A Sacerdotisa Seguir história

paloma-machado1524178432 Paloma Machado

Tudo tem seu preço, então não tente barganhar com os deuses, pois a morte será apenas a mais leve das punições.


Fanfiction Jogos Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#fantasia #mistério #lol #League-of-Legends
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A Aranha Rainha

Na época em que a guerra e o sofrimento dominavam o mundo, a única esperança para a salvação da humanidade estava nas preces em que as pessoas faziam aos deuses. Várias entidades divinas surgiam durante os anos, manifestando-se nas palavras de pregadores; cada um tinha sua própria promessa, modos diferentes te atraírem seguidores e fazer com que fossem glorificados. Porém, visto que nada havia mudado depois de tantas oferendas e orações, as pessoas começaram a abandonar sua fé, tornando-se egoístas e traiçoeiras.

Cada uma lutava por sua própria sobrevivência, mesmo que isso custasse a vida do próximo. Homens roubavam e matavam para conseguir o sustento da família, mulheres eram estupradas e espancadas na tentativa de defender seus filhos de uma morte fria. Sem uma fagulha de esperança, o mundo se tornou um lugar imundo e corrompido, mas ainda havia quem tirasse proveito disso.

Lá estava ela outra vez, com seu manto negro de capuz largo, indo das vielas aos grandes centros, seguindo seu destino. Já não sabia há quanto tempo caminhava sobre as terras daquele mundo, conhecendo tantos lugares e pessoas; o mais incrível é que nunca se cansava daquilo, pois a cada época o ser humano a surpreendia com uma nova invenção ou ideologia, mas principalmente com o fato de que era capaz de fazer qualquer coisa para conseguir o que queria. Muitas vezes os meios eram bons e corretos, por outras eram ruins e inescrupulosos, no entanto era a genialidade contida neles que a fascinava.

Em uma pequena cidade chamada Hoffen, um dos poucos lugares que ainda não haviam sido dominados pela violência, um grupo de pessoas continuava a fazer suas preces diárias em uma velha catedral. As paredes da igreja estavam manchadas e corroídas, lascas de tinta caíam ao chão; vidros imundos e quebrados cobriam as grandes janelas, os poucos bancos que haviam estavam corroídos pelos cupins e no altar havia apenas uma mesa coberta por uma toalha amarelada pelo tempo. Durante a semana, as pessoas iam ao santuário fazer suas orações individualmente; aos domingos elas se juntavam, formando um pequeno grupo que marchava logo cedo até o local. Elas rezavam durante toda a manhã e depois reuniam forças para arrumar o lugar, faziam o que estava ao seu alcance, deixando no mínimo visitável.

Em um desses domingos o grupo se reuniu novamente, as pessoas vinham com um semblante cada vez mais tristonho ou indiferente. Assim que chegaram ao templo, suspiros foram ouvidos ao ver-se o estado deplorável da fachada, mas o espanto foi imenso quando colocaram os pés para dentro do salão e seus olhos vibraram com a deslumbrante imagem. As paredes agora não mais se despedaçavam e estavam coloridas por tinta nova; as vidraças estavam limpas e inteiras, feitas com belíssimos desenhos em forma de mosaico; os bancos vernizados e polidos; o altar decorado por flores frescas e a mesa coberta por tecidos branquíssimos. As pessoas entravam a passos lentos, olhando ao redor, ainda aturdidas com a mudança do lugar, perguntavam-se quem havia feito aquilo.

— Bom dia, meus caros – uma voz suave e feminina chegou aos ouvidos apurados devido à apreensão.

Todos se viraram para o altar, de onde vinha a voz; na pequena escadaria estava uma jovem mulher de corpo esguio, coberta por vestes sacerdotais; usava um longo vestido branco de mangas estreitas e compridas, um cordão de tecido dourado trançado sobre a cintura e uma capa verde longa que cobria-lhe as costas e parte dos braços.

— Bom dia – manifestou-se uma senhora já na casa de seus setenta anos – sacerdotisa...?

