amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

O que você faria se acordasse em uma cama de hotel na França sem que soubesse como fora parar lá? Um passaporte estranho e um recado: Seu marido a aguarda no saguão. Mergulhe nesta aventura e descubra os segredos que cercam Frieda.


#6 em Aventura Todo o público.

#romance #mistério #viagem #owanderlust
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O Marido Desconhecido

O som insistente e estridente fazia a moça se mexer na cama macia. Seus olhos, ainda fechados, piscaram, tirando-a aos poucos do mundo dos sonhos. Tateou a mão em busca da campainha que lhe feria os ouvidos. Sentiu o formato liso e arredondado do fone ao tirá-lo do gancho, atordoada:

— Alô. — Sua voz encontrava-se estranhamente pastosa. Será que havia bebido?

— Bonjour, madame! — dizia a voz de sotaque carregado, fazendo-a abrir os olhos, sobressaltada — Sua marrida a aguarda no hall de entrada.

Seus olhos, naquele momento, encontravam-se totalmente despertos, analisando o quarto em que estava. Apoiou os cotovelos no lençol de seda e arqueou o corpo, sentindo-se horrorizada. O que fazia naquele lugar e o que significava aquela estranha chamada? Levantou-se em um salto e correu à janela, abrindo as cortinas. Seu coração disparou ao perceber que estava diante de uma vista que sempre sonhara apreciar ao vivo. A Torre Eiffel parecia lhe sorrir ao dar-lhe as boas vindas. Fechou os olhos ao sentir tontura. Sentou-se na poltrona ao lado da cama, respirando profundamente.

Apertou a têmpora em busca da memória. Como ela sabia que sonhava em conhecer Paris se nem ao menos se lembrava do próprio nome? Correu ao banheiro e abriu a torneira da pia. Encarou-se no espelho a observar a face pálida a encará-la. O cabelo negro e cacheado adornava a face redonda e os olhos verdes pareciam assustados e desconfiados. Lavou o rosto na esperança de que a água fria levasse consigo o mistério que a enveredava.

Voltou ao quarto, sentindo-se melhor. Uma bolsa de couro marrom encontrava-se caída ao lado da cama. Foi até ela e retirou algumas peças, jogando-as no chão. Abriu zíperes e encontrou o que estava procurando. O passaporte verde parecia queimar em sua mão. A foto pertencia ao rosto que acabara de ver, mas quem diabos era ela e o que fazia ali?

Frieda Schäfer, acusava o nome alemão. Vários carimbos de países que ela tinha certeza de que nunca estivera. O som estridente, agora de um celular saindo de dentro de uma bolsa, assustou-a. Abriu-a e viu o número desconhecido:

— A... alô! — atendeu, insegura, sentindo a garganta seca e fria.

— Frieda, o que ainda faz aí? Desça imediatamente. Precisamos deixar o país. Agora! — ordenava a voz masculina, impaciente e amedrontada.

Vestiu rapidamente a calça que se encontrava no chão e colocou as roupas dentro da mochila. Guardou o passaporte dentro da bolsa de mão e deixou o quarto, sentindo-se trêmula. O medo a fazia olhar para todos os lados, enquanto mirava as várias portas do corredor ao buscar pelo elevador. Apertou o botão do térreo e se encarou mais uma vez no espelho sem saber o que esperar.

Quando a porta se abriu no saguão de entrada, deixou o elevador e olhou para os lados. Um rapaz, usando um casaco escuro com capuz, veio apressado em sua direção. Ela mal percebia que prendia a respiração. Ele pegou em seu cotovelo e arrastou-a para a saída sem que ela resistisse.

— Por que demorou tanto? Vamos embarcar no trem para a Itália daqui uma hora. Precisamos nos apressar.

— Quem é você e o que quer comigo? — estacou, repentinamente, assim que chegaram à esquina do hotel.

— Pare de brincadeira, Frieda. Não temos tempo para isso. — Os olhos negros do rapaz bem apessoado, bonito, na verdade, encaravam-na espantados.

— Não estou brincando — inquiriu ela, puxando o braço das mãos férreas — Quem é você e o que quer de mim?

Ele não respondeu de imediato. Pegou-a pela mão e a puxou para dentro de um café, postando seu corpo de frente ao dela como se a estivesse protegendo de algo.

