amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

As inscrições para a tão desejada e desafiadora Marathon des Sables, no sul do Marrocos, dera início. Setenta participantes, porém um deles, após uma tempestade de areia, acaba se perdendo dos outros. Machucado, confuso e febril, em meio aos delírios, uma estranha mulher surgirá.


Ação Todo o público.

#desafios #medo #sobrevivência #osperigosdodeserto
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A Mulher do Deserto

Eu havia me preparado para a maratona de Nova York e, com orgulho, saí dela vencedor. Contudo, ganhar não é tudo para mim e sim, testar meus limites. O corpo é capaz de aguentar alguns desafios que o submetemos. Somos mais fortes do que pensamos. Foi exatamente essa capacidade que me fez enveredar para a mais extenuante e desafiadora maratona de que já ouvira falar. Assim que soube de sua existência, precisei me inscrever, mesmo sabendo que poderia não sair vivo dela e, por muito pouco, sobrevivi.

Era o ano de 1996 e conhecer a Marathon des Sables, no sul do Marrocos, instigou meus instintos, mesmo toda a minha família sendo contra, uma vez que o evento consistia em uma corrida pelo Deserto do Saara, em seis estágios a ser vencido em sete dias percorrendo duzentos e cinquenta quilômetros, onde um termo de ciência de possibilidade de morte teve que ser assinado. Tinha noção de que esse tipo de ultramaratona seria diferente de tudo o que já havia experimentado até então, principalmente sendo eu um homem apaixonado pela natureza.

Inscrevi-me e passei a dobrar meus treinos de resistência enquanto estudava os estágios. Os três primeiros tinha certeza de que me sairia bem. O quarto seria um pouco mais extenuante por ser o mais longo, entre 74 e 85 quilómetros, o que me obrigaria a terminá-lo durante a madrugada. Estava confiante e confiança, em uma prova desse naipe, é o impulso necessário para enfrentá-la.

Não poderia levar muita coisa na mochila já que o peso se restringia entre seis e quinze quilos. Apenas o suficiente para sobreviver: bússola, mapa, barraca, alerta de fumaça, canivete, aplicação antivenenosa, saco de dormir, roupa para o frio das noites, comida desidratada e uma escova de dente com o cabo serrado. Em uma maratona deste tipo é necessário o uso de tênis com uma numeração maior já que o calor excessivo faz os pés inchar e criar bolhas do tamanho de uma bola de tênis. Por esse motivo, levei uma pasta d’água.

No dia em que a corrida se iniciaria lá estava eu, em meio a setenta pessoas dispostas a desafiar o temível deserto. Foi dada a largada e saímos em disparada pela marcação do caminho que a iniciava. Procurava dar o máximo de mim logo nas primeiras horas da manhã e no fim de tarde, onde o calor abrasador de cinquenta graus dava uma trégua. Senti minha pequinês na imensidão do lugar. A noite no deserto é uma das vistas mais belas que se pode imaginar. Cada estrela se torna um diamante que nos ofusca a vista e a lua, principalmente a cheia, faz o coração palpitar. Você se sente tão próximo a elas que quase as alcança em pensamentos. Havia postos de ajuda espalhados pelo percurso que nos fornecia água necessária para jornada, por isso, sentia-me tranquilo. Encontrava-me na melhor de minhas forças.

Havia acabado de passar por um posto desses, após terminar os três primeiros estágios, seguindo para o mais temido de todos, contudo, encontrava-me tranquilo. Se os próximos fossem como os passados, já tinha certeza de minha vitória. A aurora já se anunciava no horizonte quando passei a correr novamente, admirando a paisagem ao meu redor, vendo os pequenos roedores entrarem rápidos em suas tocas ao perceber a reverberação no solo causada pelo impacto dos meus tênis. Já havia me deparado com escorpiões em pequenas rochas e também com aranhas negras. Por sorte esses animais pareciam ter mais medo de mim do que eu deles. É claro que ao dormir, sempre tomava cuidado para não ter um encontro com tais predadores. Confesso que temia a víbora echis carinatus, cujo veneno é capaz de matar sua vítima. Por isso, eu sempre dormia agarrado ao canivete, mantendo uma boa fogueira ao meu lado, utilizando de pequenos gravetos encontrados na baixa vegetação.