— Elise – completou a mulher. Seus cabelos vermelhos eram lisos e de médio comprimento, estavam adornados por duas tranças, uma em cada lado da cabeça.

— Então, Sacerdotisa Elise... – a senhora olhou-lhe receosa, mas perguntou – foi você quem fez isso?

— Não, imagine... – Elise acariciou o grande pingente de aranha sobre seu tórax, que pendia de uma corrente prateada – somente a Deusa Aranha tem poder para tamanha obra.

— Como? – indagou um homem.

— Creio que ainda não conheçam a minha deusa – disse a sacerdotisa erguendo o tom de voz, prendendo a atenção de todos.

— Conhecemos tantos deuses que por vezes acabamos esquecendo-nos de alguns – confessou uma jovem.

— Deveras! – manifestou-se novamente o homem. – Pois nunca fomos ouvidos por nenhum dos deuses pelos quais rogamos até hoje.

— Estamos cansados de promessas vazias e de pregadores medíocres – disse um senhor de idade, escorado sobre os bancos novos.

— Mas minha deusa não é como esses deuses fracos, com suas promessas falhas – os olhos castanhos de Elise chegaram a tomar um tom avermelhado, tamanha era seu fervor.

— Não? – interrogou o homem. – Então nos prove!

— A prova está ao seu redor, a Deusa Aranha lhes proporcionou um lugar digno para realizarem suas preces – Elise estendeu as mãos espalmadas para cima, indicando as mudanças feitas no templo.

— E quem garante que isto não foi feito de modo profano? – duvidou o senhor, agora já sentado.

— Profano? Hm... – Elise deu uma leve risada.

— Acalmem-se meus irmãos – pediu a senhora, ela parecia ser a líder do grupo – deem uma chance para esta sacerdotisa, afinal, ela foi a única que de fato nos mostrou algo concreto.

— Mas não queremos coisas matérias, queremos paz! – a jovem exclamou de punhos cerrados.

— Isso mesmo! – apesar de idoso, o velho senhor parecia ter muita energia ainda. – Queremos algo realmente divino.

— Bem... – a senhora suspirou e dirigiu-se a Elise – o que nos diz sacerdotisa?

— Não vejo problemas. Posso lhes mostrar o caminho para a divindade – Elise respondeu, esboçando um sorriso de contento.

— E como pretende fazer isso? – questionou o homem, não cansava de bombardear perguntas insolentes.

— Como se chama meu bom homem? – Elise aproximando-se do rapaz de pele clara e cabelos dourados.

— Erick Schneider – respondeu debochado.

— Então, Erick... – Elise se aproximou, tocando-lhe os ombros largos – não fique tenso, eu conheço o verdadeiro caminho.

Ela deixou que fizessem suas preces cotidianas, retirando-se para um cômodo que ficava atrás do altar. Na pequena sala havia um sofá confortável, uma mesa repleta de frutas, pães e jarros de vinho; na parede havia um grande espelho em forma aracnídea, adornado por uma moldura dourada. A sacerdotisa estava a analisar seu reflexo no vidro, tocando o rosto com as pontas dos dedos.

— Tenho que me apresar – dizia para si mesma – essas malditas rugas já começaram a marcar meu belo e jovem rosto novamente.

— Com licença – pediu a senhora, líder do grupo, em tom educado – posso tomar um pouco de seu tempo?

— Claro, fique a vontade – Elise observou o rosto da mulher “Certamente não ficarei assim, jamais!” pensou ao ver a pele da senhora marcada e manchada pela velhice.

— Desculpe por ainda não ter me apresentado, me chamo Martha – a senhora se curvou sutilmente. – Posso dizer que sou a líder deste pequeno grupo de fiéis, juntei-os há algum tempo com o intuito de manter viva nossa fé.

— O prazer é todo meu – Elise retribuiu baixando levemente a cabeça – desconfiei de que liderava quando tomou a voz, seu gesto é algo muito honroso, há pouquíssimas pessoas que ainda se importam com o próximo.

