amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Por que sentimos algo tão abstrato quanto o medo? Ele chega, insinua-se, enreda-te e quando percebemos o coração acelera, a adrenalina espalha pelo corpo e sua mente, às vezes, confunde-se entre o real e o imaginário. O melhor seria lutar ou se entregar? Talvez Carolina possa te responder.


Horror Todo o público. © Todos

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Abstrato Medo


Não sei bem ao certo o motivo de temermos a noite. Quase sempre ela me apavora no silêncio que me consome, onde eu preciso parar e respirar. Até que as luzes se acendam vejo as sombras abafarem os últimos veios de cores e o que ela traz consigo em seus recantos. O fim de tarde torna-se sempre mais difícil, principalmente após as mazelas que nos envolvem durante o dia que parece nunca ter fim. Mas tem. A noite é uma prova disso.

A sucessão de dias talvez seja a culpada de nos impetrar os gatilhos que nos enredam em suas teias viciantes e traiçoeiras. Não sei precisar exatamente quando tudo começou. Talvez fosse o martelar de passos no concreto das ruas ao deixar o trabalho, no momento em que o sol passa a se deitar dando lugar à noite. A beleza da luz celeste traz aflição e não a calmaria desejada quando se está em um campo aberto, rodeado de verde e água, contemplando-as no infinito.

Até mesmo essa paisagem bucólica já foi maculada pelas feras que insistem em nos ferir a seu bel prazer na busca do que nos é mais caro: a sanidade. Não é algo que se explica, mas se sente. Ela se vai, substituída pelo medo constante que se insinua em curvas que te abraçam e vai apertando, esmagando teu corpo, roubando-lhe o ar, feito cobra sinuosa paralisando sua presa.

Assim o medo te encontra, sem que se saiba porquê veio. Um visitante indesejado que faz morada e o atormenta sem pudor. De repente está na sala, no banheiro, no quarto, nas ruas em todo o lugar. Torna-te prisioneiro de si mesmo.

As mesmas notícias banhadas de sangue e impiedade pululam diante de seus olhos. Quem as apresenta do outro lado das câmeras parecem não senti-las. Apenas mais um ato do cotidiano, coisa normal, cuja voz já não expressa qualquer emoção. A impunidade tomou conta dos gabinetes, das mentes que fazem uso dela para continuar com a crueldade que nos oprime.

Assaltos à mão armada em cada esquina, injustiças cometidas, espancamento, morte de mulheres e crianças é algo que vai te inflamando até seu coração espancar o peito. Não quero mais ver isso. O canal é trocado. Rir é o melhor remédio, contudo, o perigo nos ronda a ponto de escravizar.

As coisas cotidianas já não são mais aprazíveis, nem mesmo o simples ato de abrir a porta para um entregador de pizza. Os pensamentos se enroscam na mente, ludibriando, acenando possibilidades. Será que ele é mesmo um entregador? E se não for? Talvez seja melhor não pedir comida. O risco será todo meu se o fizer, entretanto a geladeira está quase vazia. O riso dos autores, agora em uma comédia televisiva, distrai-me por um tempo, contudo, a dor da fome se faz presente. Um suor frio brota na testa. A tensão está ali. Latente, provocando-me. Devo ligar? A voz do outro lado da linha é tão normal. Um instante de felicidade e alívio, após um rápido mea-culpa, e o pedido então é feito. Alívio.

A fome dá um tempo de espera. Meia hora, a atendente diz. O canal é trocado cinco, dez vezes e nada parece prender minha atenção. A janela, antes um refúgio, torna-se pesadelo. O que se pode ver adormecido no véu da noite? Abrir a porta que me encarcera dentro de casa, de repente, não parece uma boa ideia, contudo, a buzina irritante e aguda já foi soada. Preciso ir ao portão e, mais que isso, abri-lo para dar de cara com alguém escondido atrás de um capacete. O suor brota novamente. E se ele perceber que estou sozinha? E se resolver entrar comigo, lacrando o portão, fazendo da minha morada a própria mortalha?

