era coincidência, ele tinha que ter alguém.

Notou, no chão, folhas e lixo acumulado que os alunos provavelmente deixaram ali, curvando-se para apanhar e deixar o laboratório limpo. As duas telas entraram no mesmo plano quando ele se ergueu, a de Taehyung mais na frente, mostrando formas e riscos jogados fora em um universo de branquidão, a de Yoongi: isso, só, fim. E de alguma maneira, aquilo se completava radicalmente. Uma única reta, um traço sem cor que passava desde o último triângulos, nos círculos preenchidos, as linhas decoradas, os losangos borrados, os riscos, os contornos, as voltas, tudo se conectando por uma simples linha reta que pertencia a todos, a ninguém, a Yoongi.

Exasperado, o professor jogou-se sobre a estante, procurando papel e caneta e redesenhando sua tatuagem, apenas para ter a oportunidade de se aproximar do quadro do aluno prodígio, colocando sobre a paisagem de fundo, comprovando a continuação que uma significa para outra. Yoongi perdeu o fôlego, quase achou que tivesse perdido a noção, o juízo. Mas seus olhos nunca o enganaram, a arte nunca o mentiu e seu coração nunca vacilou por outra pessoa.

Não acreditava em almas gêmeas, mas aquilo significava alguma coisa. Segurou a folha com força, nem se dando o trabalhar de apagar as luzes ou fechar a porta ao sair em disparada do laboratório, dando de cara com os alunos do curso fumando no corredor. Reconheceu dois deles.

— Vocês viram Kim Taehyung? — perguntou.

— Foi no banheiro, professor.

— Obrigado.

Poderiam estar enganando a si mesmo em uma loucura artística que além de tudo e para começo de conversa, era vulgar. A história de um professor que não acredita em almas gêmeas por ainda não ter encontrado a sua e vê no aluno uma esperança de não morrer só. Yoongi não se daria o luxo de envergar para o lado trágico da coisa; estava mais contando sobre uma vertente da arte que prende o ser humano em uma tradição de desleixo e preguiça mas que ao mesmo tempo mostra para quem sofre o ardor e a beleza do trabalho de iluminação, conclusão e conquista.

Quando chegou ao banheiro, ofegante, Taehyung limpava as mãos, observando o reflexo no espelho calmamente.

— Yoongi — disse, confuso. O mais velho tinha o dado a liberdade de chamá-lo pelo nome. — Aconteceu alguma coisa?

— Eu nunca te disse sobre como o artista é o que a arte faz dele, nunca o contrário. A arte é vista e interpretada por outros, construída sobre novos conceitos, resignificada, modelada pelo público. O artista, nem se quisesse, ou tentasse, conseguiria a atribuir tantas ideias, pensamentos, sensações, nem a explicando. Cada olho vê e sente diferente, mas a não vulgaridade é o que expressa o intrínseco e nos leva a questionar.

— O que quer dizer com...?

— Taehyung, você nunca conseguiria completar seu trabalho, ele vai sempre continuar com aquele vazio de ideia, a sensação de que algo falta. — ofegou, estendendo a folha riscada para o aluno. — Eu também nunca o disse, mas tenho uma tatuagem. Tinha a sua idade quando apareceu.

— Eu posso ver? — questionou, hesitante.

Nervoso, o professor assentiu, a mão gelada subindo a manga da camiseta para expor a fraqueza de também não se completar como desejaria. Taehyung sorriu, estendendo os dedos para tocar no ombro de Yoongi e senti-lo. Acreditou no professor, na arte, no seu coração.

— Acho que tudo começa com um traço — disse, virando-se para também mostrar a sua. — E depois se abrange para mais lugares, certo? O pensamento se desenvolve, mas uma hora, ele se torna suficiente, porque se completa.

— Do começo ao fim, como uma linha reta — Yoongi sorriu também, relaxando os ombros.

Foi beijado, mas para si, que via arte até nos poros do aluno, foi completado. Lhe deram o conceito, a ideia, a interpretação que faltava. Era arte, mas não mais incompleta ou desconectada. Era arte contemporânea, além de tudo e para começo de conversa, não vulgar. 

16 de Agosto de 2018 às 16:38 1 Denunciar Insira 4
Fim

Conheça o autor

uanine oliveira wiccana e shippo taegi, isso é tudo // no spirit como @boaswain

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Camila José Camila José
amei demais, to muito soft
18 de Julho de 2019 às 12:50
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