wesleydeniel Wesley Deniel

Em uma Pripyat deserta e atemporal, Semyon Petrova, um homem preso entre a realidade e a névoa da Zona Morta, busca desesperadamente por um sentido para sua existência. Entre flashes de seu passado, vozes vindas de todos e de nenhum lugar, Semyon luta para encontrar significado em um mundo mortal que parece ter parado no desastre de Chernobyl. Será a sua busca por lembranças uma jornada para a redenção ou um eterno retorno ao desconhecido?


#3 em Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#sobrenatural #mistério #morte #psicológico #abandono #ficção #solidão #loucura #medo #perigo #desastre #cósmico #chernobyl #sobrevivência #loop #isolamento #vícios # #ucrânia #névoa #prypiat #pripyat #myiake-jima
Conto
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Pripyat

A cidade estava deserta e era assim que parmaneceria. Os austeros apartamentos com mobília simplória, restos de refeições ainda nos pratos e canecas de alumínio; quartos embolorados, as camas com finos colchões sobre molas de rijo telado, jamais seriam ocupados de novo.

A praça, tão cinza, gélida e desprovida de ângulos como os blocos de concreto que a cercavam, os condomínios e prédios estatais que um dia, num tempo impensável para nosso minúsculo Semyon Petrova, virariam uma fantasmagórica atração turística para gente com um gosto duvidoso para férias, seria para sempre vista de longe, de uma distância segura.

Ela era parte da Zona Morta.

Um carrinho de bebê ficaria ali, junto à árvore desfolhada que um dia fizera sombra para crianças e suas mães, com as fofocas prontinhas para trocar de bocas e ouvidos. Os pequenos, nada interessados no que o marido de fulana ou a esposa de sicrano faziam na usina ou nas fábricas, queriam apenas brincar.

Uma menina de cinco, talvez seis anos, pelo que Semyon podia lembrar, fora quem o empurrara. O carrinho, com suas delicadas rodinhas, pertencia à filhinha feita de plástico da garotinha, e ela cuidava melhor da boneca que sua própria mãe dela.

A mulher estava mesmo era decidida a descobrir o que o irmão da vizinha achava de seu novo corte de cabelo. O penteado era para ele, afinal, e não para o marido, um tipo mirrado que Semyon via no ponto de ônibus todas as manhãs, indo para uma das montadoras – em Slavutych, quem sabe.

Que fim teria levado aquela menina? O pensamento era recorrente; não havia como não pensar nela e sua bebê, em como a malenkaya devochka ninava a filha, no caminho correto para ser mais uma mãe orgulhosa da União Soviética, e como no final aquele carrinho ficara abandonado sob aquela árvore morta, para se desmanchar com os anos, os infindáveis anos.

Quando o brinquedo infantil o deixava perturbado (vê-lo cada dia menos rosado como era no início, hoje mais e mais cinzento e enferrujado o deprimia acima de tudo ao seu redor), Semyon desviava os olhos cansados, amarelos, dele para outra coisa qualquer.

Tentava buscar pelo sol, mas nunca o via. O calor estava lá, mas não sua luz. Não seus raios. Os dias se haviam tornado estranhos e artificiais.

O insosso bloco padronizado de apartamentos também não era de seu interesse, nem o campo de futebol do ginásio público, com seu gramado abandonado e cheio de ervas emaranhadas que nunca vira antes.

Vegetação doente, mudada e tornada alienígena.

Semyon buscava por alento em uma memória mais feliz. Em horas assim, ele ia até a outra janela e olhava para o parque.

Era tão mórbido quanto tudo o mais, porém a roda gigante o fazia recordar alguém. Mas quem?

Deus, me ajude a lembrar! O velho sentia o medo, o pavor terrível de um dia partir sem conseguir recordar com quem dividia um assento na grande roda com cabines amarelas ou então um dos carrinhos de bate-bate nas noites de sábado. Bud’ laska, Bozhe!, me ajude a lembrar!

Mas Deus, como o sol, ele desconfiava que também Se fora.

Hoje a névoa estava mais densa. Não era possível ver sequer o prédio do ginásio, quanto mais a floresta além dele. Uma pena, pois algo lá era de inestimável valor para Semyon. Fora sob aquele dossel de pinheiros e bétulas que o dia mais importante de sua vida se dera.

— Se foi tão importante assim, por que não se lembra, seu maldito staryy pysnitsa?!

O velho deixou a janela, com as mãos crispadas, buscando meio sem rumo pelo armário sobre a pia. Abriu as portas, amaldiçoando o tempo todo o que visse pela frente, mesmo seu reflexo no espelho do guarda-roupa do outro lado da sala. Onde estava sua porcaria de vodca?

