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"Lágrimas desceram por seu rosto e ela descobriu algo que a deixou desamparada em seus instantes finais: o Senhor para quem dedicara toda a sua vida não era nada mais que um tirano sedento de sangue e horror como seus seguidores. Quantas vezes não ouvira a Madre conversar sobre os libertinos e pecadores padres do Vaticano? Quantas vezes não a vira cometendo os mesmos pecados que dizia a suas aprendizes para não cometer? No fim ele tinha razão."


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#ssmonth2018 #ssmonth #sakusasu #Idade-Média #Inquisição #naruto #sasusaku
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Capítulo Único

1279, Condado de Artois, França.


— Sakura! — o grito foi ouvido por todo o convento que ardia em chamas. Aos poucos, os últimos sussurros de qualquer ser vivente dali foram ouvidos. E, dentre as labaredas, ele surgiu.


O convento de Saint-Pierre, localizado na França, era o lugar em que muitas meninas órfãs foram acolhidas. Enquanto em outras localidades elas morriam à mingua nas vielas e becos, na cidade de Bourbon, eram acolhidas pelas irmãs da Ordem.

Em 1259, uma menina peculiar nascera. Ela tinha cabelos rosados, algo considerado muito estranho. O ocorrido obteve muito alarde na cidade, principalmente pelo fato de a garotinha ter sido encontrada em uma vala. Sua mão havia sido encontrada e morta pelo abandono do bebê e seu pai ninguém conhecia.

Órfã, ela foi levada para o convento.

A garota cresceu ali. Sua casa era a Ordem. Aprendera o latim junto do francês. Sabia as orações, as ladainhas e qualquer coisa relacionada a igreja de uma forma surpreendente. Ainda bem nova era considerada prodigiosa entre as irmãs.

Em sua mocidade, era vistosa e muito prendada. Muitos rapazolas iam a Igreja local somente para vislumbrar o anjo do senhor, a freirinha que, diziam alguns, que tinha longos cabelos rosados.

Aos 20 anos um acontecimento marcou sua vida pacata e simples.

Com duas décadas de existência presenciou o mal e viu-se face a face com o demônio. Ele tinha cabelos e olhos da mesma cor, negros como a noite. Sua pele era branca e macia. Tinha sangue nobre e era um homem extremamente belo e educado...

... Mas estava possuído por uma entidade maligna.

Em uma tarde, sua Madre Superior a havia apresentado ao lorde Uchiha. Ela lhe dissera que ele viria ao convento com frequência e que queria que ela o guiasse pelo local quando fosse necessário. Ela deveria ensiná-lo as virtudes da palavra do Senhor e lhe mostrar a pureza do amor ao Altíssimo.

O lorde havia se mudado definitivamente para o convento após duas semanas de visitas. Ela não sabia o porquê, mas, quando possível, seguia com seus ensinamentos.

A cada novo dia que chegava, ela notava que o homem de cabelos ébanos estava mais distante, mais pálido, mais... Estranho. Ele a olhava longamente e às vezes dizia frases sem nexo.

Nenhuma de suas irmãs sabia o porquê de ele ter vindo para o convento, mas várias suposições começaram a surgir a respeito do motivo. Algumas diziam que ele queria se tornar padre, outras falavam que ele procurava descanso de suas tarefas como nobre. Quando ele apareceu com feridas visíveis, as ideias fervilharam e Madre Tsunade acabou tendo que proibir a conversação acerca deste assunto.

Em certo dia ele não apareceu para a lição.

Ao procura-lo, Sakura ficou sabendo que uma doença muito grave o acometera. Ele estava de cama e passava por avaliações médicas. Na noite deste dia, sonhos estranhos começaram a invadir seu sono. Eram pesadelos que envolviam olhos escarlates e muito sangue.

Na mesma semana em que soubera de sua calamidade, quando o sol se escondera sob o horizonte e o convento dormia profundamente, Sakura sentiu-se dominada por um terrível desejo de se encontrar com ele.

Ela sabia em que local ele estava, fora até lá diversas vezes. Madre Tsunade havia dito para que ninguém fosse até aquela ala do convento, mas Sakura precisava ir.

Caminhando pelos corredores iluminados por velas, a garota via as sombras nas paredes se transformarem em monstros horripilantes. Apenas com sua bata de dormir e um véu simples, ela seguia rumo ao local proibido.

Ao se aproximar do complexo em que o quarto destinado a ele se encontrava, a jovem começou a ouvir gritos. A voz que soltava os grunhidos lhe era muito familiar... Era a do Lorde Uchiha, mas ela estava ficando diferente, mais grossa e ruidosa.

