samuelpalmeira Samuel A. Palmeira

"Sobrevivente: Um Brasileiro nos EUA" narra a extraordinária jornada de Fernando Silva, um aventureiro brasileiro cuja busca por experiências autênticas o leva a uma travessia perigosa e não convencional para os Estados Unidos. A história começa com Fernando sendo atendido por socorristas do 911. Logo depois, confuso e amnésico, acorda em um hospital em Detroit, onde foi informado que foi encontrado em circunstâncias misteriosas desmaiado em um Subaru Impreza cheio de produtos químicos vazando. Enquanto Fernando luta para recuperar sua memória e entender como chegou lá, ele recebe a visita de Marcos, um Youtuber que tinha planos de encontrá-lo para uma entrevista. Com a ajuda de Marcos, Fernando começa a reconstruir sua odisseia desde o Brasil, passando por diversos países da América Central, até seu tumultuado ingresso nos Estados Unidos.


#12 em Aventura Todo o público.

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Um Brasileiro nos EUA


Prólogo


A madrugada ainda cobria Detroit quando a luz das sirenes iluminava a sombria 8 Mile Road. Uma ambulância do 911 parou ao lado de um Subaru Impreza prateado, estacionado na calçada. O veículo, tinha a porta do motorista escancarada, com um homem deitado com metade do corpo para fora, inconsciente.


Os paramédicos, com a eficiência típica de quem lida diariamente com a linha tênue entre a vida e a morte, aproximaram-se do homem, cuja respiração era pesada e irregular. Com cuidado, eles o retiraram do carro e o colocaram sentado em um banco frio da calçada, envolvendo-o rapidamente em cobertores térmicos, e, enquanto um paramédico ajustava uma máscara de oxigênio sobre seu rosto, outro iniciava a checagem de seus sinais vitais, colocando monitores em seu peito e braços.


Enquanto um dos paramédicos cuidava do homem, o outro vasculhava o interior do Subaru. No banco traseiro, cobertas desalinhadas e restos de comida em caixas de isopor sugeriam que o carro servia de abrigo improvisado. No entanto, foi a descoberta no porta-malas que arregalou os olhos do socorrista: galões com restos de produtos químicos, alguns deles com vazamentos, exalavam um cheiro pungente e perigoso.


A análise rápida da cena montava um quadro claro de intoxicação por gases químicos. Sem tempo a perder, os paramédicos carregaram o homem na maca e o acomodaram no interior da ambulância. A sirene soou novamente, cortando o silêncio da noite, enquanto o veículo disparava em direção ao Detroit Receiving Hospital, localizado no coração da cidade na St. Antoine Boulevard.


Chegando ao hospital, o homem foi imediatamente levado para a ala de emergência, onde médicos e enfermeiros assumiram os cuidados. As horas seguintes foram um borrão de vozes abafadas, luzes intermitentes e sombras que passavam acima de sua cabeça enquanto lutava entre a consciência e a escuridão.


Ao amanhecer, os olhos do homem finalmente se abriram, encarando o teto branco do quarto de hospital. Confusão tomou conta de sua mente. Não havia lembranças de como chegara àquela cidade, nem de qualquer evento recente. Movendo-se lentamente, ele percebeu que havia um objeto no bolso de sua jaqueta. Com dedos trêmulos, retirou um passaporte surrado, abrindo-o para encontrar carimbos de locais aos quais não tinha nenhuma memória de visitar.

Assim, começava a busca por respostas, levando-o muito além das fronteiras da cidade ou das páginas de um passaporte misterioso.


I.

Despertei envolto em uma bruma densa de confusão, com o compasso das máquinas hospitalares ecoando ao meu redor como um coro distante. As luzes artificiais do quarto de hospital projetavam sombras que dançavam nas paredes, criando um espetáculo frio e impessoal. Sentia cada fibra do meu corpo pulsar com uma dor misteriosa, como se cada músculo guardasse segredos de tormentas passadas, ainda veladas para minha mente atordoada.


Ao tentar erguer-me, uma vertigem avassaladora me dominou, obrigando-me a recuar para o travesseiro. Enfermeiras circulavam pelo quarto, seus sorrisos e palavras tentavam oferecer conforto, mas mal registrava seus gestos. Uma delas, com um olhar penetrante, aproximou-se e deixou um copo d'água ao meu alcance, buscando algum sinal de reconhecimento em meus olhos nublados.


— Sr. Silva, como se sente? Precisa de algo mais? — sua voz era um sussurro cuidadoso, enquanto ela ajustava a infusão do soro que pingava com precisão ao meu lado.


