juniosalles Junio Salles

Em "O Oásis da Ilusão", José, perdido no deserto, encontra um oásis que o acolhe durante a noite, mas ao despertar, sempre retorna ao mesmo lugar árido. Seu encontro com uma bela mulher misteriosa, desencadeia uma jornada envolta em mistério, paixão e terror.


Fantasia Medieval Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#osperigosdodeserto
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Capítulo único

No vasto e impiedoso deserto, onde o sol castigava a terra como uma fornalha inclemente, arrastei-me através das dunas ondulantes. Meu nome é José, e estou perambulando por este mar de areia tantos dias que nem sei mais quantos pôr do sol já vi no horizonte infinito de areia branca.

Há dias caminho, meu corpo magro envolto em trapos que mal me protegem do calor sufocante. Meus pés, agora descalços, afundam na areia abrasadora a cada passo, e minhas reservas de água e comida minguam a uma velocidade alarmante.

Estou além do ponto de exaustão. Meus olhos ardem com o esforço e a privação. Sei que preciso encontrar abrigo e repouso, mas a vastidão do deserto estende-se diante de mim como uma prisão sem fim.

À medida que o sol mergulha no horizonte, o calor diminui um pouco, mas a escuridão traz consigo uma nova série de desafios. O calor começa a dar lugar ao frio e minhas surradas vestes, que antes não me protegiam do sol, agora são ainda mais ineficientes para me resguardar do frio. Quando sentia meus músculos queimando pelo excessivo esforço e meu estômago queimando devido à fome, avisto no horizonte o que parece ser um oásis. Pergunto-me se estou começando a perder a razão, se estou simplesmente delirando de fome e sede.

Começo a correr, meu corpo tirando forças apenas da esperança de sobreviver até chegar a essa fonte de água cristalina à minha frente. Quando meus pés deixam de tocar a areia e passam a repousar sobre a pedra amarelada que circundava a fonte de água, começo a sorrir. Me jogo para frente, caindo dentro da fonte e sentindo a água molhar a minha pele ressecada. Meus lábios rachados e que tanto sangraram começam a sugar a água e meu corpo se arrepia ao sentir o líquido fresco escorrendo para dentro. Suspiro e sorrio, gargalho e choro tamanha a felicidade. Olho para o lado e vejo um abrigo, uma casa feita de pedra com uma modesta porta de madeira. Caminho até ela, ainda sentindo dores no corpo, abro a porta e entro.

O interior da casinha é iluminado por uma fogueira ao centro. O calor que ela emanava trazia conforto ao meu corpo molhado que passa a tremer devido ao frio da noite do deserto. Ao canto, havia um baú com roupas limpas e calçados novos e, do outro lado, um armário de madeira com as mais diversas frutas. Como sem me preocupar com regras de etiqueta, mordendo uma fruta e partindo para outra antes mesmo de terminar de comê-la. Ao fim do meu banquete, a casinha que antes estava limpa e organizada agora estava com o chão coberto por restos de comida. Porém, não me importo com aquilo; eu mereço um pouco de conforto depois de tanto sofrimento em minha jornada. Após comer e me vestir com novas roupas, me jogo na cama ao fundo da casinha e adormeço no mesmo instante.

Acordei com algo queimando meu rosto. Abri os olhos e os senti arder devido à claridade. Pouco a pouco, minha visão se adaptou à quantidade exagerada de luz e consegui ver melhor ao meu redor. Não havia mais a casinha, as frutas, tampouco a fonte de água na qual me hidratei e me banhei na noite anterior. Ao redor de mim, tudo era areia branca. No entanto, minhas roupas eram as mesmas que tinha vestido na noite anterior. Pelo menos, isso provava que não tinha delirado ou sonhado com tudo aquilo. Além disso, não sentia a mesma fome que antes, mas começava a sentir sede.

Comecei a caminhar em qualquer direção; tudo parecia igual e eu não sabia mais de onde vinha ou para onde estava indo. Tinha a esperança de encontrar algo além de areia em breve. A noite anterior havia me dado uma ponta de esperança, apesar de não entender como havia adormecido em uma cama e acordado no deserto novamente.

Quando o sol começava a se por novamente, meu corpo já doía como antes e a sede era insuportável. A fome também era um problema, mas não era nada comparado à sede.

Quando a noite reinou no céu e as estrelas assumiram a iluminação do mundo, já pensava em desistir. Queria encontrar alguma pedra pontuda para dar fim à minha vida sofrida e miserável.

Já praticamente me arrastava quando o vi novamente, o oásis, o mesmo onde repousei na noite anterior. Será que tinha voltado para o mesmo caminho? Andei o dia inteiro para voltar ao mesmo lugar? Sentia raiva e, ao mesmo tempo, alívio ao ver aquele lugar novamente. Mais uma vez me banhei nas águas. Me alimentei, me troquei e dormi na casinha que estava arrumada e limpa como da primeira vez. Porém, dessa vez enchi um cantil com água e o escondi dentro de minhas roupas, junto com algumas frutas e pães.