Pé ante pé, a garota foi até se localizar defronte a porta do quarto do homem.

Ali ela conseguiu ouvir melhor.

Escutou palavras em latim. Palavras que ela conhecia muito bem. Era um exorcismo o que se sucedia no local e a voz do rapaz se modificava desta forma porque, aparentemente, ele estava possuído.

Libertate? Hahaha Nequissime!— ouviu o Uchiha dizer.

Logo após as palavras serem proferidas por ele, a garota ouviu o chiado de algo queimando e mais gritos. Sua curiosidade a matava, ela queria saber o que acontecia do outro lado da porta.

E foi com essa curiosidade que tentou olhar pela fechadura.

Nunca mais esqueceria o que viu naquele momento. Ela, ao colocar um de seus belíssimos olhos verdes no buraco da fechadura, localizou o lorde e viu que ele a olhava. Seus olhos estavam sangrando como em seu pesadelo.

Ao se mirarem, ele sorriu maquiavelicamente e a última coisa que ficou em sua memória foi o lampejo escarlate que perpassou pelos orbes negros do rapaz.

Ela havia desmaiado e adoraria ter ficado assim, pois no dia seguinte recebeu o pior sermão de sua vida. Madre Tsunade a alertou do perigo que correra e de que não deveria mais fazer aquilo.

Uma semana se passou desde aquele episódio e Sakura não vira mais o lorde Uchiha senão em seus pesadelos sanguinolentos. Ele a visitava todas as noites. O que via de olhos cerrados parecia tão real que ela duvidava de si mesma quando dizia que era somente um pesadelo.

Certa noite, ao se deitar em sua cama para dormir, teve que levantar novamente e quando desceu da cama, viu o Uchiha.

Ele a impediu de sair e lhe deflorou.

A lua e as estrelas foram as únicas testemunhas daquele ato pecador. Era um sonho ou realmente tinha acontecido? Sakura não sabia definir, mas sempre que acordava, tinha marcas estranhas pelo corpo. Todas elas tinham ligação com alguma parte do pesadelo que tivera.

Nesses sete dias, sua vida se mantivera relativamente normal.

No oitavo dia, ela se levantara de seu leito com uma inquietação fora do normal. Passou o dia extremamente mal e à noite não conseguiu fechar os olhos. E isso acabou salvando sua vida, mesmo que por pouco tempo.

Por volta da meia-noite, quando a lua estava no ponto mais alto do céu e nada se ouvia no lugar, os gritos do possesso ecoaram por sua cabeça. Como? Como isso poderia estar acontecendo se o quarto em que ocorria o exorcismo era o mais remoto e distante possível?

De alguma forma, os ecos da maldade se esgueiraram pelas frestas das portas, pelo ar entre as pedras e chegara aos ouvidos e corações das freiras da Ordem. As que dormiam mantiveram-se assim por toda a noite e pelo resto da eternidade, as poucas que se mantinham de pé se encontraram em um pesadelo horrível e agradeceram quando o final chegou.

Sakura saiu em disparada pelo corredor, ela queria fazer a voz em sua cabeça desaparecer, ela queria acabar com aquele suplício. No intuito de se manter distante daquilo que provocava sua agonia, correu para fora do convento.

Ao se encontrar do lado de fora, olhou para o seu amado lar, o convento onde se fizera uma pessoa da sociedade.

Ele estava em chamas.

Como ela não notara? Não tinha resposta para esse questionamento, a garota só se lembrava de sair dali correndo e querendo que os gritos cessassem. E eles cessaram, mas somente para dar inicio ao chiado das labaredas de fogo lambendo as paredes e o teto do convento.

Um lugar santo ardia em um fogo infernal.

— Sakura! — o grito foi ouvido por todo o convento flamejante. Aos poucos, os últimos sussurros de qualquer ser vivente dali foram ouvidos. E, dentre as labaredas, ele surgiu.

Lorde Uchiha, pálido e majestoso.

A jovem, no chão, se arrastava tentando se manter longe dele. Em contraste com as chamas, seu corpo escureceu e ela só via o maligno vermelho de seus olhos.

Com um sorriso lateral, ele se aproximava cada vez mais.

— Veja só que maravilha: a donzela angelical é a sobrevivente desta fatídica noite! — ele disse — Não poderia ser melhor...

— O que o senhor quer de mim? — ela conseguiu reunir forças para dizer.

Ele parou por um instante. Já estava a poucos passos dela.

