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mikokira Annie Hyeshi

Homens deveriam saber: perfeição não se cria ou se constrói, muito menos se atinge, porque ela não existe. Por mais que tentemos, a perfeição sempre estará fora do nosso alcance. Mãos ágeis e cérebros dotados são facilmente engolidos pela busca incessante ao inalcançável. Somos assim, afinal. Queremos o que não temos e desejamos mais ainda o que ninguém tem. Buscamos singularidade. Buscamos possuir a realização rara e seletiva nunca totalizada antes. Mas será que vale a pena sentir a perfeição... sem sentir mais nada?


Fanfiction Anime/Mangá Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#inuyasha #Robô #Kagomeandroid #SessKag #Sesshygome #heterossexualidade #Ficção-Científica # #universo-alternativo #angst #oneshot #sci-fi #drama
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Perfeito 01

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Notas: Desde já, gostaria de avisar que esta fanfic está postada também no site Spirit com o mesmo Nickname: MikoKira

Link: https://www.spiritfanfiction.com/historia/sinta-12816194

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Ele estava prostrado sobre a mesa de seu escritório já havia algumas horas. No objeto de madeira jaziam alguns papeis espalhados e amassados — com anotações que somente ele reconheceria —, juntamente de uma garrafa de uísque meio cheia e um copo semivazio ao seu lado direito. O notebook em sua frente já tinha entrado em modo de descanso alguns minutos atrás e nada mais podia ser visto além de uma tela preta e o rosto do homem refletido.

Observando mais de perto era possível ver as olheiras — já bem negras e fundas — abaixo dos olhos do homem de cabelos prateados. O mesmo fitava um ponto vazio qualquer em sua sala, com uma face que demonstrava total descrença. As íris douradas careciam de brilho, algo que já não era visto nelas há algum tempo.


A empregada da grande mansão era uma senhora de trinta anos bastante simpática e prestativa, porém, desde que seu pratão entrara naquele estado deplorável, ela limitava-se a entrar no local por não saber qual seria a reação dele, já que seu humor havia se tornado algo tão oscilante devido às bebidas alcoólicas que ingeria.

Ela dera algumas batidas na porta, chamando seu nome, contudo, nenhum som pôde ser ouvido do lado de dentro. A mulher respirou fundo e soltou o ar lentamente pelos pulmões antes de girar a maçaneta e adentrar o local.

E lá estava ele — mais um vez — bêbado e desacordado, pensara. Algo que tinha se tornado rotina naqueles últimos dias. Após entrar no cômodo e fechar a porta atrás de si, a moça notara o quão bagunçado aquele lugar estava. Precisava de uma faxina urgente. Notando que seu patrão estava quieto demais, com cuidado, fora até o homem que tinha seus braços e cabeça sobre a mesa e constatou que o mesmo estava ainda acordado. Ela suspirou aliviada pelo fato de ele ainda estar vivo. Só Deus sabe por quanto tempo ele continuaria de pé se continuasse tomando toda aquela quantidade de álcool por dia.

Naquele ritmo iria acabar indo a óbito devido a uma overdose.

Era realmente algo triste de se presenciar. Pior ainda era saber que já havia tentado de tudo para fazer com que o patrão parasse. Tentara várias abordagens diferenciadas, mas ele apenas trancava-se em seu escritório e em seu próprio mundo. Isolando-se de tudo e de todos.


Sesshoumaru Taisho era conhecido por ser um dos maiores cientistas de Tóquio no ramo da robótica, um dos mais jovens e respeitados também. O de madeixas platinadas desde sempre tivera uma paixão por tecnologia. Gostava de desmontar coisas apenas para remontá-las de volta. Tinha curiosidade por saber como funcionavam seus brinquedos de controle remoto e até mesmo os celulares de última geração.

Quando completou quinze anos, foi considerado um prodígio pelos professores de sua escola, com um grande futuro pela frente. E realmente não foi um equívoco pensarem daquela forma. Aos vinte e quatro anos, o Taisho já era o braço direito do CEO de uma das maiores empresas especializadas em robótica de sua cidade. Mas, no entanto, seu posto e autoridade estavam comprometidos nos últimos meses e isto devia ao fato da morte recente de sua esposa, Kagura.

Kagura Hirano morrera em um acidente de carro há dois meses atrás, quando voltava de seu trabalho. O que a perícia constatou foi que a mulher simplesmente fora fechada por um motorista de caminhão que dirigia bêbado e saiu do local sem prestar socorro, provavelmente por medo de ser preso. Graças às câmeras de segurança, os policiais puderam identificar o número da placa do caminhão e posteriormente encontrar o dono do veículo. O homem foi preso e agora cumpria sua pena, no entanto, aquilo não traria a mulher de volta.

