As Duas Fases do Rouxinol Seguir história

uanine uanine oliveira

Lorenzo vinha de uma família norueguesa tradicional, Antônio tinha acabado de abandonar a aldeia indígena em que vivia para seguir o sonho de se formar e salvar as tartarugas do litoral brasileiro. Era ano de eleição, inverno na capital e um feriado quando os dois se conheceram.


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#indígena #brasil #drama #romance
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Prólogo

Não eram as primeiras dores que a velha senhora sentia na vida, aquele seria o sétimo que vinha do seu ventre, fora os outros dois que tinha catado do mundo e criado como se fossem de sua carne e sangue. Nady, ou Tia Neta, como a conhecerão posteriormente, não se preocupava com a dor do parto, sabia que os deuses iriam a presentear com mais um guerreiro saudável e obediente, suas crianças não a davam trabalho, e na tribo sempre eram os jovens mais queridos, o mais velho, Joaci, por exemplo, estava liderando as caças antes dos rituais de festejo. Na verdade, de velha não tinha nada, estava sim com a aparência mais desgastada mas isso era proveniente da criação exaustiva dos curumins e de ter um marido tão trabalhoso como Apoema; seu espírito, no entanto, ainda tinha a vivacidade e coragem jovial para que pudesse ter, saindo de si naquele momento, mais um de choro calmo.

Era grata aos deuses.

A nova olhou bem para a cara do bebê e logo o entregou a Nady, sorrindo. O sorriso logo atingiu a boca de todos ao redor, observando o nascimento. Um menino, guerreiro. Estava escuro porque Nady já não era tão rápida quanto antes em colocar seus queridos para fora da proteção de uma mãe, e o parto, iniciado na caruca, tinha se estendido até o começo da noitinha, quando já se enxergavam estrelas, e por isso, talvez, a índia viu um brilho maior faiscar dos olhos esverdeados do recém-nascido, agraciando-a ainda mais com a certeza de que este seria como o Sol e se destacaria pelo seu brilho.

Os outros partiram para cima de Antônio, como estava sendo chamado antes da nominação, Joaci carregava-o para cima e para baixo, Taiguara e Acir brincavam de apresentar lutas para o bebê que se divertia com os irmãos mais velhos, Jacira queria sempre segurá-lo e cantar para o menorzinho, acompanhada da pequena Kauane, quieta e atenta ao irmão. Apuana sempre levava broncas por querer brincar de mais com Antônio, acabando por deixar o bebê enfezado e choroso. Nady agradecia que na hora de limpá-lo, a filha mais velha, Tuane, se fazia presente e a ajudava a cuidar da saúde do guerreiro que estavam criando.

Dessa forma, Antônio cresceu sapeca só! Corria e se escondia na mata, voltando apenas na hora das refeições dizendo que a mãe tinha perdido a brincadeira que ele mesmo tinha criado. Roubava as tintas de Jacira e aparecia todo pintado, explicando os símbolos mal desenhados em seu corpo pequeno, rindo e se sentindo orgulhoso demais. Logo já estava brincando de luta com os outros irmãos, sempre pregando peças para ganhar suas batalhas, era inteligente e corajoso, ao ponto de enfrentar Joaci e sair correndo quando o irmão mais velho se enraivecia para seu lado. Apoema que o tinha nos braços e fazia cafuné para o aquietar, às vezes o levava para as pescas. Antônio se debruçava nos botes, quase se enfiando na água e falando com os peixes.

— Pai, ele disse que tá com fome! — avisava depois de algumas palavras trocadas com o animal. Apoema ria e deixava aquele peixe passar, era amigo do seu filho. — Pai, o que é aquilo? — apontou, curioso para uma pedra se movendo na beira do rio.

— Uma tartaruga, Tonho.

— Uma tortruga — animou-se. — Vamo levar pra mainha.

— Deixa a bixinha quieta que ela tá onde devia tá.

O xamã veio de outra aldeia apenas para a nominação do que já sabiam ser um menino estrelado. Esperaram Nhe’e revelar, mas a verdade é que já tinham considerado o chamar assim mesmo antes: Teçaberaba, os olhos brilhosos.

E cresceu com tanto brilho, um sorriso de paz e um coração de bondade que sua mãe, ao passo que envelhecia, apenas se orgulhava mais. Já estava com quatorze primaveras ou por aí quando foi com o pai para um ritual masculino em uma aldeia próxima, quando voltou, aterrorizado com o que lhe falaram sobre o sumiço das tartarugas, botou na cabeça que ia, sim, estudar e salvar os animais indefesos. Acharam que era coisa de menino mesmo, mas pegava os calções maiores dos irmãos, corria o dia inteiro e voltava com uns livros ninguém sabe de onde. Um dia desses, Jacira o seguiu, lhe puxando pela orelha ao vê-lo roubar o material de uma escolinha às margens da BR-116. A professora questionou os dois, não tinha problemas se o pequeno de olhos verdes quisesse estudar com os outros.