Afastou os poucos pratos e copos amassados que tinha com braçadas furiosas, mandando tudo para o chão com um PLÉÉÉNG! que se perdera para sempre, pois não havia ninguém a não ser ele para ouvir mais nada. Oh, Pronto. Aí está você, sua filha da puta, pensou ao encontrar sua garrafa de Nemiroff.

Aquela que ele vivia dizendo que nunca mais chegaria perto.

Bem, estava bastante perto agora. Podia sentir o cheiro de mel e pimenta ao retirar sua tampa. Não conseguia compreender como o aroma picante jamais se perdera ou mesmo como a própria vodca não evaporava.

Ora, essa você sabe, glupy. É o inferno, e aqui no inferno a sua querida bebida é para sempre! Tonéis de Nemiroff! O que acha disso?!

Outra vez o devaneio sobre inferno. Ah, era, sem dúvida, hora de uns tragos de vodca! E que se fodessem as velhas promessas.

— Você está na Zona Morta, velho! Se ela não te matou, não será vodca que o fará! — disse, cinicamente, para a garrafa em sua mão, e encheu o copo até a borda.

Virou-o numa golada só, bem como nos tempos áureos em que o fígado aguentava todas as pancadas e os pelos do peito macilento ainda eram negros como a noite daquela cidade fantasma onde ele decidira ficar.

Apesar de também não ter a lembrança de tomar tal resolução.

Hoje, para Semyon Petrova, a vida ali simplesmente havia parado de correr. Por algum motivo, só restara ele. O que teria acontecido, quando ou por quê, em nome do Senhor, ele continuava a existir, era só mais um punhado de perguntas acadêmicas. Ele vivia porque assim tinha de ser, e pronto.

Talvez porque fosse um dos que sua babushka chamava de ‘amaldiçoados’, um pobre esquecido por Bozhe.

— Chega disso! — A ordem e a expressão em seu rosto de ferro, como deviam ser os homens daquela pátria, foi o mais perto que conseguira chegar de firme em… Diabos, nem sabia em quantos anos.

Semyon logo murchou. Ferro coisa nenhuma. A boca sem dentes, mascava a própria fúria impotente.

O que, afinal, um montador de chassis tinha de saber do mundo? Não era pago para fazer perguntas. A cidade e todos nela podiam ter sido tragada para o grande nada, mas isso não alterava o fato de um braçal, uma barata e dispensável engrenagem da maquinaria de Gorbachev, nunca poder questionar coisa alguma.

Inaceitável!

— Recomponha-se! — tornou a falar sozinho, mas pimenta e mel cobriam o ar saturado e a garrafa infinita já enchia o copo outra vez. — Isso, isso mesmo. Mais um pouco e as malditas perguntas ou essa névoa não importarão, Semyon.

O velho puxou uma cadeira carcomida para junto da janela que dava para o parque de diversões que só rangia entre o matagal que crescera desenfreado, cada brinquedo ficando corroído e mais fraco, até o dia em que tombariam como titânicas bestas abatidas. RANNNG… RANNNG… A roda gigante, ele sabia que seria a primeira a cair.

RANNNG…

Pegou um Belomorkanal em cima da mesinha próxima e rolou o cigarro sem filtro de um dedo para outro; truque barato aprendido com um operário com quem falava às vezes na hora do almoço. Ele não lembrava mais seu nome também, mas a dancinha de dedos sobrevivera em sua mente exausta.

Amassava o maço vazio com a mão, distraído. Como sua Nemiroff, ele não sabia qual a magia envolvida naquilo, mas quando tornasse a vê-lo, estaria novo e cheio de pregos para caixão novamente.

Vodca e cigarros sem fim pra você. O que mais poderia querer? Então pensou bem e se respondeu: morrer. Isso seria bom.

RUÓÓNG… fazia a estrutura do telhado do bate-bate.

— Velharia. Vou sentir sua falta quando se forem. — Acendeu o mata-rato, tragou e deu um gole na vodca, puro fogo líquido. A bebida, como numa zombaria, em vez de turvar sua mente, de vez em quando a clareava. — Eu… sinto sua falta, Nádia.

Deus do Céu! Nádia… Sim… Sua querida matrioska. Onde estava ela?!

— Nádia! — gritou Semyon, a boca ficando seca feito uma saca de sílica. — NÁDIA!

Lá fora, as cabines da roda gigante onde os dois podiam ver toda a Pripyat e a floresta além, rangiam indiferentes.

