amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Um sonho recorrente perturba uma jovem. Seu medo de água a faz perder oportunidades de se divertir com amigos. Os questionamentos a fazem procurar por ajuda. Uma estória de amor e dor se descortina nos palcos do passado.


Conto Todo o público.

#asmemóriasdeumsobrevivente #época #suspense #drama
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Olhos de Adeus

O céu, salpicado de estrelas, é a última coisa que vejo antes de meus olhos se fecharem. Um alívio para o frio atordoante que sinto, enquanto mil agulhas parecem perfurar meu corpo sob a água negra que me persegue. Acordo puxando o ar pela garganta ressequida, sentindo as lágrimas molharem meu rosto. É sempre o mesmo sonho perturbador.

Sei que algo aconteceu antes de eu nascer. Contudo, ao ser questionada, minha mãe refuta a ideia preconcebida por mim, no ensejo de explicar o medo que me acomete cada vez que vejo uma água parada, principalmente as escuras.

Esse sentimento acabou me trazendo complicações na adolescência, pois jamais pude frequentar o clube do qual éramos sócios, e curtir uma tarde com minhas amigas. Muito menos paquerar os rapazes que se exibiam para elas. Apenas ouvia, calada, suas estórias românticas, porém sempre percebendo as indiretas lançadas a mim, como se eu tivesse culpa de sentir tanto medo de água.

Depois de perder o passeio da minha turma de formandos do ensino médio, em Porto de Galinhas, decidi me tratar. Procurei por um psicólogo e lhe expliquei minha fobia. Disse-me que era mais comum do que eu pensava. Aquafobia ou hidrofobia é um medo irracional da água, principalmente o afogamento. O tratamento, a grosso modo, seria a terapia de exposição, ou seja, expor-me ao meu maior medo.

Assim que o ouvi dizer, da forma mais calma possível que eu deveria entrar em contato com a piscina de casa, passei a sentir náusea, dor de cabeça, sudorese e outros sintomas que odeio, só de pensar. Ao perceber meu grau de estresse, recomendou-me um psiquiatra. Porém não lhe disse dos sonhos que me atormentavam desde a infância. Ainda não me sentia confiante o bastante para lhe revelar.

Depois de quase um ano de terapia, sem o menor sinal de melhora, fui orientada a procurar um psicoterapeuta especializado em regressão. Meus pais foram contra, entretanto, eu estava decidida a descobrir o motivo de minha prisão. Não vou entrar em detalhes sobre o modo como o Dr. Orlando me levou a encarar minha fraqueza. Não vem ao caso. Embora possa adiantar que saber e acreditar é algo bem diferente. Apenas sei que de alguma forma, sinto-me melhor. Já consigo pelo menos pôr os pés na beira da piscina. A água azul, tão diferente daquela negra e gélida, ainda me assusta, porém não com a mesma intensidade. Entender o que aconteceu e que hoje sou uma pessoa diferente, faz-me questionar a minha escolha.

Segundo revivi em algumas sessões, fui uma jovem solteira em 1912, com meus vinte e três anos, quando senti a esperança tomar conta de meu coração ao saber que poderia viajar pelo mundo e conhecer lugares fantásticos, trabalhando em um navio. Seria meu primeiro emprego longe das casas de família, onde começara desde cedo, preparando refeições para meus empregadores com um salário mísero que mal dava para sobreviver ao inverno da Inglaterra. Chamava-me Grace. Minha amiga Annie me mostrou o panfleto de um navio gigantesco que todos comentavam. Sua fama de “inafundável” corria solta nas altas rodas sociais, inclusive na de meus empregadores.

Não acreditei quando Annie disse que poderíamos nos candidatar às vagas de cozinheiras no Titanic que zarparia para Nova York dentro em breve. O sonho aventureiro se apossou de mim. Fomos aceitas para trabalhar na cozinha do convés A, que atendia a primeira classe de passageiros, sob a supervisão do mordomo Mr. Carruters. Deixei a casa onde passara quase quatros anos servindo, limpando e cozinhando, para a minha maior aventura.

Não posso descrever com exatidão as coisas que vi naquele lugar magnifico assim que o adentrei pela primeira vez, algumas semanas antes de zarparmos. Parecia um palácio real. Enquanto éramos treinadas para servir a mais alta sociedade, vez ou outra, Annie e eu fugíamos para os salões ainda em montagem, e ficávamos sonhando com vestidos caros e toda a pompa que cabia ao lugar. Adorava subir a escadaria do relógio e me ver em pé ali, postada diante dele, ouvindo seu tic-tac suave, em um vestido de festa, esperando por um par que pudesse me arrebatar para sempre.

Sorria de meus devaneios. No dia da partida do famoso navio, estávamos lá, vendo os tripulantes acenando no porto para os familiares e amigos, encantados com a novidade. Aquele era o maior navio já construído. Sua fama atingia toda a Europa. Estava feliz por ter sido contratada para aquele posto. Quando o Titanic zarpou, preparamo-nos para servi a tripulação da forma como fomos treinadas.

