Rougeâtre; ou sobre cada vez que me apaixono Seguir história

lsofia Lorena S.

Um dia vou aprender a partir: vou partir como quem fica. Um dia vou aprender a ficar: vou ficar como quem parte.


LGBT+ Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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   Quarto pequeno. Janela mais ou menos aberta. O seu rosto no meu peito, o meu braço ao redor da sua cintura, o calor que emana e absorvo; este é o momento em que gostaria de parar o relógio, atrasá-lo para que pudesse reviver a sensação que sinto agora, confortável e gentil.

   A meia luz da lua pinta seu corpo a partir da fresta da cortina, de repente mármore, de repente quebra. Musa inalcançável que descansa comigo. A respiração contra minha pele não mente: você aqui, agora, o para sempre que cabe neste instante.

   “Preciso ir embora”, digo. São quatro da manhã.

   Inicialmente nada acontece. A prataria da sua cozinha é de porcelana, bonita e delicada, a sua cara, já contaram? A suculenta que fica ao lado da cama também me lembra você, folhas verdes, flores pequenas, beleza sutil. Finalmente reage, levanta a cabeça lentamente, fita-me os olhos e vejo nas suas pupilas dilatadas a saudade de quem ainda não partiu, mas já se foi.

   “Fica mais um pouco. Por favor.”

   Eu me arrepio inteira quando te beijo outra vez, sinal de concordância, resposta ao apelo. Os seus lábios têm gosto de distância, textura de carinho, e você se move como quem tem medo do futuro iminente, medo da perda. Também tenho medo da perda. Nunca vou admitir isso, no entanto, e ambas sabemos: é o nosso segredo, a nossa intimidade, o nosso contrato; enquanto tivermos medo, ficaremos juntas; o medo que nos faz querer continuar é quente.

   Quente como nosso toque, como nossa sintonia, como seus seios em minha boca, suas coxas nas minhas orelhas, suas nádegas nas minhas palmas. O medo nos excita. O medo nos acolhe.

   Sintonia quase musical envolve o quarto. Os seus gemidos trazem a nostalgia de um tempo que nunca existiu, suspiros, canto suave, ritmado até que, enfim, goza; o êxtase de observar é inexplicável; experiencio todos os pecados do mundo quando fecha os olhos, abre a boca, contrai por completo e se deixa ser humana, um abismo entre o divino que a cerca e o instintivo que subitamente aparece.

   Um sonho que poderia durar para sempre. Sorrio quando seu corpo baqueia contra o colchão, a cabeça novamente em meu peito, a mão entre minhas pernas, carinho sigiloso. Lágrimas de diamante. Amor perolado. Lascívia completa, sem fim, recorrente, para então nos abraçarmos novamente em pura inocência e estagnação.

   Não sou capaz de pensar em qualquer coisa enquanto estamos assim. Sou apenas tato. Acaricio seus cabelos, você sela minha mão, quem dormirá primeiro? Sabemos a resposta. Questão de minutos até que você ressone baixinho, calmaria de criança, melancolia que surge do nada.

   Se minha mente pudesse fotografá-la agora, a mais bela imagem do mundo com certeza seria o que estou vendo: nossas pernas entrelaçadas, os lábios entreabertos, seu corpo colorido em branco e vermelho, em máculas agridoces. É como se você pudesse desaparecer assim que eu fechasse os olhos, e por isso fecho-os.

   Você ainda está aqui.

   “Preciso ir embora”, repito, sabendo que não irá ouvir. Sua única reação é murmurar algo que não compreendo e me puxar mais para si involuntariamente, como se soubesse o que pretendo.

   Rio baixinho. Também não quero ir, mas não posso ficar. Não hoje. 

   Solto-me lentamente, deixando parte de mim em você. Substituo meu corpo por um travesseiro, é vazio sem você. Abraço-me por conta. Recebo e aceito o espaço da sua falta. A janela reflete o que já passou, mas não me diz o que ainda será; eu só quero o que já tenho agora, você, você, nós, enlaçadas na noite e no dia, sem que nos falte nada.

   Não há olhar de adeus, entretanto; é um até mais que ainda não possui nada para se concretizar.

   Eu me visto, pego a mochila pouco cheia, dobro suas roupas e as deixo em cima da escrivaninha. Mando um sms: já estou com saudades. E saio da sua casa acompanhada pelo amanhecer gradual, o céu laranja sobre minha cabeça e o canto dos pássaros que já há muito estão acordados. Não faço questão de saber o horário. Queria poder acordar e encontrar o seu olhar assim que fugisse do mundo dos sonhos, então prefiro fingir que nunca estive ao seu lado, espreguiçando-me e sentindo seu cheiro em mim.

   Mais um dia em que fujo daquilo que sempre digo, contraditória: por que eu sempre vou embora quando quero estar presente, e não presa ao passado e a um medo infundado de um apego que já existe?

   A verdade é que nunca aprendo, e hoje também estou de partida.

   Um dia, eu prometo, vou aprender a partir; a partir como quem fica.

   E outro dia, quando estivermos finalmente como sempre sonhamos, eu prometo, vou aprender a ficar: vou ficar como quem parte.

6 de Junho de 2018 às 22:46 0 Denunciar Insira 0
Fim

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Lorena S. i want the beauty of the almost unscented flowers.

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