Alzheimer no miocárdio Seguir história

uanine uanine oliveira

Na vida passada, Yoongi fora amaldiçoado por feiticeiros vodu para que sempre que alguém dissesse "eu te amo" para ele, essa pessoa perdesse totalmente as lembranças do Min. Isso nunca foi um problema grande para o bruxo, até que Taehyung decide confessar seus sentimentos.


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Sua camisa é horrível

Sabe o que eu acho bonito nesses contos de fada? As maldições. É, é legal pensar na crueldade dos vilões, as bruxas e madrastas do mal, e também ver sua benevolência ao sempre deixar uma brecha, uma brecha romântica para que as mocinhas possam encontrar o amor verdadeiro. Não é bonito? Morrer, mas voltar a vida com um beijo apaixonado, sem contar que eu iria definitivamente adorar passar o resto da minha vida dormindo pleno em um castelo até que meu príncipe encantado chegasse e me beijasse, assim, sem eu ter que me esforçar nem nada. Podemos até adicionar rosas, um pouco de mudez, virar sapo, mas sempre com um grande e sincero gesto de amor verdadeiro para quebrar a maldição.

No meu caso, na na ni na não, eu estou isento de ter que depender de um macho para que minha maldição se quebre, mas também estou isento da opção que o destino poderia me oferecer ao fazer alguém se apaixonar por mim. Meu nome é Min Yoongi e eu sou um bruxo, não um do mal que faz poções para princesas, até porque estamos em pleno 2018, mas eu venho de uma família de bruxos não tradicionais que, por acaso, se envolveu em uma briga no século passado com outra família de feiticeiros vodus e eles acabaram jogando uma praga no filho mais novo, ou seja, eu. A maldição é bem simples na verdade: assim que qualquer pessoa me disser “eu te amo”, todas as suas lembranças de mim se apagarão imediatamente da sua memória. Junto com o sentimento por mim.

Parece bem cruel, mas o pior dano que isso me causou foi um trabalho entregue pela metade no ensino médio. Assim que reencarnei, em 1993, uma regra se instalou na minha casa: não haveria de forma alguma “eu te amo” ali dentro, por isso cresci ouvindo “que honorabilis factus es mihi(*“você é preciso para mim” em latim). Apesar de ser um pouco extenso e complicado demais, foi o jeito que meus pais acharam para demonstrar afeto.

Nunca tive problemas com minha maldição de estimação, eu nunca tinha me apaixonado por ninguém mesmo, e até me sentia aliviado ao ver as garotinhas se esquecerem de mim logo após confessarem seus sentimentos, era mais fácil do que dar um fora rude com “eu gosto de meninos”.

Como uma medida de proteção, ninguém sabia que éramos bruxos. Quer dizer, meus pais tinham uma lojinha de artefatos no centro da cidade, então se alguém chegasse lá, não iríamos negar, mas eu também não saía gritando para quem quisesse ouvir quais minhas práticas em dia de sextas-feiras 13 ou que eu tinha uma maldição que praticamente impedia as pessoas de se apaixonarem por mim, nunca foi importante dizer isso porque eu não costumava gostar de volta das pessoas e nem queria apressar um drama fantasioso só para conseguir ouvir três palavras.

Até aquele dia.

Seokjin é meu melhor amigo do mundo e juntos cursamos Música, então já era normal sentarmos na cafeteria e zoar as pessoas depois das aulas, eu com meus vinte e dois anos não via problemas nisso porque era divertido. Até que ele entrou pela portinha, com aquela camisa horrível quadriculada e amassada, parecia que tinha acabado de acordar e tirado a blusa de um balde de lixo depois sido atropelado por um trator. Eu me apaixonei assim que o vi.

— Aquele cara é tão cafona, com essa camisa tão ruinzinha, vou ter que perguntar pra ele se é o pano de prato da tua tia — Seokjin brincou, rimando e rindo sozinho já que eu tinha parado de fazer o beat box assim que meus olhos se encontraram com os dele. — O que foi, Yoongi? Conhece ele?

Eu me perguntei se se eu dissesse eu te amo para mim mesmo esqueceria de quem eu era, essa foi a primeira idiotice que amar Taehyung colocou na minha cabeça. Acreditem, pensamentos mais bobos ainda vêm pela frente.

