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O despertar do desencanto

Joana abriu os olhos e ainda era noite, ou pelo menos pensara que era. Estava ansiosa para o dia amanhecer, acordar e ir brincar no jardim, era seu primeiro dia de férias.


Fechou novamente os olhos, apertou bem, ouvia o vento batendo na janela, sentia o ar um pouco frio entrar, sua animação esvanecia gradualmente conforme pensava nos empecilhos que encontraria para ir ao jardim caso o tempo não estivesse quente na manhã que tanto esperara.


Abria e fechava os olhos incontáveis vezes, tinha a sensação que passara anos, o vento fazia cada vez mais barulho, e o ar frio invadia seu quarto pelas frestas. Joana se encolhia sob a coberta. Ouvia as batidas de seu próprio coração acelerar. O vapor da sua respiração percorria o quarto e condensava na janela.


A menina estalou os dedos inúmeras vezes, virou de um lado para o outro da cama, contou mais de mil carneirinhos e não conseguia voltar a dormir. Uma leve sensação de arrepio a mantinha desperta, assim como o barulho do vento, e a ansiedade pela manhã.


Joana abriu novamente os olhos, e dessa vez viu um leve feixe de luz invadir seu quarto, quis sorrir, mas a centelha de animação que surgirá cedeu espaço a preocupação.


Levantou lentamente da cama, colocou um casaco, e foi andando tentando não fazer barulho, abriu a porta, e deu um pulo de susto de seu ranger, quase riu de si mesma, mas o som do vento lá fora, e aquela sensação de arrepio a mantinham alerta. Olhou para todos os lados, notou que a casa estava um pouco mais escura que o de costume, e seguiu andando pelo corredor, todas as portas estavam fechadas, e seu coração pulsava mais forte só de imaginar abrir uma delas.


E mesmo com aquele frio que percorria seu pequeno corpo, em um misto de medo, curiosidade e uma faísca de coragem, ela abriu uma porta de madeira - escura, larga e pesada - e o ranger a fez saltar de susto mais uma vez. Olhou para os lados, e não avistou ninguém, só se deparou com estantes repletas de livros, e uma poltrona verde escura acolchoada, era a biblioteca da casa.


Joana andou por entre as estantes, sempre alerta, atenta aos sons do vento lá fora, e imaginando algum perigo à espreita, folheou alguns livros empoeirados, espirrou repetidamente, e mesmo assim insistiu em vasculhar aquela biblioteca que há algum tempo não visitara. E entre poeiras, teias de aranha, e páginas velhas, ela encontrou um livro de contos que sua avó costumava ler para ela nas férias.


Ainda ressabiada, mas agora com alguma animação e nostalgia, pegou o livro e foi andando até a poltrona, olhando para os lados em uma frequência compulsiva para verificar que não havia ninguém e nada vivo por ali.


Sentou bem na ponta da poltrona que também estava empoeirada, e soltou um grito ao ouvir o rangido das madeiras, mas logo percebeu que estava segura, abriu o livro e começou a folhear atentamente os contos, a menina procurava por algum conforto, lembrou-se da vó sentada naquela poltrona, e ela sentada no chão, bem em frente a velhinha, com os olhos atentos, ouvindo cada palavra que ela lia e imaginando outros mundos, e só ela sabia o quanto esperava pelas visitas de vovó para ouvir e imaginar histórias.


Folheou mais um pouco as páginas amareladas, até que encontrou seu conto preferido, leu, e por alguns instantes até esqueceu do vento nas janelas, do frio, do medo, da angústia. Porém ao encerrar a leitura e fechar o livro voltou instantaneamente para o estado de alerta, preocupou-se com o barulho lá fora.


Naquele misto de ansiedade, e ainda dominada pelo espírito de aventura que lhe aguçou aquele livro tão velho e tão significativo, Joana deixou a biblioteca, dessa vez nem se assustou tanto com o ranger da porta fechando atrás de si, e seguiu o longo corredor, viu as outras portas também fechadas, mas não vasculhou outro cômodo da casa, queria ver o jardim, pensou até que poderia ter ânimo para brincar, e foi percorrendo o corredor, sua respiração acelerava conforma se aproximava das escadas. Não ouvia vozes, e nem sinal de que havia alguém acordado na casa. Um som no andar debaixo a perturbara.


Desceu degrau por degrau atentamente, a cada dois passos, olhava para trás - primeiro virando a cabeça para a esquerda, e depois para a direita.


Chegou na cozinha e viu apenas sua xícara sobre a mesa, se aproximou e viu que tinha chá até a metade, bebericou e sentiu que estava frio, mas terminou de tomar mesmo assim.


Ouviu a televisão chiar, correu até a sala e não viu ninguém, com a respiração acelerada, o coração disparado, a menina procurou o controle para desligar a TV, apertou o botão, e de novo, de mais uma vez, até que desistiu e puxou o fio da tomada, e então o chiado cessou.


Sentou no sofá aliviada, e em poucos segundos lembrou-se de estranhar o tremendo silêncio dentro de casa acompanhado do vento nas janelas.