— Nada, minha pequena, nada... — aproximando-se do rosto da garota, ele o pegou com suas mãos gélidas — Só quero mostrar-lhe que teu Deus não é tão grandioso quanto pensas...

De olhos arregalados, ela o viu se transmutar em um demônio e avançar sobre seu corpo delgado e frágil. Aquela foi sua última lembrança do que acontecera na noite em que seu lar e todos as pessoas com quem havia compartilhado suas melhores histórias havia ardido em chamas vermelhas.


...


Quando acordou, estava em um local desconhecido.

Amarrada, ela foi levada a um local em que a despiram e começaram a tortura-la. Suas unhas foram, uma a uma, arrancadas de seus dedos. A pele de suas costas devia estar dilacerada pela quantidade de vezes que sentiu o chicote de espinhos lhe perfurar a carne. Sua carne fora tão martirizada que ela estava em um estado de dormência quando finalmente o suplício terminara.

Como ele se findou?

— Eu... Eu admito perante a palavra do Senhor que... Que provoquei a morte de minas irmãs... Tort-torturei-as e incendiei o local com... Com a chama infernal que carrego em meu ventre... S-sou culpada pelas desgraças que aconteceram após o incêndio...

A declaração verbal do que havia feito foi o suficiente para que fosse condenada por bruxaria. Na verdade não era uma punição, os inquisidores diziam ser uma redenção de seus pecados. Seria uma redenção por meio da morte.

Heresia? Como poderia ela, uma menina criada dentro dos moldes cristãos ser considerada uma herege? Ela se perguntava o porquê disso enquanto era direcionada, através de uma carroça, ao local em que morreria.

Amarrada a um tronco de madeira localizado no meio da carroça, Sakura sentia os alimentos podres e as pedras atingirem sua face e seu corpo desnudo. Antes de chegar a seu túmulo, eles a faziam rodar a cidade nessa espécie de penitência obrigada.

Aquelas pessoas que antes tiveram pena dela, agora lhe atiravam pedras e palavras de ódio. Tudo por quê? Porque ela fora a única sobrevivente do incêndio do Convento de Saint-Pierre, o bode expiatório daquele acontecimento horrível.

Ao todo, a carroça parou por três vezes: na primeira, arrancaram-lhe os mamilos e jogaram aos porcos; na segunda, marcaram-na com ferro no rosto e nas genitálias; na terceira, amarraram-na numa haste de madeira e atearam-lhe fogo.

Enquanto sentia as labaredas de fogo lamberem sua pele, ouvia a multidão ensandecida clamar por mais... Mais sangue... Mais horror...

Eles queriam ver sua morte de forma lenta e dolorosa porque ela havia lhes tirado seu ponto de encontro com o espírito santo, porque ela enganara a todos e porque, concluiu, o ser humano tem um desejo irrefreável por atrocidades e sangue.

Ali, ela se lembrou das palavras do demônio nobre que acabara com sua vida. Será que seu Deus era tão misericordioso assim? Pois porque permitia que fizessem isso com ela se ela era inocente?

Lágrimas desceram por seu rosto e ela descobriu algo que a deixou desamparada em seus instantes finais: o Senhor para quem dedicara toda a sua vida não era nada mais que um tirano sedento de sangue e horror como seus seguidores. Quantas vezes não ouvira a Madre conversar sobre os libertinos e pecadores padres do Vaticano? Quantas vezes não a vira cometendo os mesmos pecados que dizia a suas aprendizes para não cometer?

No fim ele tinha razão.

Tentando ver o céu pela última vez, Sakura abriu os olhos e o vislumbrou entre os pobres, vestido com suas roupas nobres e com aquele sorriso que demonstrava a razão que ele tinha naquele momento.

Ao cruzarem o olhar, ele percebeu que ela finalmente compreendera que perdera toda a sua vida seguindo a hipocrisia e mentira. A multidão gritava ensandecida diante o fogo que consumia a criatura de peculiares cabelos rosáceos e corpo delgado.

Compreendendo a insignificância de sua vida, Sakura expirou.



O Tribunal da Santa Inquisição, instaurado em 1229, foi uma forma que a Igreja Católica encontrou para reafirmar sua fé e punir a crescente onda de Heresias que crescia sob seu domínio. Uma denúncia anônima ou uma suspeita qualquer já eram motivos para ser investigado. A absolvição era algo quase impossível, pois até testemunhas de defesa corriam o risco de serem investigadas. Na França, a condenação pela fogueira se tornou lei em 1270. A Inquisição durou por séculos e hoje a Igreja Católica a reconhece como algo terrível.

4 de Julho de 2018 às 13:36 0 Denunciar Insira 0
Fim

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