Apesar de ter o que eu considerava o pior senso de moda do mundo, com uma calça larga demais e chinelos complementando a camisa xadrez, ele era bonito, encantador, com uma franja castanha caindo sobre os olhos perdidos, ombros largos, não tanto como os de Jin, apenas perfeitamente largos para seu corpo esguio e alto. Eu já conseguia me imaginar acariciando aquela pele e até as espinhas adoráveis em suas bochechas e nariz, selando nossos lábios e o ouvindo falar sobre astronomia. Ele tinha cara de quem faria astronomia.

— Não — sussurrei, ainda preso nos movimentos do rapaz bonito indo comprar um café. — Você conhece?

Seokjin arregalou os olhos de uma forma assustadora, e não é nem porque eu sou bruxo mas eu já sabia que disso não vinha coisa boa.

— Você se interessou por ele? Meu Deus, eu nunca vi você interessado por ninguém, vai chover!

— Idiota — reclamei, revirando os olhos.

— Toma — ele me estendeu algumas notas da sua carteira. — Vai comprar um café e tenta puxar assunto com ele, depois você me paga.

Estreitei meu olhar para Jin, apesar de ser meu melhor amigo ele não costumava ser tão bonzinho assim. Perguntei-me se era realmente por eu ter, pela primeira vez, me interessado em alguém, ou se tinha caroço no angu. De qualquer forma, levantei-me para ir até o balcão onde o outro garoto estava, esperando a atendente aparecer. O que eu poderia dizer? Meus métodos de sedução não eram muito verbais, um olhar ou um sorriso e eu já conseguia beijar umas bocas, mas aquilo era mais, eu queria saber seu nome, conquistá-lo.

— Sua camisa é horrível.

Soltei e depois engoli em seco percebendo a grande burrada que tinha feito e corando violentamente por isso. Será que ele tinha percebido que minha cara estava mais vermelha que bunda de poc depois de uma transa violenta? Eu deveria pedir o telefone dele agora? Permaneci quieto, esperando para ver qual seria sua reação, ou se ele iria ao menos me responder.

— Eu sei, achei que eles iriam dar as fardas hoje — ele riu.

— Ninguém usa as blusas da farda — ri também, não resistindo a uma espiadinha ao sorriso retangular que ele exibia tão naturalmente e fácil. Assim é mais fácil, porque quando o apresentar para meus pais, eles não vão o achar antipático. — São quase piores do que essa que você está vestindo.

— Mas vem com o nome do curso, e eu quero que as pessoas saibam qual é meu curso e me perguntem porque eu o escolhi, só para eu responder minha frase já planejada.

— Você tem cara de quem faz astronomia, acertei? — Ele negou, ainda sorrindo enquanto movia as moedas entre os dedos longos. Qual seria o gosto deles? — Então o quê?

— Biblioteconomia.

— E por quê?

— Não deu tempo de achar o meu lance a tempo — confessou, rindo. — Você é veterano?

— Você é calouro? — perguntei depois de assentir a sua pergunta, e ele fez o mesmo, confirmando meu pressentimento. — Bem-vindo, Sr. Camisa Cafona.

— Para evitar futuros constrangimentos, peço que me chame de Taehyung e prometo que vou melhorar meu senso de moda até as fardas chegarem — ele piscou para mim, apertando minha mão.

— Me chame de Yoongi, então — complementei. Nessa altura meus olhos já brilhavam de encanto. — Já apertou o sino para a atendente vir?

Taehyung negou, e então o expliquei que precisava tocar no sino em cima do balcão para ser atendido. Descobri que sua bebida favorita era chá gelado, eu contei que a minha era milk-shake de menta só para ele ficar sabendo mesmo, caso quisesse servir isso no nosso casamento. Queria dizer que poderia o mostrar o campus todo, mas fiquei tímido e sentia que estava tomando seu tempo prendendo-o na minha conversa no meio da cafeteria, então simplesmente disse tchau e pedi para ele tomar cuidado com os trotes, com aquele sentimento de que eu tinha que, pelo menos ter pedido seu número.

Como meu melhor amigo, Seokjin já estava inventando mil desculpas para eu simplesmente aparecer no departamento de biblioteconomia apenas para o ver, mas eu recusei, não queria parecer forçado. Só vim encontrar Taehyung uma semana depois, nos corredores do meu centro acadêmico, ele ainda estava com aquele mesmo olhar perdido de calouro, mas agora estava mais arrumado e eu me escondi dele por uns segundos apenas para suspirar com a benção que meus olhos tinham recebido por vê-lo naquele jeans rasgado e a camiseta branca passada.