— Onde está, meu amor?! — Semyon pulou da cadeira, foi até o guarda-roupa e buscou por um casaco puído. — Eu vou te encontrar, querida.

Calçou um par de galochas e por pouco, mecanicamente, não apanhou seu contador Geiger. Teria sido inútil: já não funcionava sabe-se lá há quanto tempo.

E não precisava de um bosta cricrilante para dizer que ali tudo era impregnado da tal ‘morte invisível’.

Senhor, quantos amigos ele vira serem consumidos em tão poucos dias! O plutônio, o Césio, aquele outro que ele nem sabia dizer o nome, mas que corroía os os ossos das pessoas… Dizer que foram “consumidos” era um quase repreensível eufemismo.

Aquela gente foi comida viva.

Semyon estivera na guerra, um padioleiro em Sevastopol; mas nem lá testemunhara tamanho horror.

A Morte Invisível te evita, seu glupy imprestável. Com isso em mente, abriu a porta de seu refúgio e saiu.

Sua moribunda Pripyat, lar e inferno, o recebeu como era de se esperar: silenciosa.

Com poucos passos, Semyon começou a sentir o tamanho da tolice. O nome de mulher que dissera, que o havia feito gritar e deixar às pressas a estranha segurança do apartamento, lhe escapava à memória.

Mas ele sabia que buscava a esposa. Coisa mais sem nexo, esquecer como era o nome do amor de sua vida.

Exceto por tudo ser assim na Pripyat que o assombrava. O nexo fora só mais uma das coisas que o lugar devorara.

— Nádia… — Semyon arfava. — Guarde o nome dela! Você não pode deixar que isso se perca. Nádia. Nádia!

Muito bem. Nádia, então. Ele tentaria mantê-lo na cachola. E o que deveria fazer agora? Vagar pela cidade morta? Um fato incontestável era que ela não estava ali.

A sensação de calor extremo, como alguém que se metesse numa pilha de agasalhos de inverno e fosse se sentar ao lado da caldeira em ebulição de uma siderúrgica (Semyon recordara o desconforto que sentia trabalhando no prédio vizinho onde os chassis dos velhos blindados eram derretidos para virarem novas maravilhas bélicas) à pleno vapor o invadia.

Era mais que aquilo, muito mais que expôr-se ao fogo da pilha de corpos que tinha de ajudar a queimar na guerra. Pripyat o estava cozinhando.

Semyon logo passou de tolo a suicida, pois perambular por uma cidade cujo nível anual de radiação que um homem podia suportar era incutido em menos de um minuto em quem a enfrentasse, só tinha de significar que a pessoa procurando a morte.

— NÁDIA!

Nada.

— Onde você está?! — Sem a resposta que sua mente febril esperava, Semyon seguiu até o parque, e de lá para a floresta. — Eu queria ter ido com você! Eu só tive medo…

O rangido – muito próximo agora – da roda gigante fez com que ele se assustasse. Era a primeira vez que se atrevia a sair do apartamento desde aqueles dias terríveis de 1986.

— Eu… Eu me escondi — ele disse, para um cavalinho de plástico quase todo descorado no carrossel. — A minha Nádia foi levada, todo mundo foi, mas eu fiquei atrás do guarda-roupa.

O brinquedo sorridente (só um cavalo moldado para dar alegria às crianças podia sorrir ali) parecia fitá-lo com olhos leitosos, tão cansado de estar naquele cemitério bucólico quanto Semyon.

Envergonhado, o velho deu um soco numa lata de lixo e arrancou o casaco. De quê a porcaria serviria? Cambaleou e estudou os braços. Náusea o tomou de imediato.

Bozhe…! Deus, Deus!

Bolhas se espalhavam pela pele de pergaminho. Pirozhki, pensou Semyon Petrova. As purulências remetiam à massa frita dos pastéis que sua babushka fritava, mas a fritura agora era ele.

Levou uma mão muito rubra ao rosto e viu que tudo por lá se desprendida; era como a disputada pele assada do frango das datas festivas. O pavor o assaltou.

Não chegaria à floresta.

— Ná…dia… — falou com a voz ressequida. — …te ver… pedir perdão.

Em vez de Nádia (A esposa de Semyon Petrova não poderia respondê-lo jamais: estava morta desde 29 de abril de 1986. Durara demais, se a radiação recebida fosse levada em conta. Ela estava de plantão num hospital muito mais perto do desastre de Chernobyl na madrugada do incidente), quem o respondeu foi uma voz infantil.

Uma que vinha diretamente do céu. A ela, juntou-se a de um menino. Ambos, por seu tom, deviam ter de nove a 12 anos, se muito.

