Uma carta sobre história, anjos e demônios Seguir história

thecronya Cronya Atimus

"Escrevo, humildemente, esta crônica em memória a Lilith Akuma, que só buscava um mundo justo em que todos nós pudéssemos viver. Espero que um dia alguém possa ler esta carta e contar a história que realmente aconteceu durante aqueles tempos tenebrosos."


Fantasia Medieval Todo o público.

#oneshot #guerra #demônios #anjos
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Capítulo 0 - Uma carta sobre história, anjos e demônios

   "Em julgamento pelos crimes cometidos pela sua nação, com o poder sagrado investido em mim pela Corte Suprema dos Anjos, a fim de acabar com os males deste mundo, sentencio Lilith Akuma, herdeira legítima do trono dos Demônios, à morte."

   Era possível ver os olhos cansados que carregava, o cabelo há muito tempo não cuidado e o corpo tão fraco que mal se aguentava em pé. Ela foi uma grande líder e guerreira. Foi uma filha e irmã amável. E, excepcionalmente, uma amante carinhosa.

   Atribui-se para si o peso de seu povo, que não era mais do que seu também. Viu a esperança, a luz no fim do túnel, para acabar com a Grande Guerra que destruíra seu atual milênio. Como comandante, sentia-se um fracasso, mesmo com seu povo bradando por sua heroína. De fato, era amada pelo povo e ela o amava de volta.

   Não eram apenas os demônios que viviam na sociedade que construíra. Era comum ver reptilianos, vampiros, metamorfos, feiticeiros humanos e anões e qualquer outra espécie que não tivesse sua própria casa ou sido expulsa dela. Os demônios trabalhavam e providenciavam teto, comida e os integravam em sua sociedade. Todos davam o mérito ao demônio que estava prestes a morrer.

   O povo era feliz e esperava sua rainha. E agora ela estava à espera da guilhotina.

   Esse caos começou com intervenção de pequenos grupos entre os anjos que buscavam a segregação de raças. Declaravam que, como tudo na natureza, cada coisa possuía seu lugar e que acreditar em algo como o discurso dos demônios era contra os próprios fundamentos do mundo. Claro que não eram todos os anjos, na realidade, no início era apenas uma pequena minoria. Ninguém acreditaria naquela época se contassem que eles chegariam aonde chegaram.

   As duas sociedades eram forte aliadas comerciais, sem se meterem nos conflitos e ideais internos um do outro. Porém, quando ataques começaram a ocorrer entre as duas espécies por indivíduos que não conseguiam manter suas opiniões distintas, o governo veio a intervir.

   Na época, tanto o rei dos demônios e a rainha dos anjos eram viúvos e o acaso veio a acontecer. Além de unirem mais ainda o vínculo entre as nações, os seus líderes se apaixonaram e casaram. Uma criança iria nascer.

   Lilith, junto com seu irmão mais novo, Nathaniel, príncipe do reino dos demônios, e seu mais novo irmão, Marlon, herdeiro do reino dos anjos, esperavam ansiosamente pelo nascimento da criança que seria o símbolo para unificar as nações.

   Lendas foram escritas, músicas compostas, peças orquestradas e artes pintadas. Todos acreditavam que estavam vivendo um momento épico da história que marcaria o mundo para sempre. E realmente estavam, mas não da maneira que eles esperavam.

   Um dia a rainha acordara pálida e sem força. O que esperavam ser nada demais só piorou, e rápido. A medicina de ninguém sabia dizer o que houve, como tratar e muito menos como curar. Rumores se espalharam e o povo começou a reagir amedrontado. Afinal, o medo move algo dentro dos seres que eles nunca seriam capazes de imaginar.

   Sem procurarem muitas explicações, boa parcela da população se voltou contra os demônios. Foram culpados por adoecerem sua rainha e pequenos conflitos se tornaram mais comuns na periferia da comunidade. Foi questão de tempo até a situação fugir do controle das duas famílias reais.

