amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Amanda é a única garota em uma família com seis irmãos, que vivem aprontando peraltices pelo bairro. Após a chegada de Mabel à vizinhança, ela descobre a força da amizade e um segredo que sua nova amiga tenta esconder de todas as formas. Mabel, uma criança de trejeitos finos, tinha apenas um único desejo: sorrir. Enquanto foram amigas, Amanda lhe concedeu esse desejo, contando estórias divertidas sobre os irmãos, sem se atentar ao fato de que a amiga sabia tudo sobre sua vida e ela, nada sabia sobre a de Mabel. Quando a amiga parte do bairro, deixa-lhe uma rosa de presente e através dela, Amanda descobre o que tanto a amiga quis lhe esconder.


Histórias da vida Todo o público.

#amizade #famíla #amor
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A Chegada

Eu estava com seis anos de idade quando a vi pela primeira vez. Ela desceu de um fusca branco, segurando uma boneca nos braços, olhando curiosa e assustada para a casa que seria o seu lar. Lembro-me do vestido azul rodado, do sapatinho preto nos pés delicados e do brilho em seus olhos quando me viu sentada na entrada da porta de casa, brincando na areia ali esquecida; sobra da construção que nunca terminava. Senti vergonha ao vê-la tão aprumada, quando eu mesma, além dos pés descalços, nem de vestido estava. Ela pareceu não se importar com a minha aparência desleixada. Sorriu para mim e logo soube que seríamos grandes amigas.

Aproximou-se enquanto a mãe, ao lado do pai, contemplava a casa que ficara fechada por tanto tempo.

— Oi — cumprimentou-me de forma tímida, esperando por minha reação.

— Oi — retruquei, desajeitada.

— Você mora aqui? — apressou-se em perguntar, ávida por minha resposta.

— Sim. E você vai morar aí? — indaguei, apontando para casa ao lado da minha.

— Vou sim e seremos grandes amigas.

Ela disse com muita propriedade, reforçando o que eu acabara de pressentir. A mãe a chamou assim que o pai abriu o portão de grade de ferro. Foi assim que soube seu nome: Maria Isabel. A menina que mudaria minha forma de encarar e ver a vida para sempre.

***

Não fazia muito tempo que nos mudáramos para aquela rua, cuja última casa do quarteirão era a nossa. Precisamos sair apressados da casa onde nasci, que ficava a uns cinco quarteirões acima da nova, pois a Prefeitura havia comprado nosso terreno para transformá-lo na Praça da Igreja de Santa Ângela, nossa vizinha de cerca, desapropriando-nos. Essa casa era muito pequena e nem forro tinha, contudo, lembro-me bem do pé de pitanga que havia em frente à janela do quarto dos meninos. Eu, por ser menina, dormia no quarto dos pais. Naquela época não entendia o porquê de nos mudarmos e nem o motivo de tanta pressa. Escutava a conversa dos adultos sobre valores, construção da nova casa, prazo; e me sentia revoltada por ter que deixar o único lugar que conhecia e onde me sentia feliz e segura.

Éramos seis irmãos, o pai e a mãe, e vivíamos naquela casinha, cuja nossa grande alegria era o imenso quintal. Ali havia de tudo. De pés de frutas a galinheiro. Por esse motivo, o fato de ter que deixá-la causou muita revolta nos irmãos, principalmente no Celito. O pai, um italiano de pele clara e olhos azuis, tinha como profissão a barbearia, e a mãe, uma morena de olhos negros descendente de portugueses e, segundo gostava de dizer: de índios, conseguia alguns trocados para ajudar nas despesas da casa como costureira. O dinheiro era sempre curto. Com a freguesia da manhã comprava-se a mistura do almoço e com a da tarde, a do jantar. Não tínhamos quase nada, mas isso não era motivo para falta de felicidade, pelo menos para mim.