E eram a última coisa que o velho pensaria em ouvir no seu inferno chamado de Zona Morta.

Olhou para a praça, não tão longe, e viu o carrinho de boneca sob a árvore escura e descarnada. Ecos? Ecos de vidas que se foram?

Loucura, glupy. Isso que está ouvindo é sua mente fraca e repleta de devaneios. O ardor dos braços, do rosto – merda!, do corpo todo – fora esquecido ao ouvir as vozes.

— Ele saiu outra vez! Olhe.

Ei! — exclamou a voz, eco ou alucinação auditiva que vinha de toda parte agora. — Esse é um dos preferidos do dedushka.

Oh, todos que eu pego pra ver, você diz a mesma coisa, Yuri.

— É só não ficar mexendo!

O céu acima de Semyon não podia ser visto, a neblina se adensava conforme entardecia. O operário ficou um minuto inteiro esperando o que viria a seguir. Achava que não tinha como ser Deus porque o Criador apenas Se retirara de Pripyat – talvez do mundo todo! –; cansara-Se e desistira dos homens.

E tinha o detalhe de que, até onde sabia, Bozhe era um só, e definitivamente não devia ter voz de criança.

— Quem está aí?! — gritou Semyon, feito o louco que achava ter-se tornado. — Se você não é Deus, então me deixe em paz!

O interior de sua boca ardia, a língua parecia áspera feito uma lixa abrasiva. Logo todo o fogo o queimaria por dentro também. Semyon, perdido (o que tinha ido fazer lá fora?), mirou o caminho de volta; se não tropeçasse, se o ardor e agonia não o desintegrasse, poderia conseguir chegar em casa.

Não tinha ideia da razão de acreditar que, se voltasse, a degeneração teria fim, mas buscou aumentar o passo mesmo assim. Contudo, as pernas finas e inseguras o faziam mancar, arrastar-se.

Cobria os ouvidos, sentindo a pele das mãos fundir-se à das orelhas. Antes isso que ouvir aquelas vozes falando coisas sem cabimento.

— Por que ele sempre tenta?

— Vovô diz que é por estar arrependido — dizia o som de trovão que a outra voz havia chamado de Yuri.

Você sabe se alguma vez o homenzinho conseguiu ir até a floresta?

Net. Não há floresta. É só o limite do mundo dele. Por que nunca presta atenção quando o vovô conta sobre eles, hein, Katioska?

— PAREM! CALEM-SE!

Semyon quase alcançava a construção cor de chumbo onde vivia desde 1985, antes que o tempo parasse, dias após uma sequência de erros terem enviado pelos ares o reator quatro da usina nuclear. Chernobyl, a jóia de Gorbachev agora não era mais que uma fenda para o próprio inferno.

— Água… Água…! — Mas no que pensava mesmo era em sua Nemiroff. Um gole e um cigarro e poderia derreter em paz. A vodca faria as vozes irem embora.

Ele está gritando, veja!

— Todos gritam, Katioska — disse a voz de menino, e um tremor tomou o mundo aos farrapos de Semyon. — Aqui. Devolva pra mim!

— Não! Me deixa olhar mais um pouco Yuri…

— Vão pro inferno! — Com o punho direito, descarnado e num vermelho defumado, o velho desafiava o céu e seus deuses indiferentes. — Se a curiosidade é tanta, venham me enfrentar!

Teve de parar de falar. Uma crise de tosses o acometera. Se não respirasse ar puro o mais rápido possível, iria sufocar.

Você quase deixou o globo cair, Yuri! — disse a vozinha de menina, assustada.

O que quer que fossem, não passavam de fedelhos. Será que podia existir demônios crianças?, era o pensamento de Semyon. Caíra de joelhos quando seu mundo tremeu, e uma explosão de dor subiu e tomou cada centímetro seu.

— Vão embora! Eu não sou a droga de um brinquedo! — A neblina cedera um pouco em quatro ou cinco riscas tão largas para ele que pareciam rasgar o firmamento.

Semyon tossia, fitando seu céu ganhar formas incríveis: dedos. Aquilo lá em cima só podia ser dedos. E o que mais?

Caibros. Um teto sujo. Uma chert de telhado repleto de teias de aranha.

Então, por um instante fugaz e aterrador, o rosto peralta e de olhos arregalados de um garoto sardento surgiu numa visão que só podia querer dizer que a mínima sanidade de Semyon Petrova acabava de expirar.

Yuri? Katioska? — Aquela terceira voz, sim, podia ser a de Deus (ou do demônio que comandava a loucura acima dele, além do céu e espaço. — Não estão outra vez aí no sótão, hã?

já estamos descendo! — disse o ser Yuri.

