Srta. Rosa Seguir história

paloma-machado1524178432 Paloma Machado

Ela era tudo para mim, até outro aparecer. Meu mundo desabou, mas sobre os escombros encontrei aquela que daria razão a minha existência.


Romance Todo o público.

#fantasia #romance
Conto
2
5152 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

Amável Travesseiro

Não há nada melhor do que uma manhã de domingo ensolarada e algumas horinhas a mais de sono com ela. Minha bela se levantou com o pijama laranja amarrotado e os cabelos cacheados bagunçados; calçou as pantufas peludas e caminhou preguiçosamente até a grande janela do quarto, puxou as cortinas de renda branca para os lados e iluminou-se com os calorosos raios de sol; abriu os vidros e espreguiçou-se, deixando a face ser beijada pela brisa fresca da manhã.

Ela foi até o banheiro, penteou os cabelos e trocou de roupa, desceu as escadas para tomar café e eu sabia que logo ela retornaria para dedicar um pouco de seu tempo a mim. Depois de quinze minutos ouvi passos ligeiros na escada, era ela retornando. Entrou novamente no toalete, dessa vez para escovar os dentes e depois exibir aquele grande sorriso branco e brilhante que iluminava meus dias.

Ela pegou-me com carinho e despiu-me de minha fronha; na primeira vez em que fez isso eu achei que explodiria de vergonha, mas ela começou a rir de minha mancha de nascença um tanto obscena, aquilo foi o suficiente para fazer todo meu constrangimento ir embora e dar lugar a um sentimento quente e acolhedor. Foi quando me apaixonei. Definitivamente.

Agora eu já não me encabulava mais, às vezes até me exibia um pouco, fazendo-a esboçar aquele riso contagiante. Depois de tirar minha capa ela massageou-me para que ficasse cheio e fofinho novamente, colocou-me sob o braço esquerdo, bem perto de seu coração, eu podia ouvir as batidas rítmicas, era a mais bela melodia. Desceu as escadas chacoalhando-me um pouco, foi até a lavanderia e jogou a fronha no cesto de roupa suja, saiu pela porta que dava para o quintal dos fundos, verificou se os varais estavam limpos e colocou-me sobre eles para pegar um pouco de sol e secar a umidade que acumulava durante a semana. Quando chovia ela usava um secador, mas eu odiava aquele vento quente e forte na cara, sentia-me esturricado.

Não tinha nada como o sol da manhã, ele me deixava sequinho, cheiroso e quentinho. Ela me deixava ali enquanto cuidava de seus outros afazeres, mas eu não ficava triste, pois podia vê-la através da janela, andando de lá para cá pelo quarto.

Às 11h30 o cheirinho do almoço já invadia minhas narinas, avistei a pele negra reluzente e agitei-me, ela me levou de volta para o quarto, vestiu-me uma nova fronha e ajeitou-me sobre a cama perfeitamente arrumada. Depois de almoçar ela voltou para tirar uma soneca, esticou-se sobre o colchão e descansou a cabeça sobre mim. Eu amava meu trabalho, aposto que nenhum outro travesseiro poderia fazê-lo melhor; sentir o perfume de seus cabelos era como estar no paraíso.

Em poucos minutos ela adormeceu, fiquei observando aquele anjo em seu delicado sono até que o celular tocou. Ela acordou em um sobressalto e esticou o braço até o criado mudo, alcançou o aparelho e o pego, tocou-o na tela e levou-o até sua orelha.

— Alô? – ela atendeu sonolenta. – Oi! – disse com enfática felicidade.

Depois de alguns minutos de conversa ela desligou o telefone móvel e começou a rolar pela cama, sorrindo feito uma boba. Perguntei-me o que poderia ter sido para deixa-la tão feliz, eu só não imaginava que a pergunta certa seria... Quem.

Inquieta, ela se levantou da cama e correu para o guarda-roupa, abriu as duas portas num supetão e começou a vasculhar as pilhas de roupas, jogando cabides ao chão. Depois de um longo tempo tentando decidir o que iria vestir, pegou um vestido vermelho de renda e sapatos de salto, foi até a penteadeira e escolheu um conjunto de joias douradas, organizando tudo sobre a cama.

Ficou a tarde toda andando feito uma barata tonta e sua ansiedade me deixava preocupado. Às 18h00 ela foi tomar um banho, cantarolava feito um pássaro em dia de chuva no verão; quando saiu enrolada na toalha uma nuvem de vapor quente e perfumado a seguiu. Ela abriu uma das gavetas da cômoda e retirou uma lingerie sexy demais ao meu ver, não acreditei que ela sairia com aquilo. Olhei para o lado oposto quando ela deixou cair a toalha, seria muito atrevimento observa-la; vestiu as peças miúdas e depois enfiou o vestido pela cabeça, arrumou os cabelos e realçou os olhos com maquiagem, ornou-se de joias e perfumou-se com dois borrifos.