— Fernando. Chamo-me Fernando — corrigi-a instintivamente, surpreso com a firmeza de minha própria voz, que soava estranha e rouca aos meus ouvidos.


Com um aceno compreensivo, ela anotou algo em seu prontuário e retirou-se, deixando-me a sós com meus pensamentos fragmentados. Meu olhar fixou-se no passaporte aberto em meu colo, seus carimbos de El Salvador, Guatemala e México eram como cicatrizes de uma jornada esquecida. Forcei minha mente a retroceder através do tempo, mas cada tentativa de recordação era como penetrar em um nevoeiro cada vez mais espesso.


A porta se abriu com suavidade, e um homem adentrou o quarto. Vestia jeans e uma camiseta simples, uma câmera pendurada ao ombro. Seus olhos me examinaram com uma mistura de preocupação e curiosidade palpável.

— Fernando, que alívio vê-lo desperto. Sou Marcos, o documentarista do YouTube, lembra-se? Tínhamos um encontro marcado ontem na 7 Mile Road. Sua ausência e o silêncio de suas ligações me preocuparam — sua voz carregava um tom de alívio.


— Eu... não me recordo de você — confessei, minhas palavras tingidas com a frustração da amnésia.


Marcos aproximou-se, sua expressão amolecendo.


— Compreensível, dadas as circunstâncias. Não fui eu quem chamou a ambulância; cheguei depois. Disseram-me que o encontraram desacordado, cercado por frascos vazando no carro. Aparentemente, eram resquícios de um locatário anterior — explicou calmamente.


— Produtos químicos? — indaguei, a informação soando tão alienígena quanto tudo o mais.


— Sim, no porta-malas havia recipientes mal fechados de acetonitrila e clorofórmio. A mistura dos vapores foi provavelmente o que provocou sua condição, resultando em sua inconsciência e perda de memória.


Marcos pausou, permitindo que a gravidade de suas palavras se assentasse.


— Isso certamente influenciou sua condição atual — adicionou, sublinhando a complexidade do acidente químico que havia entrelaçado profundamente minha saúde e memória.


Sacudi a cabeça, a confusão interna intensificando-se. Meu olhar desceu novamente ao passaporte, os carimbos me confrontando com suas datas e destinos.


— Nada faz sentido. Estou apenas tentando entender como vim parar aqui. O que eu estava fazendo.

Marcos sentou-se ao meu lado, pousando a câmera no colo.

— Talvez eu possa ajudar. Temos muito a discutir, mas só quando você se sentir pronto.

Assenti lentamente, a necessidade de desvendar minha própria história agora eclipsando a desordem mental.


....


Marcos, com seus 32 anos, era a personificação do documentarista moderno e engajado. Seu canal no YouTube havia começado como uma plataforma para relatar as lutas e triunfos dos brasileiros nos EUA, mas rapidamente se expandiu para cobrir uma gama mais ampla de temas, como cultura, viagens e aventuras, mantendo sempre um forte enfoque nas histórias humanas por trás dos cenários.


Conhecido por seu estilo informal e carismático, Marcos tinha a habilidade de se conectar com as pessoas em um nível profundamente humano. A base de seguidores de Marcos era diversa e estava em constante crescimento, atraída por seu conteúdo envolvente e pela maneira como ele explorava as nuances das experiências humanas.


O impacto de seu trabalho transcendia o entretenimento; ele usava seu canal como um meio para iluminar histórias muitas vezes esquecidas ou ignoradas, fazendo com que cada vídeo fosse uma janela para mundos desconhecidos. Reconhecido por seu comprometimento com o storytelling digital, Marcos era frequentemente convidado para participar de eventos de mídia digital, onde discutia o poder do conteúdo visual e narrativo em conectar pessoas ao redor do mundo.


Marcos conheceu Fernando de uma maneira que só poderia ser descrita como fortuitamente digital. A jornada de Fernando começou de forma pública e intrigante, quando ele postou um vídeo em suas redes sociais diretamente de São Paulo. No vídeo, Fernando, um brasileiro com uma sede ardente por aventuras e descobertas, anunciava sua decisão audaciosa de ir para os Estados Unidos sozinho, sem a assistência de coiotes ou agências de imigração, uma prática comum e muitas vezes perigosa entre aqueles que buscam novas oportunidades no exterior.


A determinação e coragem de Fernando capturaram a atenção de Marcos, que viu naquela história uma mistura perfeita de aventura humana e desafio social, decidindo que essa era uma narrativa que precisava ser compartilhada com o mundo.