Nem era preciso dizer o quanto o de olhos âmbares havia ficado furioso. Sua empregada ainda recordava-se muito bem do dia em que Sesshoumaru recebera aquela notícia. O homem parecia ter ficado mais branco do que já era e, pela primeira vez na vida, ela o vira perder o controle. Ele sempre fora alguém calmo e de poucas palavras, mas, naquele dia, deixou escapar todo o seu sentimento de raiva e angústia em forma de lágrimas. Copos foram quebrados e estantes foram derrubadas. Mas o pior de tudo... É que ele estava quebrado.

Doeu-lhe ainda mais quando soube — através dos legistas e um teste de gravidez que ela mesma havia feito —, que Hirano esperava um bebê. Era algo de quatro semanas ainda e provavelmente ela iria dar a notícia para o marido naquele dia.

A mulher que mais amava naquele mundo havia morrido e ele simplesmente não podia fazer nada em relação aquilo. Lamentava todos os dias pela perda de sua esposa. Bebia até não poder pensar mais e, só então, cair no sono. A bebida era a única coisa que fazia com que Sesshoumaru dormisse, a única coisa que o impedia de pensar e culpar-se por não ter conseguido, de alguma maneira, salvar sua esposa.

De que adiantava-lhe toda aquela sua inteligência se não podia nem mesmo salvar as pessoas próximas a ele? Ao pensar sobre isso ele entrou naquele estado depressivo, beirando ao fundo do poço. Não queria saber de visitas e nem mesmo atendia as ligações de sua mãe.

No começo, a empresa lhe dera uns dias de folga, apenas para poder recuperar-se do luto, mas logo Sesshoumaru passou a negligenciar seu trabalho. Seu chefe só não o demitiu porque sabia o quanto o Taisho era importante para aquele lugar. Ele sabia o quão longe o rapaz poderia levá-los, contudo, tinha medo de que o mais novo entrasse em uma depressão profunda e acabasse tirando a própria vida.

— Seres humanos são tão frágeis... — ele murmurou, finalmente preenchendo aquele escritório com algum som.

— Perdão? — indagou a mulher ao seu lado, enquanto tratava de recolher o copo e a garrafa sobre a mesa.

— Eles morrem com facilidade, se machucam e se desesperam... Sentimentos... Não passam de trivialidades que apenas servem para nos atrapalhar. Não seria maravilhoso se as pessoas não morressem ou não pudessem sentir nada, Midoriko?...

A empregada piscou os olhos algumas vezes, a fim de tentar entender do que seu patrão falava. Deveria estar delirando por conta do álcool, então limitou-se a responder somente o que achava que o mesmo gostaria de ouvir.

— Sim, senhor. Seria.

De repente, uma ideia veio à mente de Sesshoumaru. Viera tão rápido que até mesmo o fizera esquecer-se de que estava sob o efeito de bebida alcoólica e quase cair no chão quando ao se levantar da cadeira. Se perguntou várias vezes sobre o porquê de não ter pensado naquilo antes. Era tão óbvio que até mesmo xingou-se mentalmente por ter sido tão descuidado e deixado aquilo — quase — passar.

“Quão bom seria ter alguém por perto que você sabe que não vai sentir dor ou morrer?”, ele pensou.

Criaria o ser humano perfeito.

Afinal, o que poderia dar errado? O máximo que poderia acontecer seria dar algum erro no sistema de vez em quando e, mesmo assim, seria fácil de consertar e programar. Não teria que se preocupar caso a pessoa se machucasse, pois não sairia sangue. Não quebraria nenhum osso e muito menos ficaria doente.

Ele estava pensando grande. Grande até demais.

Aquilo exigiria um extremo esforço, horas de cálculos e estudos, mas ele, sem sombra de dúvidas, conseguiria trazer sua ideia para a vida real.



...



Três meses haviam se passado e Sesshoumaru ainda não tinha desistido de sua ideia de criar o ser humano perfeito. Muito pelo contrário, ele, durante todos os dias, trancava-se no laboratório que tinha em sua casa e de lá não saía mais, nem mesmo para comer ou dormir. Sua alimentação dependia única e exclusivamente de Midoriko, que fazia questão de trazer as refeições para o patrão, mesmo que ele não pedisse.