Às vezes, após o fim do turno, corríamos às dependências da terceira classe que era muito divertida. As pessoas simples sabiam festejar nos salões logo após as refeições. Tão diferente da austeridade da primeira classe com seus olhares empinados, excursões de negócios e damas desfilando com os pescoços e dedos cheios de joias faiscantes. Sim. Eu e Annie íamos espiá-los, já que eram gente como a gente.

Havia um rapaz, Antony, um dos comissários do navio, que vivia arremessando olhares insidiosos para cima de mim. Eu bem que gostava. Foram quatro dias após nossa partida que algo aconteceu. Ele me convidou para um passeio pelo convés quando todos pareciam dormir. Alguns homens de negócios perambulavam pelo salão, nada que nos impedisse de circular por ali sem sermos vistos. O frio era cortante, entretanto, Antony era engraçado e devo dizer, lindo. Havia inúmeras estrelas no céu e quando olhei para contemplá-las ele se aproveitou e roubou-me um beijo. Quis refutá-lo, entretanto, o calor me envolveu por inteiro e correspondi ao seu aperto sincero. Assim que se distanciou, sorrimos um para o outro e, de mãos dadas seguimos para nossos dormitórios. Pouco tempo depois, uma batida me tirou dos sonhos românticos.

Levantei-me, atordoada pelo horário e lá estava ele, pálido, dizendo para eu me vestir. Encarei-o, sentindo-me confusa. Disse que algo acontecera ao navio e que precisavam de todos no convés. Vesti-me rapidamente e fui chamar Annie que já se encontrava em pé. Ao nos posicionarmos, as famílias da primeira classe começavam a subir apressadas ao convés com os filhos nos braços e alguns pertences. Fomos informadas que deveríamos servi-los com bebidas fortes para acalmá-los. Obedecemos sem saber exatamente o que acontecia.

Os casais olhavam a movimentação dos comissários, descendo os pequenos barcos pela amurada, enquanto eu e Annie nos olhávamos, temerosas. Assim que vi Antony lá fora, corri até ele. O navio apresentava problemas no casco. Algo nos atingira e o comandante estavam tentando conseguir ajuda pelo rádio. Puxou-me para um canto e me deu um colete salva-vidas. Olhei para aquilo e vi a gravidade em seus olhos. Disse-me que o encontrasse ali quando o último hóspede entrasse nos barcos. Questionei-o, não vendo ninguém de nossos amigos da terceira classe subindo ao convés. Ele perscrutou meus olhos e pediu que olhasse ao meu redor. Foi quando percebi que só as mulheres e crianças bem agasalhadas entravam nos barcos. Os olhares de medo e angústia nos olhos daquelas mulheres foram como um tapa em minha face. Não havia salvação para todos, nem mesmo para nós. Compreender o horror daquilo, sabendo que nada poderia ser feito, a não ser esperar que alguém nos resgatasse, era desesperador. Senti um impulso de correr, livrar-me daquele fardo cruel, porém, não tinha para onde ir. Ali só havia gelo e água. Mirei seus olhos luzidios e ele, segurando meu rosto, disse que, independente do que o destino nos reservasse, ficaríamos juntos. Deixou-me, atônita, e pôs-se a cumprir seu trabalho.

Encostei-me a parede a encarar a movimentação angustiante. A orquestra tocava uma valsa, tentando acalmar a tripulação feminina que embarcava nos barcos em meio a gritos, desesperos e negociações que os homens faziam pelas suas vidas, onde o dinheiro de nada mais valia. O olhar daqueles que se mantinham alegrando os passageiros era o da mais absoluta resignação.

Encarava as pessoas, sentindo um pesar afligir meu coração ao mesmo tempo em que meus pés pareciam ter se fixados no chão. Uma senhora elegante se recusou a deixar o marido. Ele insistiu e ela lhe disse que viveram por tanto tempo juntos e que se ele sucumbisse ali, ficaria ao seu lado. Ao ouvir essas palavras, olhei para trás e ouvi gritos “cortando” a noite fria. Esgueire-me e corri em direção a eles. Se pudesse fazer algo, minha vida não teria sido tão inútil quanto eu pensava. Porém, estaquei horrorizada ao chegar ao compartimento da terceira classe e vê-lo com uns sessenta centímetros de água. Os gritos dos que foram aprisionados vinham dali e aumentavam com a mesma velocidade da água que engolia os corredores, como se o navio fosse seu por direito.