Segundo o mesmo, uma de suas cadeiras seria naquele prédio, e já que ele estava um pouco adiantado me deu a honra de mostrá-lo um pouco os arredores do departamento. Nesse mesmo dia, trocamos números e quem chamou foi ele, agradecendo por eu estar o ajudando com a familiarização ao ambiente universitário. Foi a segunda coisa mais idiota que eu pensei na minha vida: seria muito estranho se eu mencionasse nos votos do meu casamento que a foto de perfil dele era o mesmo com uma peruca rosa e óculos escuros? E que apesar disso ser bizarro, eu salvei no meu celular e fiquei a noite toda encarando.

No dia seguinte eu comprei duas barrinhas de chocolate e sentamos embaixo de uma das árvores perto do departamento de Letras, na grama, enquanto ríamos das experiências novas do calouro. Não queria parecer chato ou superior, então revelei meus micos de quando era um calouro também. Taehyung me contou que tem memória fotográfica, e eu lembrei disso porque achei irônica, já que as pessoas vivem esquecendo de mim como em um piscar de olhos. Eu o expliquei sobre o sistema de notas, como seriam as avaliações, como funcionava a contagem de faltas, e justamente por isso resolvemos pular uma aula para ficar mais um tempinho conversando. Seokjin me pegou no pulo, lembrando-me algo que meu cérebro apaixonado esquecera:

— Hoje é o último dia para a devolução dos livros. Oi, Taehyung — disse, cumprimentando educadamente meu crush.

Seokjin sabia que eu era um bruxo, ele não sabia da maldição, mas era meu melhor amigo e vivia na minha casa, então já estava acostumado comigo negando festas em noites de rituais e, além disso, ele sabia que eu não tinha planos para contar aquilo a Taehyung.

— Tenho que ir — avisei.

— Vamos fazer assim: antes de cada despedida, marcamos um novo encontro, assim não vamos nunca nos afastar.

Fofo.

A sua estratégia funcionou, no outro dia almoçamos juntos, e no seguinte fomos ao shopping, e depois na primeira festa universitária de Taehyung. Foi quando tudo começou, eu acho, depois da aula eu me encontrei com ele e passamos a manhã inteira falando sobre teorias de conspiração enquanto dividíamos uma garrafa de soju, quando eu voltei pra casa já tinha uma mensagem no meu celular dizendo para eu ter um bom descanso. Na maior parte do tempo, eu só achava muito legal o Tae sempre ter créditos no chip do celular porque assim ele podia ligar o wi-fi pra que eu o mostrasse os vídeos mais engraçados da internet, mas a partir daquele dia eu comecei a prezar outro benefício daquilo: receber mensagens dele enquanto estava em aula e eu, em casa. Parecia que a gente nunca ia se desgrudar. Ele me mandou uma foto pouco interessado no que o professor explicava, e eu tive que passar uns dez minutos só dando zoom e adicionar efeitos sobre ela, porque, porra, eu estava muito apaixonado.

Aí eu comecei a chorar que nem um bebê porque, pela primeira vez na vida, eu queria ouvir “eu te amo” de uma pessoa. De Taehyung.

Uma semana depois, levei ele junto com a minha sala para beber no bar próximo da faculdade e a gente encheu a cara até monopolizar o karaokê com Girls’ Generation. Nessa noite eu e ele nos beijamos, de língua e tudo, gargalhando para o nada enquanto Seokjin batia fotos; chame de timing perfeito ou coincidência horrível, mas na semana passada o professor tinha dado mais sete dias de prazo para Jin entregar o trabalho que valia a nota do semestre inteiro, então no dia seguinte ele estava correndo o campus inteiro para imprimir e finalizar o artigo, acabando por não enviar no grupo as benditas fotos que me denunciavam no meu caso de amor louco, e eu estava com ressaca e tinha bebido demais para lembrar. Acontece que Taehyung lembrava, ele podia até mesmo estar mais bêbado do que eu e do que todo mundo no bar — era novo nessa fase alcóolica da vida, em que a faculdade só serve pra encher a cara —, mas sua memória fotográfica não o abandonava mesmo de porre.

— Você não lembra do que aconteceu ontem, né? — perguntou, roubando uma batatinha do meu copo.

— O Sungchang disse que eu ia quebrando meu nariz quando pulei da mesa — ri, mas o mais novo não riu comigo, estava concentrado em olhar-me quase seriamente se não fosse os olhinhos brilhando e o meio sorriso o denunciando. — O que foi que eu fiz ontem?

