samuelpalmeira Samuel A. Palmeira

"Além das Montanhas" é uma reinterpretação contemporânea e culturalmente enriquecida do mito da caverna de Platão, ambientada em um contexto completamente novo e distinto. Esta história transpõe o tema filosófico de iluminação e conhecimento do mito original para uma aldeia africana enraizada em tradições e crenças mágicas, dando-lhe um frescor narrativo que dialoga com questões de desenvolvimento, modernização e o conflito entre o novo e o antigo. No coração da narrativa, está a jornada de Kofi, cuja experiência é análoga à do prisioneiro que se liberta na alegoria de Platão. Assim como o prisioneiro que se liberta das correntes e ascende da escuridão da caverna para a luz do conhecimento, Kofi sai da limitação cultural e espiritual de sua aldeia para descobrir um mundo transformado pela tecnologia, que ele inicialmente interpreta como mágico devido à sua falta de familiaridade com tais conceitos. Ao retornar à sua aldeia, Kofi enfrenta a mesma resistência e incompreensão que o prisioneiro libertado de Platão enfrenta ao voltar para a caverna. Seus conterrâneos, ainda "acorrentados" às suas percepções limitadas da realidade (as sombras na parede), veem a revelação de Kofi não como uma oferta de liberdade, mas como uma ameaça ao seu modo de vida estabelecido. A história, portanto, não apenas repete o tema do mito da caverna sobre o desafio de compartilhar a verdade recém-descoberta, mas também explora as implicações sociais e culturais dessa tentativa de iluminação em um contexto moderno e realista. Por fim, "Além das Montanhas" serve como uma meditação sobre a persistência da ignorância e o custo do conhecimento em um mundo onde as verdades antigas e as novas descobertas frequentemente colidem. Esta história convida os leitores a refletir sobre suas próprias "cavernas" e considerar o que significa realmente "ver a luz" em diversos contextos sociais e culturais.


#17 em Fantasia Todo o público.

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A travessia de Kofi


Prólogo: Sob as Sombras da Mata Espessa


No crepúsculo que cobria a mata densa, cada sombra parecia tomar vida, retorcendo-se sob os pés cansados de Kofi. O chão úmido sob sua corrida emitia um cheiro terroso, misturado ao aroma pesado das folhas apodrecidas. Ele corria, o coração pulsando tão alto que quase abafava o som de seus perseguidores.


— Mais rápido, Kofi! Eles estão se aproximando! — a voz de seu irmão menor, Ebo, ecoando entre as árvores retorcidas.


Os tambores distantes da aldeia vibravam como um trovão ameaçador, marcando não apenas o ritmo da dança do vodu, mas também a intensidade da perseguição. A magia negra era a língua dos esquecidos e dos desesperados, e nesse momento, os feiticeiros da tribo a usavam para chamar os espíritos contra o desertor.


Kofi, com a respiração irregular, esquivava-se de raízes e galhos, uma dança perigosa na penumbra. Ele sabia que a mata estava repleta não só de perigos naturais, mas também de criaturas que, segundo as histórias dos anciãos, alimentavam-se das almas dos imprudentes. Mas o medo do desconhecido era menor que o terror de ser capturado e arrastado de volta.


Um grito lancinante rasgou o ar, um aviso de que os espíritos invocados tinham se materializado, servos sombrios daqueles que não permitiriam que Kofi escapasse de seu destino pré-escrito. Sua mente girava com o peso da decisão de abandonar tudo o que conhecia em busca de um mundo além dos limites impostos pelas montanhas que cercavam sua aldeia.


— Kofi, olhe!


O aviso de Ebo chegou tarde demais. Do meio das sombras, uma figura alta e distorcida emergiu, seus olhos brilhando com uma luz vermelha maléfica. Era um espirito da mata, invocado para guardar os segredos da tribo e punir os traidores. Com um movimento fluido, a criatura lançou uma mão em direção a Kofi, seus dedos alongados como galhos secos.


Kofi se jogou para o lado, sentindo o ar frio da mão da criatura passar por seu rosto. Ele rolou pelo chão, a lama sujando sua pele, e se levantou com dificuldade. Ebo estava paralisado de terror, os olhos arregalados, incapaz de se mover.


— Corra, Ebo! Não pare! — gritou Kofi, encontrando forças que não sabia ter. Ele agarrou o braço do irmão, puxando-o consigo enquanto recomeçavam a corrida desesperada pela sobrevivência.


Esquivando-se de um destino selado por tradições ancestrais, Kofi corria não apenas por sua vida, mas pela promessa de um novo amanhecer, um lugar onde a luz da verdade dissiparia as sombras da superstição.


