Boneco de Cera Seguir história

ineedyoukook Nezumi Miguel

Jimin é um garoto trans, que rejeita tanto a si mesmo que acredita que todo o resto do mundo também irá fazê-lo. E conviver com isso o sufocava, ao mesmo tempo em que lhe tirava a energia, as forças e até mesmo sua própria essência.


Fanfiction Para maiores de 18 apenas.

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O garoto que tinha o corpo errado

As lágrimas escorriam pelo rosto do garoto enquanto ele se olhava no espelho. Suas unhas roídas curtas, com as cutículas inteiramente mordidas por causa da ansiedade, arranhavam cada centímetro daquele corpo que ele tanto odiava – os lábios fartos, os seios proeminentes, a cintura marcada, os quadris largos, as coxas. Odiava cada centímetro da imagem que via à sua frente.

O cabelo preto e longo estava preso em um coque alto, no topo de sua cabeça. Odiava-os também, mas sua mãe nunca lhe deixara cortar. Meninas ficavam mais bonitas de cabelo comprido, era o que sempre ouvia.

Tá, ele entendia isso.

Só queria que sua mãe soubesse que, na verdade, não era uma garota. Era um garoto, que nascera com o corpo errado.

Descobrira isso bem cedo. Nunca se sentira bem nas roupas que sua mãe insistia que usasse, quando era pequeno – as saias, os vestidos, os shorts e as regatinhas estampadas de flores e doces. Também detestava as sandálias coloridas. Quando ganhou seu primeiro tênis, insistiu em usar apenas ele até que estragasse, e ainda assim, ninguém parecia entender.

Nem ele entendia, na época.

Não entendia por que odiava os vestidos, ou as sandálias, ou as bonecas que sempre ganhava de presente. Não entendia por que não se sentia bem no quarto cor de rosa, decorado com esmero por sua mãe, ou por que se sentia desconfortável ao dividir o banheiro com suas colegas na escola. Não entendia nada; só sabia que havia algo errado consigo, sempre soube.

E aquilo era frustrante, sempre fora. Crescer com aquela angústia dentro de si parecia matar um pedaço a mais de si a cada dia que passava, a cada vez que se dirigiam a si com os pronomes errados.

Sem contar os padrões de beleza.

“Garotas não deviam usar blusas tão largas”, todos sempre lhe diziam. “Você devia ser mais vaidosa, passar maquiagem, arrumar o cabelo”. Queria dar um tapa na cara de todos que insistiam em lhe dizer aquelas coisas ridículas.

Mas não podia. Afinal, ninguém sabia que não era uma garota.

Seus olhos ardiam com as lágrimas quentes enquanto pensava em tudo aquilo, e os pontos em que mais se arranhava também começavam a reclamar. Vivia cheio de vergões nos seios e nos quadris, especialmente – eram as áreas que mais lhe incomodavam. Por sorte, as blusas largas sempre cobriam tudo, e sua mãe e seu irmão nunca viam nada daquilo.

Estava cansado. Cansado de se odiar, cansado de se esconder, cansado de fingir ser uma coisa que não era. Usar blusas largas e sair sem maquiagem não era mais suficiente para si. Não aguentava mais ouvir sua mãe lhe chamar de “querida, nem aguentava mais ouvir seu irmão lhe chamando de “noona”.

Já havia se escondido por tanto tempo. Por tantos anos. Não queria mais nada daquilo, queria ser livre para ser o garoto que sempre fora.

— Querida, já saiu do banho? ­— Ouviu sua mãe lhe chamar do lado de fora de seu quarto.

Deu um passo para fora de seu banheiro, para que ela pudesse lhe ouvir responder.

— Já sim, mamãe. — Respondeu, amaldiçoando a voz que ouviu. Odiava sua voz, era fina demais e isso o irritava.

— Eu vou levar Jihyun no basquete, você fica de olho no fogão, por favor? Estou fazendo macarrão para o jantar!

— Ah, claro. Pode deixar, mamãe.

— Obrigada, querida! Eu volto logo! — Foi o que ela disse antes de sair.

Voltou para dentro do banheiro e suspirou, encarando o reflexo de seu corpo todo arranhado e seus olhos vermelhos. Precisava melhorar aquela cara antes que sua mãe voltasse, ou ela perguntaria o que havia de errado, e não conseguiria responder.

Lavou o rosto rapidamente e vestiu sua calcinha e sua calça de moletom, em seguida a blusa que havia separado – recusava-se a usar sutiã em casa; já bastava ter que usar aquela praga para sair de casa – e saiu do banheiro. Calçou seus chinelos e saiu do quarto, indo até a cozinha para checar a panela em que sua mãe cozinhava o macarrão.

Estava quase pronto, mas ainda faltavam alguns minutos. Olhou para o relógio e decidiu ver alguma coisa na televisão enquanto esperava. Foi até a sala de estar e se jogou no sofá, ligando a TV e deixando em um canal aleatório, com um programa aleatório sobre carros.