Antes de começar sua construção, o platinado comunicou seu chefe que estava trabalhando em um projeto totalmente novo e inovador. E que, por isso, não iria ao trabalho durante alguns dias. O homem mais velho em momento algum ficou bravo com o mais novo, na verdade ele ficara bastante animado e somente conseguiu demonstrar felicidade por saber que o platinado voltaria à ativa novamente.

Seu chefe sabia muito bem que, quando Sesshoumaru Taisho decidia trabalhar sozinho em casa, certamente algo muito bom e grande viria, apenas teria que saber lidar com toda aquela curiosidade e excitação que o assolaria naqueles dias.



...



No sexto mês, às exatas dezoito horas e quarenta e cinco minutos de um dia de quinta-feira, Sesshoumaru finalmente terminara sua mais nova obra prima. Tratava-se de uma Android de última geração.

Ele a detalhara com total perfeição. Seu corpo lembrava o de alguma modelo; os cabelos negro-azulados — acompanhados de uma franja perfeita — que ele fizera questão de mandar confeccionar em uma das melhores lojas especializadas em perucas no Japão; os olhos azuis, tão penetrantes que lembravam facilmente uma piscina ou mesmo o céu durante o dia; a boca muito bem delineada, juntamente de lábios em um tom rosado; braços finos e mãos delicadas, que provavelmente fariam com que as pessoas se perguntassem se ela era mesmo um robô.

Assim que terminara os últimos ajustes, o de íris douradas fora até algumas sacolas que havia deixado ao lado de sua mesa de trabalho e as abriu, tirando de lá um conjunto de roupa feminina novinho em folha que tinha comprado em uma loja.

Sem perder nem mais um segundo, Sesshoumaru começou a vestí-la: uma calça jeans preta, um suéter da cor creme e uma jaqueta da mesma cor da calça e, claro, não podia esquecer os sapatos. Sua android não podia sair pelas ruas de Tóquio descalça, não é? Por fim, ele pegara um par de botas marrom — que comprara na mesma loja — e então calçou-a.

E ali estava seu ser humano perfeito.

Estava ansioso, admitia, contudo precisava manter a calma, pois teria que saber como lidar com a frustração caso sua criação não fosse um sucesso como esperava. Durante aqueles meses houveram uma série de erros nos códigos que o impediam de completar seu objetivo. Algo não ligava, sobrecarregava ou explodia. Mas aquele modelo estava relativamente com todas as programações e números corretos. Então, só faltava-lhe testar.

Habilmente ele afastou os fios de cabelo detrás da nuca dela, levando sua mão até um botão azul que ali se encontrava. Apertou-o e em seguida a android começou sua “iniciação”.

Ela ainda estava conectada ao computador de Sesshoumaru, então a cada processo realizado, a voz robótica que saia de lá o avisava sobre como estavam as coisas no sistema daquele robô.

Processamento de dados concluído com sucesso. Modelo “Perfeito 01” está pronto para ser utilizado.

A máquina lentamente abriu seus olhos azuis — sem vida — e pode enxergar o homem à sua frente. Reconhecendo-o rapidamente devido às informações que haviam sido implantadas em seu sistema.

— Olá, Danna-sama — sua voz era robótica, mas, ainda sim, doce e feminina. — Em que posso lhe ser útil?

Sesshoumaru sorriu pelo canto do lábio. Ele conseguiu. Depois de vários erros, frustrações e noites mal dormidas ele finalmente conseguiu cumprir seu objetivo.

— Seja bem-vinda. — Ele aguardou, mas nada veio, então dera-se conta de que faltava algo. — Ah, sim, quase me esqueci. Você precisa de um nome para ser chamada — disse, levando a mão até o queixo, a fim de pensar em algo e eis que veio a ideia do nome sua mente. — Será Kagome. Lembro-me de ter lido, em minha infância, um mangá onde tinha uma protagonista com este nome. Gostava muito dela.

— Como quiser, Danna-sama — novamente ela respondeu cordialmente, fazendo uma breve reverência em seguida.


Quando Sesshoumaru levou Kagome até a empresa, os funcionários mal puderam acreditar no que viram. A android agia de maneira perfeita e tinha um amplo conhecimento de várias áreas — algo que o Taisho fez questão de coloca em seu sistema, para que ela ao menos soubesse um pouco de tudo.