   Enquanto isso, o último pedido da rainha era que a criança nascesse com saúde, mesmo que custasse sua vida. Isso nunca veio a acontecer. A rainha falecera no parto e uma criança sem vida nasceu.

   A família real foi pega em uma emboscada e o rei sacrificou sua vida para salvar a dos filhos. Lilith quase não saíra com viva tentando proteger seu irmão. Os demônios foram caçados até sua terra natal que agora se encontrava sem governante.

   Foi então que o povo aclamou por Lilith, mas ela se recusou a assumir a coroa até conseguir restabelecer a paz novamente entre os reinos.

   Declarou que lideraria como uma guerreira que luta com seus iguais.

   O poder econômico e influência dos demônios caíram drasticamente com todas as outras civilizações amedrontadas de se tornarem alvos dos anjos. Néfilins de ambas as nações foram postos como espiões, anjos que tentassem ajudar demônios ou seus aliados eram encarcerados e alguns grupos extremistas executariam até crianças se pensassem que fossem demônios.

   Lilith reuniu todo poder militar que conseguiu, recrutando não apenas demônios, mas todos que não tivessem aonde ir naquela guerra cega e disposto a ajudar. Conseguiu por muito tempo manter as rotas de comércio seguras o suficiente para abastecer as necessidades básicas da cidade, evitar conflitos desnecessários e tentava, acima de tudo, espalhar o discurso de como aquele conflito não tinha sentido.

   Dentro do reino dos anjos também não estava bem. Devido ao pensamento completamente contra do príncipe sucessor, Marlon Tenshi, à base militar e sua falta de poder sobre a mesma, o príncipe ficou impedido de assumir o poder e foi silenciado pelo exército a fim de manter as aparências para a população. Marlon basicamente viveu em cativeiro dentro de seu próprio reino “pra o seu próprio bem”, até desistir de tentar concertar a política dentro da sua terra natal e recorrer aos demônios. Foi uma fuga sem volta.

   Desde então, Marlon agiu dentro do exército dos demônios em nome da paz entre as espécieis, apesar de ser um fato completamente apagado na história e acobertado com um falso assassinato do príncipe herdeiro em eterno luto por rebeldes. Para o bem da própria segurança de Marlon, Lilith se assegurou que apenas os mais leais saberiam sobre sua identidade.

   Lilith resgatou o oráculo, uma criatura mística que nasce aleatoriamente entre as raças, de mercenários que pretendiam vende-lo por um alto preço aos anjos. O oráculo era um espírito d’água, uma espécie que não sobrevive longe da água, ao contrário de ninfas, sereias e outros seres a aquáticos. Seu nome era Daphiny e fora mantida em um rio subterrâneo de uma antiga mina abandonada que agora servia de base militar para os demônios. Eles obtiveram muitos avanços graças à ajuda de Daphiny e por um tempo, as coisas pareciam ser prósperas para Lilith e seu povo, finalmente.

   A grande líder também se apaixonou. Por uma jovem elfa que buscava uma aventura com seus amigos de infância. O grupo ficou emocionado com a injusta história e decidiram se reunir em sua última aventura e depois, os casais recém-formados encontrariam seu próprio lugar para chamar de lar e criar suas famílias.

   A felicidade podia existir até mesmo no meio da guerra, foi o que eles pensaram.

   Marlon se interessou pelo grupo e pediu permissão para realizar um experimento com os jovens elfos. O objetivo da pesquisa era testar a teoria dos híbridos muito mencionados por Daphiny em suas profecias. Lilith, mesmo insegura, também tinha curiosidade no assunto e casualmente perguntou a sua amante que de cara aceitou a possibilidade. Eles se submeteriam a um ritual para hibridizá-los com metade do sangue demoníaco. Ao contrário dos néfilins, indivíduos que se submetem a contratos com anjos e demônios, os permitindo de obter seus poderes, mas se tornando reféns e servos, a intenção era alcançar seres com total capacidade e liberdade de si mesmos. Assim nasceu o primeiro grupo de híbridos na história, quatro seres elfos e demônios. O sucesso lhes abriu mais portas de esperanças.