Taehyung se curvou um tantinho apenas para que nossos lábios se encostassem; eu arregalei meus olhos, assustado. Não tinha muita gente porque era horário de almoço e a gente tinha combinado que nas quartas-feiras iríamos comer besteira ao invés de ir ao refeitório da faculdade. Eu estava perdido, as palavras entaladas na minha garganta me fazendo prender o fôlego mesmo que aquilo fosse só um selinho.

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Assim que senti sua mão no meu rosto, concordei que eu deveria aproveitar aquilo — agora sóbrio — e finalmente fechei os olhos, começando um beijo lento, me segurando com nunca para não sorrir e explodir de felicidade, mas na primeira pausa eu notei que era Taehyung quem estava sorrindo então me encorajei a mostrar o sorriso em meus lábios também.

Parecia um conto de fadas mesmo, meu príncipe finalmente me beijando para tirar a maldição de mim e me tornar livre.

— A gente pode repetir isso mais vezes, se quiser — ele disse, charmoso.

Eu só assenti, o puxando para mais uma rodada de estalos que faziam meu coração ir mais rápido que um trem-bala. Mais tarde — depois de já ter marcado estudarmos juntos para as finais na biblioteca —, quando Jin enviou mais 67 mídias no grupo da sala que eu fui ver as fotos do nosso beijo, ou melhor, Línguas Brigando, óleo sobre a tela, 2018.

Na mesma noite, antes de dormir, depois de uma mensagem dele, eu me sentei em frente ao altar no meu quarto e fechei meus olhos. No fundo, todo mundo quer ser um deus, saber o que vai acontecer, poder mudar o destino, foi isso que eu senti quando tentei saber da Deusa, quais eram seus planos para mim. Na minha próxima reencarnação, a maldição se repetiria, e assim até uma magia mais forte quebrá-la, mas eu estava mais preocupado com essa vida e em como eu conseguiria continuar com Taehyung.

Há mais sinceridade nessas três palavras desesperadas que eu nunca ouvi do que em grandes declarações, e eu acreditava nele, eu queria saber que ele sentia o mesmo.

— Ainda não foi dormir? — Minha mãe disse, abrindo a porta. — Aqui parece um chiqueiro, Yoongi.

— Mãe.

— Ah, não. Eu conheço esse “mãe”. Você se apaixonou, não foi?

Engoli em seco; sim. Isso é realmente tão ruim assim? Não conseguia evitar olhar para Taehyung como se ele fosse meu mundo, foi isso que ele acabou se tornando tão rápido, e eu não era tão insensível para simplesmente ignorar isso. Por ser bruxo, justamente, eu tinha sensibilidade demais. Depois de tudo, eu acho, nunca lidei com a minha maldição como ela realmente é: não estava me impedindo de ouvir “eu te amo”, quer dizer, isso também, mas impedia que eu me apaixonasse. Era inteligente, e trágico. Mas então, amar Taehyung era só uma cena imaginada por mim que não foi freada enquanto nos aproximávamos cada vez mais, quando realmente aconteceu, na sala de cinema, ao que o mais novo caiu no sono — tudo bem, o filme que escolhi falava sobre política, então deveria ser chato para ele — em meu ombro e um sorriso nasceu em meu rosto, que eu percebi.

Eu não queria ser só um amigo que ele beijava.

No dia seguinte, eu acordei precisando da ajuda de um especialista, que deveria ser o meu parceiro do crime, Kim Seokjin. Marcamos de nos encontrar na cafeteria da faculdade, eu já preparando meu discurso sobre a maldição que eu tanto tinha escondido. Parte da minha alma ainda lembrava de Tae apenas estando naquele lugar, a outra parte fingia uma Alzheimer que era saudável para que ele não controlasse cada parte de mim. O amor é complicado, parece uma doença, e para quem me amasse, no prontuário estaria o diagnóstico “Alzheimer no miocárdio”.

— Ih, não tá com o boy. Brigaram? — ele perguntou, sentando-se.

Explicar a maldição para Jin foi fácil, ele sempre teve uma imaginação fértil e não fazia muitas perguntas, só gastava a saliva para me interromper com piadas idiotas que eu, como melhor amigo, tinha que fingir achar graça. Para mim, sempre foi simples demais esse lance de ser amaldiçoado, então acho que passar para os outros também carregava a aparte simples. Difícil mesmo foi, no final do resumo, aguentar as palavras realistas dele.

— Você tá ferrado — ele disse. — Ou você conta pra ele e arrisca ouvir um “eu te amo” que pode acabar com a relação de vocês, ou você nunca se assume e nunca vai saber se ele sente o mesmo ou está apenas te usando enquanto o convém, o que pode acabar com a relação de vocês, ou ele mesmo diz por vontade própria e aí vai ser tarde demais porque isso pode acabar com a relação de vocês. Resumindo, o primeiro amor é uma droga.