Kagome podia resolver equações matemáticas muito rapidamente, montava e desmontava objetos com facilidade e precisão — algo que o platinado passara mais tempo investindo —, tornando sua presença bastante requerida quando tratava-se de coisas extremamente delicadas e precisas e ela também era bastante habilidosa na realização de primeiros socorros. O que tratava-se de um mero capricho de Sesshoumaru para torná-la ainda mais útil do que o normal.

Oras, se iria construir um robô perfeito, por que não adicionar coisas que as outras pessoas certamente necessitariam?

Midoriko sabia que seu patrão estava trabalhando em algo grande, mas não imaginava que fosse algo de proporção tão absurda quanto aquela. Ela confessou ter ficado realmente estupefata quando soube que aquela jovem era, na verdade, um robô e não um ser humano de verdade. A android era perfeita e quanto isso não restavam-lhe dúvidas. Kagome poderia ser facilmente confundida com uma modelo ou atriz japonesa e essa era uma das coisas que mais a chocava.

A única coisa que seu patrão lhe dissera sobre a garota foi: mantenha as portas sempre fechadas e não permita que ela saia de jeito nenhum. Não quero que outras pessoas que não sejam da empresa, a vejam por aí. Seria bastante problemático. Se houver qualquer problema com ela, avise-me rapidamente para que eu possa lidar com a situação o mais rápido possível.

O que mais a mulher poderia dizer depois de ouvir tudo aquilo? Apenas concordar com seu patrão, obviamente.


Na cozinha, Midoriko preparava o jantar daquela noite, como sempre, Sesshoumaru jantaria sozinho. Já que não havia ninguém além dele e a android naquela casa.

Kagome estava parada, próxima a alguma parede, observando com seus olhos artificiais a mulher mais velha cortando os legumes e as verduras habilmente com uma faca. Como se já tivesse feito aquilo milhares de vezes. Kagome era tão silenciosa que a empregada só a notou minutos depois, quando se virou a fim de ir até o outro armário.

— Oh, que susto! — Sobressaltou-se, colocando a mão sobre o peito logo em seguida. — Menina, não me assuste assim! — Suspirou.

— Você teve uma ação biológica que ocorre quando uma pessoa vê ou ouve algo inesperado, uma reação do corpo humano contra possíveis ameaças, que resulta no lançamento do hormônio adrenalina na corrente sanguínea? — a morena repetiu roboticamente, sem pausas.

— Bom, err... Sim...

— Não precisa sentir-se ameaçada. Danna-sama não me deu nenhuma ordem para atacá-la.

— Eu sei, é só que... — a mulher pensou em falar, mas logo desistiu. — Esqueça, não foi nada demais. — Sabia muito bem que era inútil tentar explicar algo como aquilo para uma máquina.

Ao voltar ao que estava fazendo, Midoriko sentiu o olhar de Kagome ainda sobre si e estava ficando desconfortável de certa forma. Por mais que a android não fosse humana, sentia-se culpada por ignora-la em certos momentos, então ela soltou um longo suspiro e, por fim, disse:

— Kagome, gostaria de aprender a cozinhar?

— Cozinhar? Fala do ato de preparar (alimentos) através da ação do fogo ou de qualquer outro processo? — Com um sorriso meio amarelo, a empregada concordara. — Talvez não consiga realizar este trabalho com perfeição, pois em meu sistema não há registros de habilidades culinárias.

— Tudo bem, querida. Não há problema nenhum em não ser perfeita. — A mais velha sorriu.

A morena pendeu a cabeça para o lado, sinalizando seu total desentendimento quanto ao que a outra mulher afirmara.

— Não há? — A outra negou com a cabeça.

Confusa, Kagome aproximou-se do balcão onde estava Midoriko e passou a prestar total atenção em seus movimentos e, posteriormente, tentando realizar os procedimentos como ela indicava. A mais nova errara várias vezes seguidas e quando estava, mais ou menos na quinta tentativa, ela acabou cortando a pele de seu polegar.

— Meu Deus, espere aqui! Vou pegar algo para estancar o sangue! — Antes que a mais velha pudesse girar nos calcanhares e sair do local, Kagome segurou seus ombros com uma das mãos robóticas.

— Está tudo bem — disse enquanto mostrava o dedo cortado para a outra. — Não há sangue. Apenas o tecido sintético foi cortado. Danna-sama pode resolver isto.

Midoriko suspirou aliviada. Por poucos segundos esquecera-se de que a garota não era um ser humano. Não tinha com o que se preocupar, afinal de contas. Era apenas uma máquina que não sentia coisa alguma.