Meus irmãos mais velhos eram meninos soltos. Naquela época, por volta de 1974, não havia os perigos de hoje. Corriam brincando pelo quintal e pelas ruas, com os outros meninos da vizinhança, ou apenas atrás de uma bola no campo do Jabaquara.

De vez em quando um chegava com o joelho ralado ou o dedão do pé “estourado”. O terror surgia quando eles se encontravam frente a frente com o terrível Merthiolate incolor e sua pazinha assassina. Isso sim doía, mais do que uma surra quando faziam travessuras. Contudo, a mãe ralhava, com certo orgulho deles. “Deixa os meninos”, ela dizia ao pai. “Se estão machucados é porque estão saudáveis”.

Eu “morria” de ciúmes deles. Queria brincar de futebol, caçar passarinho, vender sorvete como eles, mas a mãe nunca deixava. Aquilo era coisa de moleque. E eu, ao lado da barra de sua saia, ficava aprendendo o ofício da costura, dos bordados, dos pontos de crochê e tricô.

Sentia falta de brincar com alguém e, por raiva dos meninos, dedurava-os para o pai quando ele voltava do trabalho. É claro que eu era sua preferida em meio a cinco meninos. Mas, preferida não significava ganhar coisas escondidas e nem melhores do que as dos irmãos. Pelo contrário. O pai era extremamente justo. O dinheiro era curto, muitas vezes sendo suficiente apenas para o básico do básico.

O pão, uma “bengala” comprada no bar da esquina, era fatiada em pequenos pedaços que a mãe dava para cada um e lá se ia o litro de leite fervido pela manhã. A gente sempre queria mais, porém, não tinha. Simples assim. E a coisa ficava pior quando aparecia algum amigo dos meninos para brincar à tarde. Ela ficava sem comer, mas não nos deixava sem o lanche da tarde; outra bengala sem manteiga, contudo, diante do “convidado inesperado”, que quase sempre era mais pobre do que a gente, colocava-o sentado à mesa. O pão diminuía e leite, quando tinha, mal dava para molhar a garganta. Mas isso era suplantado pela alegria das molecagens.

Dos ovos da galinhada, às vezes sentíamos o cheiro do bolo, apelidado de Maneco Pelado, já que não tinha nenhum recheio, nem mesmo a fina camada de açúcar que a gente namorava nas fotografias maravilhosas do livro de Receitas União, que andava jogado pela cozinha. Aqueles doces eram o que eram. Apenas uma foto bem tirada em um livro, já que os ingredientes eram impossíveis de ser comprados.

No Natal, quando sobrava alguns trocados, o pai comprava uma bola de capotão, parcelada em dez vezes em uma loja do centro da cidade, e que fazia a alegria e a tristeza dos irmãos, já que ela se acabava bem antes de ele ter terminado de saldá-la. Eu sonhava com o fogãozinho que cozinhava comidinha de verdade, cuja propaganda passava nos intervalos do Fantástico nos domingos à noite, que assistíamos de olhos espichados na televisão do vizinho da frente, uma vez que o orçamento não dava para ter uma só nossa.

Mas nem por isso a gente deixava de se divertir. A mãe fazia para mim bonecas de tecido ou de cobertor, que os meninos viviam jogando para cima, ou pisando nelas. Na verdade não passava de cobertores enrolados, tal qual se faz com bebês recém-nascidos.

Depois da tensão em deixar nossa casinha, as coisas pioraram muito para os pais, financeiramente. Contudo, o pai deu um jeito. Ele sempre dava. A nova casa se ergueu, bem maior do que a primeira, porém, por muito anos permaneceu inacabada — sem muro, sem reboco por fora e sem pintura, construída em um terreno comprado às pressas, de ameia com o vizinho de avenida. Contudo, crianças parecem não sentir tanto quanto os adultos e assim, apesar de tudo, as brincadeiras e as risadas corriam soltas pela casa.

25 de Março de 2024 às 21:37 0 Denunciar Insira Seguir história
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