O trovão da ira da entidade que chamavam de vovô, veio ribombar mais próximo.

Não estão bagunçando de novo com minha coleção, eu espero!

Só olhando, dedushka! Só estamos olhando uma ou outra…

Semyon não esperou que os passos (pesados, falhos, que pareciam subir uma escada íngreme) chegassem e um novo rosto surgisse no céu. Arrastou-se porta adentro e a trancou atrás dele.

Muito bem! — disse a voz tão velha e gasta quanto a dele. — Quem vocês estavam vendo hoje?

O deus maior (Semyon não queria crer estar aprisionado por demônios) não tinha um tom irritado, mas resignado com a curiosidade dos que ele decidiu serem deuses menos poderosos.

Hanzo, de Myiake Jima? A jovem de Centralia? Huang Mei, de San Zhi?

Não — respondeu o ser de interesse aparentemente inesgotável. — Via aquele que vive no globo de Pry… Pri…

— Ah, o homem de Pripyat — completou o deus-avô.

O mundinho nebuloso, vazio, de Semyon foi sacudido mais uma vez quando dedushka o apanhou de seu suporte na estante empoeirada.

Já em sua janela, no quinto andar, Semyon viu a face do ancião titânico, o semblante sério no rosto hirsuto. Com um passe de mão, a neblina se dissipou.

Este aqui é especial — Os olhos cercados por rugas do deus-avô tomavam o céu. — É um conterrâneo nosso.

Semyon ouvia tudo, mas não havia como acreditar. Pripyat era real, não um brinquedo ordinário, como um daqueles globos cafonas com neve de isopor que caía sobre uma casinha. Tinha certeza de que o mundo continuava lá, em algum lugar, distante de sua terra devastada.

Meus netos o incomodam?

A névoa, Semyon via através das janelas, adensava-se de novo. Agora tomava todo seu mundinho cinzento. O velho tremia, aturdido, mas tinha de dar um basta naquilo.

— Você… Você é Bozhe?

O deus-ancião riu e tudo no mundo de Semyon vibrou e ameaçou ceder como num terremoto.

— Net. Net, camarada. Sou só outro velho, como você.

— Por favor — rogou Semyon ao ser que tentava confundir ainda mais sua mente. — Eu só quero que isso acabe!

Posso dar isso a você.

Semyon ergueu, ressabiado, o caixilho inferior da janela que dava para a praça e pôs meio corpo para fora.

— Quem são vocês? O que é esse lugar?

Não somos ninguém em especial — disse o deus-avô. — Sou um colecionador, e os dois pestinhas aqui são…

— Isso não faz sentido!

Net. Nada mais faz.

— Se não é um demônio, eu imploro que me ajude! Tenho que lembrar o que faço aqui. Sinto que preciso encontrar alguém… uma… minha…

Oh, esse tempo já passou.

— Pro inferno! Não me venha com uma resposta dessas!

O deus-ancião suspirou. Era como ouvir um vendaval.

Eu já o adquiri assim. Às vezes os encontro e guardo, outras, vocês só vêm a mim. Olhe, há coisas que é melhor esquecer.

Semyon discutia com o vazio que encobria o céu. Era um exercício de futilidade. Fosse quem fosse, nem o ancião ou seus acólitos fariam nada por ele, estava claro.

Olhou para o punho fechado que brandia furiosamente e notou que a pele não estava mais em carne viva. Tocou o rosto com os dedos e soube que as bolhas se foram. Não sentia mais o calor que lhe afligia.

— É isso? — perguntou aos seus observadores. Devo só me sentar e fumar. Esperar até que se cansem.

Silêncio.

Vovô, ele não pode sair? — quis saber Katioska, tinha a voz embargada.

Não houve resposta, e aquilo era tudo o que Semyon tinha de saber.

— Nádia… — O nome viera à sua mente.

Quer contar de sua Nádia, meu velho Petrova?

— Não — respondeu Semyon num sussurro.

Pena. Você nunca quer.

O que o ser queria dizer com aquilo?

— Nunca quero?

— Net. Ou você sai e morre, ou se deixa consumir pela fome e a bebida, ou…

— Você não me conhece! — gritou Semyon, e obteve mais daquele silêncio revelador.

Vamos deixá-lo em paz, Sr. Petrova.

Não… Não!

Logo sua ira passará.

— Não, seus malditos! Esse camarada aqui não será seu brinquedo, está ouvindo?! — Semyon passou o resto do corpo pela janela e mirou o grande nada abaixo: névoa, névoa por todo seu mundo.

Acho que ele vai fazer de novo, vovô — disse o ser Yuri com certo enfado.