1. Kofi de Bokor

Num país esquecido por muitos, encravado nas dobras sinuosas de montanhas áridas e vales sombrios da África, ergue-se a aldeia de Bokor. Em meio a esta paisagem severa, onde o sol apenas espreita por entre nuvens carregadas, vive Kofi, um jovem robusto de espírito inquieto. A vida em Bokor é de extrema pobreza e uma religiosidade que transborda os limites do fervor para tocar as raias do fanatismo.


Kofi, como todos os jovens de sua idade, foi criado sob o manto pesado do voodoo, uma crença que permeia cada aspecto do cotidiano da tribo. Não há evento, seja alegre ou trágico, que não seja atribuído à influência dos espíritos e das forças ocultas que, segundo os anciãos, regem o destino de todos. A magia negra é tanto uma ferramenta quanto uma ameaça, usada por feiticeiros para curar, proteger, e também para amaldiçoar aqueles que se desviam dos caminhos prescritos.


Na aldeia, as cabanas de barro estão agrupadas como se buscassem conforto umas nas outras contra o vento implacável. Os homens e mulheres de Bokor passam os dias entre o trabalho árduo nos campos escassos e as cerimônias espirituais que prometem tanto bênçãos quanto maldições. Crianças correm descalças, rindo em meio à sua inocência breve, enquanto os velhos, de rostos marcados pelo tempo, observam com olhos que tudo veem.


Kofi, desde cedo, demonstrou uma curiosidade que o diferenciava dos demais. Enquanto os outros aceitavam as explicações sobre os espíritos e o poder dos feiticeiros sem questionar, ele se perguntava o que haveria além das montanhas que cercavam Bokor. Sua mente inquieta o levava a questionar os ensinamentos dos anciãos e a natureza das cerimônias vodu, o que frequentemente o colocava em posição de suspeita.


A magia em Bokor não era apenas uma crença, era a realidade em que todos respiravam. Feiticeiros, respeitados e temidos, eram frequentemente vistos traçando símbolos na terra ou murmurando encantamentos, usando amuletos carregados de mistério e poder. As noites eram um teatro de sombras dançantes ao redor das fogueiras, onde histórias de espíritos e deuses eram contadas como advertências ou lições.


Porém, apesar da opressão espiritual e física, havia beleza em Bokor. A beleza estava na simplicidade das relações, no compartilhar do pouco que se tinha, e no profundo senso de comunidade. Kofi, embora sonhasse com horizontes distantes, amava sua aldeia. Mas ele sabia que, para realmente amar Bokor, ele precisava primeiro entendê-la completamente — mesmo que isso significasse desafiar os próprios fundamentos de sua existência.


2. A Decisão de Partir

Numa manhã em que o sol lutava para romper o véu de nuvens pesadas, Kofi reuniu os moradores de Bokor na sombra longa do Baobá sagrado. Com a voz firme, porém carregada de uma emoção palpável, ele anunciou sua decisão de cruzar as montanhas e explorar o mundo além daquelas fronteiras rígidas e sufocantes.


— Irmãos e irmãs, o espírito de nossos ancestrais foi explorador e corajoso. Assim como eles, preciso ver o que existe para além do horizonte que nos contém — disse Kofi, olhando nos olhos de cada um dos presentes.


As reações foram imediatas e variadas. Muitos mais velhos balançavam a cabeça em desaprovação, murmurando sobre os perigos dos espíritos descontentes e das terras desconhecidas que devoravam os homens imprudentes. Uma das matriarcas da tribo, Mama Ayo, avançou com passos lentos, a preocupação marcada em cada ruga de seu rosto.


— Kofi, o mundo lá fora pode ser um abismo maior do que qualquer escuridão que conhecemos aqui. Temos medo por você, filho. Temos medo do que pode perder — sua voz era um sussurro rouco de temor e carinho.


Por outro lado, alguns jovens, com olhares inflamados pelo mesmo desejo de aventura, apoiavam Kofi, vendo nele o herói de suas próprias aspirações reprimidas. Ebo, sempre ao lado do irmão, afirmou com uma convicção que surpreendia pela sua tenra idade:


— Eu irei com Kofi. Precisamos saber se as histórias dos anciãos sobre os perigos além das montanhas são verdadeiras ou apenas estórias dos antigos..


3. A Jornada

Dia 1:

Hoje, deixamos Bokor ao raiar do dia. As primeiras horas de caminhada foram silenciosas. As montanhas se erguem diante de nós, majestosas e temíveis. Sinto uma mistura de temor e entusiasmo. Ebo mantém o ânimo, cantarolando canções de viagem.


Dia 3:

À medida que subimos, a vegetação se torna mais rala e o ar mais frio. Os desafios são implacáveis; uma tempestade nos surpreendeu, e tivemos que buscar abrigo sob rochas. À noite, uma estranha névoa desceu, e juramos ouvir vozes sussurrantes ao vento. Seriam os espíritos da tribo tentando nos dissuadir?