— Merda, Frieda. Só pode ter sido a pancada. Você não se lembra mesmo de nada? — questionou, perscrutando os olhos frios da moça.

— Que pancada? — indagou levando a mão à cabeça, sentindo um pequeno calombo na parte inferior do crânio — Como sabe da pancada? O que aconteceu? — questionou, a mirá-lo, confusa.

— Não foi nada demais! Você caiu quando saiu apressada do chuveiro. Vamos. Temos que pegar logo o trem. Eu te explico no caminho.

Ele a pegou pela mão e correram até a estação mais próxima. O trem acabara de chegar. O rapaz confirmou o bilhete e entrou, arrastando-a até o assento de bancos vermelhos. A moça se jogou sobre ele, ofegante, enquanto o rapaz guardava os pertences deles no compartimento de bagagens. Havia mais três pessoas no vagão o que fê-lo puxar o capuz da blusa, encobrindo seu rosto. Ela tinha tantas perguntas, contudo ele se mostrava calado e impaciente. Doze horas e dezenove minutos depois, após um cochilo merecido, ele a sacudiu quando pararam na estação de Milão. Tomaram um taxi e foram para uma pensão. Ao entrar no quarto ele olhou pela janela parecendo preocupado.

— Por que está agindo como se escondesse algo? — questionou ela, encarando o belo rapaz.

— Não se lembra mesmo de nada? Acho que tudo foi um exagero. Frieda, no momento você só precisa saber que sou seu marido e que vamos a uma festa importante. Aos poucos você começará a se lembrar. Não se preocupe. Descanse agora, meu amor! Vou sair e voltar às dezenove horas para te buscar. Fique linda para mim — sorriu com ternura, deixando-a boquiaberta.

— Eu não tenho roupa. — Foi tudo o que conseguiu dizer ao mirar seus olhos claros nos dele. Quem quer que ele fosse, era o homem mais bonito de que ela se lembrava.

— Olhe dentro do armário. Um Armani te espera — informou e deixou o quarto.

Ela caminhou a passos lentos e se deparou com uma caixa branca com um logo, estilizado, de pássaro. Abriu-a, com mãos trêmulas, e se deparou com um belíssimo vestido negro com delicados tons azuis e sapatos de mesma cor. Seu coração saltou no peito diante da beleza à frente. Decidiu tomar um banho e lavar os cabelos. Ao sentir a água quente banhar seu corpo, uma imagem se formou diante dos olhos.

Ela estava em uma agência de viagens. A água escorria por seu rosto. Fechou os olhos e viu seu marido em pé, ocupando o umbral da porta atrás da moça da agência. Seu coração deu um pulo ao vê-lo. Suspirou profundamente e desligou a torneira. Então era verdade! Ela o conhecia. Estiveram comprando um pacote de viagem. Tinha a sensação de que era uma wanderlust, já que adorava conhecer novos lugares. Tentou falar alemão e percebeu, estarrecida, que não sabia. Não fazia sentido um passaporte dizer que ela era alemã! Uma ligeira dor de cabeça começou a se insinuar. Fechou novamente os olhos com força e relegou o pensamento para o fundo da mente, trazendo a imagem do vestido e do homem que a chamava de esposa.

Ele apareceu em seu quarto vestindo um fraque preto, com colete cinza acima da camisa branca fechada por uma gravata amarela. Os olhos negros dele a encaravam com admiração ao vê-la no vestido que acentuava as ondas de seu corpo perfeito. Ela prendera os cabelos, realçando os olhos claros e o decote generoso. Miraram-se por alguns momentos. Era clara a tensão entre os dois, porém, ele não se aproximou, para decepção da moça.

— Vamos, Frieda! Tem um carro nos esperando — Deu-lhe as costas, abruptamente, contudo, ela sabia que o deixara abalado.

O trajeto até o local da festa levou cerca de quarenta minutos. Seus corpos roçavam no assento do carro, contudo, ele sequer pegou em sua mão, o que a deixou irritada e incomodada com seu comportamento. A Cascina Longhignana se mostrava imperiosa com as luzes acesas nos dois andares. Frieda se mostrou surpresa ao ver o chão de granito e as escadas e lareiras cobertas de mármore carrara. A música suave da orquestra misturava-se com o tilintar das taças de champanhe enquanto o marido a fazia circular pelo salão, apinhado de convivas ricamente travestidos, ao segurar seu cotovelo de forma suave. Após algumas taças do líquido borbulhante e inúmeras perguntas a serem feitas, ele pegou em sua cintura e a conduziu à pista de dança. Dançaram enquanto a moça sentia o coração bater diante da proximidade do corpo do marido. Ele, por sua vez, sentia-se atordoado pelo perfume que exalava do pescoço da moça. Seus olhos se encontraram e o coração dela passou a bater descompassado.