Ele entrou em contato com Fernando através de uma mensagem, expressando seu interesse em documentar a jornada. O que começou como uma troca casual de mensagens evoluiu rapidamente para uma colaboração mais profunda, com Marcos seguindo virtualmente cada passo de Fernando, desde a preparação até sua chegada tumultuada nos EUA.


Essa conexão inicial se transformou em um projeto de documentário mais amplo, com Marcos planejando capturar não apenas as aventuras de Fernando, mas também as realidades enfrentadas por muitos imigrantes que atravessam fronteiras em busca de um futuro melhor.


....


II.

A luz tênue do sol de inverno se infiltrava pelas cortinas, lançando um brilho suave sobre a cama do hospital onde eu me reajustava, tentando absorver as revelações de Marcos. Ele deslizou seu telefone sobre a mesa de cabeceira e abriu um aplicativo de mensagens, trazendo à vida uma série de fotos, vídeos e áudios — fragmentos visuais e sonoros de uma jornada que eu havia empreendido, mas que minha mente teimava em apagar.


— Aqui está você em São Paulo, Fernando, pronto para embarcar em sua odisséia — iniciou Marcos, exibindo um vídeo meu diante de um vibrante mural no aeroporto. Eu estava com uma mochila robusta nos ombros, meu rosto irradiava antecipação. — Sua empolgação era palpável; você falava com a autenticidade de um verdadeiro aventureiro.


Em seguida, ele mostrou imagens da minha chegada a El Salvador. As cenas captavam o momento em que consegui uma carona até o vibrante centro de San Salvador, com suas ruas efervescentes e um calor que parecia impregnar cada frame.


— E aqui, em El Salvador. Você me enviou isto da rodoviária — prosseguiu ele, enquanto um áudio reproduzia minha voz vibrante, descrevendo com fervor a complexidade e a vivacidade do local.


As imagens seguintes eram uma crônica visual de cada etapa subsequente: minha viagem até a fronteira com a Guatemala, onde passei a noite antes de embarcar numa van rumo ao ponto de imigração. Um vídeo me mostrava obtendo meu visto com um misto de alívio e determinação, e logo depois, a van me deixando no agitado centro da Guatemala.


— Aqui você embarca em um ônibus da Starbus, a caminho da fronteira mexicana em Malacatán — apontou Marcos, exibindo uma imagem minha adentrando o ônibus..


Ao chegar em Malacatán, uma foto capturou o exato momento em que negociava com atravessadores locais. Sem a necessidade de um visto mexicano prévio, havia investido cerca de $450 para assegurar a travessia legalizada.


— Em Tapachula, sua primeira parada no México — ele fez uma pausa em uma imagem minha numa estação de ônibus, o cansaço era visível, mas aliviado por ter cruzado mais uma fronteira. — Você enfrentou diversas batidas policiais, mas manteve-se firme, graças aos seus documentos em ordem.


Marcos reproduziu uma gravação minha detalhando a viagem de ônibus até Veracruz e, em seguida, meu voo para Monterrey, uma metrópole mais próxima da fronteira americana.


— E finalmente, Nuevo Laredo — ele exibiu um vídeo meu, ofegante, a câmera tremendo enquanto eu corria em direção ao mato ao lado do rio que demarcava a fronteira. — Determinado, você estava resoluto em fazer essa travessia a nado, desejando experienciar cada momento intensamente.





O último vídeo antes da minha detenção capturava uma cena quase surreal. A câmera apontava para um céu noturno densamente estrelado, e a minha voz, embora ofegante e entrecortada pelo esforço físico, narrava a intensidade do momento.

— A adrenalina é palpável, e o medo... o medo é real — eu dizia, tentando manter a calma enquanto a água fria e escura do rio me envolvia, fazendo com que cada palavra fosse uma luta. O rio, com seus cinquenta metros de largura, parecia mais um oceano intransponível. A chuva recente tinha tornando a correnteza mais forte e imprevisível.


Enquanto avançava, a mochila pesada em minhas costas tornava-se um fardo insustentável. Cada movimento era uma batalha contra o peso que me puxava para baixo. Meu corpo, já exausto, gritava por alívio. Com um suspiro resignado, percebi que não conseguiria continuar a travessia com aquele peso extra.


— Não vai dar para levar tudo comigo — murmurei para a câmera. Com um movimento, soltei as alças e empurrei a mochila para longe. A perda do equipamento, suprimentos e objetos pessoais foi necessária.


— Se eu conseguir passar por isso, posso enfrentar qualquer coisa — falei para a câmera.