Às 19h00 ouvi o som de um carro parando na frente da casa, logo a campainha soou e minha bela sorriu. Apressou-se em calçar os sapatos e pegar a bolsa, desceu as escadas e correu para abrir a porta de entrada; rolei rapidamente até a janela para ver do que se tratava, vi um rapaz alto e bem vestido, cabelo e barba bem feitos, ele até era um pouco... Boa pinta. Eles entraram no carro e foram embora.

Fiquei pensando até ouvir a voz de meu caro amigo bibelô, ou amiga, eu ainda tinha dúvidas sobre a sexualidade daquele ser.

— Parece preocupado.

— Um pouco – afirmei, ainda olhando para a rua.

— Mas o bofe parece ter boa índole, além de ser bonitão – disse o bibelô pestanejando.

— Eu ainda não o conheço, será um novo amigo? – perguntei, voltando ao meu lugar.

— Amigo? – a criatura começou a rir de minha inocência.

— O que é tão engraçado? – eu não havia compreendido o motivo da gozação.

— Ele não é um amigo – respondeu.

— Ela está saindo com um estranho?! – indignei-me.

— Ai, não! Para pelo amor de Deus – disse como se fosse óbvio. – Eles estão namorando.

— O QUÊ?! – exaltei-me.

Um namorado? Aquilo era inadmissível.

— É meu fofo amigo, em breve você será deixado de lado – ele informou.

Fiquei pensando em tudo que aquilo significava para mim, no que faria caso um dia ele quisesse tomar meu lugar. Eu não deixaria aquilo acontecer, ela era minha amada.

Depois de afundar-me em pensamentos melancólicos, acabei adormecendo, três horas depois acordei com o leve rangido da porta do quarto, era ela chegando com os saltos na mão e cansada, mas com os olhos brilhando e um sorriso delicado. Claramente ela estava apaixonada e obviamente não era por mim.

Minha felicidade sempre foi vê-la feliz, mas naquele momento deixei-me ser um pouco egoísta e com isso meu coração doeu. Ela tirou o vestido e o jogou sobre a cadeira da escrivaninha, vestiu o pijama confortável e lançou-se sobre a cama, pressionou-me contra o rosto corado e emitiu um som agudo. Remexeu-se por quase uma hora até finalmente pegar no sono, eu fiquei a observando como de costume.

Às três da madrugada eu ouvi um gemido baixo, olhei a face de minha bela e constatei uma expressão de sofrimento, ela estava tendo um pesadelo, era hora de entrar em ação. Estufei-me de ar o máximo que pude, ficando fofo e acolhedor o bastante para acalma-la, em pouco tempo ela me pegou e pressionou-me contra seu corpo, apertando fortemente. Apesar de dolorido, meu incômodo era pequeno perto do alívio que aquilo trazia a ela; quase todas as noites ela tinha sonhos ruins, mas eu sempre estava ali para ampara-la.

Semanas se passaram e ela continuava com aquele namoro, quase todos os sábados aquele rapaz vinha busca-la para dar uma volta com seu carro metido. Sim, ele era metido. Eu podia ouvi-lo da janela dizendo bobagens sobre si mesmo. Em um desses sábados eu esperava minha amada como sempre, sorri assim que vi a porta se abrindo, porém minha felicidade esvaiu-se de meu enchimento quando vi ela entrar acompanhada do namorado. O que ele estaria fazendo ali?

— Você pode ir tomar banho, eu pego a toalha pra você – ela disse, indicando lhe o banheiro.

Por que ele precisava tomar banho? Não poderia esperar chegar a sua própria casa? Algo havia caído nele e agora estava todo melado? Ridículo!

Depois de dez minutos ele saiu do banheiro, vestindo apenas uma calça cinza de moletom e enxugando os cabelos curtos com a toalha.

— Isso é um insulto! – disse em voz alta.

— Um insulto grande, forte e definido – disse o bibelô babando sobre a própria base.

— Quando você tiver algo útil a dizer, me avise – falei com irritação.

— Hm... Ok. – O bibelô fez cara de perverso – você sabia que ele vai dormir aqui hoje?

— O que disse? – retorci a cara em dúvida.

— Isso mesmo. E juntos, na cama dela – completou o desaforado.

Eu fiquei atônito, aquilo era um absurdo.

— Que inveja dela – o bibelô suspirou. – Pelo menos ainda vou poder ficar pertinho dele e sentir seu perfume.

