Professor Girafales e Dona Florinda Seguir história

sweet-mary Mary

Um tributo a Rubén Aguirre, falecido em 17 de junho de 2016. A homenagem de uma simples fã a um célebre personagem que sempre morará em nossos corações.


Fanfiction Seriados/Doramas/Novelas Todo o público.

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Um tributo a Rubén Aguirre

Dona Florinda com os olhos úmidos observa com nostalgia a mesa arrumada como se realmente daqui a pouco o Professor Girafales fosse bater na porta e num gesto de reverência lhe oferecer um ramalhete de rosas. É mais uma tarde de sexta-feira, daquelas que antecedem o verão*.

É um aniversário de cores desbotadas, como quando o brilho no olhar se perde deixando uma inquietante tristeza no coração.

Florinda olha pela janela, abraça o próprio tronco e suspira profundamente.

Às vezes a porta range como se alguém estivesse pedindo para entrar. Perdeu a conta das vezes em que se aprumou em negação e se dirigiu a passos ansiosos, segurando a maçaneta na expectativa de que seu pobre, solitário e machucado coração suportasse o impacto da emoção, mas ao abrir encontrava apenas o pátio da vila totalmente vazio.

O eco de um silêncio sufocante.

Fechava a porta como se aquele “nunca mais” substituísse o “bem-vindo” de antes.

Já faz tanto tempo que ele não veio mais que os anos se assemelham a um relógio parado sempre na mesma hora, na última vez em que juntos estiveram, de mãos dadas e olhares puros de ternura, onde eram um do outro sem que precisassem de mil poesias, porque o amor deles já era um suspiro lírico e inebriante.

Parece que vai chover. As nuvens pesadas se amontoam no pálido céu azul de primavera e de longe se ouvem as primeiras trovoadas. O vento desarruma a manta do sofá e bagunça a mesa de centro.

A aula na escola já acabou. Dá para escutar a algazarra da criançada voltando para casa. Amarelinhas, balões, pirulitos coloridos, sanduíches de presunto, pipocas e caramelos, os aromas da doce infância impregnando as paredes tristes.

O tempo foi passando tanto que levou a mocidade embora. Ficaram as marcas de outrora. Nos gestos, na alma, na memória. Kiko menino, sua roupinha de marinheiro passada e dobrada em cima da cama. Com tanto amor leva-lo à escola de mãos dadas todas as manhãs. Como lhe enchia de alegria ajuda-lo com o dever de casa.

Espera ter sido um bom exemplo.

Kiko cresceu e procurou o seu próprio caminho. O tesouro vem visita-la quando a agenda lhe permite.

Florinda, imersa no ninho vazio da casa 14, tem muito tempo para refletir. Às vezes mergulha num choro profundo de tristeza e nostalgia. Às vezes sorri sozinha de si mesma e sente falta de quando os problemas das crianças pareciam tão grandes e hoje, analisando tão bem, eram tão pequenininhos.

Talvez não tenha sido tão amistosa com o pobre Seu Madruga, queria ter dito que ele foi um grande vizinho e que no fim das contas gostava dele. Sentia falta da querida Clotilde, de quando se punham a prosear sobre as novelas, sobre os seus palpites para as mesmas. E do menino Chaves. Nunca mais a vila foi a mesma sem ele.

E o que falar daquelas edições históricas do Festival da Boa Vizinhança?

Como estaria orgulhoso o Professor Girafales da sua querida turminha. Aqueles pequenos cidadãos tornaram-se grandes pessoas.

Florinda telefona para Kiko sentindo vontade de ouvir a voz de alguém que do outro lado também possa escuta-la um bocadinho e aliviar essa sensação que a aflige desde aquele dia em que nunca mais as coisas foram às mesmas, mas ele está muito ocupado e provavelmente retornará depois.

Ninguém pode entender.

Florinda devolve o telefone à base, contempla longamente a mesa arrumada e arrasta uma cadeira para se sentar no seu lugar de sempre. O café ainda está quente, do jeitinho que ele gostava. Quente e doce.

A porta range. “É a ventania somente”, diz a si mesma.

Ele nunca mais voltou.

Professor Girafales foi convocado para ser professor noutro lugar muito distante e não pode acompanha-lo.

Mesmo querendo.

Mesmo sem poder.

Estão a postos as xícaras no lugar onde sempre estiveram. Alguns biscoitos num pratinho, um jarro de vidro com rosas de plástico.

Ninguém nunca mais lhe trouxe flores.

O perfume doce do primeiro ramalhete o redesenha à sua frente, até parece que ele está ali de verdade preenchendo a cozinha com o seu riso e lhe contando como foi o seu dia na escola.

Ela toma café sem ele agora. A mesa está pronta para manter viva a lembrança.

Dona Florinda sorri com a fagulha de esperança que lhe resta, mas todas as manhãs somente Deus é capaz de estimar com precisão o quanto lhe custa se levantar da cama e viver o novo dia como se nunca tivesse vivido o sonho ruim.

Não mais dançou músicas lentas nas noites de sábado, não mais escreveu poemas ou cantou, não mais passeou no parque aos domingos, não mais deixou de esperar pelo dia em que debaixo das nuvens pétalas de rosa lhe mostrarão o caminho até o infinito onde ele estará de paletó, cartola e braços abertos à sua espera. Para todo o sempre. Um amor tão bonito não morre jamais.

Não chore assim, Dona Florinda, seu amor sempre será seu e essa ingrata distância que os separa apenas um breve intervalo até que vocês possam se amar eternamente.

Descanse em paz, Ruben Aguirré. O Professor Linguiça (TÁ TÁ TÁ TÁ TÁÁÁÁ)... O Professor Girafales terá um espaço especial no meu coração. ♥

*O México se localiza no hemisfério norte, portanto enquanto lá for verão, aqui no hemisfério sul é inverno. 

6 de Agosto de 2018 às 03:01 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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