igorazevedoescritor Igor Azevedo

Uma mulher presa em um relacionamento abusivo e impossibilitada de ser mãe decide tomar medidas drásticas para se libertar. Enquanto saboreia sua breve liberdade em uma cafeteria, a chegada da polícia marca o fim iminente de sua fuga. Data de publicação: 16/02/2024. TODOS OS DIREITOS RESERVADOS. Playlist oficial do Conto no Spotify: https://open.spotify.com/playlist/7GrSyhQRlsBBIzrcF3Qyqr?si=FEYjcnycRoydwOdEMb1hIg&pi=u-dDkqxCNSROe3 🎧


Conto Para maiores de 18 apenas. © Igor Azevedo

#literatura #drama #escritor #cafeteria #relacionamentoabusivo #literaturanacional #igorazevedo #literaturabrasileira #literaturamaranhense #igor #justica # #embaixadorpt
Conto
8
3.5mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

O último gole de liberdade

Eu estava sentada em uma cafeteria aconchegante, envolta pelo aroma reconfortante do café recém-passado. Aquela cafeteria, que sempre íamos juntos - até então, a melhor cafeteria da cidade. Tínhamos nos tornado clientes VIPs de tanto que íamos e pedíamos o expresso de sempre. Observava as pessoas passando, cada uma imersa em sua própria bolha de realidade. Alguns já trabalhavam, logo cedo; outros, simplesmente imersos em qualquer outra atividade cotidiana. Para elas, era apenas mais um dia comum. Para mim, era o dia seguinte a uma noite que mudaria minha vida para sempre. Assim que meu pedido chega, adentra no espaço uma família: mãe, pai e criança. Eu lembro que queríamos ter uma família como aquela, como nos agoniava o fato de que eu não podia engravidar. Depois de tentativas frustradas, descobrimos tal impossibilidade. Esse fato foi uma má virada de chave para nossa relação. Já éramos casados há cinco anos e esse fato se tornou o estopim de muitas mudanças dele ao meu respeito, comportamentais, principalmente. A cor da pele e os olhos azuis daquele menino remeteu-me a uma combinação cromossômica que poderia ser nossa. Comporíamos um ser aparentemente perfeito, a não ser a minha inutilidade perante a maternidade. Depois que descobrira a impossibilidade de um dia ser pai, o comportamento dele mudou drasticamente. Não vínhamos mais com tanta frequência a essa cafeteria e, bem logo, tornei-me a vítima. Não se tinha mais regras por parte dele, nem horário de entrar e sair de casa. A liberdade dele surgiu a partir do momento que perdi a minha. Vivia como uma prisioneira, a pagar pecados que nunca cometi. Estava desempregada há anos - abdiquei de muita coisa para tentar constituir uma família junto a ele e, quando a ficha de que nunca poderia ser mãe caiu, percebi o quanto de tempo perdi. Doei-me a uma relação fadada ao fracasso desde o seu início. Eu não tinha mais aquela força de sair de casa, nem a dos afazeres mais simples. Não mais me sentia amada, porque o amor havia acabado. Tão logo depois da trágica notícia, veio a insatisfação dele estar com uma mulher que nada servia - o amor virou ódio, o coração apodreceu. A violência começou com simples empurrões, que logo passaram a ser tapas e, depois, a serem chutes. Eu nada falava; era como se fosse a minha penitência por não servir como mãe a um homem que só queria ser pai. As transas passaram a ser do meu contragosto e muito mais violentas. O ódio era sinônimo de sexo e eu em nada sentia a obrigação de contestar. Mas logo a minha paciência, diante de tudo aquilo, perdi.

Enquanto mexia meu café, deixei-me levar pelas lembranças da noite anterior, um turbilhão de emoções conflitantes. Flashbacks invadiram minha mente, cada imagem mais vívida do que a outra. Sentia ainda os meus pulsos e minha costa, depois de tanto repetir aqueles movimentos. A minha mão ainda se encontrava quente e com cheiro de um sangue vívido. E não, não era o meu.

Lembro-me sempre do olhar de desdém em seu rosto, as palavras cruéis que cortavam como facas afiadas. Ele achava que podia me controlar, subjugar-me a seu bel-prazer, mas tudo foi até certo ponto. Demorei muito para cansar de verdade, mas cansei naquela noite. Foi naquela noite, a noite passada, que eu decidi que era o bastante.