Eu fiz cara de nojo; só para aquela coisa fresca mesmo. Eu já estava pasmo, mas ainda pude ficar em choque quando o cara deitou-se na cama e recebeu um beijo de boa noite de minha amada.

Aquilo foi ultrajante, uma humilhação. Mas eu não deixaria assim, ele não iria me vencer; estufei-me até quase estourar e fiquei esperando a minha hora de brilhar. O bibelô riu de minha performance, mas eu não estava nem ai para a opinião daquele ser debochador.

Às 04h00 minha amada começou a gemer baixinho e a chorar, eu sabia que em poucos instantes ela iria virar e me apertar para acalmar-se; eu havia nascido pronto para aquilo.

Eu senti a cama mexer, mas não era ela, o que poderia ser? Ah... Sua existência me era tão insignificante que já havia esquecido. Ele levantou a cabeça e olhou sobre o ombro de minha bela, constatando sua triste expressão, foi então que deu o bote. Aproximou-se desajeitado e envolveu minha morena com seus braços, segurando-a de modo acolhedor. Foi como mágica, ela imediatamente parou de chorar, esboçou um sorriso meigo e aconchegou-se no abraço dele.

Foi quando meu coração parou. O mundo parecia ter desabado para mim. A única coisa da qual eu tinha certeza agora me era uma dúvida cruel; não preguei os olhos naquela noite, havia sido um choque muito grande para mim. Às oito da manhã o despertador tocou e eles acordaram; carícias e mais carícias, aquilo estava me enojando e ainda tinha que aguentar aquele bibelô lilás todo empolgado.

— Eles não são lindos juntos?

— Não – respondi secamente. – Ela é linda. Ele é... Nem sei dizer de tão horrendo.

— Isso é inveja – ele disse.

— Inveja não – eu falei – decepção mesmo.

— Pense pelo lado positivo – lá vinha ele com mais uma de suas bobagens.

— Ah é? E qual seria? Porque eu desconheço – disse erguendo a sobrancelha esquerda.

— Ela está mais feliz do que nunca – disse surpreendendo-me.

Fiquei refletindo sobre aquilo, eu sabia que era verdade, só era difícil aceitar; depois de todo aquele tempo juntos, só eu e ela, era como viver em um mundo perfeito.

— Eu sei disso.

— Sempre desejei o melhor para você meu amigo, mas, infelizmente, você e ela nunca iria rolar – disse o bibelô com pesar.

— Sim, você tem razão – suspirei. – O importante é ela estar feliz.

— E acho que você e ele ainda podem ser bons amigos – durou pouco o bom senso dele.

— Nunca! – bravejei.

— Não exagera – o bibelô revirou os olhos. – Você tem que dar uma chance.

— Não exagera você. Por acaso andaram te chacoalhando demais?! – perguntei irritado.

— Credo! – ele disse escandaloso. – Não falo mais nada, irritadinho.

— Agradeço profundamente pelo favor – debochei.

O bibelô franziu a cara e deu as costas.

Os dias se passaram e eu nunca mais fui feliz; eu estava contente por ela, por ter encontrado alguém que a entendesse, cuidasse e amasse tanto quanto eu, mas me faltava algo, podia sentir um vazio, um buraco em meu peito. E apesar do sujeito a fazer feliz, ele me irritava. Uma vez ele largou a toalha molhada sobre mim, aquela coisa ficou meia hora ali até minha amada ver e brigar com ele. Bem feito!

Depois ele trouxe o bichano dele, o gato soltou tanto pelo que eu fiquei com alergia por uma semana. Outro dia ele veio dormir aqui de novo e babou em mim, foi a coisa mais nojenta que já me aconteceu, eu tentei sufoca-lo depois disso, mas o maldito bibelô pulou na cabeça dele, acordando-o. Mas o pior foi quando eles brigaram; eles discutiram alto, quase achei que fossem sair no tapa e claro que eu estava pronto para defender minha amada com minha vida. Por fim o rapaz bateu a porta e foi embora; minha bela jogou-se sobre a cama e afundou o rosto em mim, encharcando-me com suas lágrimas; fiquei murcho, molhado e enraivecido. Eu, definitivamente, daria um jeito naquele cara assim que ele mostrasse as fuças.

Cinco dias haviam se passado e nada do meliante, nem uma ligação se quer.

— Espero que nunca mais apareça – pensei alto.

— Então nunca mais verá seu grande amor sorrir – aquela voz irritante de novo.

— Eu posso cuidar disso – afirmei.

— Deixando ela te usar em uma guerra de travesseiro até você explodir? – o bibelô perguntou.

— Se for preciso... – não que eu quisesse aquilo.

— Deixe de ser patético – ele guinchou. – Vai cortar os pulsos também?!

Olhei-o torto.