— Era de se imaginar. Vamos reiniciá-lo.

Mas antes que qualquer um pudesse intervir, Semyon se deixou cair rumo ao vazio.

Durante a queda houve um som agudo e crescente, igual ao recarregar de flash de uma antiga máquina fotográfica: UUUÍNN!, e tudo ficou escuro.

No instante seguinte, o velho Semyon Petrova manuseava sem maço de Belomorkanal, liso e cheio novamente. Da cadeira, esticou a outra mão e apanhou a garrafa de vodca Nemiroff.

O carrinho de bebê na praça sacudia levemente com uma brisa. Semyon perguntava-se sobre a menininha que sempre brincava com ele e sua filhinha de plástico. Que fim levara?

Correu os olhos até a roda gigante com suas cabines amarelas e, sem motivo algum, uma lágrima rolou por sua face.

3 de Março de 2024 às 11:08 30 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Wesley Deniel Meu nome é Wesley Deniel, e tenho uma mente cheia de fantasmas. Pelos últimos 20 anos eu tenho vagado pelos recônditos mais escuros deste e de infinitos outros mundos e trazido desses lugares de insondáveis terrores os pesadelos que compõe minhas obras. Embora escreva todos os gêneros e esteja aberto a qualquer desafio, é no horror e no terror que permito que alguns desses fantasmas ganhem força o bastante para atravessar para o nosso mundo.

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Alfredo Herculano Alfredo Herculano
Achei muito interessante descobrir essa ser uma continuação daquela outra do piloto japonês numa ilha. Há mais? São muito boas!!!
May 11, 2024, 12:47
Rodolfo Damasceno Rodolfo Damasceno
Cara, li outra vez. Na verdade eu tinha, acho, começado errado, lendo esta primeiro. Mas não tem problema, a sensação de estar diante de algo impressionante foi a mesma da primeira vez. Até maior! Parabéns mano, tomara que seja uma série. Está incrível!!!
May 10, 2024, 09:27
Melchior Junior Melchior Junior
Fascinante! Tem haver com aquele seu outro conto, o na ilha japonesa, também com névoa, né?! E se tem, significa que a história ainda não acabou!! Mas por favor, não deixa a gente esperando!! Huahuahua
May 04, 2024, 09:59
Eleuses Samer Trevisan Eleuses Samer Trevisan
Surfei a onda da turma kkkkk vi que esse conto era um novo capítulo daquele do Hanzo. Ou melhor, uma antologia ao que parece. E devo dizer que a ideia é sensacional. Ao aumentar esse universo você nos dá mais do que já acertou com Miake Jima. Uma ótima sacada! Mas aqui você começa ir mais longe. Trazer a nós algumas poucas mas bem vindas respostas. Acho que veremos mais desse universo, pelo jeito, não? Espero que sim! Pripiat é outro daqueles lugares sombrios do.mundo, condenados. Um ótimo palco para mentes assombradas e mistérios. Lembro quando o acidente de Chernobil aconteceu. A primeira coisa que penavamos era que seria o fim do mundo. Era um tempo em que não tinhamos uma noção de como tragédias podiam nos afetar. Foi assustador. Você tras com respeito o acontecido e mostra que almas até hoje podem estar sofrendo com erros do passado. Dou parabéns por sua abordagem e me junto a todos que desejam que essa saga continue! Sucesso Wesley!!!
April 28, 2024, 09:35
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Alguém mencionou Silent Hill. Também me senti naquele clima. Deniel, ler suas loucuras dá sanidade às minhas. Aquieta minhas pelejas. No entanto, alimenta minha alma. Sua cadência narrativa e seu zelo natural com os detalhes constroem sempre um ambiente perfeito para qualquer pesadelo, devaneio. Sempre uma toca para a lebre branca.
April 27, 2024, 22:39
Natália Laje Santori Natália Laje Santori
Vim direto pra essa aqui quando acabei a Miaki Jima e vi a galera comentando sobre ser uma espécie de continuação! Amei Wesley! Você deu mais profundidade ainda ao mito iniciado lá e minha curiosidade só aumenta!! Agora repito com os colegas: quero mais!! 🥰
April 20, 2024, 08:31
Rômulo Silvério Dantas Rômulo Silvério Dantas
Vim no hype do resto da galera lá da história do Japão e curti de mais saber que é uma sequência! Já ancioso pra próxima!!
April 13, 2024, 13:46
Juliano Ramos Silva Juliano Ramos Silva
A cara, não teve jeito, já engatei essa junto com a Miake Jima. Vi a galera comentando que elas se entrelaçam e não aguentei kkkkk Muito boas cara!! Agora eu quero mais também! Se vira kkkkkkkk Parabéns mano! Aquele abraço!
April 09, 2024, 12:21
Daniel Costa Daniel Costa
Surpresa agradável ver obra nova sua, meu amigo Wesley. E mais ainda sendo uma continuação daquela da ilha no Japão que tanto me deixou intrigado!! Essa foi mais fundo ainda. Não vejo a hora de saber mais! Você pretende continuá-la certo? Parabéns amigo. Abraço e muito sucesso!
April 06, 2024, 07:23
Tom Jaqen Tom Jaqen
Cara, como não recebi a notificação dessa belezinha aqui?!?! É um deleite entrar aqui e ver algo novo teu. Já fazia tempo. Está nos deixando famintos por tuas histórias, meu irmão! 😄 Faço coro aos amigos aqui: nos dê mais desse mundo que agora cresce! Preciso saber quem são essas criaturas (porque humanos aposto que não são kkkkkkk) Parabéns mano, por esse novo capítulo e pela habilidade de sempre de encantar a todos nós. Sucesso!
April 05, 2024, 12:13
Le Loustic Hop Le Loustic Hop
Quando Silent Hill e Black Mirror têm um filho heheh. Um não, vários né, incluindo Myake Jima e os demais citados (Centralia etc.). Essa conexão entre eles é muito interessante: a desolação que ocorreu num ambiente anteriormente habitado por humanos. Aos poucos vamos descobrindo mais sobre o mistério daquilo que Semyon chamou de Zona Morta. Parabéns, Deniel! Estou ansioso pelas novas histórias, em especial a chinesa. Abração!
March 29, 2024, 19:00
Graça Aparecida Dellano Graça Aparecida Dellano
Uau! Dá pra sentir a solidão e a angústia do homem. A memória o traindo, a confusão..... Que sinistro essas.... nem sei do que chamar. Só sei que queria saber mais do que está acontecendo!
March 26, 2024, 08:59
Elza Valentina Souza Elza Valentina Souza
Enigmático, intimista, solitário e sobrenatural. Simplesmente amei!!!!
March 24, 2024, 12:06
Alice Parintins Alice Parintins
Vi por alguns comentários e também pela escolha de capa que essa obra tinha ligação com outra que li essa noite sua, a da ilha da neblina. Acertei em cheio!! Foi ainda mais instigante e me apresentou novas camadas do mistério. Eu simplesmente amo essas coisas!!! Adorei saber que há um universo compartilhado e que parece que mais ainda virá. Pode ter certeza que estarei aqui pra acompanhar! Parabéns por estar entrando cada vez mais fundo em minha mente!!
March 19, 2024, 09:35
Giovanni Turim Giovanni Turim
É um prazer lê-lo, um fato incontestável que se tornou do meu gosto pessoal sua produção literária. Uma das coisas que mais gosto é ver o poder narrativo: articulação e flexibilidade do narrador. Seu trejeito, estilo próprio em abordar os temos de interesse se complementam efusivamente.
March 12, 2024, 23:37