Odeio a forma como ele pensa, mas odiei ainda mais concordar com essa ideia. De uma forma ou outra, não daríamos certo. A voz de Taehyung é linda, suave, rouca, encantadora, alguém merece ouvir uma sentença apaixonada dele, e, claramente, porque o destino escolheu, esse alguém não sou eu. Os sinais estavam na mesa, bastava eu entendê-los.

No entanto, como uma maldição sobre a outra, eu não conseguia simplesmente me afastar dele, e quando tentava, doía. Taehyung continuava marcando encontros bobos, me fazendo esperar por ele de um dia por outro, sentando no banco destruído na frente do seu departamento com um doce que custava caro. Quando eu estava com ele, era como se as paredes ao meu redor se tornassem brancas, me dando uma tontura, e tudo que eu conseguia focar era ele. Separados, eu continuava criando planos infalíveis na minha cabeça para me manter longe, que sempre faliam ao ver o sorriso do mais novo.

Passavam-se anos dentro dos minutos em que eu tentava me convencer de alguma coisa. Vejo porque demorei tanto para gostar de alguém: é muito fácil se apaixonar, mas é muito difícil, para mim, esquecer.

O fato é que: ficar sem beijar Taehyung é impossível, mas beijá-lo sem poder gritar que o amo é sufocante. Duas semanas depois, eu ainda não tinha chegado à conclusão nenhuma. Eu tinha certeza que tinha que me mover, acabar com aquilo ou pelo menos contar da maldição, mas não tinha coragem para nenhum dos dois, então preferia fingir que estava tudo bem embaixo da sombra da árvore do departamento de Biblioteconomia.

— Hyung, você tem desodorante? — perguntou, fazendo um carinho gostoso na minha nuca.

— Pode pegar, tá na minha bolsa — disse, tentando me manter calmo ao rabiscar umas anotações do meu caderno. — Achou?

Para a minha surpresa, ao invés de um desodorante, Taehyung segurava dois cristais e uma folha com dizeres em latim que explicavam como fazer um feitiço para purificar os pensamentos (coisa que eu precisava muito nos últimos tempos). Nos seus lábios, um bico desentendido, assim como seu semblante denunciava sua confusão. Mesmo que ele não me olhasse, abri minha boca tentando achar uma desculpa. Música clássica egípcia parecia uma boa opção.

— Você é bruxo? Tem uma menina na minha sala que é também, a Somin.

— Isso é coisa da loja de artefatos dos meus pais, eu te disse — menti, tentando fechar o zíper da minha mochila.

— Não minta pra mim, hyung — ele acusa. É tão íntimo que me faz corar. — O que isso mudaria?

— Sei lá, talvez... Seu julgamento sobre mim?

— Eu nunca te julguei e nunca vou fazê-lo — Taehyung garantiu, fechando a bolsa com meus pertences dentro. Nessa altura eu já tinha soltado meus livros, canetas e caderno apenas para olhá-lo. — Não tem problema, hyung, isso explica como você enfeitiçou meu coração.

Eu gelei, de medo ou alegria, nem sei. No meu coração, aquilo era uma declaração que não o faria se esquecer de quem eu sou, então sorri e o beijei. Duas horas depois estávamos na frente da minha casa, aos beijos — talvez um garrafa de soju tenha ajudado. O Kim se perdeu na diversidade de artefatos presentes no térreo, a lojinha dos meus pais, que, graças aos Deuses, por ser horário de almoço, não tinha ninguém. Ele estava interessado em saber a origem de cada um, eu queria que subíssemos logo as escadas para que meus pais não nos vissem. Iriam me encher de perguntas e provavelmente assustar o Kim com uma chuva de invasão paterna de privacidade que ele não está pronto. Nem eu. De qualquer forma, foi fácil persuadir Taehyung com beijinhos.

As coisas estavam indo tão rápido, mas tão lentamente que eu mal conseguia acompanhar. É engraçado porque isso que é amor. Um mês atrás, eu ainda ria do quão melosos Seokjin e Hoseok eram juntos, mas então eles terminaram, e durante um mês, fui eu caindo eternamente por cada detalhe de Kim Taehyung. Perdi meus sentidos, só conseguia saber de amar, amar muito. Taehyung me mostrou um lado de mim que estava apagado e encoberto por uma maldição que eu repetia para mim mesmo que estava apenas me protegendo, mas agora parecia me amordaçar.