Seus olhos estavam cansados, depois de chorar tanto. Coçou-os um pouco e respirou fundo, checando o relógio a cada poucos segundos para garantir que não iria perder a hora de conferir a comida no fogão.

Enfim, o macarrão ficou pronto. Desligou o fogo e escorreu a água, deixando tudo ali para que sua mãe terminasse a comida na volta. Ela não demoraria para voltar; somente deixava seu irmão no basquete e voltava, e ele voltava para casa de carona com um colega, depois do treino.

Tinha inveja de Jihyun. Com apenas 12 anos, ele tinha tudo o que poderia desejar para ter a vida feliz, diferente de si, que com 16 anos, precisava viver odiando cada aspecto de sua existência.

Pensava nisso quando seu celular tocou, anunciando uma chamada de sua mãe.

— Querida, você se importa de terminar o jantar? Uma amiga minha que há muito tempo eu não via veio deixar o filho dela aqui no basquete e acabamos esbarrando!

— Claro, mamãe. Não se preocupe.

— Obrigada, meu anjo! Nos vemos mais tarde.

Finalizou a chamada e encarou o fogão. Ao menos poderia se distrair enquanto cozinhava.

[...]

O jantar estava sendo relativamente normal. Sua mãe chegara com um Jihyun morto de fome e todo suado, e o mandara tomar banho antes de comer. A mesa já estava posta.

Contara sobre como fora o dia no colégio e ouvira Jihyun contar sobre o próximo campeonato de basquete. Estava feliz por ele; adorava basquete tanto quanto ele, embora não pudesse praticar, por não ser coisa de garota. Mas sempre ia assistir ao irmão mais novo ao lado da mãe.

Foi aí que sua mãe resolveu elogiar a comida.

— Querida, a comida ficou incrível! — Ela começou, parecendo realmente animada.

— É só macarrão com molho branco, mamãe. Não tem nada demais... — Rebateu, abrindo um pequeno sorriso por educação.

— Mas ficou tudo certo! O ponto do macarrão, o tempero do molho. Você é menina para casar, mesmo! — Sua mãe soltou, totalmente orgulhosa.

Sentiu-se despedaçando por dentro. Era sério, aquilo? Menina para casar? Menina?

Não conseguiu se segurar; levantou-se, mesmo que ainda não tivesse terminado de comer o que havia colocado em seu prato.

— Já terminei. — Foi tudo o que disse antes de sair e ir para seu quarto.

Trancou a porta e se jogou na cama, sentindo-se completamente frustrado. Sabia que sua mãe não tinha culpa, ela não fazia ideia da verdade, mas era impossível não sentir que sua identidade era arrancada de si a cada comentário daquele tipo. Sentia-se completamente deslocado, como se sequer pertencesse àquele mundo.

Precisava dar um jeito de mudar aquilo, de colocar um fim à prisão que drenava sua vontade de viver. E sabia que só existia uma forma de fazer aquilo acontecer.

Levantou-se e foi até a escrivaninha que ficava do outro lado do quarto, procurando por todos os porta-lápis e todas as gavetas até, finalmente, encontrar uma tesoura. Era uma tesoura dessas que usava no colégio, mas ia ter que dar conta do serviço.

Foi até o banheiro e encarou o próprio reflexo com olhos determinados. Soltou o coque que prendia seu cabelo, e os fios lisos caíram soltos sobre seus ombros. Quase alcançavam sua cintura, sua mãe vivia dizendo que queria que alcançassem logo, mas não chegariam mais até lá.

Pegou a primeira mecha em sua mão esquerda, segurando a tesoura com a mão direita. Experimentou cortar um pouco para testar a lâmina da tesoura, e descobriu que ela até funcionava bem. Assim, cortou mais um tanto, observando os fios negros caindo dentro da pia, sobre o balcão e pelo chão. Pegou mais uma mecha e fez o mesmo, e assim, repetiu o processo até não sobrar mais nenhum fio de cabelo comprido.

— Querida, está tudo bem? — Ouviu a mãe chamar, batendo à porta do quarto. — Largou o jantar e se trancou no quarto...

— Está sim, mamãe.

— Tem certeza?

— Tenho sim. Um minuto que já vou sair.

Não havia se preocupado em fazer um corte específico, só queria se livrar do excesso de cabelo. Assim que se viu no espelho com os fios curtos, mesmo que meio tortos, sentiu-se tão imensuravelmente melhor que seus olhos lacrimejaram.

Tentou acertar um pouco o corte, e até que gostou do resultado final. Não precisava ficar perfeito, depois pensaria nisso. Já estava tão bem, que não importava se não houvesse feito o melhor dos trabalhos.

Juntou a maior parte dos fios cortados e os jogou no lixo. Precisaria da vassoura para limpar o resto.