Kagome pediu licença, avisando que iria ao encontro de seu mestre e ao chegar em frente a porta de seu escritório ela dera algumas batidas na porta.

— Quem é?

Danna-sama, sou eu. Preciso de reparos. — Sesshoumaru abriu a porta rapidamente.

— O que hou-... — Ela mostrara o polegar onde o tecido havia sido cortado e ele suspirou aliviado. — Por Deus, Kagome... Achei que tivesse sido algo mais sério. Não me assuste assim.

— Perdão, Danna-sama. Parece que estou assustando muitas pessoas hoje.

— Do que está falando? — quis saber ele.

— Midoriko assustou-se comigo na cozinha. Talvez seja um defeito-...

— Não é um defeito. Fique tranquila. Vamos até o meu laboratório e consertar seu dedo.


Já no laboratório, Sesshoumaru pegou suas ferramentas e tratou logo de concertar aquele tecido cortado. Graças a Deus Kagome era incapaz de sangrar e sentir dor, não fosse por isso o estrago seria bem feio, já que uma boa quantidade de tecido fora arrancado.

Ao final do processo, Midoriko dera algumas batidas na porta e avisou seu patrão de que o jantar já estava pronto e que, se ele quisesse, já poderia ir para a mesa. Ele agradeceu a mulher e disse que em poucos minutos estaria lá.


Kagome estava sentada em uma posição impecavelmente ereta, com o olhar sempre a sua frente, não desviando uma vez sequer. A android não emitia nenhum tipo de som ou ruído, muito menos tentava conversar com seu mestre. Afinal, como poderia? Não fora criada para conversar, mas sim para ser perfeita.

Taisho a observava, em partes vangloriando-se mentalmente por ter conseguido criar Kagome, mas em outras, perguntava-se se aquela realmente teria sido a coisa certa a se fazer. Desde o início, seu plano inicial era criar um ser humano que não sentisse coisa alguma e que assim pudesse ficar ao seu lado sem que ele tivesse que se preocupar com futuros acidentes, doenças e etc. E, claro, ajudar em seus futuros trabalhos. Entretanto, recentemente havia recebido a oferta de construir mais modelos como o de Kagome. Disseram-lhe que seria extremamente útil para a humanidade, que algo como aquilo não deveria ser tão “exclusivo” e mantido em segredo, e que o mesmo acabaria mais rico do que já estava se aceitasse aquela proposta tão grandiosa.

Ele pediu tempo para pensar. Disse que, como era a primeira vez, manteria a android sob observação para que assim, pudesse dar total segurança as pessoas que lhe pagariam e as que comprariam. Quem iria querer que algo perfeito viesse com algum defeito, não é? Os acionistas concordaram e decidiram dar-lhe o tempo que ele julgava ser necessário para concluir suas observações.

Tendo isso em mente, Sesshoumaru decidiu dobrar a atenção sobre Kagome e todos os seus atos. Até os mínimos, fazendo questão de não deixar passar nada.



...



Danna-sama — chamou Kagome ao entrar no escritório de seu mestre.

Já passava das onze horas da noite, porém Sesshoumaru permanecia acordado. Nunca fora de dormir cedo e também era workaholic.

— Sim? — perguntou enquanto digitava algo, sem desviar o olhar da tela de seu notebook.

— Quem é Kagura?

Na mesma hora ele parou de digitar, posteriormente fitando a android com mais atenção e um leve estreitar de olhos.

— Onde ouviu esse nome?

— Entrei em seu quarto a procura do senhor, mas não estava, então vi um livro sobre a cama, ao abri-lo, constatei que tratava-se de seu diário pessoal.

— E você o leu? — quis saber ele.

— Sim.

Sesshoumaru suspirou audivelmente e massageou as têmporas antes de dizer algo.

— Não devia ter feito isso, Kagome. — Fitava um ponto qualquer.

— Por que, Danna-sama? — indagou, enquanto, novamente, inclinava a cabeça para o lado.

— Porque não é da sua conta, é por isso! — alterou seu tom de voz, mas a jovem nem sequer moveu-se. — Não mexa nas coisas que não são suas, me ouviu bem?! — gritara novamente.

— Sim, Danna-sama. Como quiser.

E lá estava aquela voz robótica e sem vida novamente.

Faziam três meses — desde sua criação — que Kagome estava em processo de observação. Ela era realmente uma máquina perfeita. Podia obter qualquer informação que fosse, apenas para algo rapidamente. Sua capacidade de aprendizagem era excepcional. Não necessitava de comida, dormir ou tomar banho. Por fim, se Sesshoumaru não quisesse que ela se movesse mais ou falasse, bastava apenas desliga-la.