— Então pare com essas ideias infantis. Todo casal briga e essa foi só a primeira, logo eles se reconciliarão.

— Se isso vai fazer ela feliz, então eu espero mesmo.

— Geralmente as reconciliações são mágicas, como um filme de romance.

— Por acaso você está delirando novamente? – perguntei achando que ele pudesse estar em mais uma de suas fantasias.

— Não, seu tolinho – o bibelô deu uma risadinha. – Você vai ver.

— Hm? – Juntei as sobrancelhas em dúvida.

Sobre o que ele estaria falando?

No sábado à noite o telefone tocou, minha morena deixou que tocasse, atendendo no último segundo; disse um alô sem vontade e permaneceu muda por quase dez minutos. Lágrimas começaram a escorrer de seus lindos olhos, então ela sorriu. Foi como ver o sol brilhar em meio ao céu nublado.

Depois de mais alguns minutos ela desligou o telefone e suspirou aliviada, parecia ter tirado um enorme peso do peito, assim como eu. No domingo à tarde o rapaz apareceu com flores, chocolates, mil desculpas e muito amor para dar; antes eu não iria gostar daquilo, mas finalmente aceitei tudo e agora ficava feliz pelos dois, só queria saber se eu também teria um final feliz.

— O que achou? – perguntou meu caro amigo.

— Lindo, realmente – eu disse sincero.

— Mas você ainda não me parece totalmente satisfeito – pegou-me.

— Parece que não consigo te enganar – eu olhei para baixo. – Estou feliz por eles, mas... Falta-me algo sabe.

— Hm... – o bibelô estreitou os olhos. – Te falta alguém, um novo amor, uma companheira.

— C-claro que não! – gaguejei em nervosismo.

— Claro que sim, sabe... – ele corou – eu também espero por alguém, pelo bofe encantado.

Segurei meu riso, não podia debochar, ele estava falando sobre seus verdadeiros sentimentos.

— Um dia ele aparece, montado no cavalo branco e com os cabelos esvoaçando – fantasiei.

— Pare, está tirando com a minha cara – ele disse fazendo bico.

— Não estou, é sério. Não sobre a parte do cavalo, mas... Um dia o amor vai florescer para você.

— Ai que tudo! – ele vibrou. – Se eu pudesse te daria um beijo agora.

— Não precisa, obrigado – neguei, já seria abuso.

— Bem... Então vamos ficar a espera dos amores de nossas vidas.

Às vezes ele exagerava, era escandaloso e debochado, mas eu gostava de tê-lo como amigo, acho que a vida não seria tão divertida sem ele, eram seus inoportunos comentários que faziam o tempo passar.

Depois que eles saíram do quarto para dar um passeio, eu comecei a bisbilhotar os presentes. Lindas e perfumadas rosas vermelhas; chocolates caros e de ótima qualidade, mas era bom não deixar aquilo cair em mim, senão acabaria sujo, melado e manchado, fora as baratas, odiava aqueles serem repugnantes. Abri uma caixa bonita e espiei, arregalei os olhos e a fechei rapidamente. Que coisa mais obscena!

Foi então que meus olhos deslumbraram a criatura mais bela de toda a face da terra. Meu coração ficou parado por tanto tempo que achei que fosse morrer; tranquei a respiração e comecei a passar mal, tonteei, mas logo voltei a respirar e recobrei a consciência.

— O-oi – eu finalmente disse, ainda muito ansioso.

— Olá – ela respondeu com voz aveludada.

— Me chamo Senhor Travesseiro, e você? – perguntei.

Ela ficou calada por alguns instantes, com expressão confusa, como se não soubesse seu próprio nome ou talvez não quisesse me dizê-lo.

— Desculpe-me, eu realmente não sei – ela disse tristonha. – Não sei nem ao certo o que sou; se sou uma pelúcia, uma almofada ou apenas um coração rosa.

Não podia vê-la daquele jeito, era de partir o coração. Foi então que uma ideia estalou em minha mente acolchoada.

— O que acha de Senhorita Rosa? – perguntei com entusiasmo exagerado.

Os olhos dela brilharam.

— Acho perfeito! – ela disse, me presenteando com o mais belo sorriso.

Era mesmo perfeito. Ela era linda e delicada como a flor, gentil e acolhedora como uma almofada. Seria ela o amor do qual o bibelô havia falado? Eu podia sentir que sim.

— Então... – minhas bochechas coraram. – Prazer em conhecê-la, Senhorita Rosa.

31 de Maio de 2018 às 03:12 0 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Paloma Machado A mente necessita de livros como uma espada precisa de uma pedra de amolar para manter-se afiada.

Comentar algo

Publique!
Nenhum comentário ainda. Seja o primeiro a dizer alguma coisa!
~