— Obrigada pelo elogio, mas... – Martha murchou a postura – infelizmente é essa a nossa triste realidade.

— Certamente, mas estou aqui para mudar isso – Elise disse com convicção – em nome da Deusa Aranha.

— Pois então, sobre isso... – a senhora sentou no sofá, acomodando-se – não é que duvide de sua capacidade como serva ou do poder de sua deusa, mas...

Elise fitou-a, esperando que terminasse logo com suas duvidas.

— A crença de meus irmãos está muito frágil, não sei se acreditarão facilmente em mais promessas e...

— Não se preocupe – Elise dirigiu-lhe um sorriso gentil – eu já passei por muitos lugares e conheci muitas pessoas, tenho vasto conhecimento sobre o psíquico humano.

— Esplendido! O que você acha que devemos fazer? – Martha perguntou com certa urgência e curiosidade.

— Essas pessoas apenas estão confusas, com as mentes fracas – Elise tamborilou os dedos sobre a mesa – elas precisam de... Orientação.

A sacerdotisa escarlate começou com o árduo trabalho de reforçar a crença daquele pobre povo; conforme os dias foram se passando, mais pessoas foram se juntando as reuniões devido à curiosidade, mas sempre acabavam permanecendo, revivendo sua fé. Entre essas pessoas de boa índole, havia aquelas que estavam ali apenas para ganharem algo, gananciosos coletando informações na espera de uma oportunidade de lucrar.

Elise sabia disso, mas não ficava enraivecida, pelo contrário, ela se divertia em ver as ações oportunistas daquelas criaturas. Muitas delas eram astutas e discretas, como uma aranha esperando por sua presa; já outras eram burras e arrogantes, como um inseto tentando se desprender da teia.

Seis meses depois, no último domingo do ano, a pequena catedral se encontrava lotada, Elise tinha feito um excelente trabalho.

— Bom dia, caros seguidores – Elise saldou-os, ao pé da curta escadaria do altar.

— Bom dia sacerdotisa – as pessoas responderam em uníssono.

— Enfim chegou o dia tão aguardado por todos nós, a Deusa Aranha escolherá aqueles que já estão prontos para fazerem seus votos e se tornarem seus discípulos. – Os olhos de Elise tornaram-se vermelho sangue – hoje é o dia da peregrinação!

Muitos louvores foram ouvidos, mas logo o fervo foi interrompido por uma pergunta intrigante.

— Não sabemos muito sobre essa peregrinação, do que se trata exatamente?

— Claro... – Elise respirou profundamente, como se para acalmar os nervos. – Eu ainda não havia lhes contado porque não queria que sua fé fosse abalada ou que dúvidas sobre o poder da deusa fossem criadas.

— Se não há nada a temer, por que adiou este anuncio então? – era Erick Schneider quem perguntava.

— Porque talvez muitos ficassem com medo e desertassem – Elise respondeu friamente. – Sentem-se e prestem atenção.

As pessoas olharam confusas umas para as outras, mas sentaram e fixaram a atenção nas palavras da sacerdotisa.

— Enfim a deusa concederá as bênçãos tão aguardadas e desejadas – começou Elise, logo seguida por um ruído de expectativa. – Silencio! – bradou, revelando por milésimos sua verdadeira forma, devido à mudança brusca de humor.

Algumas pessoas esfregaram os olhos, achando que estavam vendo coisas.

— Mas para isso, há uma condição – continuou Elise, respirando pesadamente para controlar sua pulsação – aqueles que desejam continuar seguindo a deusa deverão embarcar em uma jornada pelo mar, vocês serão testados pelas águas sombrias e apenas os dignos sobreviverão.

— Como assim? Você quer que arrisquemos nossas vidas? – uma mulher perguntou indignada.

— Todos nós precisamos fazer sacrifícios – Elise explicou. – Os sobreviventes marcharão rumo ao templo originalmente dedicado a Deusa Aranha, onde serão realizados os desejos.