O único problema era que, se não lhe impusessem limites, a android absorveria qualquer informação que fosse, sem nem mesmo pensar duas vezes. Como esta.

Sesshoumaru odiava que mexessem em suas coisas sem a sua permissão, ainda mais em coisas tão pessoais como aquela. Era como declarar automaticamente uma guerra com o mesmo.

— Saia. — disse, por fim.

— Sim, Danna-sama. — Após respondê-lo ela se retirou do local.


O Taisho andava de um lado para o outro em seu quarto, pensando sobre o que dissera horas atrás para Kagome. Ela não tinha culpa. Não tinha como saber que não devia mexer em seu diário, afinal nunca lhe dissera nada sobre ele. Além do mais, não era como se ela fosse uma fofoqueira e saísse espalhando para todos, era um robô afinal de contas.

Sentou-se em sua própria cama, suspirou e em seguida chamou Kagome através de seu celular – onde continha um dispositivo no qual ele poderia chama-la quando quisesse, sem necessidade de ir até a mesma ou gritar seu nome.

Ouviu batidas na porta e mandou-a entrar.

— Pois não, Danna-sama?

Ele a fitou. Tão inexpressiva e bela quanto uma boneca de porcelana. Das mais caras, ele ressaltara. Não havia nada no mundo igual a ela. Era única. Contudo, o fato de Kagome beirar a perfeição humana, causava um certo desconforto em Sesshoumaru. O fato de ele ter gritado com ela o incomodou. Foi como se estivesse explodindo com uma garota humana comum e que a qualquer momento choraria devido a sua grosseria.

Mas este não era o caso. Ela não demonstrava nenhum tipo de emoção sequer e, ele não sabia explicar, mas, de certa forma, ficava incomodado com aquela falta de sentimento por parte dela.

— Kagome, sente-se aqui. — Dera duas batidas leves em seu colchão, indicando onde ela deveria sentar.

A morena foi até ele e sentou-se no local indicado, novamente com sua posição impecável, apenas virando seu rosto para encara-lo.

— Me desculpe por hoje mais cedo... — Ele a viu inclinar a cabeça para o lado, já sabendo o que aquilo significava.

— O que é “desculpe”, Danna-sama?

— Desculpe é algo que alguém diz quando faz algo errado, ofende alguém, magoa ou mexe em suas coisas sem sua permissão — explicou calmamente.

— O que é “ofender” e “magoar”? — Ele rira com a falta de conhecimento dela.

— Ofender é quando você machuca alguém. Pode ser fisicamente ou verbalmente. Magoar é quase a mesma coisa.

Ela piscou os olhos robóticos mais uma vez.

Danna-sama me ofendeu ou magoou? — quis saber.

— Bom... Sim. De certa forma...

Kagome ficara em silêncio durante alguns segundos sem esboçar qualquer tipo de reação que fosse. Como se tivesse sido congelada no tempo enquanto olhava para algum lugar a sua frente, no então ela logo voltou a se mexer, deixando seu mestre aliviado, este achava que ela estava com algum defeito.

— Não sei como funciona, Danna-sama. Por favor, atualize meu sistema para que eu possa compreender melhor essas palavras e agir como o senhor deseja.

Sesshoumaru suspirou pesadamente. Não fazia o menor sentido querer explicar aquilo para uma android como ela. Máquinas não se ofendem e muito menos ficam magoadas por conta das ações dos seres humanos. Elas apenas continuam agindo como se nada tivesse acontecido. Ao pensar sobre isso, o albino se achou ridículo por ter pedido desculpas para algo não humano. E então, lembrou-se mais uma vez do propósito de ter criado Kagome: Não sentir.

Sim, ele queria algo que não sentisse. E ele conseguiu.

— Esqueça. Isto não é importante.

Danna-sama, o senhor deve ativar a opção de “esquecimento” no dispositivo contido em seu aparelho celular para que, toda e qualquer informação que o senhor não deseja que eu saiba, seja devidamente apagada. — Ele cerrou os punhos.

— Não há necessidade. Apenas continue do jeito que está, Kagome.



...



Sesshoumaru estava parado em frente ao túmulo de Kagura. Naquele dia em questão, faziam exatamente nove meses que a mulher falecera juntamente de um herdeiro seu. Na lápide continham as informações básicas como: Nome completo, data de nascimento e morte. E, claro, alguma frase genérica qualquer como “descanse em paz”.