Dia 5:

Hoje enfrentamos nosso maior teste. Um deslizamento de terra bloqueou nosso caminho, e enquanto buscávamos uma rota alternativa, fomos atacados. Não por homens, mas por sombras que tomavam forma, frias e implacáveis. Eram os feiticeiros de Bokor, enviando sua magia para nos alcançar. Com gritos e encantamentos de proteção que Ebo aprendera secretamente, conseguimos dispersar as sombras.


Dia 7:

Continuamos a subir, os picos das montanhas agora à vista. Cada passo parece nos afastar mais de Bokor, mas nos aproxima de algum conhecimento ancestral, quase esquecido. Penso nos avisos de Mama Ayo, e uma parte de mim teme o que encontraremos no cume. Mas não podemos voltar agora.


Com cada dia que passa, nossa jornada se desdobra como um mapa de descobertas e perigos, uma trilha que estamos determinados a seguir, não importa o que nos aguarde. Continuamos, guiados pela promessa de desvendar mistérios há muito velados pela bruma do desconhecido.


4. Deserto

Dia 12:

Após semanas de incertezas e desafios quase insuperáveis, chegamos a um vale que, segundo as lendas de Bokor, era um deserto estéril e inóspito. Mas diante de nossos olhos, se desdobrava um panorama que desafiava toda e qualquer expectativa: um oásis vibrante, repleto de plantações florescentes e máquinas que se moviam com uma vida própria. A água corria em canais brilhantes, e grandes estruturas metálicas espalhavam uma névoa fina que fazia arco-íris no ar contra a luz do sol.


O choque de Kofi foi palpável. Nunca, em seus sonhos mais ousados, ele imaginara algo assim. As plantas cresciam em fileiras perfeitas, mais altas e mais verdes do que qualquer vegetação em Bokor. As máquinas, algumas com braços longos e outras que pareciam percorrer as fileiras de plantas sozinhas, eram como criaturas de um outro mundo. Kofi tocou em uma das folhas, meio esperando que ela se dissolvesse ao contato, como um fantasma.


— Ebo, isso... isso é magia? — sua voz era um sussurro de admiração e medo.


— Não, irmão — respondeu Ebo, igualmente maravilhado, mas tentando entender o que viam. — Acho que são os frutos do conhecimento que os anciãos disseram que nos destruiriam.


Passaram o dia explorando o vale, observando com cautela os trabalhadores que operavam as máquinas. Eram homens e mulheres de pele clara, falando uma língua que Kofi e Ebo não entendiam, movendo-se com um propósito que parecia tanto ritualístico quanto prático. A tecnologia, tão avançada e estranha, era para Kofi um tipo de magia superior — uma magia que transformava desertos em jardins sem a necessidade de encantamentos ou sacrifícios.


Kofi sentou-se sob uma árvore ao entardecer, o céu pintado de cores que pareciam celebrar sua chegada nesse novo mundo. Ele pensava:


“Hoje, meus olhos viram o impossível. As lendas de Bokor falavam de um deserto, mas encontramos um jardim. A magia que os anciãos temem, eu a vi hoje com meus próprios olhos, mas não é como nossa magia. É uma magia de conhecimento e de luz. É a prova de que o mundo é mais vasto e mais maravilhoso do que nos contaram.”


Enquanto a noite caía, uma mistura de emoções tomava conta de Kofi. A curiosidade o impelia a aprender mais sobre esse lugar mágico, sobre como essa tecnologia poderia talvez mudar a vida em Bokor. Ele sabia que não poderia simplesmente voltar para casa sem entender completamente o que tinha visto. Havia muito a aprender, muito a explorar. Por ora, ele e Ebo decidiram ficar, observar, e aprender. A jornada de Kofi tinha levado a um mundo novo, e ele estava determinado a desvendar todos os seus segredos.


5. Confronto com a Realidade

Dia 40:

Depois de semanas imersos no estudo daquele milagre tecnológico, Kofi sentia que era hora de retornar. Ainda que o vale tecnológico tivesse muito a oferecer, seu coração pesava com a responsabilidade para com sua aldeia. Ele queria levar de volta um conhecimento que poderia transformar Bokor, elevando-a de seu estado de miséria e superstição.


— Ebo, precisamos voltar. Nosso povo precisa saber que há mais no mundo do que as sombras que conhecem — disse Kofi, enquanto preparavam seus pertences para a jornada de volta.


A viagem de retorno foi marcada por uma mistura de antecipação e receio. Kofi ponderava como apresentaria suas descobertas sem alarmar ou alienar sua gente. Ele sabia que a verdade poderia ser perturbadora.


6. O Retorno e o Confronto


Dia 50:

Ao regressar a Bokor, o recebimento foi frio e desconfiado. As expressões nos rostos dos aldeões eram de curiosidade mesclada com medo, como se ele tivesse trazido consigo algum espírito maligno das terras desconhecidas.