— Preciso que você distraia os convidados — disse ele ao seu ouvido, causando-lhe um arrepio pelo corpo ao sentir seu hálito quente — Não vou me demorar.

— Distrai-los? Como farei isso e por quê? — questionou, enquanto ele girava seu corpo, ficando de frente para a escadaria que levava ao segundo andar.

— Preciso pegar algo no escritório lá em cima. Você precisa distrair o anfitrião, aquele senhor de fraque branco e gravata borboleta vermelha. Cante, minha bela.

— Cantar? Você está louco? Eu não sei fazer isso — cuspiu as palavras, amedrontada.

— Confie em mim. Você sabe. Eu já combinei com os músicos. Vá agora e assim que terminar siga para o jardim. Estarei esperando-a. Logo após partiremos para Portugal — separou-se dela, assim que a música terminou.

O homem ao piano a convidou a subir no palco improvisado e, antes que ela pudesse negar, seu marido havia deixado o seu lado. Trêmula, ela rezava para não ser um fiasco e pôr o plano dele a perder. Pegou o microfone na mão, mordendo o lábio inferior, então o viu ao pé da escada, recostado, à espera de que a canção começasse. De alguma forma ela conhecia a introdução. As palavras em italiano jorraram de sua boca enquanto a plateia ouvia sua doce voz, extasiados, a cantar Dio, Come ti Amo. Ele sorriu e então galgou os degraus sem que o vissem.

A moça deixou-se levar pelas palavras que saíam de sua boca, desejando que fossem possíveis e verdadeiras:

— Le rondini nel cielo, che vanno verso il sole. Chi può cambiar l’amore, l’amore mio per ter. Dio, come ti amo. (As andorinhas no céu, que voam em direção ao sol. Quem pode mudar o amor, o meu amor por você. Deus, como eu te amo).

Então ela o amava! Como era possível sentir tal amor e não se lembrar de tê-lo conhecido? Em choque, ela deixou o microfone e correu ao quintal sob uma saraivada de palmas. Ele a esperava, como combinado. Antes que pegasse em sua mão e deixasse a mansão às pressas, encarou-a admirado. Seu desejo era perder-se em seus braços, sentir o gosto de sua boca, contudo, não havia tempo para isso. Correram para o taxi que os aguardava, seguindo às pressas para a estação de trem.

— O que você pegou? — ela quebrou o silêncio, enquanto sua mente fervilhava de perguntas e seu coração bombardeava sentimentos.

— Segredos industriais. Você os encantou, bambina — informou, roçando os lábios em seu ouvido. Ela se afastou dele, boquiaberta!

— Meu Deus! Você é um...

— Somos, querida. Parceiros para toda uma vida — anunciou, pegando sua mão esquerda e apertando-a em um silêncio mudo.

O mundo de Frieda, aquele que ela mal conhecia, havia virado de cabeça para baixo nas últimas horas. Sua respiração se tornou ofegante, enquanto imagens vinham à sua mente aos borbotões. Alguém atingindo sua cabeça enquanto ela entrava em um shopping. A moça da agência sorrindo e apertando sua mão depois que ela assinara algo. Seu antebraço vermelho ao redor de uma picada e... O rapaz ao seu lado, observando-a sorrateiramente, enquanto ela entrava no avião.

— Você está bem, amor? — quis saber ele, ao vê-la pálida através da vidraça, sob a luz do luar.

— Quem é você? — perguntou de chofre, perscrutando o rosto do marido que se mostrava perturbado.

— Frieda, agora não, amor! Precisamos embarcar — disse, olhando para o óculo traseiro do carro, preocupado.

— Diga agora o que está acontecendo ou eu vou saltar deste carro — gritou ela fazendo com que o semblante dele se tornasse carregado.