Mais uma vez, ao despertar, encontrei-me jogado nas areias do deserto. Ergui-me sentindo o calor do sol no rosto, como da primeira vez, e decidi caminhar na direção oposta, garantindo que o sol agora aquecesse minhas costas. O dia transcorreu com mais tranquilidade, pois levei comigo o cantil, frutas e pães, que me sustentaram durante a jornada. No entanto, ao cair da noite, lá estava o oásis novamente. Como podia ser? Seria outro oásis, ou eu havia retornado ao mesmo local? Eu tinha certeza de ter seguido em outra direção desta vez.

Lavei-me e saciei minha sede nas águas cristalinas, alimentei-me e troquei minhas vestes antes de dormir, mais uma vez aquecido pela fogueira. Ao despertar no dia seguinte, porém, encontrava-me novamente no deserto, apenas com as roupas novas, o cantil e os mantimentos que havia escondido.

Repeti esse ciclo inúmeras vezes, até começar a enlouquecer. Gritava de frustração cada vez que acordava no deserto, amaldiçoando minha sina ao deparar-me com aquele maldito oásis. O local que outrora me trouxera alívio agora parecia uma maldição a atormentar minha mente.

Quando já não suportava mais esse ciclo incessante, decidi permanecer acordado durante a noite para entender como acabava no meio do deserto sempre que adormecia. O temor da privação de sono me assolava, mas preferia enfrentar tal destino a continuar vivendo daquela maneira.

Após limpar-me, alimentar-me e hidratar-me abundantemente, sentei-me na cama, lutando contra o sono que aos poucos me dominava. Por vezes, recorria a tapas no rosto para mantê-lo afastado.

Horas se passaram enquanto aguardava, e nada parecia acontecer. Comecei a duvidar de minha sanidade. Seria possível que tudo aquilo fosse fruto de minha mente perturbada? Talvez estivesse apenas delirando, vítima de uma alucinação induzida pelo deserto.

Quando já estava convicto de minha loucura, ouvi um barulho vindo de fora. Levantei-me da cama, o coração martelando em meu peito. O som parecia indicar algo caído na fonte. Abri a porta com cautela e a vi submersa na água. Uma mulher de beleza indescritível, com traços que lembravam as divindades egípcias. Sua pele, suave como alabastro, brilhava à luz das estrelas. Seus olhos profundos, da cor do lago Nilo em uma manhã serena, eram adornados por cílios longos que se curvavam delicadamente. Um sorriso enigmático, como se guardasse segredos ancestrais, repousava em seus lábios cheios e curvados.

Seus cabelos, negros como ébano, fluíam em ondas sedosas até a cintura, ornados com fitas douradas e pequenas flores de lótus, exalando um aroma doce e envolvente. Alta e esguia, mantinha uma postura digna e graciosa.

A mulher estava completamente nua, banhando-se nas águas da fonte. Ela já me havia visto espiá-la, mas não parecia ter qualquer vestígio de constrangimento por ser observada daquela forma. Na verdade, não havia motivo algum para sentir vergonha, muito pelo contrário.

Aproximei-me timidamente, sentindo uma mistura de medo e excitação enquanto meu coração acelerava.

— Não precisa ter medo de mim, José. — Disse a mulher com um sorriso, sua voz envolvendo-me e arrepiando toda a minha pele. Meu coração disparou ainda mais, minhas mãos gelaram, mas não era pelo frio da noite no deserto. Sem hesitar, comecei a me despir. Sabia que era uma loucura atender ao chamado de uma estranha em um lugar ainda mais estranho, mas era impossível resistir àquela mulher, àquela voz, àquela beleza.

Em segundos, eu estava nu, imerso na fonte ao lado dela. Desejava tê-la em meus braços, beijar seus lábios, sentir-me dentro dela, fazê-la minha enquanto ela me fazia seu homem. Mal a tinha visto uma vez, e não se passaram nem cinco minutos desde o momento em que pus os olhos nela, mas já a desejava como jamais havia desejado algo neste mundo.

– Quer me tocar, José? – Ela indagou, sorrindo para mim. Apenas assenti com a cabeça, pois me faltava voz para expressar em palavras meus desejos.

Lentamente, ela guiou minha mão direita até seu seio esquerdo, e pude sentir a maciez de sua pele. Nem mesmo as sedas que forravam a cama dos faraós deviam ser tão suaves quanto a pele daquela mulher.

– Qua... qua... qual o seu no... nome? – Consegui dizer, trêmulo, ansioso, tomado pelo desejo.

– Nefertari. – Ela disse, sorrindo. Em seguida, tomou-me nos braços e beijou-me, sua língua entrelaçando-se na minha enquanto nossos corpos nus se tocavam.