Com as mãos trêmulas, alcancei a faca na gaveta da cozinha. Meus movimentos se tornaram automáticos, como se eu estivesse possuída. Fui consumida pelo ódio e o acumulei em todas as vezes que fui tocada com desprezo, nojo e ódio, mas era consumida calada. Cada passo em direção a ele era como atravessar um campo minado de medo e raiva. Nada me impediu de ser sugada pelo rancor guardado por não servir como mãe e nem mesmo como mulher. Não haveria mais volta. O ódio fervia em minhas veias, cegando-me para qualquer coisa além do desejo de libertação. Somente sua morte poderia me tornar um ser humano livre, que pudesse contemplar a luz do dia em paz.

O brilho frio do metal refletiu em seus olhos quando me aproximei. Ele ainda não entendia o que estava prestes a acontecer. Peguei-o desatento, em um dia que se encontrava distraído em casa. Foi uma das poucas noites que ele dormiria em nossa cama, depois de me forçar a satisfazer seus carnais desejos. Talvez tenha pensado que eu iria apenas armar uma discussão, que seria uma noite de tensão em nosso casamento fracassado. Mas eu sabia melhor do que se tratava depois de abordar somente algumas palavras infelizes de rancor e ódio.

O primeiro golpe foi o mais difícil. O som sibilante da lâmina cortando o ar foi abafado pelo grito estrangulado que escapou de seus lábios. A faca amolada cortava seu duro músculo com certa dificuldade, mas a força foi tão grande que logo isso foi resolvido. Você ainda me empurrava, gritava para que eu parasse com aquilo, mas não conseguia te ouvir mais, porque eu perdi todos os sentidos. Eu era um touro bravo, solto em uma arena. Na tentativa de me afastar, busquei atingir suas mãos e braços, até que você percebeu que não teria mais força para fugir de mim. Na força do ódio, veio outro e mais outro golpe, até que não havia mais resistência. Só o silêncio perturbador da morte.

Saí perambulando as ruas desertas, antes mesmo de nossos vizinhos aparecerem para me questionar o que havia acontecido. Corri como pude, junto com uma bolsa, onde trouxe somente o essencial para sobreviver de outro modo, junto com a arma do crime, que me livrei logo depois. Andei a madrugada toda, até que logo amanheceu e resolvi pedir um café da manhã na cafeteria que costumávamos vir. Esse é o meu último gole de liberdade, tenho a certeza. Mas minha liberdade começou a partir do momento que eu te matei. Nada me prende mais.

De volta à realidade da cafeteria, senti um arrepio percorrer minha espinha quando percebi que a polícia estava entrando pela porta principal. Eles estavam procurando por mim, logo senti. Mas eu não podia permitir que me encontrassem tão facilmente. Não depois do que eu fiz. Pensei que seria cedo demais para ser procurada - logo depois do café, iria fugir da cidade e ir para qualquer outro lugar.

Engoli em seco, tentando manter a compostura enquanto eles se aproximavam. Mas no fundo, eu sabia que não havia escapatória. Aquele seria o fim de minha falsa liberdade. Presa por cometer minha própria justiça. As memórias do assassinato ecoavam em minha mente, um lembrete constante de que minhas ações teriam consequências que me marcariam para sempre, bem mais que os chutes e tapas que eu costumava levar.

Quando finalmente me viro para encarar os policiais, sei que é apenas uma questão de tempo antes que minha vida desmorone completamente. Mas por enquanto, tomo um último gole do meu café, saboreando cada momento de liberdade que me resta.

16 de Fevereiro de 2024 às 10:14 3 Denunciar Insira Seguir história
8
Fim

Conheça o autor

Igor Azevedo Professor e escritor. Autor de 6 livros publicados. Poeta, contista e aprendiz da vida. 🌊✨

Comente algo

Publique!
Maria José Gal Maria José Gal
É triste mas eu não culpo uma mulher quando leio algo assim. Nem uma merece sofrer com agressões fisicas nem psicológicas. Parabéns por sua história!
May 07, 2024, 11:22
Elza Valentina Souza Elza Valentina Souza
Que terrível. Não a história! A história foi muito boa, imersiva e angustiante. Terrível é saber de coisas assim, como elas acontecem o tempo todo pelo mundo. Parabéns por seu conto!
March 25, 2024, 05:01
Monica Correa de Sousa Monica Correa de Sousa
Fascinante! Bela narrativa!
February 16, 2024, 14:12
~