— E onde fica exatamente este templo? – Martha parecia desconfiada.

— É exatamente essa informação que irá decidir quem fica e quem vai – Elise sorriu sinuosamente – pois o templo fica na Ilha das Sombras.

“Mas o quê?”

“Como assim?”

“Isso seria suicídio!”

“Aquela Ilha é habitada pela morte.”

Murmúrios e mais murmúrios. As pessoas agitaram-se como formigas sendo atacadas em seu formigueiro.

— E então? – a voz de Elise vibrou belo ar – o tempo está passando, quem virá comigo?

O ruído sessou. Imóveis e em silêncio as pessoas ficaram pensando, após um longo momento alguns passos em direção à saída da igreja foram ouvidos, aumentando cada vez mais até se parecer com o marchar de um exército. Elise observava tudo do altar, até que o último covarde abandonasse aquele lugar.

Muitos haviam partido, mas o número de pessoas restantes ainda era satisfatório; dentre elas ainda estava o inabalável Erick, Elise tinha algum tipo de pressentimento sobre ele, sempre sentia um formigamento pelo corpo quando o mesmo se dirigia a ela.

— Bem... É quando a dificuldade aparece que se mostram os verdadeiros guerreiros – Elise filosofou.

— Quando partiremos sacerdotisa? – Martha estava inquieta.

— Hoje mesmo – Elise olhou para fora, erguendo a cabeça em direção ao sol – ao entardecer.

— Mas estaríamos nos condenando ao navegar pelas águas no breu da noite – Erick observou.

— As águas correm em direção a ilha apenas ao anoitecer – disse Elise. – A não ser que queira nadar contra a maré, meu caro homem.

— Tsc! – Erick bufou, enfiando as mãos nos bolsos da calça.

— Onde nos encontraremos? – Martha questionou.

— Podemos nos encontrar no porto, lá eu vos conduzirei até a nossa embarcação.

— E precisamos levar alguma coisa? – perguntou uma jovem. – Algum tipo de oferenda?

— Não. – Elise estreitou os olhos – apenas seus corpos e... Suas almas.

Às 18 horas o sol já estava se pondo, dando uma tonalidade alaranjada ao mar e uma temperatura aconchegante ao vento. Assim como combinado, lá estava o grupo, esperando por Elise. A sacerdotisa chegou em poucos minutos e os levou até uma bela caravela de casco negro e velas vermelhas; na proa havia uma grande gárgula de forma curiosa, parecia algo como uma mulher-aranha, com patas pontiagudas saindo de suas costas e olhos feitos de rubi. No lado esquerdo da proa estava pintado em letras ornadas o nome do navio... Viúva Negra.

Assim que todos embarcaram, as velas se estufaram e a caravela começou a deslizar sobre as águas tranquilas.

— O capitão já está a bordo? – perguntou Martha – não o vi embarcar, nem mesmo na cabine.

— Este navio não pode ser conduzido por um mero mortal – disse Elise com desdém – ele é guiado pelos servos espirituais da deusa.

— Fantasmas?! – o velho senhor apavorou-se.

— Tsc! – Elise ofendeu-se. – Não compare estes espíritos divinos com os simplórios e pestilentos fantasmas.

— Pra mim são aterrorizantes da mesma forma... – resmungou o velho.

Elise revirou os olhos, se aquele velho mal educado abrisse a boca para falar mais alguma besteira, ela mesma o lançaria ao mar.

Todos se acomodaram no convés da maneira que podiam; assim que adentraram mais o mar, o sol sumiu por completo dando lugar a uma lua grande e brilhante, o céu negro começou pouco a pouco a ser pontilhado por pequenas estrelas. Elise andou pelo barco ascendendo lamparinas e distribuindo cobertores, pois logo a névoa fria e sinistra surgiria; ela olhou ao redor procurando por Erick, então o viu sentado na escada que levava ao timão.

— Uma bela noite, não acha senhor Schneider? – Elise se apoiou no corrimão.