O cientista não era alguém religioso e muito menos acreditava naquela teoria de Céu e Inferno. Somente deixara aquela frase ali a pedido dos pais de Hirano.

Sesshoumaru conhecera poucas mulheres durante seus vinte e dois anos e poderia afirmar com toda a certeza que qualquer uma que veio antes de Kagura era irrelevante. Ele a conheceu na faculdade e depois de algumas conversas começaram a passar mais tempo juntos e posteriormente acabaram por namorar. Quando se formaram, tratou logo de pedi-la em casamento. Tiveram uma linda cerimônia e viviam um vida de casados muito feliz, até o dia do acidente.


O platinado observava o objeto de mármore com pesar em seus olhos era de manhã, mais ou menos umas oito e meia. Os raios solares transmitiam uma temperatura agradável em sua pele e o vento sobrava gentilmente enquanto balançava seus cabelos. Kagome estava a alguns passos atrás de seu mestre, mas, por mera curiosidade, decidiu se aproximar e observar suas feições. Ela notara que sua atual expressão era diferente das outras que já tinha visto nele. Seu semblante estava baixo, com a franja cobrindo seus olhos e deixando uma sombra sobre os globos oculares. A morena não conseguia entendê-lo.

— Lembra-se do dia em que me perguntou quem era Kagura? — ele perguntou.

— Sim, Danna-sama.

— Ela está aqui. — Kagome piscara.

— Onde?

— Debaixo do chão — disse com um tom de amargura em sua voz, que obviamente passara despercebido pela máquina ao seu lado.

— Devo retira-la? — perguntara inocentemente, algo que fez Sesshoumaru rir por breves segundos.

— Não... Ela já não está mais entre nós. — Sorriu tristemente. — Está morta.

— O que é “morta”, Danna-sama?

— É quando uma pessoa deixa de “funcionar”, Kagome.

— Se ela deixou de funcionar o senhor pode consertá-la, certo?

— Infelizmente não... — disse com pesar. — Humanos não podem ser consertados... E é isso que... Doí tanto...

A jovem máquina viu algo sair dos olhos de seu mestre que a lembrava água. Não tardou para que ela se colocasse em sua frente e segurasse seu rosto — firmemente — entre as mãos metálicas revestidas com pele falsa.

O de íris douradas a encarou, um tanto quanto surpreso por Kagome ter agido daquela forma por conta própria. Ele realmente não esperava que ela tivesse aquele tipo de atitude sem que pedisse.

Danna-sama, o senhor está vazando. Por que está vazando? Precisamos interromper este vazamento o mais rápido possível. — Ao tirar as mãos do rosto do albino a fim de sair dali e procurar algo para interromper o “vazamento”, a morena teve seu corpo puxado na direção do dele, chocando-se com o mesmo no processo.

Ela permanecera imóvel e sem reação alguma, enquanto o homem a sua frente apertava seu corpo metálico conta o dele próprio. Não estava compreendendo. Em seu sistema não haviam informações que lhe indicassem do que aquilo se tratava. Seu mestre estaria fazendo algum ajuste? Seria algum tipo de atualização?

— Apenas fique aqui e não se mova — ele pediu.

A android entendeu a ordem e apenas concordou.

— Sim, Danna-sama. Não sairei daqui até que o senhor peça. — Permanecera imóvel.

— Kagome...

— Sim, Danna-sama?

— Me abrace... — pedira, quase em súplica.

— O que é “abraçar”?

Depois daquela pergunta, Sesshoumaru não conseguiu dizer mais nada, apenas chorar silenciosamente. Algo que somente a garota de madeixas negras podia ouvir.



...



Um ano se passou e durante aquele tempo o Taisho decidiu que não aceitaria a proposta para criar mais “Kagome’s”. Seu chefe surtou e, por pouco, não o demitiu, contudo o albino apenas disse-lhe que não tinha a menor intenção de entregar aquela máquina nas mãos da humanidade.

Sim, Kagome tornara-se algo precioso para Sesshoumaru. Algo que ele queria e manter ao seu lado. Não conseguia nem sequer cogitar a possibilidade de haverem mais como ela pelo mundo. A android era tão única que acabou tornando-se uma parte dele. Uma parte que ele não gostaria de dividir com nada e nem ninguém. Era apenas sua.