Quando fechei a porta do meu quarto, eu queria que acontecesse, sabia que aconteceria. Segurei forte a camisa dele, a farda ridícula que ele insistia em usar, beijando seus lábios como se aquilo, em algum idioma, fosse um diálogo em que pudéssemos nos entender. Na minha cama, eu já estava no seu colo, me despindo ao que a atmosfera do quarto esquentava. Para mim, Taehyung estava sendo encoberto de uma aura brilhante que me encantava ainda mais, o puxando para mim pela minha aura amaldiçoada. Eu sabia que ele não conseguia ver, mas não fazia diferença naquele momento.

— Hyung, espera — ele suspirou quando alcancei seu pescoço e comecei a deixar marcas. — Eu não quero fazer isso.

— Não? — provoquei, apertando sua ereção.

— Não sem antes afirmar meus sentimentos — Taehyung sussurrou, acariciando meu rosto e me deixando sem palavras.

Uma bomba relógio começou a apitar no meu peito; as mãos trêmulas, os olhos assustados, a testa suada. Era como se o meu interior fosse o palco para um batalha árdua entre dois inimigos: o eu que queria ouvir o que Taehyung tinha a dizer nem que isso significasse morte, e o eu que nunca permitiria perdê-lo para o orgulho de receber uma declaração.

— Não precisa dizer nada — gaguejei.

— Você é mais que um amigo pra mim — Ignorou meus dizeres, indo em frente. — Eu te...

Desesperado, grudei nossos lábios imediatamente, o apertando contra meu corpo ao quase o engasgar com minha língua. Não tinha ideia do que fazer caso a terceira palavra escapasse, mas com meu corpo suavemente rebolando sobre o dele, esperava que o mesmo permanece calado. Taehyung inverteu as posições, entrelaçando nossos dedos. A luz da manhã entrava pela cortina esvoaçante do meu quarto — nunca tinha levado ninguém além de Seokjin ali, as paredes pintadas com símbolos religiosos e mágicos, poções, cristais e livros de feitiços jogados pelo ambiente. Uma bagunça.

— É sério, Yoon.

— Eu sei — sussurrei. Eu não sabia. — Eu também, agora cala a boca e tira a roupa.



— Ele disse? — Seokjin esbugalhou os olhos tanto que achei que fossem sangrar.

Conferi o professor que ainda discursava avidamente sobre a teoria musical contemporânea, só para checar se nossa conversa não estava mesmo atrapalhando nem sendo notada por ninguém, então continuei:

— Mais ou menos — dei de ombros. — Ele começou, mas não deixei que terminasse.

— Mas ele te ama, né?

Pergunta difícil. De ontem para hoje eu já tinha imaginado mil terminações diferentes para o “eu te...” de Taehyung, mas preferia a que destruiria suas memórias de mim, um pouco egoísta, mas romântico. Era o mais próximo de uma declaração que eu teria a não ser que ele decidisse aprender latim também.

Relaxei meu corpo na cadeira desconfortável da sala, não respondendo e ao invés disso, suspirando pesadamente. Nada contra vodu, mas que saco. Por que logo comigo? Eu nunca quis ser a pessoa no filme de drama, ou a princesa com a maldição, nem sei se realmente mereço algo assim tão ruim. Semanas atrás não fazia diferença, mas agora faz.

— Por que isso não pode só ser o suficiente, Yoongi? — Seokjin perguntou, sussurrando.

— Jin, você pode escutar isso de todas as pessoas, pode, literalmente, receber sete bilhões de eu te amo, e eu nunca vou poder ouvir nenhum, é por isso que não é o suficiente. Eu quero o que todos têm, não é pedir demais.

Meu melhor amigo abaixou a cabeça, concordando comigo. No final, eu estava certo e poderia utilizar dezenas de metáforas para concluir isso, mas tinha a minha própria. Continuamos comendo salgadinhos escondido.

— Pelo menos diga a ele, assim não vai correr o risco de, sabe... Ou se afaste dele, diz que não sente o mesmo, sei lá. Não é justo deixar Taehyung continuar com isso e talvez roubar as memórias dele. Não é justo nem com ele nem com você.

Fugi de Taehyung naquele dia, fingi que tinha esquecido a prova em casa, mas na verdade estava sentado nos fundos do meu departamento, com um pacote de salgadinhos. Mandei mensagens pra ele também, só para que não pensasse que eu estava me escondendo porque tínhamos transado no dia anterior, o que era quase verdade, mas para ser sincero, os fundos do meu departamento era o primeiro lugar que qualquer pessoa sensata procuraria para achar qualquer estudante de Música. As paredes daqui tem umas pinturas legais, faz você pensar, sabe.