Kofi reuniu a aldeia, assim como fizera antes de partir, e começou a relatar suas experiências. Ele falou das máquinas que plantavam e colhiam, da água que fluía através do deserto como magia, transformando-o em um jardim fértil.


— Irmãos e irmãs, as histórias que ouvimos como crianças sobre os terrores além das montanhas... elas não são inteiras. Há maravilhas no mundo que podem nos ajudar, nos curar e nos fortalecer — explicou Kofi, com paixão fervorosa em seus olhos.


No entanto, suas palavras foram recebidas com uma hostilidade crescente. Mama Ayo, a matriarca, ergueu a voz, tremendo de indignação:


— Você fala como um possuído, Kofi! Trouxe para nós as palavras de estranhos que desafiam os espíritos. Quer nos levar à ruína com suas invenções demoníacas!


Outros se juntaram a ela, acusando Kofi de blasfêmia e de trair as tradições sagradas. Ebo tentou defender o irmão, mas a multidão estava agitada demais para ouvir.


Kofi percebeu, com uma dor aguda no peito, que suas descobertas eram vistas não como uma oportunidade, mas como uma ameaça. "Pois aquele que vislumbra a luz é muitas vezes rejeitado por aqueles que permanecem nas sombras."


A reunião terminou em tumulto, com Kofi e Ebo sendo expulsos do centro da aldeia. Os dois irmãos se retiraram para as sombras das árvores, onde o crepúsculo lhes oferecia um manto de invisibilidade. Eles se olharam, corações pesados, mas não derrotados.


— Talvez seja cedo demais, Ebo — murmurou Kofi, sua voz carregada de tristeza e determinação. — Mas um dia, eles entenderão. Nós vamos tentar novamente. A mudança vem devagar, mas virá.


O retorno de Kofi a Bokor terminava não com uma celebração de boas-vindas, mas com um desafio para o futuro. No entanto, ele sabia que a jornada não era em vão. Cada passo adiante era um passo para fora da caverna das sombras, rumo à luz que um dia todos poderiam ver.


7. Conclusão Aberta

Na penumbra que antecedia a noite, Kofi e Ebo sentaram-se à margem da aldeia, olhando as primeiras estrelas que surgiam no céu. A hostilidade da comunidade ainda reverberava no ar, uma nuvem densa de incompreensão e medo. Kofi sentia o peso do retorno, um fardo mais pesado do que qualquer carga que tivesse carregado através das montanhas.


— Talvez nós fôssemos tolos, Ebo, ao pensar que poderíamos mudar tudo tão rapidamente — disse Kofi, sua voz um murmúrio na brisa noturna.


Ebo, sempre o mais otimista dos dois, colocou uma mão sobre o ombro de seu irmão.


— Não é tolice ver o mundo e querer trazer sua luz para casa, Kofi. Hoje eles rejeitam, mas amanhã, ou depois, quem sabe? Nossa jornada ainda pode iluminar o caminho para outros.


Os dois permaneceram ali, olhando para as chamas distantes das fogueiras da aldeia, onde a vida continuava em seu ritmo antigo e inalterado. Kofi ponderava sobre o futuro. O conhecimento que ele trouxera poderia ser a semente de uma nova era para Bokor, ou poderia permanecer enterrado sob camadas de medo e superstição.


A história de Kofi termina nesta noite de reflexão e resolução incerta. As estrelas acima, testemunhas silenciosas dos séculos, brilham com a promessa de que o mundo além de Bokor é vasto e cheio de maravilhas. E mesmo que a aldeia não esteja pronta hoje para aceitar a mudança, o amanhã sempre traz consigo outra oportunidade.


Assim, deixo você, leitor, contemplando junto a Kofi e Ebo. Pense sobre as sombras de sua própria caverna e as luzes que talvez tenha temido trazer para dentro. A história de Kofi é um convite — um desafio — para todos nós considerarmos quão profundas são nossas próprias trevas e quão brilhante poderia ser nossa luz.

15 de Maio de 2024 às 03:29 3 Denunciar Insira Seguir história
7
Fim

Conheça o autor

Samuel A. Palmeira Observar la realidad y describirla creativamente es como mirar las sombras en la caverna de Platón, buscando capturar la esencia última de las formas ideales a través de la lente de nuestra existencia terrenal, uniendo así lo divino con lo humano en un acto de creación que refleja la luz inmutable de la verdad eterna. (Samuel Palmeira)

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Willian Palmeira Willian Palmeira
👏👏👏👏👏
Sócrates  Nikolaidis Sócrates Nikolaidis
Muito bom!
May 16, 2024, 15:54
Raquel Gloria Raquel Gloria
Excelente 👏👏👏👏
May 15, 2024, 10:43
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