Ele acostumou-se à presença dela. Acostumou-se a tê-la ali. Todos os dias. Vez ou outra fazendo alguma atualização em seu software para que ela soubesse mais coisas do que já sabia. O jovem cientista, apenas por mero capricho seu, tratou de atualiza-la com a opção de “abraçar”. Assim, sempre que ele pedisse, ela poderia realizar aquele ato facilmente, sem perguntar do que se tratava. Também pedira a ela que não o chamasse mais de mestre, mas sim, pelo seu primeiro nome e apenas por ele.

— Kagome, quero que me abrace — disse o homem em pé, próximo a própria cama.

— Sim, Sesshoumaru. — Imediatamente ela obedecera aquela ordem.

O homem apertou mais o corpo metálico contra si. Queria poder sentir seu calor, mas sabia que era impossível. Ela não era um ser vivo, por tanto, aquele desejo estava longe de ser atendido.

— Kagome... Quero que me beije — ordenara.

— Desculpe, Sesshoumaru. Esta opção não se encontra em-...

A android não pôde terminar sua frase pré-programada, pois teve os lábios selados pelos de seu mestre.

Ele tentou dar início a um beijo, mas o máximo que conseguiu fora o contato gélido de sua pele com o metal. Não tinha o gosto que desejava sentir, não havia calor e muito menos sentimentos.

Chorou. Chorou de raiva, desespero e frustração. Conseguiu criar o humano perfeito, mas de que lhe adiantava isso agora? Porque o “Sentir” era tão importante? Porque queria que ela o correspondesse?

— Droga, Kagome! — ralhou enquanto segurava seu rosto firmemente. — Me beije, droga! Estou mandando! Sinta algo!

— Desculpe, Sesshoumaru. Esta opção não se encontra em meu sistema — repetira roboticamente.

Quando dera-se conta do que estava pedindo, o Taisho finalmente entendeu porque queria que ela o corresponde-se e, certamente a resposta não era a melhor. Estava apaixonado por ela. Por um robô, uma máquina. Por sua criação. E aquilo era desesperador.

Sentiu seu peito apertar. Como pudera cometer um erro desses? De todas as pessoas do mundo, porque tinha que ser justamente alguém que ele criara para não sentir?

— Sesshoumaru, meu sistema diz que o senhor está chorando e que, neste caso, devo agir. — Ela levara as mãos até o rosto dele e passou as mãos frias por seu rosto. Lentamente secando suas lágrimas. Uma por uma. — Sesshoumaru, não se preocupe. Tudo irá ficar bem. — Kagome sorriu gentilmente. Não um sorriso real, mas algo que havia sido programado. Tratava-se de uma das recentes atualizações que o platinado fizera. — Se deseja que eu realize a função “beijar”, atualize meu sistema para que, assim, eu possa serví-lo como o senhor deseja.

O albino voltou a chorar enquanto segurava as mãos gélidas contra seu rosto. Ele sabia que não poderia mais continuar com aquilo. Sabia muito bem que já tinha ido longe demais e sentir aquele tipo de coisa por uma máquina não era normal e muito menos saudável.

Porque tinha que criar uma android tão perfeita como aquela? A troco de quê? Sua saúde mental devia estar completamente comprometida naquele momento. Perguntava-se se valia realmente a pena continuar com tudo aquilo ou se deveria parar enquanto ainda restava um pouco de sua sanidade.

Por fim, Sesshoumaru cerrou os olhos, passou a mão lentamente pela de Kagome, passando por seu braço e levando-a até os cabelos negro-azulados da jovem. Massageou alguns fios e depois os afastou com cuidado, levando seu membro superior até a nuca da garota.

— Kagome...

— Sim, Sesshoumaru?

— Diga: eu te amo — pedira.

Eu te amo.

Preparando para desativar o sistema permanentemente. Deseja continuar com a ação? — perguntou a voz vinda do dispositivo em seu celular.

Sesshoumaru olhou nos olhos azuis antes de responder aquela pergunta:

— Sim.



Ação realizada com sucesso. O Sistema “Perfeito 01” foi desligado permanentemente.

30 de Junho de 2018 às 21:33 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Annie Hyeshi 21 / Ficwriter / Ficreader / Capista do blog Animes Design Hufflepuff / Otaku / InuYashaTrash / A.R.M.Y / MooMoo / BABY / BLINK / OneOkRockFan / AllKagome, KageHina, KuroTsukki, BokuAka, BoKuro, KuroAka, DaiSuga, IwaOi Shipper / Suga Ultimate Biased / Taegi, Yoonkook, Taekook & Jihope shipper (bem encubada) Pedidos de capas somente no Animes Design.

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