Nunca saberia qual seria a decisão certa a tomar, e acho que eu nunca estaria pronto para tomar qualquer uma, mas as palavras de Jin continuavam na minha cabeça, voando como caças em guerra e atirando nos meus neurônios apaixonados. Deixar mais alguém saber da maldição? Eu estava correndo risco, ainda mais com esse alguém sendo Taehyung. No final, todas as alternativas me fariam afastar dele, o que podia ser um sinal dos Deuses. Não éramos feitos para ficar juntos. O amor não é a mesma coisa para mim do que é para as outras pessoas, eu vou acabar com quarenta anos, casado com um homem que é meu parceiro nos negócios só porque a gente se dá bem.

— Nunca vou entender qual é a dos estudantes de Música.

Virei-me, assustado, encontrando Taehyung com aquela blusa ridícula da farda e sua mochila transversal e as mãos no bolso. Nesse momento eu odiei o sol atrás dele, fazendo com quem o mais novo ficasse ainda mais bonito do que era. Porra.

— Conseguiu sua prova de volta? — disse, sentando-se ao meu lado no banco. — Você me disse que esse era o melhor lugar para chorar da faculdade.

A merda da memória fotográfica; eu tinha dito isso há meses atrás.

— Eu quero ficar sozinho, Tae — enfatizei.

Com ele ali, eu só pensaria em um futuro onde nós dois pudéssemos casar nos mudar para um apartamento perto da faculdade e criar vários gatos. O que é impossível.

— Tem alguma coisa a ver com ontem? — perguntou, mas eu não respondi, apenas abracei mais forte minhas pernas, virando o rosto para o outro lado. — Ou comigo? — Novamente sem resposta. — Problemas em casa? Época de trabalhos? Tem certeza que não posso ajudar?

Quando pensei bem, o meu silêncio queria dizer alguma coisa. As pessoas próximas a mm tinham que sempre ficar caladas, reprimidas, com um sentença na caixinha de bloqueados do cérebro. Como ignorar Taehyung dói, deve doer para os meus pais nunca ter me dito um eu te amo, e vai doer para ele também, se souber que não pode.

— Não vai ao menos me oferecer?

Tirei o pacote de salgadinhos do seu alcance, enfiando o resto dentro da minha boca.

— Acabou — murmurei de boca cheia.

Taehyung riu. Idiota. Eu amo a risada dele. Acabei deixando ele se aproximar mais um pouco e segurar minha mão, o que foi um erro estúpido porque meu cérebro se derreteu, meu corpo aqueceu e meu coração acelerou para quase fora do peito, como se fosse os efeitos de uma maldição. Ou sintomas de uma doença.

— Sabe, às vezes eu gostaria de esquecer alguns detalhes, tem um rabisco de vagina que alguém desenhou na minha carteira ainda no ensino fundamental que não sai da minha cabeça — confessou, me fazendo rir. Com Taehyung eu me sentia um idiota completo, ele fazia parecer fácil me conquistar. — Quando as pessoas se afastam de mim, o que doí mais é a lembrança, e acho que como todo mundo, eu tento não me culpar por não ter sido o suficiente. Tipo, “ei, eu tenho essa merda de memória boa demais, então não entre na minha vida, me faça criar lembranças boas com você e depois caminhe para fora como se nada tivesse acontecido, porque eu não vou conseguir te esquecer”. Foi ontem, não foi?

As palavras congestionaram minha garganta, eu só o olhei. Agora entendia o seu ponto de vista também, e me sentia mal por isso. Olhando para nossas mãos dadas, era como se fôssemos intocáveis, imbatíveis, mas não era o que o destino me dizia, e eu sentia muito, principalmente por ele, de não ter me dado conta disso antes. Se for para deixar registrado, eu o amo, mas para mim, o amor é uma maldição e acho que não sou o tipo ruim de bruxo que amaldiçoa os outros.

— Taehyung, eu...

Morreu ali, não sabia o que dizer. Talvez nem tivesse o que dizer. No meu peito, parecia o final de um filme, com aquela música triste tocando enquanto a última cena, em que o casal não fica junto, se desfecha.

— Vamos lá, hyung, só seja honesto e me diga o que está te deixando assim.