Chorou por uma semana nos ouvidos da mãe, fingiu até febre para que a velha se rendesse e fosse matriculá-lo. Teçaberaba entrou já com os meninos mais velhos, era inteligente e depois de uma prova de nivelamento a diretoria da escola comprovou que o nativo estava mesmo avançado no conteúdo. Concordou com a família e a tribo que não ia se afastar das obrigações sociais da aldeia, mesmo que precisasse estudar para as provas, faria os rituais, mesmo que estivesse atrasado, caçaria com o pai e os irmãos, mesmo que tivesse trabalhos, ajudaria a mãe. Teçaberaba nunca foi desobediente, só era curioso.

Apoema gostou de ver o filho se esforçando em mais do que a aldeia o dava, gostava da alma desbravadora do mais novo, estar em contato com as outras crianças, diferente de si, fazia crescer um sentimento de empatia no moreno, e o velhote sabia que a curiosidade juvenil dele podia ser perigosa em certo ponto, mas tinha outros oito e um saindo dos trilhos não seria tão preocupando, por isso passou a ensinar coisas que sabia para Teçaberaba também. Ia deixá-lo na escola depois das caças matinais, e buscá-lo para voltarem pelo rio, o filho falava sobre os colegas, a professora, sobre as provas e suas notas, dizia para o pai que queria ir no passeio até a capital, conhecer o Museu de Arte Contemporânea, queria um celular como o da Juliana e sair para o cinema no final de semana com o Guilherme. Voltou desse cinema com um piercing no nariz.

Não era julgado na aldeia, no entanto; todos os recebiam muito bem e continuavam o tratando normalmente mesmo com o de olhos verdes passando a se habituar mais às roupas comuns dos englobantes. Teçaberaba nunca se desfez de sua cultura e crenças, então até que isso não acontecesse estava tudo bem. Aos dezessete, depois de finalizar o ensino médio, era o único índio na aldeia a ter hábitos como aqueles.

Teve que se ausentar por quatro dias, prestar vestibular na faculdade federal, queria passar para Ciências Ambientais e a nota era alta. Achava engraçado o jeito que olhavam para ele na capital — tinha o cabelo até os ombros, naquela altura já eram três piercings, um no lábio inferior e outro na sobrancelha, e o rosto pintado com a tinta da natureza, mas era nativo, não devia ser visto com estranheza.

— Tonho — Nady o chamou para a fogueira. Achava o nome verdadeiro lindo, mas o filho seria sempre seu Tonho.

— Senhora — respondeu, levantando a cabeça do visor do celular.

A velha descansou os ombros, sentando-se junto a ele na rede.

— Acha que foi bem? — Teçaberaba assentiu mas sem muita empolgação. — Onde é?

— Brasília, a melhor faculdade pública de Ciências Ambientais.

— E é melhor fazer lá? Tem problema não, fazer em outro lugar sendo daqui?

— Não vou fazer lá, e deixar a senhora e painho aqui?

Nady sorriu para o menino e beijou sua testa suavemente. Teve esse mesmo momento com todos os outros oito, de livrar os filhos de suas costas, derrubá-los de seus braços direto no mundo. A diferença era que Teçaberaba queria o mundo todo, não só aquele pedacinho da aldeia, tinha outros planos e a mãe sabia que por mais que tentasse fazer as duas coisas juntas, teria que desvinculá-las uma hora. Havia chegado essa hora.

— Eu sou só uma pessoa, Tonho, e pessoa nenhuma prende o espírito de outro — sorriu, apontando para o coração do filho. — E o teu espírito quer descobrir, filho.

Teçaberaba entendia a mãe e entendia todos os rituais de sua cultura, sabia de cor as danças apropriadas para os festejos específicos, quais pinturas fazer no corpo, em que dia fazer, sabia as canções que passavam de geração em geração, sabia como fazer os utensílios domésticos artesanais e como caçar animais na mata, mas sabia pouco de si além do índio que se autodenominava ser. Ninguém é só uma coisa, acreditava, e ele não era só Teçaberaba, era Antônio também.

4 de Julho de 2018 às 23:06 3 Denunciar Insira 14
Continua… Novo capítulo A cada 30 dias.

Conheça o autor

uanine oliveira wiccana e shippo taegi, isso é tudo // no spirit como @boaswain

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Neeca Ashcar Neeca Ashcar
Olá tudo bem? Meu deus eu estou, muitoooo, a história nem começou e eu já guardei o fôlego aqui, que história maravilhosa, de leitura fluída, e personagens carismáticos que tô hiperventilação de animação... A forma que tu escreve é excelente, e a história por si só é bela de originalidade, nunca vi antes algo como ela! Sério parabéns. A forma como você teceu cada elemento, ambientalizou ela é show. Está de parabéns! 💚 E o Tonho? Eu tô é muito apaixonada por ele... Pode contar comigo aqui e vou divulgar muito ela de tão boa! Parabéns!
31 de Agosto de 2018 às 22:54
Lollys Mars Lollys Mars
aigoo, moça, tu me ganhou nesse prólogo, tô já seguindo a história, e aguardando ansiosamente pelo próximo
24 de Julho de 2018 às 11:52

~