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Meu irmão ! É uma honra receber algo assim. Eu sempre fico muito ansioso por vê-los em minhas histórias. Todos os meus leitores e leitoras tem minha gratidão eterna, pois sem vocês, eu não seria nada, nem teria para quê escrever. Mas quando outros autores(as) surgem, é um verdadeiro privilégio. Ainda mais gente de quem sou fã, como você, o Marcelo, o Hop... Por escreverem também, sei que há uma centena de outras visões do mesmo quadro. Que vêem minúcias. E saber que minha obra os agradou, me faz crer ainda estar no caminho correto. Por isso, vivo dizendo: sempre falem o que as mentes de vocês pensam. É importantíssimo para qualquer escritor esse feedback. Obrigado por me acompanhar nessa senda e por ser sempre tão gentil, meu amigo. E peço desculpas se às vezes não vejo alguma mensagem (como foi o caso dessas aqui, que só vim responder a vocês hoje). O app muitas vezes não me avisa de novas interações. 😕 Grande abraço, Gio ! Esteja em paz. 🙏🏻 March 30, 2024, 06:04
Fabiano Ventura Fabiano Ventura
Fiquei um bom tempo assimilando o que li. É a mágica de ler você, Wesley. Esperava terror e encontrei somente o sobrenatural. O que pra mim é sempre mais que bem vindo!! Um conto instigante e que dá o que ficar pensando em como podemos mesmo ser seres desavisados vivendo numa pequena concha. Incrível, amigo!!!
March 11, 2024, 09:28