E então gritou, e como não obteve resposta, levantou-se e andou da sala pra cozinha, e depois de volta procurando por alguém, chamou de novo, e nada. Ora andava devagar e atenta, ora acelerava o passo aflita, olhava em todos os cantos, como se uma pessoa pudesse estar escondida debaixo das almofada, nos vãos do sofá, e até mesmo entre pratos e tigelas dentro dos enormes armários.


A menina percebeu que não encontraria ninguém ali, e mesmo com um certo medo inexplicável, a curiosidade de ver o jardim a dominou, e decidiu sair lá fora.


Ao dar o primeiro passo para fora, ouviu a porta fechar atrás de si, olhou para os lados mas não viu ninguém. Caminhou pela calçada central do jardim, as flores pareciam sem cor, e nenhum passarinho havia chegado para visitá-las ainda, nem mesmo abelhas e borboletas rodeavam as flores.


Continuou andando observando atentamente cada flor, cada folha, a grama, as gotas de orvalho, e nada tinha cor.


Sentiu um frio no coração, olhava para todos os lados, aquele era seu jardim, estava tudo lá - intacto - assim como era nas férias anteriores, exceto pelas cores.


Sentou em um banco velho de madeira, meio que desconsolada, mas um sopro de esperança lhe surgiu, e então fechou bem apertado os olhos, contou até três e reabriu, e entristeceu-se ao ver que seu jardim continuava sem cor. Então beliscou seu próprio braço, gritou “AI” bem alto, e percebeu que realmente estava acordada.


A menina andava desesperadamente de um lado para o outro no jardim, se sentia agoniada, observava as flores, e olhava minuciosamente para todos os cantos inúmeras vezes tentando encontrar algo diferente, e nada.


Vários pensamentos lhe passavam na cabeça, o coração acelerado, o medo, a dificuldade de respirar, a tentativa de lembrar de como era antes, de quando seu jardim ainda tinha muitas cores, mas as imagens não lhe vinham na memória. Tentou recapitular seu dia, o escuro, o vento na janela, o vapor da respiração condensando na janela, o tempo infindável entre o primeiro abrir de olhos e avistar um só feixe de luz, e teve a sensação que nada tinha cor.


Será que o mundo nunca tivera cor e só percebera agora? Mas ela não podia ter imaginado tantas cores por todos seus poucos anos de vida e só então se dar conta que as cores não existiam de verdade, isso não era possível.


E se sempre tivesse imaginado as cores, por que justo em seu primeiro dia de férias perdera a capacidade de imaginá-las?


O questionamento sobre as cores das flores, do seu jardim, do mundo realmente terem algum dia existido dominavam o pensamento daquela garota, e a enchiam de aflição e desespero. Eram tantas dúvidas sem respostas, não havia ninguém ali para confirmar que as cores existiam, ou para lhe dizer que eram fruto de sua imaginação. Absolutamente ninguém.


Percorria cada vez mais rápido de uma ponta a outra do jardim sem esquecer de verificar pela centésima, e depois pela milésima vez se as flores estavam novamente coloridas.


Pensar que nunca mais veria nem uma vez sequer cores novamente perturbavam a menina, ela que gostara tanto de cores, de flores, e de brincar no jardim, e agora só conseguia correr de um lado ao outro em desespero.


Correu, correu, até cair no chão, e com a queda lhe surgiu a ideia de cheirar as flores e verificar se ao menos seus perfumes ainda estavam lá, e então aproximou-se de um dos canteiros, abaixou, e nada.


Sem cores e sem perfumes.


Apanhou uma das flores, e ao tocar sua pétala, viu-a se desfazer como se fossem cinzas no ar.


Aquele medo que sentia se intensificou, e já não conseguia correr, mas sem olhar para trás caminhou o mais rápido que pode até a porta de casa, as lágrimas escorriam no seu rosto, o coração aos pulos em seu peito, e então tentou girar a maçaneta, a porta não abria.


Joana sentou no chão, e gritou, gritou, gritou, sentia um sufoco na garganta, percebia sua voz se esvair, mesmo assim não quis parar de gritar, precisava ser ouvida. Os gritos foram perdendo sua força até estar completamente muda.

13 de Março de 2024 às 13:40 1 Denunciar Insira Seguir história
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CC C Clark Carbonera
Que ótimo começo aqui na plataforma, Babi! Seja muito bem-vinda! 🖖🏻 Esse é o primeiro conto do desafio que leio e sua história já me instigou. A cada parágrafo, com o crescer da história, vai crescendo também esse horror que sentimos junto com a personagem. Achei muito legal que a trama nos dá diversas ideias do que pode ser esse horror: será um tipo de pesadelo, um tipo de saída do corpo ou viagem astral pelo Umbral, será que nossa querida acordou em outro mundo paralelo onde não existia vida a não ser a dela? O medo apresentado na sua história é diferente, ele é sutil, mas não por isso ele deixa de ser horripilante! Ainda mais depois que Joana percebe que está presa nesse mundo agora, gritando até perder a voz, e quem sabe...até perder a cor assim como suas flores!
March 13, 2024, 21:05
~

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