Aos poucos, entreguei-me mais e mais àquele beijo, e nossos corpos se entrelaçaram dentro da fonte. Estive dentro dela, sentindo seus arranhões em minhas costas. O gosto de uvas doces nos lábios de Nefertari era intoxicante, e ela sentia meu desejo crescer a cada momento. Amamo-nos sob as estrelas por algumas horas, até que, por fim, nos deitamos juntos e adormeci com Nefertari em meus braços.

No dia seguinte, despertei no deserto. Desta vez, estava completamente nu, desprovido de qualquer pertence, sem cantil, frutas ou pães. Iniciei minha jornada, na esperança de sobreviver até a noite e encontrar o oásis novamente, reencontrar Nefertari.

Porém, caminhar nu pelo deserto era ainda mais desafiador. Após algumas horas de caminhada, meus pés foram cobertos por bolhas que logo estouraram, deixando a sola deles em carne viva. Minha pele, já tomada pela insolação, ardia em feridas vermelhas. Meus lábios rachados e secos sangravam, e meu estômago queimava de fome.

Ainda faltavam algumas horas até o pôr do sol, o que significava que também faltava tempo para chegar ao oásis, para encontrar Nefertari novamente. Ou talvez faltasse mais tempo; eu não tinha noção de quanto tinha andado, certamente menos do que o normal, dadas as condições. Mas nada disso importava mais; eu não conseguia dar mais nenhum passo. Todo o meu corpo doía, meus pés em carne viva ardiam como brasas. Minhas forças se esvaíram e meu corpo caiu para frente. Despenquei de cara na areia quente, sentindo-a queimar minha face. Havia desistido; sabia que aquele era o fim.

Enquanto sentia meu corpo queimar sob o sol e a morte se aproximava lentamente, comecei a pensar em Nefertari, na noite de prazer que compartilhamos. Nos seus braços, no seu corpo, nos seus lábios e seios. Minha mente começava a apagar lentamente. Não podia acreditar que Nefertari fosse uma alucinação; minha mente não seria capaz de criar algo tão perfeito.

Quando estava quase sem vida, senti um cheiro familiar. O cheiro de Nefertari. Quis me levantar, virar e vê-la mais uma vez antes de morrer. Mas estava fraco demais; não tinha forças para isso. Senti algo me tocar, uma mão macia. Seria Nefertari? Teria certeza de que era minha amada, se não tivesse sido erguido por aquilo com tanta facilidade. Uma mulher tão delicada quanto ela não teria tanta força. Pouco depois, fui arremessado em alguma água, meu corpo afundando lentamente. Sem energia para nadar, apenas deixei meu corpo submergir até tocar o fundo. Quando começava a me afogar, uma mão puxou-me pelos cabelos, erguendo-me para fora d'água. Abri os olhos lentamente e vi Nefertari, o céu já negro salpicado de estrelas, e ela sorrindo para mim.

Tentei falar, mas não conseguia. Nefertari abriu a boca e estendeu a língua. Pensei estar alucinando, pois sua língua era comprida, estreita e bifurcada como a de uma serpente. Apertei os olhos e, ao abri-los novamente, vi-a transformada, com uma aparência mais animalesca. Seu rosto estava coberto de pelos dourados, e seus cabelos tinham um tom avermelhado mais pronunciado. Era como se as belas feições de Nefertari se mesclassem com as de uma fera, as de um leão. Nefertari passou a mão em meu peito e, em seguida, enfiou as garras. Suas unhas agora eram negras, pontiagudas e extremamente afiadas. Olhei com mais atenção e percebi que todo o seu corpo estava coberto de pelos curtos e dourados.

Com o pouco de força que ainda me restava, afastei-me dela, o mais longe possível daquela criatura. Nefertari ficou de pé, ainda nua como na noite anterior, mas seu corpo não era mais humano. Era uma mistura de leão com mulher. Erguia-se sobre patas no lugar dos pés, tinha presas em vez de dentes, uma cauda longa e uma juba avermelhada em vez de cabelos.

– O que é você? – Indaguei, amedrontado, as lágrimas correndo pelo meu rosto, tomado pelo mais absoluto pavor.

– Meu nome é Nefertari, sou uma semideusa, filha de Sekhmet. E você, pobre mortal, é minha presa. – Nefertari respondeu e, em seguida, atacou-me.

Senti suas garras cortarem minha jugular. Enquanto meu sangue escorria, senti sua língua áspera lambendo-o. Em seguida, com as presas sujas de sangue, a semideusa sorriu para mim e, com uma mordida, deu-me o golpe de misericórdia.

28 de Março de 2024 às 17:55 2 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Junio Salles Nascido em Belo Horizonte, desde pequeno vivia em mundos de fantasia criados por mim mesmo em minha cabeça. Sempre preferi ficar sozinho imaginando e criando histórias baseadas no que lia nos livros ou assistia na TV. A maioria das histórias que criei não escrevi, mas agora de um tempo pra cá tenho passado pro papel esses roteiros que estão na minha cabeça. Espero que gostem

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Paulo André Paulo André
Gostei da escrita...
April 28, 2024, 00:25

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