Também era comum encontrar alguns lagartos em algumas horas do dia. Pouco depois do posto de ajuda, percebi que estava sozinho. Não havia ninguém atrás de mim e, à frente, era impossível saber. Algo se agitou em meu ser, coisa que chamou minha atenção por alguns segundos, contudo, sem precisar o motivo de tal arrepio, continuei meu objetivo. Descansar logo mais e correr a noite toda, se fosse preciso, para terminar os quilômetros do quarto estágio.

Dizem que o deserto é traiçoeiro, mas quando o dominamos temos a falsa impressão de que o conhecemos. Não sei como aconteceu, mas de repente um vento quente e seco passou a soprar forte em minha direção. Apertei os olhos e olhei adiante a claridade da manhã que nascia. Não havia nada de diferente no horizonte, contudo, aquela sensação de alerta passou a me dominar. Continuei a corrida, tentando deixar para trás o que passou a me assolar. Entretanto, entendi tarde demais, que o perigo não estava atrás de mim e sim, à frente. Senti o açoite de algo áspero bater em minha pele, contudo continuei correndo. O vento passou a soprar com mais força e em poucos segundos a tempestade de poeira surgiu sinuosa no céu claro, cobrindo a claridade. Virei-me de costas ao ter os olhos atingidos por minúsculas partículas de areia. Meu corpo passou a ser cortado pelas rajadas de vento de mais de cem quilômetros por hora. Fui ao chão, cego e assustado. Tentei tirar a mochila das costas, e uma alça estalou no meu ombro, chicoteando-o. Agarrei-a enquanto sentia o líquido quente escorrer por meu braço. Tateei dentro dela e puxei um lençol que passou a ricochetear. Com muito custo consegui me arrastar até uma rocha e me cobri com ele, livrando-me um pouco do açoite. Por uma fresta ínfima do lençol, tendo os olhos marejados, senti o coração dar um salto no peito ao ver ao longe a figura de uma mulher esbelta, trajada com um vestido longo, marrom claro enferrujado, e coberta por uma capa com capuz, caminhar entre a nuvem de poeira. Suas mãos estavam cobertas por luvas que lembravam couro, bem como seus braços. O cinto que moldava sua cintura dava-lhe o aspecto de uma rainha druida. Aquela fora a primeira vez que senti o terror me sobrepujar, pois parecia que ela dominava a tempestade.

Calei-me, tendo o gosto do medo na saliva. Aquela visão deveria ter sido provocada pela areia que queimava meus olhos. Encolhi-me em meu ninho improvisado ouvindo a canção do vento, ao enfurnar o lençol, enquanto perdia a noção do tempo. Quando tudo terminou, após muitas horas, ergui-me lentamente, derrubando a areia que me encobriu ao esticar as pernas dormentes. O medo voltou a me dominar ao notar que a conhecida paisagem que eu havia percorrido, simplesmente desaparecera. Ao meu redor havia apenas dunas e mais dunas de areia. Fitei, boquiaberto, ao reconhecer a gigante Duna Lala Lallia. Havia estudado sobre ela, e mal pude acreditar em meus olhos ao contemplar toda a sua altura de cem metros e setecentos de extensão. Minha pele ardia, meu ombro latejava e meus lábios estavam cortados. Tomei um gole de água e percebi que a garrafa estava em menos da metade. Constatei que a comida daria para alguns dias, contudo teria que fazer algo com relação à água. O sol ainda estava alto no céu ardente quando pensei ter visto algo se movimentar no topo da gigante. Peguei a bússola e o mapa da região e simplesmente, não sabia minha localização. Não podia me orientar pela Lala, já que ela se deslocava pelo deserto conforme as tempestades. Acreditei, agarrei-me à esperança, de que os dirigentes da maratona mandariam alguém em meu socorro, já que deveriam ter outros perdidos em meio às dunas.