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Salve, Fabiano ! 🙂 Ah, às vezes o desconhecido e o incompreensível pode ser mais assustador do que o horror declarado ! Ultimamente tenho pensado mais em histórias assim. Acho que é o amadurecimento dos escritores de horror hahaha Não que eu vá deixar o grotesco de lado, mas penso em escrever sobre outros aspectos do terror também. Obrigado pelo prestígio, viu ! E pela mensagem ! Esteja em paz. 🙏🏻😊 March 30, 2024, 05:53
Rodolfo Damasceno Rodolfo Damasceno
Cara, de mais! O sentimento de abandono e de solidão, confusão é esmagador. Quando se vê que a coisa é ainda pior e que não somos mais que brinquedos, aí o pavor toma conta de vez!
March 09, 2024, 06:35

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Né ? Eu me imaginei nesse cenário e foi uma experiência claustrofóbica. Certas histórias me serviram de inspiração para essa série (sim, haverá mais, eventualmente) de contos. Um de Stephen King onde os personagens estão numa espécie de limbo (Willa, é o nome, se não me falha a memória) foi um delas. Mas aqui eu quis levar a coisa mais para o surreal ainda, pôr meus pobres espécimes em suas próprias Silent Hills hehehe Obrigado pela leitura e pela mensagem ! Grande abraço ! 😊 March 30, 2024, 05:49
Aparecida de Fátima Aparecida de Fátima
Eu fiquei maravilhada quando peguei que era uma nova história sobre aquelas pessoas nos globos de cristal Wesley! Acho que existe toda uma história pra isso e deixo aqui um pedido: nos conte. Ler você é mágico!!
March 08, 2024, 12:12

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Oi Aparecida ! Tudo bem ? 🙂 Que bom que gostou ! Eu fico muito feliz em ver as pessoas se surpreendendo com minhas histórias. É assim comigo também. Amo quando uma obra me deixa de boca aberta ! Então penso "Se gosto desse sentimento, outras pessoas também gostam" hehehe e tento entregar a vocês sempre mais e mais ! Espero continuar divertindo a todos vocês. Fique em paz. E muito obrigado por tirar um tempinho para ler e comentar ! 😊 March 30, 2024, 02:08
Ellie Abigail Ellie Abigail
Que tudo, amigo! Você voltar a esses personagens! Imaginei quando li que isso daria uma bela coleção. Que bom que acertei!! Ficou incrível, ainda mais imersivel e fantasmagórico. Como sempre, um baita conto!!!!
March 06, 2024, 12:36

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Oi Ellie ! 😊 Que bom vê-la aqui, minha amiga ! Como tem passado ? Ah, eu voltei. Não aguentei olhar para Myiake-Jima e saber que muito mais poderia ser contado. Então decidi aprofundar a história. Afinal, nosso "Colecionador" misterioso tem muita coisa estranha naquele sótão (será um sótão ?) para compartilhar conosco hehehe Obrigado por estar sempre presente, prestigiando minha escrita ! Esteja em paz. 🙏🏻🙂 March 30, 2024, 02:04
Terry O'Ghost Terry O'Ghost
Cara que foda! Você seguiu mesmo com a ideia! Eu tinha achado fantástica aquela do piloto no Japão. A hora que comecei a sacar essa aqui eu pirei!!! Amo essas suas histórias entrelaçadas, velho! Já estava com saudade de algo novo seu. Já pedi pra não xeixar a gente desamparado tanto tempo kkkkkkkkk É sempre um prazer receber a notificação que saiu algo teu. Vê se não some! 😄
March 06, 2024, 11:22

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Terry ! 😃 Como você está, meu querido ?! Ah, velho, eu tento não deixá-los muito tempo sem algo novo, mas a vida anda corrida demais. Escritor no Brasil não pode se dar ao luxo de apenas escrever (Quem nos dera !), então, junta o trabalho e os afazeres de casa – e a Chikungunya que ainda me assombra até hoje, com dores nas articulações – acaba sobrando pouco tempo para a escrita. E são muitas histórias ao mesmo tempo, você tá ligado. Escrevo no momento, deixe-me ver, aqui, de cabeça... Umas dez histórias. Fora as outras dezenas paradas na fila. Vou escrevendo aqui, revisando ali... O app não me avisa de muitas mensagens e eu acabo nem conseguindo responder a vocês direito, como merecem. Mas sigo firme ! Obrigado por estar acompanhando mais esta saga. Sua gentileza e apoio são sempre muito queridos. De todos vocês. Sem vocês, não teria para quê eu escrever. Grande abraço, mano véio ! 🙏🏻😊 March 30, 2024, 00:48
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