— Se não pudéssemos ficar juntos — comecei, respirando fundo. — Você preferiria esquecer de mim e tudo o que vivemos, mesmo que isso se resuma a chocolates, cervejas e sombra de árvores?

— É claro que não, Yoongi — Taehyung respondeu imediatamente, o que me deixou tonto. — Eu amo cada lembrança que fizemos desde o fatídico dia em que usei minha pior camiseta, eu amo os chocolates que compramos e o fato de que provavelmente vamos pegar diabetes antes dos 50, eu amo as cervejas baratas lá do Bar da Loura, e eu amo aquela árvore velha e a sombra gostosa que ela faz depois do almoço. Eu não poderia esquecer você, eu te amo.

Vamos entender o corpo humano: como pode um sorriso tão doce morrer tão rápido e dar lugar à lágrimas salgadas e incontroláveis? É sério, que ciência explica isso? Em um momento, caramba, Kim Taehyung é realmente o amor da minha vida. No outro, que porra foi essa, acabou meu conto de fadas moderno. E, cala a boca, Professor Han, eu sei que moderno é da Era Moderna e contemporâneo é o estamos vivendo hoje, mas, que merda de sentido isso faz agora? Eu fecho meus olhos e choro desesperadamente, soluçando por não conseguir aceitar que aconteceu.

Taehyung não lembra de mim.

— Não — murmurou, esticando os dedos na direção dele, parecendo um completo retardado porque agora ele nem sabe quem eu sou. — Tae, por favor, não. Por favor.

— O que foi? Yoongi, por que você está chorando? — perguntou, se aproximando de mim.

Meu sangue parou nesse exato momento e passou a circular no sentido contrário. Meus olhos triplicaram de tamanho ao notar o pequeno detalhe que pra mim era gigantesco.

— Você sabe meu nome?

— O quê? É claro que eu sei, Yoongi, o que quer dizer com isso? — Taehyung franziu o cenho, segurando-me pelos ombros com força. — Você está bem?

— Você lembra de mim?

— Eu nunca esqueceria de você, já disse, te amo — confessou outra vez, me fazendo soltar um grito de nervoso. — Você não sente o mesmo?

— Diz de novo — pedi, assustado.

— Eu te amo — repetiu, receoso.

Provavelmente eu parecia um louco perturbado do juízo, mas era assim que a situação em fazia. Por que ele não tinha me esquecido? Por que eu ainda estava nas memórias de Taehyung?

— E meu nome é...?

— Yoongi? — riu de nervoso e eu ri também, mas de felicidade, me agarrando nele todo e chorando mais uma vez, só que agora de emoção. Eu estava errado, é a música romântica que toca na minha cabeça enquanto a última cena em que o casal fica junto começa. Não é um sonho, Taehyung me ama. E ele lembra de mim. — Eu não entendi.

Sorri, beijando-o o mais forte que eu conseguia, com a maior paixão do mundo, sem nem me importar se o zelador estava bem ali, provavelmente nos julgando, ou se eu tinha hálito de salgadinho. Taehyung me ama e lembra de mim. Como se a confusão não fosse um problema muito grande, ele me beija de volta, sorrindo porque é, eu sou doidinho. Doidinho por ele.

— Eu amo você, Tae. Eu te amo tanto, por favor, diz mais uma vez — pedi, extasiado com a magia de suas palavras.

— Eu também amo você, Yoongi — ele riu, bobo, me dando mais um beijo.

É aqui que acaba o conto. Talvez a maldição tenha se quebrado porque eu também o ame de volta, ou a memória fotográfica de Taehyung seja à prova de maldições vodu, ou talvez tenha alguma brecha que não tenhamos lido, e de repente, passou da validade. O importante é que vamos viver felizes para sempre. 

23 de Julho de 2018 às 14:14 3 Denunciar Insira 10
Continua…

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uanine oliveira wiccana e shippo taegi, isso é tudo // no spirit como @boaswain

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Nara_Silva Nara_Silva
2 de Janeiro de 2019 às 07:03
Cintia Walter Cintia Walter
eu li essa fanfic no spirit, mas não imaginava achá-la por aqui!! ela é linda demais, amo como o taehyung atravessa a barreira que yoongi e a maldição criaram e o enche de mimos, declarações, felicidade. sua escrita também é maravilhosa, me deixou super bobinha e aconchegada. você é incrível!! obrigada por essa história <3
24 de Julho de 2018 às 20:26

  • uanine oliveira uanine oliveira
    Obrigada, awn, isso foi muito fofo <3 25 de Julho de 2018 às 07:57
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