Eu teria que caminhar, pois não havia um lugar sequer que eu pudesse me abrigar. Coloquei a mochila no ombro bom e segui à frente, passando pelo monstro de areia sem a coragem de escalá-la. Eu sabia que meu corpo aguentaria alguns dias sem água, contudo, urinei em uma garrafa vazia depois de comer algo, já que fazia horas que havia ingerido alguma caloria. À minha frente, apenas o mar de areia. Em todo o momento mantive a esperança de ser socorrido, porém, conforme as horas passavam, em que eu evitava pensar na dor que sentia no ombro coberto por uma pasta de sangue e areia, senti que algo me espreitava. Não era nada visível, contudo, meus instintos estavam em alerta.

Várias vezes eu olhava por sobre o ombro e em algumas cheguei a estacar mirando tudo ao meu redor. Não havia ninguém, apenas a lembrança da mulher que dominava a tempestade de areia e a visão distante da Lala. Meu relógio havia parado. Talvez o tenha batido enquanto tentava me proteger. O sol estava escaldante, por isso resolvi parar e armar a barraca. Já havia perdido muito tempo, contudo era impossível continuar. Mal consegui descansar, pois cada estranho barulho ao redor, meu corpo sofria com sobressaltos. Meu ombro não estava com um aspecto muito bonito. Peguei uma blusa e tentei limpá-lo da melhor forma, besuntando-o com um pouco de pasta d’água. Creio ter pegado no sono em algum momento e acabei sonhando com aquela mulher misteriosa. Ela me chamava ao longe, instigava-me a segui-la, mostrando-me lugares frescos, cheio de palmeiras e água límpida, rodeado por templos de pedra com nichos enormes onde habitavam estátuas de deuses mortos.

Acordei sobressaltado, sentindo a garganta árida. Tomei um gole de água e percebi que estava amanhecendo. Amanhecendo? Eu havia perdido a noção do tempo. A ferida no ombro pulsava mais que nunca, entretanto decidi caminhar. Assim que pus os pés na areia, meu corpo reclamou. Forcei-me a seguir adiante. Meus olhos turvos mal enxergavam na ondulação quente que levitava à minha frente. Tomei mais um gole de água e então, joguei a garrafa fora. Nesse momento a sensação de que algo me espreitava surgiu com força total. Olhei ao meu redor, assustado, e vi homens com capuzes negros vir em minha direção. Gritei, acenando com movimentos frenéticos, rindo de alegria. Eu estava salvo. Contudo, meus salvadores desvaneceram diante de meus olhos. Caí na areia, sentindo-me fraco e confuso. Deitei e meu corpo gritou em contato com a areia escaldante. O sol atingiu meu rosto em cheio e sorri, pois sabia que morreria ali. Fechei os olhos e uma sombra recaiu sobre mim. Abri-os devagar e a mulher da areia estava em pé, encarando-me.

Ela apontou para minha cabeça e ergueu o braço, mostrando-me uma direção. Eu não queria ir. Perscrutei-a, sem forças para falar, contudo ela manteve seu olhar duro e a posição do braço. Forcei-me a obedecê-la. Arrastei-me pelas dunas em direção à sua indicação e vi um oásis. Meu coração se encheu de esperança. Corri até ele, afundando e subindo na areia fofa. Joguei-me nas águas e mais areia entrou em minha boca. Tateei a mão em busca do líquido refrescante e apenas areia escorreu de meus dedos. Não entendia o que estava acontecendo. Tenho certeza de que ouvi um barulho seco bem próximo de mim. Meu coração reverberou no peito e juro ter visto uma cauda mergulhar com rapidez na duna. Eu não estava sozinho. Algo caminhava comigo. Pus-me em pé e saí dali o mais rápido que meu corpo permitia.