— Não mais bela do que sua face iluminada pela luz lunar – poetizou Erick.

— Andou bebendo? – Elise ergueu uma sobrancelha.

— Por que acha isso? – Erick aborreceu-se.

— Não me lembro de já tê-lo visto desarmado de seu ego – Elise provocou.

— Pois saiba que até mesmo um bárbaro, por vezes, caí nos encantos de uma mulher – Erick sorriu sedutoramente.

Elise tinha que admitir, Erick era realmente um homem de aparência muito atraente e de personalidade envolvente, com seus questionamentos firmes e sua atitude decidida.

— Mas está galanteando uma sacerdotisa – Elise ponderou – não tens medo da condenação?

— Estou apenas dizendo a verdade – Erick deu de ombros – se há alguém culpado aqui, certamente é a Deusa Aranha, pois enviou-nos uma serva tão convincente e... Interessante.

— No entanto... – Elise ergueu levemente o vestido para poder subir as escadas – tive que usar de tantos artifícios para convencê-los.

Erick admirou as longas pernas da sacerdotisa, sem disfarçar, enquanto esta pisava graciosamente sobre cada degrau. Assim que ela chegou ao piso superior e soltou a saia, o jovem homem suspirou em decepção.

— Acho que você deveria dedicar sua atenção a outras coisas, Erick – disse Elise ao seu admirador.

— Estou cansado demais para isso, vou aproveitar o leve balanço das ondas para dormir – Erick colocou um comprimido na boca e o engoliu com um pouco de água fresca que tinha em seu cantil. – Boa noite, senhorita Elise.

— Boa noite – Elise deu um sorriso de canto – tenha bons sonhos.

Assim que o homem caiu em sono profundo, uma nevoa espessa adentrou o convés como tentáculos de um polvo gigante, fazendo com que as pessoas se encolhessem. Em poucos minutos ouviu-se o barulho de algo caindo na água, sinal de que o show havia começado.

Elise debruçou-se sobre o parapeito e ficou assistindo às pessoas que começavam a ter alucinações, algumas esbarravam em outros tripulantes ou no mastro principal, outras tropeçavam entre as caixas ou enroscavam-se nas cordas, mas as mais interessantes eram aquelas que se lançavam ao mar na tentativa de alcançar suas ilusões.

Um jovem senhor que estava no grupo dos gananciosos caiu quando tentou pegar um grande baú de tesouros que boiava na água.

Um velho pirata foi atraído pelo canto sedutor de um ser místico, assim que viu a bela criatura nadando, deixou-se ser arrastado para as profundezas.

Uma jovem lançou-se atrás de um espelho que prometia fama, luxo e a juventude eterna.

Não o único, porém o mais triste caso foi o de um homem que sonhava em ter sua família de volta. Ele viu um pequeno barco flutuando sobre a água, iluminado por uma candeia de luz fraca e esverdeada; sentadas sobre uma tábua estavam duas formas femininas, o homem fitou-as na tentativa de reconhecê-las. A forma menor parecia ter um ursinho de pelúcia nas mãos, brincava com ele enquanto sorria docemente para a figura maior.

— Helena... – sussurrou o homem.

Foi então que as duas se viraram e o homem caiu em desespero, eram sua esposa e filha falecidas. Ele pulou no mar, nadando em direção ao barco, sumindo dentre a névoa e nunca mais retornou.

As pessoas que não eram afetadas pela nevoa observavam tudo com espanto e medo, menos Erick, este dormia pesadamente, mas parecia estar tento um sonho conturbado.

Ele se viu correndo por uma floresta de mata alta e sinistra, podia ouvir chiados vindos do alto das árvores e ver finos fios brancos entre os galhos. Então tropeçou em um toco de madeira e caiu entre as folhas velhas e úmidas, se levantou e tentou correr novamente, mas não conseguiu. Percebendo que estava preso a algo resistente e grudento, começou a se debater na tentativa de se libertar, mas não conseguiu nada além de se cansar.