Buzina impaciente. A mão treme diante da fechadura e a voz, antes segura e firme, vacila no “Só um Momento, Por Favor”. O portão se abre e o capacete me encara como se você fosse a pessoa mais idiota no mundo por tê-lo feito esperar. Ele quer receber por seu trabalho e seguir para a próxima vítima sem se dar conta de todo o terror que me acometeu ao chegar até ali. O retorno até a porta de entrada, com a pizza quente na mão, poderia ser feito com um assovio de prazer na canção da moda, contudo, o arbusto que foi plantado para alegrar o jardim mal cuidado parece se mover. Não há vento. A saliva seca na boca enquanto meço os metros que me separam da segurança.

Um novo farfalhar de folhas. Alguém está ali a me espreitar. Tenho certeza. Quero correr, mas sinto-me paralisada no cascalho charmoso posicionado entre os jardins. E se o que estiver ali pular e me agarrar antes de eu conseguir chegar a casa? Zumbido crescente nos ouvidos, sudorese excessiva, visão turva. Se desmaiar serei pega. Respiração profunda, uma decisão chega clara e real. Corro e rezo. Tranco a porta atrás de mim. A comida largada sobre a mesa de centro da sala perde o sabor. Confiro a janela. Não há ninguém ali, contudo a sensação de que o mal me espreita não me deixa totalmente.

O melhor é sentar-me no sofá em frente a TV. Amiga e inimiga de sempre. Ali tudo parece tão normal. Não realmente. Um novo filme para me distrair. Barriga ronca. A cozinha parece tão distante. Olho o corredor escuro e penso se vale a pena ir até lá buscar um prato, talheres e copo. Esqueci-me de deixar a luz acesa. O cheiro delicioso inunda o ar e eu a desejo. Agora a boca saliva. Só um pedaço, depois cama. O corredor continua escuro. Aqueles olhos cravados em minha nuca ainda permanecem.

Forço-me a esquecer os arrepios por meu corpo e ignoro os pelos eriçados do braço ao me decidir comer uma fatia com as mãos. Mas a certeza de que a sede virá me faz repensar. Deveria ter acendido a maldita luz. Ergo-me do sofá, assoviando algo sem sentido. Preciso enfrentar o que me aflige.

As pernas bambeiam e a mente se enche de orações e promessas que tenho certeza de que jamais irei cumprir. Tateio a parede em busca do interruptor, contudo, há algo nas sombras. Algo que perscruta com olhos negros prestes a agarrar minha mão assim que me atrever a trazer a luz. Coração bate descompassado. Ela se mexeu? O som morre em minha boca, mas a mão foi mais rápida. Suspiro, aliviada, ao perceber a planta serena no vaso abaixo dos quadros pendurados com tanto esmero.

Ainda resta a cozinha. Se pelo menos a geladeira ficasse no lugar do fogão, visível através da luz que escorre para dentro dela, vinda do corredor, seria mais fácil, contudo, ela está lá do outro lado, coberta pelas sombras do quintal. Será que me lembrei de fechar a porta? Um estalo se faz ouvir. Paraliso diante do horror. Talvez o que fez a planta do jardim farfalhar deu a volta. E se já estiver na cozinha? Prendo a respiração, coração grita, na certeza do ataque. Não quero morrer. Não ainda. Apuro os ouvidos e lá está um novo estalido. Parecem galhos sendo esmagados.

— Calma, menina! É tudo fruto da sua imaginação. Você anda assistindo a muita televisão e relatos assombrados. Bem feito. Controle-se.

O mantra entoado ao som da própria voz me assusta. Olho por sobre o ombro e ouço a televisão. Tenho ímpetos de voltar à sala e mais ainda de pegar o carro e sair da casa aos berros. Hiperventilada! Dou um passo para trás, contudo, a imagem de um cano de revolver em minha cabeça se faz clara:

— Perdeu! Perdeu! Passa o celular — grita a voz agressora quando meu pé falseia e o carro dá um tranco.

Desisto. Não posso deixar a casa. De alguma forma ela me protege das sombras que se alastram. Outro estalido lá fora. Preciso verificar.

— Vamos, Carolina! Seja forte. Você consegue! Pense que daqui a pouco o dia amanhece e logo estará livre de tudo isso.

Eu penso, mas a maldita voz racional, insistente, diz que a noite está longe de acabar.