Era hora de reunir forças para sair dali e se mostrar para sua mãe e seu irmão. Era hora de contar toda a verdade, de lhes dizer que era um garoto. Se não entendessem, pelo menos não seria mais obrigado a aprisionar o que era e o que sentia.

Não sabia como eles iriam reagir, mas preferia enfrentar a reação deles a continuar se escondendo.

Correu uma mão pelos cabelos novos, sorrindo com a sensação de sentir os fios curtos em seus dedos, e respirou fundo, saindo do banheiro e indo até a sala, onde sua mãe assistia a alguma coisa na televisão com Jihyun. Como era sexta-feira, ele podia ficar vendo TV até mais tarde.

A senhora Park arregalou os olhos e deu um grito de susto quando viu sua filha aparecer com o cabelo curto, levantando-se imediatamente. Jihyun também parecia surpreso, encarando a figura da irmã mais velha ali mesmo, do sofá com olhos confusos.

— Querida, o que aconteceu?

— Não quero mais me esconder, mamãe. Estou cansado.

— O que...?

— Eu não sou uma garota, mamãe... Eu sou um garoto. Não sou sua filha, sou seu filho. Entende?

Viu-a parar ali mesmo, entre o sofá e sua figura, sem reação. Ela não parecia saber o que dizer, ou para onde olhar, ou o que fazer, ou sequer o que pensar.

— Meu Deus...

Assistiu-a se sentar na poltrona ao lado do sofá e enterrar o rosto em suas mãos. Sentia-se um lixo por fazer aquilo com ela, mas sabia que era necessário.

Foi até a poltrona, ajoelhando-se à frente de sua mãe e colocando as mãos sobre os joelhos dela.

— Me desculpe, mamãe. Mas este é quem eu sou, e não posso mudar quem eu sou. — Falava com a voz suave. — Juntei coragem e forças por anos para dizer isso para a senhora. Espero que entenda.

Não recebeu uma resposta logo de cara. O silêncio parecia não ter fim, e estava começando a temer o que aquilo poderia significar. Mordia o lábio inferior, ainda ajoelhado em frente a sua mãe.

— Mamãe...? — Precisou chamar, porque aquilo já estava agonizante.

Ao invés de receber uma resposta, sentiu os braços de sua mãe ao seu redor, abraçando-o apertado. Ficou completamente surpreso, sem sequer saber como reagir àquilo logo de cara.

Sentiu as lágrimas quentes em seu ombro e lacrimejou também, abraçando sua mãe de volta enquanto a ouvia dizer.

— Eu acho que, no fundo, eu sempre soube. É claro que eu entendo, querido. — Ouvi-la dizer aquilo aqueceu seu coração quase que imediatamente. — Sempre irei amar você, independente de qualquer coisa.

Não conseguiu responder. Não conseguia acreditar na sorte que tinha por receber aquela resposta. Abraçou-a ainda mais apertado, permitindo que algumas lágrimas escorressem por seu rosto.

— Obrigado, mamãe. Muito obrigado. Eu amo tanto a senhora. — Sussurrou, respirando fundo antes de se afastar e se levantar.

— Então... Eu tenho um hyung? ­­ — Ouviu Jihyun dizer e riu um pouquinho, olhando para o irmão mais novo.

— É... Não sou sua noona, Jihyun. Sou seu hyung.

— Uau! Então vamos poder jogar basquete juntos??

— Acho que sim! Se mamãe deixar. — Olhou para sua mãe com expectativa.

A senhora Park tinha o sorriso mais cheio de carinho do mundo em seus lábios.

— É claro que sim, querido. — Disse ela para o mais novo, antes de olhar para o mais velho. — Meu filho... E como deveríamos chamá-lo, a partir de agora?

Suspirou, genuinamente feliz. Jamais esperaria que a reação de sua mãe e seu irmão seria tão positiva.

— Gosto do nome que a senhora me deu. — Respondeu, sorrindo tanto que seus olhos viraram apenas duas pequenas fendas em seu rosto. — Ainda sou Park Jimin.

A senhora Park sorriu tanto quanto seu filho, abraçando-o novamente.

— Jimin, meu querido. — Ela disse. — Meu filho querido. Eu amo você.

2 de Julho de 2018 às 01:17 3 Denunciar Insira 8
Leia o próximo capítulo O garoto que voltou dos EUA

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JB Jack Blue
Fanfic mais cheirozinha e gostosa de acompanhar <3 Fico imensamente feliz de poder reler tudinho de novo, agora nessa nova plataforma <33
15 de Setembro de 2018 às 21:08
sofia castro sofia castro
A fic mais linda desse mundo todinho <3 boneco de cera sempre vai ser minha história preferida e eu
3 de Julho de 2018 às 13:37
Ray Ray
AAAAAAA NEM ACREDITO QUE TROUXE BDC PRA CÁ Ansiosa para ler o resto porque finalmente estou de férias. Essa fic é muito boa e tem uma escrita maravilhosa (assim como suas outras histórias rs).
1 de Julho de 2018 às 20:38
~

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