— Nada escapa da minha teia – uma voz ecoou pela selva.

O homem sentiu um leve tremular na rede de seda, olhou para cima e viu uma forma negra descendo pelos fios, conforme a criatura se aproximava seu coração acelerava; de repente ele ouviu um alto chiado vindo da sua direita, virou a cabeça para o lado subitamente, deparando-se com dois orbes vermelhos, foi então que assustado ele acordou.

Assim que abriu os olhos encontrou os de Elise a lhe observar, fixamente e com o rosto bem próximo ao dele.

— Uma pena ter acordado, estava tentando adivinhar com o que você sonhava – admitiu Elise com voz aveludada – mas enfim... Chegamos à ilha, hora de desembarcar.

Erick se levantou e seguiu Elise assim como todos os outros sobreviventes, mas estava receoso, aquele sonho fora realmente perturbador e o modo como Elise o surpreendeu deixava tudo ainda mais estranho.

Assim que Elise pisou sobre a areia cinzenta da praia, sua verdadeira forma foi exposta.

— Ah... – ela soltou um suspiro de alivio, esticando as longas patas de aranha que surgiam do meio de suas costas – finalmente em casa.

Todos a olharam com horror.

— O-o que é isso Elise? – Martha, espantada, agarrou o crucifixo pendurado sobre o peito. – É abominável!

— Claro que não – Elise admirava as próprias garras, longas e vermelhas. – É uma dádiva concedida pela deusa Aranha, mas minha beleza esta sob a pele.

— Você acha que isso é uma dádiva?! – Martha arregalou os olhos – isso é um castigo.

— Hm... Então vamos dizer que seja o preço a se pagar pela juventude eterna – Elise olhou com audácia para a senhora – não é isso que deseja?

— Como pode saber? – Martha ficou pasma.

— Porque eu e você somos muito parecidas. – Elise girou o próprio corpo – não é tão ruim quanto aparenta, é apenas uma questão de tempo para se acostumar.

— Não vejo nada de bom nisso – meteu-se uma jovem na conversa.

— Ah... Eu te garanto que há muitas vantagens – Elise afirmou passando uma garra sobre a lateral do corpo perfeitamente esculpido.

A jovem ruboresceu e virou o rosto. Elise deu uma risadinha anasalada, sabia os desejos de quase todas aquelas pessoas, o único que ainda lhe causava dúvida era Erick, um verdadeiro desafio.

— Vamos em frente, a deusa nos espera – Elise incitou as pessoas a marcharem na direção da mata.

O grupo caminhava a passos lentos, tentando não tropeçar entre os amontoados de folhas no chão ou engatar nas grandes teias de aranha. Caminharam por mais ou menos uma hora até chegarem a um lugar sem relva, apenas circundado por grandes árvores; ao fundo havia uma elevação rochosa encoberta por plantas parasitas e com a entrada camuflada por uma cortina de trepadeiras.

— Enfim chegamos – anunciou Elise.

— A-aqui? – gaguejou um jovem.

— Não há nada a temer – Elise o confortou.

— Este é o templo da deusa?! – perguntou o senhor com tom esnobe.

— Ele foi feito há muito tempo, por isto se trata apenas de uma simples caverna – Elise se deu ao trabalho de explicar – mas quando entrarem contemplarão a grande beleza da deusa.

Todos engoliram em seco e adentraram a caverna, já estavam ali, não havia mais como voltar. Elise seguiu o grupo, mas parou na entrada, alguém havia escapado... O surpreendente Erick.

A mulher aranha deixou o assunto de lado, no momento precisava terminar com sua missão; ela estralou os dedos e tochas queimaram nas paredes internas da gruta, todos pararam ao notar que haviam chegado ao fim do caminho.

— Não há nada aqui – disse alguém. – Fomos enganados!

— Tolos de pouca fibra! – Elise esbravejou. – Vocês apenas precisam olhar atentamente.