Naquele instante, um carro preto dobrou a curva da estrada vindo acelerado na direção deles. O rapaz os viu e pediu que o motorista avançasse ao mesmo tempo em que pôs o braço direito na nuca da moça, empurrando-a para baixo. Ela ouviu um tiro e o vidro traseiro se espatifou sobre eles, fazendo-a gritar. Pôde ver quando ele tirou uma arma do cós da calça, escondida pelas pontas do fraque, passando a revidar. Em choque, ouviu tiros saindo e chegando, enquanto o carro em que estavam passou a dançar pela pista de forma sinuosa. Uma batida na lateral do carro e mais um tiro saiu da arma de seu marido. Ela ergueu a cabeça a tempo de ver o inimigo bater o carro preto no meio das árvores que circundavam a pista.

Correram à estação e entraram no trem, indo direto ao vagão. Lá ele fechou a cortina da janela e passou a olhar a estação por uma pequena fresta. Ela notou que seu braço sangrava no lugar onde a manga fora rasgada por um estilhaço de vidro. Tentou estancar o sangue, contudo ele a impediu. Seu rosto estava pálido ao encará-la, porém seus olhos se encontraram e, naqueles poucos segundos, não havia palavras a serem ditas. O beijo aconteceu em um jorro de fúria, medo e desejo. Entregaram-se ao momento e toda dúvida foi sanada diante do amor que brotava daqueles corações apaixonados.

Entraram de mãos dadas, no Hotel 3 K Barcelona, em Lisboa. Nada mais importava ao casal do que estar nos braços um do outro. Pela manhã, sentindo o sol bater em seu rosto, Frieda abriu os olhos e o sorriso morreu diante do bilhete no travesseiro.

— Em breve você se lembrará de tudo, Helena. Seu desejo foi realizado. Aproveite sua última noite em Portugal. A passagem de volta ao Brasil encontra-se na sua bolsa. Agradecemos a preferência por nossos serviços. Agência Real de Turismo, onde seu desejo se realiza.

Helena encarou o bilhete com o coração negro de saudade. Sim. Ela os contratara. A memória voltava em um turbilhão de imagens: o medicamento injetável que apagaria sua memória por três dias, o passaporte falso, a assinatura. Tudo claro como cristal. Tivera indicação de uma amiga, já que estava cansada de apenas viajar e conhecer o mundo. Buscava por algo mais, uma aventura, um frenesi de emoções. Mas o pior acontecera e que não fora previsto. Apaixonara-se e nem mesmo sabia o nome dele. Pior, talvez nunca mais o visse. Tinha certeza de que aquilo não fora contratado. Vasculhou a mala e, em um bolso nos fundos, pegou o contrato. Era expressamente proibido qualquer contato físico com os atores. Uma regra quebrada naquela noite.

Voltou para casa sentindo-se ambígua. Ao mesmo tempo em que seu desejo por aventura fora saciado, seu coração sofria de amor e nem mesmo sabia o nome do belo rapaz. Chegou a ligar para a agência e perguntar por ele, dizendo que desejar agradecê-lo, porém a resposta e deixou estarrecida. O rapaz já não trabalhava mais naquele lugar e ela sabia o motivo.

Talvez sua próxima aventura fosse encontrá-lo novamente. E ela faria de tudo para que isso acontecesse.

2 de Maio de 2024 às 21:01 6 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Mayra Gomes Mayra Gomes
Fiquei chocada com esse final! Perfeita como sempre. Parabéns!!! ❤️
May 26, 2024, 19:57

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada, flor! Fico mto feliz que tenha gostado! 🥰🥰🥰 May 26, 2024, 22:06
Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Mais um texto digno de um parabéns. Amiga que maravilha, sempre elegante e com uma escrita muito inteligente e atraente. Dizem que a escrita é o reflexo da alma (claro é exigido muito mais principalmente os estudos, só escrever é pouco, tem que conhecer o mínimo da língua portuguesa, os significados e saber usar a gramática de forma correta e adequada)... Vc é um show
May 04, 2024, 16:16

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Somos, amigo! Suas palavras são bálsamos para minha alma. Gratidão eterna! ❤️❤️❤️ May 04, 2024, 16:33
CG Carlos Adriano Garcia
Adorei o conto! E o plot twist! Parabéns e obrigado por compartilhar conosco.
May 03, 2024, 02:58

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Fico muito feliz e mto obrigada pela leitura e comentário ❤️❤️❤️ May 03, 2024, 09:57
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