Ao longe havia vultos negros que pareciam em festa, dançando ao redor do crepitar de uma fogueira enquanto a noite descia fria. Caminhei até eles, não sei por quanto tempo, contudo não conseguia alcançá-los. Bebi minha urina e por um instante a lucidez me acometeu. Meu corpo tremia e aquele som seco parecia me espreitar, à espera de um deslize para me sobrepujar. Não tinha forças para armar a barraca. Pus-me a procurá-la, porém, só a mochila ainda permanecia em meu ombro são. Devo tê-la perdido em algum lugar. Minha mente estava turva. Olhei a imensidão de areia e lágrimas vieram aos meus olhos, contudo, não escorreram. O tempo estava confuso. Não sei há quanto tempo estava perambulando pelo deserto sombrio. Olhei dentro da mochila e já não havia mais nada para comer. Acabei resignado, já que a garganta doía. Sentei no chão, contemplando as estrelas. Meu corpo gritava e arrepiava ao mesmo tempo. A fraqueza imperava. Um estalo bem próximo a mim fez o coração reverberar. Agarrei a mochila junto ao peito em busca da lanterna. Com mãos trêmulas fiz saltar dela uma luz fraca. Bati no compartimento das pilhas e ela se fez firme. Varri o facho e vi novamente aquela cauda e me espreitar, mas agora ela ganhara um par de olhos vermelhos. Dois pares. Não! Três pares. Não parecia pertencer a um grande animal, contudo, lutar contra três não seria tarefa fácil. Eles recuaram diante da luz em seus olhos. Foi o suficiente para eu ver contra quem eu deveria sobreviver: uma família de mabecos, cães do deserto que caçam baseados na determinação. Eu estava em grande perigo.

Um deles avançou e eu joguei areia sobre ele. Não sei de onde o outro veio, em um instante senti seus dentes cravarem minha perna. Urrei de dor, enquanto a agitava tentando desvencilhá-lo. Você nunca sabe qual o seu limite diante da morte. Não me entregaria tão fácil. Lembrei-me do sinalizador de fumaça enquanto esparramava areia para todos os lados. A lanterna fora ao chão, iluminando um ponto à minha frente enquanto tateava a mochila. Senti um alívio tremendo ao tocar o cilindro. Parei de jogar areia nos olhos deles e esperei. Os três se aproximaram, pata por pata e eu resmungando baixinho. Malditos! Já bem próximos, soltei o pino e o jorro de luz, misturado a fagulhas de pólvora os acertou em cheio. Ouvi, feliz, o uivar de dor deles. Um, com certeza estava morto, já que os outros dois se fartaram dele diante de meus olhos. Toquei-os com outro sinalizador e quando se foram, fartei-me do que sobrara do morto. Bebi seu sangue e foi com alívio que o senti em minha garganta. A carne era dura, mas a mastiguei mesmo assim. Creio ter desmaiado logo após.

Ela chegou novamente, com seu corpo curvilíneo e me acordou. Ergueu seus braços e indicou um caminho. A bela mulher do deserto agora sorria. Se fosse um sonho, talvez eu morresse feliz. Fechei os olhos, e em seguida um clarão me atingiu. Ela insistia com o dedo em riste, apontando para trás de meu corpo. Ergui-me, com dificuldade. Notei que as estrelas estavam desaparecendo diante da aurora que surgia. Desconfiado, vi uma tenda, onde mulheres cobertas com mantos negros, ordenhavam algumas cabras tendo crianças brincando ao redor. Meus olhos marejaram. Encarei a mulher do deserto e ela sorriu, abaixando o braço. Caminhei até a tenda e ao me verem, magro, cabeludo e barbudo, as mulheres se assustaram. Desmaiei aos seus pés.

Fui salvo por elas. Eu havia me distanciado tanto que chegara a outro país.

1 de Abril de 2024 às 21:44 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Alegria é poder ler um trabalho tão primoroso, bem elaborado, com o nível de ideia impressionante. A sua escrita tem a capacidade de prender a atenção do leitor. É um estilo de escrita que me agrada muito e bem diferente do que vejo pelas redondezas dos app... Perfeito amiga 🤗 👌
April 03, 2024, 00:39

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Fico imensamente grata. Suas estórias, principalmente aquelas de família, muito me encanta, amigo! Vc transmite aquela verdade e saudade gostosa. April 03, 2024, 10:02
Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Um excelente e caprichado trabalho, sabemos que uma maratona 🏃 judia muito do atleta por mais experiente que ele seja porém, no deserto creio que potencializa o sacrifício. Como sempre suas excelentes histórias não deixam dúvidas do seu talento. O top foi foram as descrições dos perrengues vivido pelo protagonista no meio da tempestade de areia... Parabéns 👏🏽 👏🏽 👏🏽
April 01, 2024, 22:41

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Que alegria ler seu comentário, amigo! Agradeço imensamente. Um conto baseado em um fato! April 02, 2024, 11:23
~