Ao finalmente alcançar a outra margem, tremendo e quase incapaz de manter-me em pé, desliguei a câmera.



— E então... silêncio. Sua próxima comunicação foi do Texas, informando que havia sido detido. Foram 10 dias árduos — concluiu Marcos, a simpatia ressoando em sua voz.


Essas imagens e sons revolviam algo nas profundezas da minha consciência, mas era como se uma cortina ainda bloqueasse o acesso às minhas próprias memórias. Cada narrativa, cada imagem ressoava como um eco distante, a história de um estranho sendo contada para mim.


— Marcos, isso é tudo tão surreal... É como se eu estivesse revisitando a aventura de outra pessoa, não a minha própria — minha voz falhou, traída pela emoção e pela perplexidade.


— É um começo, Fernando. Espero que isso ajude a reavivar suas memórias. Vamos continuar explorando, temos mais vídeos e mensagens para rever. É importante que você compreenda o que aconteceu, para que possa enfrentar e integrar essas experiências — ele respondeu, colocando uma mão reconfortante sobre meu ombro.


III.

Os dias que passei no hospital se entrelaçaram numa sequência contínua de descobertas e sessões terapêuticas, com Marcos ajudando-me a desvendar as águas turvas de minha própria história. Cada nova imagem ou mensagem de voz parecia acender uma faísca em minha memória, trazendo lampejos de reconhecimento que, começavam a compor um quadro mais nítido da minha jornada.


— Aqui, você já estava em Boston — revelou Marcos, mostrando-me uma fotografia diante de uma sequência de monumentos históricos. — Parece que você se aventurou a fazer um pouco de turismo, antes de prosseguir para Detroit.


— Sim, eu me recordo vagamente... — as palavras escaparam de mim enquanto a imagem evocava memórias difusas de caminhar pelas ruas de Boston. — Eu estava tentando assimilar tudo pelo que tinha passado.


Marcos prosseguiu, apresentando vídeos de Detroit, a cidade de automóveis e ruínas que explorei com um olhar curioso e uma câmera sempre em punho. Como ele explicou, meu fascínio por ruínas urbanas não era meramente turístico, mas refletia uma busca mais profunda.


— Você falava intensamente sobre as conexões entre locais abandonados e pessoas marginalizadas, sobre como ambos enfrentam a luta para manter sua dignidade diante do esquecimento — ele comentou, pausando um vídeo onde eu discorria sobre o tema, com um prédio em ruínas ao fundo.


— Parece que você estava começando a entrelaçar suas experiências de viagem com questões mais profundas e significativas.


Ouvir-me falar com tamanha paixão sobre esses temas, até então estranhos para mim, era desconcertante. Contudo, algo em meu interior respondia a essas palavras, como se elas despertassem uma parte adormecida da minha essência.


A conversa então se voltou para o incidente com o Subaru. Marcos, com cautela, exibiu uma gravação da polícia e depoimentos de testemunhas que descreviam como fui encontrado inconsciente.


— O acidente químico foi um infortúnio, Fernando.


— Sim, você pode estar certo.


No meu último dia no hospital, enquanto me preparava para deixar o quarto, uma mistura de alívio e apreensão me invadiu. O mundo lá fora parecia imenso e intimidador, mas eu estava determinado a enfrentá-lo com uma nova perspectiva.


— Obrigado, Marcos. Sem sua orientação, eu ainda estaria perdido em mais de um sentido — agradeci, estendendo a mão para ele.


— Foi uma honra ajudar você, Fernando. Mas continuaremos mantendo contato. Ainda quero aquela entrevista. Assim que vc estiver completamente recuperado.


— Com certeza Marcos!


Com essas palavras, deixei o hospital. Consciente de que ainda havia muito a descobrir sobre mim mesmo e sobre o mundo, agora armado com as lembranças de onde estive e a esperança do que ainda poderia descobrir, estava pronto para continuar explorando ambas as fronteiras com uma nova compreensão.

12 de Maio de 2024 às 12:05 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Samuel A. Palmeira Observar la realidad y describirla creativamente es como mirar las sombras en la caverna de Platón, buscando capturar la esencia última de las formas ideales a través de la lente de nuestra existencia terrenal, uniendo así lo divino con lo humano en un acto de creación que refleja la luz inmutable de la verdad eterna. (Samuel Palmeira)

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Willian Palmeira Willian Palmeira
👏👏👏👏👏👏
May 30, 2024, 17:23
Raquel Gloria Raquel Gloria
👏👏👏👏
May 13, 2024, 01:48
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