Um chiado repentino foi ouvido, as pessoas se viraram para o fundo escuro e olharam com atenção. De repente oito pequenos círculos vermelhos começaram a brilhar em meio ao breu, um dos fieis pegou uma das tochas da parede e iluminou a frente do grupo. O que viram os aterrorizou, uma gigante aranha morta-viva estava os encarando; assim que ela ergueu as patas para atacar, eles gritaram e tentaram correr, mas um enorme jato de teia foi lançado, paralisando-os.

Elise assistia ao espetáculo com fascínio, algumas das vítimas eram devoradas ali mesmo, outras eram envoltas por um casulo de teias e guardadas para as próximas refeições. Assim que a Deusa Aranha terminou de deliciar-se com a oferenda, deixou que Elise pegasse um pouco do veneno de suas presas. A sacerdotisa agradeceu e ingeriu o liquido verde em um único gole, caiu no chão e contorceu-se por alguns segundos, mas logo se levantou revigorante... Sua juventude estava garantida por mais alguns longos anos.

Agora que Elise já havia acabado com seu dever, ela iria se divertir um pouco, começaria a caçar Erick.

— Sigam em frente minhas crianças – a sacerdotisa mandou três pequenas crias de aranha seguirem os rastros do homem, ele não havia ido muito longe, parecia estar perdido.

Elise recurvou as costas e transformou-se em uma grande viúva negra, saltou sobre as enormes teias tecidas sobre as árvores e começou a caçada. Podia sentir a vibração pelos fios e ouvir os batimentos do homem.

— Posso sentir seu medo – disse Elise, com sua voz reverberando.

Erick assustou-se ao ouvir a voz estrondosa, caindo sobre um amontoado de folhas, seus músculos estremeceram ao perceber que estava vivendo seu sonho. Foi então que viu três pequenas formas correndo em sua direção, ele quebrou o galho de uma árvore e preparou-se, assim que as duas primeiras criaturas saltaram em sua direção, ele as arremessou para longe; a terceira veio por baixo e conseguiu pica-lo na perna, ele fincou a estaca no abdômen da aranha e deixou que agonizasse.

— Minhas pequenas crias – Elise surgiu na frente de Erick, na forma humana.

O homem se sentiu tonto, devia ser o veneno agindo, ele deu as costas e tentou andar.

— Onde pensa que vai? – Elise surgiu novamente na frente dele, acariciando lhe o peito com a ponta dos dedos.

— O que quer de mim? – Erick perguntou, arfando.

— Você matou minhas crias – Elise aproximou-se do ouvido dele e cochichou com voz sedosa – agora preciso de novas.

O coração de Erick quase parou, devia estar delirando devido ao veneno; a última coisa que viu antes de desmaiar foi Elise o arrastando até uma toca e rasgando lhe as roupas. Depois de algum tempo ele acordou, febril e soado.

— Olá – Elise estava sentada em uma espécie de trono. – Posso lhe fazer uma pergunta?

— O que? – Erick espremeu os olhos, tentando enxerga-la.

— Qual é o seu desejo, Erick Schneider? – Elise finalmente perguntou.

— Sinto em lhe desapontar, sacerdotisa, – Erick sorriu amargamente – mas infelizmente eu não possuo desejos.

Elise arregalou os olhos em surpresa, mas então sorriu.

— Certamente um homem muito interessante – Elise levantou-se de seu trono, como uma elegante rainha.

— E você? – Erick se esforçava para falar.

— No momento meu único desejo é devorá-lo – Elise passou a língua sobre os próprios lábios.

— O que você... – Erick não teve tempo de terminar a pergunta, Elise transformou-se novamente em uma grande viúva negra e arrancou lhe a cabeça.

— Mmm... – Elise satisfez-se com sua presa – simplesmente delicioso.

31 de Maio de 2018 às 02:46 0 Denunciar Insira 0
Fim

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Paloma Machado A mente necessita de livros como uma espada precisa de uma pedra de amolar para manter-se afiada.

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