Dou um passo à frente, respirando profundamente, mantendo um pensamento claro quando alcanço o interruptor da cozinha que varre o ambiente. Encaro a geladeira e sinto a garganta seca. Maldição! Eu só preciso de um copo com refrigerante. Penso na pizza esfriando diante da TV. Acho que nem a quero mais, embora a barriga volte a roncar diante da lembrança. Contudo tenho que decidir se vou à sala em busca do alimento cheiroso para guardá-lo ou simplesmente acabo com toda essa paranoia e me ponho a saboreá-la. Idiota. Imbecil. Não sou tão forte quanto imagino, pois a sensação de que algo está muito errado ao meu redor suplanta minha coragem.

Eu preciso me livrar deste incômodo. Dou um passo e me vejo ao lado da pia e, antes que possa continuar com meu intento, a ampla janela de vidro transparente atrai minha atenção ao revelar as árvores negras a balouçar lá fora. Agora há vento. Ergo os olhos para o céu e as estrelas foram sobrepujadas pelas nuvens escuras. Um relâmpago rasga a noite com fúria e, entre os troncos grossos, juro ter visto uma silhueta.

A mente paralisa e a descarga de adrenalina no corpo me deixa em alerta. Já não raciocino direito, presa à janela. Novo relâmpago e dessa vez a silhueta se foi. Vou ligar para a polícia.

— Deixa de ser idiota, Carol. Você está com medo. Normal. Isso faz você inventar coisas.

Antes que eu deixe a janela, motivada por tal pensamento inovador, um novo raio risca o céu e então meus olhos me traem e quase desfaleço. Agora não há apenas uma silhueta, mas cinco. Todas com vestes brancas a me encarar. O grito sai agudo e a corrida é certa. Passo pela sala, onde os protagonistas do filme esquecido parecem me encarar tentando dizer algo. Vejo suas bocas se mexerem e o meu desejo é entrar na tela e me esconder entre eles. Ridículo. Preciso tomar uma atitude. O que posso fazer?

Ouço o trinco da porta da cozinha. O terror me assola. Esqueci-me de verificar a fechadura, contudo tenho certeza de que a fechei. Verifico sempre duas, três vezes. O que querem de mim? Não vou sair daqui.

— Deixem-me em paz! — berro, tapando os ouvidos.

O barulho cessa, contudo, os olhos em minhas costas continuam lá. Sinto-me um rato de laboratório observado depois de uma experiência qualquer. As lágrimas fluem quentes, gordas e escorrem pela face. Eu não deveria ter saído de casa. Mamãe pediu que eu ficasse, mas eu queria tanto ver o Paulinho. Agora ela se foi e não há ninguém mais para cuidar de mim.

Eles vão entrar. Sei que vão. Querem me tirar daqui à força, mas a casa é a única lembrança que tenho da minha família. Preciso enfrentá-los e me esconder no quarto. Outro corredor escuro. A visão está embaçada. Preciso tentar fugir. Corro em disparada e chego ao quarto. Ao me virar para fechar a porta, a luz está ali. Ela inunda a sala com violência. Cega-me, mas eu a conheço. As silhuetas brancas estão dentro delas, estendendo-me a mão. Elas me querem, entretanto, eu não posso ir. Tenho que ficar na casa.

Talvez mamãe volte e me salve delas. Fecho a porta e me encolho na cama. O rosto do assaltante se faz nítido e então... o escuro. A casa é tudo o que me resta, mesmo com suas sombras a me espreitar desejando me levar para longe de tudo o que conheço.

13 de Março de 2024 às 21:21 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Natália Laje Santori Natália Laje Santori
Realmente certos medos que nem sabemos direito do que que, são terríveis! Odeio essa sensação. Você conseguiu passar tudo isso muito bem. Te dou os parabéns!
April 20, 2024, 06:28

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Gratidão eterna, flor! Fico muito feliz com seu comentário. April 20, 2024, 10:56
Denis Sakamoto Denis Sakamoto
Que terrível a angústia da ansiedade, o medo dos tempos sombrios que vivemos. Você escreve muito bem! Consegue passar as emoções vividas pela personagem com um realismo que me deixou agoniado. Parabéns!!
March 17, 2024, 06:40

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Denis, que alegria suas palavras incentivadoras me trazem. Infelizmente estamos vivendo tempos difíceis. Mto obrigada pela leitura e comentário. ❤️❤️ March 17, 2024, 10:23
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