   Porém, uma boa parte dos anjos ainda não cedera para o discurso dos demônios e continuavam em persistir com o conflito, derramando sangue inocente em nome de uma aspiração irracional. Eles conquistaram a confiança dos elfos e utilizaram os humanos como marionetes através da sua crença. Seus princípios corrompiam cada vez mais o mundo que viviam. Resolveram provar por si mesmos tudo aquilo que acreditavam ser os demônios, os atraindo com uma isca. Encontraram um elo frágil entre os militares demoníacos e se aproveitaram.

   Um dos generais conhecido por seu temperamento forte acabara de perder um irmão na guerra e, longe da tutela de Lilith, estava pronto para atacar Dunnan, uma cidade aliada aos anjos. Através de espiões duplos, o general acreditara que Dunnan realizaria um massacre em uma base médica dos demônios. Com esse pretexto, Dunnan foi facilmente exterminado sem ter tido a chance de contra atacar.

   Os anjos usaram a cidade desprotegida como isca e provaram a maquiavelismo dos demônios. O discurso de Lilith foi desacreditado e a crise dentro do exército dos demônios foi excitada. Mais ataques cegos foram executados até enviarem um pelotão para morte apenas como isca, com a intenção de assassinar um importante comandante entre os anjos. Mas a missão foi um fracasso e os híbridos criados foram mortos. Um deles, a amante de Lilith, que ainda tinha força para viajar, pegou sua amiga a beira da morte e voltou a Dariee, sua terra natal, para tentar salvá-la. Elas nunca mais voltaram.

   Marlon e Lilith foram encurralados e com os meses perderam controle da guerra. O abastecimento caia e o número de mortes e desertores aumentava.

   Com o último apelo, eles buscaram pela sabedoria de Daphiny, com esperança dela ter uma última resposta. O oráculo lhes deu um ritual complexo que poderia ser utilizado para reencarnar uma alma de voltada para o mundo da matéria, algo nunca imaginado por ninguém daquela terra. Muito foi pensado sobre o que fazer com o feitiço, mas nunca chegaram a uma única conclusão efetiva.

   Entretanto, em um ato de misericórdia, os anjos propuseram uma trégua se Lilith aparecesse a uma conferência atrás das muralhas angelicais.

   Lilith aceitou seu convite, sabendo da armadilha que estava por vir.

   Ela fora executada na guilhotina.

   Contudo, deixou para trás um livro com todo o feitiço de Daphiny detalhado. Seu irmão mais novo, Nathaniel, agora com idade para liderar os demônios, utilizou a imagem de sua antecessora como mártir e, longe da vista de todos, criou uma ordem que prometera um dia trazer sua grande guerreira de volta.

   Alguns aclamam que este fora o único plano que Lilith encontrou e a taxaram como covarde. A sociedade utópica que um dia construiu foi desmanchada. Marlon desapareceu. Daphiny foi presa e morta por maus tratos dentro de uma capela anos depois. Demônios foram perseguidos até a beira de sua extinção. Intolerância, ódio e a busca pelo falso purismo foram disseminados por todo o continente. Guerras e conflitos nasceram por todo mundo, civilizações chegaram ao topo e às ruínas em cerca de dias.

   Há boatos que a elfa híbrida ainda vaga pelo mundo, Marlon planeja reconquistar seu trono e Nathaniel está perto de reviver sua irmã, mas uma nova peça foi adicionada nesse jogo do destino. O resultado ainda está incerto e só o futuro para nos dizer como esta história irá seguir.

   Escrevo, humildemente, esta crônica em memória a Lilith Akuma, que só buscava um mundo justo em que todos nós pudéssemos viver. Espero que um dia alguém possa ler esta carta e contar a história que realmente aconteceu durante aqueles tempos tenebrosos.

Assinado, o demônio de asas quebradas, Tori Akuma.

11 de Julho de 2018 às 00:59 0 Denunciar Insira 0
Fim

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