Desviei deles, voltando aflita para o convés, sabendo que nada poderia ser feito. Antes, após ouvir um leve murmúrio, corri à cozinha e para minha maior tristeza e surpresa, a senhora Philips encontrava-se sentada à enorme mesa. Seu olhar era tão obtuso que nem me viu entrar. Pedi-lhe que viesse comigo. Ela ergueu as pálpebras e sorriu debilmente a dizer que ficaria ali, já que não tinha para onde ir. Ninguém sentiria sua falta. Sua vida inteira foi trabalho e morreria ali, fazendo o que sabia fazer. Levantou-se e passou a lavar a louça. Havia lágrimas em seus olhos. Deixei-a e corri para longe. A água enregelante já estava adentrando ali também.

Talvez ainda tivesse uma chance ao perceber que trazia nas mãos o colete que Antony me dera minutos antes. Contudo, de nada me serviria já que ao tocar as águas gélidas que adentrava ao navio, percebi que morreria congelada caso conseguisse pular no mar.

Uma ideia brotou em minha mente e me fez ir a um camarote da primeira classe que sabia que fora ocupado por uma dama. Abri uma mala e tirei um vestido. Despi-me rapidamente de minhas vestes e o coloquei, bem no momento em que as luzes começaram a piscar. Deixei a cabine, apressada, em prece. Olhei para trás e ao chegar ao patamar superior, onde ficava o relógio, pude ver o corredor por onde acabara de sair começar a ser engolido pelas águas. O silêncio das vozes suplicantes embaçou meus olhos. Nunca mais veria qualquer um deles.

Procurei por Annie. Ela estava no convés, agarrada ao mastro, de olhos fechados. Estiquei a mão para ela que os abriu, assustada, porém balançou a cabeça em negativa, voltado a fechá-los. Temia soltar-se. Implorei em seu ouvido. Sussurrou-me que não sabia nadar. Não sei de onde surgiu Antony, agarrando-me pela cintura, observando que eu estava sem o colete salva-vidas. Perscrutou meus olhos, entendendo por que me vestira em fino tecido. Sorriu, passando a mão em meu rosto. Havia tanta tristeza em seus olhos de adeus e ao mesmo tempo um alívio que fez meu coração sangrar. Puxou-me com força, abrindo caminho aos gritos ao ver que o último bote seria lançado ao mar.

Enquanto a pequena embarcação era baixada, meus olhos marejaram. Meu grande amor sucumbiria ao lado de tantos inocentes. Talvez fosse ao socorro de Annie. Ela não merecia aquele fim. Minha mente estava em um turbilhão, acreditando que eu não deveria estar ali, fingindo ser uma mulher da alta sociedade quando poderia estar ao lado do homem que amava. Ergui-me num salto, fazendo com que o bote quase virasse, assim que atingimos as águas negras.

Uma senhora me puxou, pedindo que eu me sentasse, enquanto alguém remava para longe do gigantesco navio. Meus olhos não conseguiam desgrudar de Antony que ainda se encontrava na amurada. Ouvimos um barulho ensurdecedor de algo se rasgando. Vi seu corpo ser jogado ao chão quando o convés ficou em linha reta, para em seguida a popa do navio passar a subir à medida que a proa embicava nas águas negras, afundando diante dos nossos olhos. Alguns pulavam no mar, enquanto outros eram engolidos para dentro do navio.

Aquela foi a última imagem de minha amiga, agarrada ao mastro enquanto o navio era sugado. O último acorde da orquestra se misturou aos gritos de terror e então veio o silêncio mortal.

Eram tantos corpos que passavam ao meu redor. Pareciam manequins em silêncio. Nem mesmo gritar eu conseguia. Antes de meu corpo deixar de sentir frio e a serenidade me invadir, coube-me mirar as estrelas frias a nos vigiar. Não sei se sentiram pesar por nossa má sorte, entretanto, saber que estavam lá, acenando-nos de forma tão bela, fez-me fechar os olhos e então o silêncio me envolveu.

Assim voltei da sessão, tendo cravada na retina a cena dos corpos boiando na noite fria a contemplar o grande céu estrelado. Antony me salvou naquele naufrágio tantos anos antes, contudo eu ainda carregava a dor e o desespero de uma quase morte que me perseguia em minha nova existência. Não sei o motivo de ter retornado. Mesmo sendo salva do naufrágio, vivi por pouco tempo. O frio enregelante danificou meus pulmões.

Talvez tenha que encontrar Annie e Antony e pedir perdão por tê-los deixado lá. Ainda sou jovem. Sei que vou reencontrá-los. Minha alma precisa deste resgate. Desta vez, ficaremos juntos, de alguma forma. Essa certeza me ajuda a superar o medo que aos poucos vai se dissipando.

14 de Fevereiro de 2024 às 21:37 8 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Isabel Nogueira Isabel Nogueira
Fui ver esse filme só em 2006 e lembro como me encantei e me choquei. Lendo seu conto eu consigo lembrar das cenas finais e quase "ver" sua história na minha mente! Parabéns!
March 31, 2024, 05:40

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada, flor! Eu fui 2 vezes ao cinema, à época do filme! Maravilhoso! ❤️❤️❤️ March 31, 2024, 09:57
Luciana P. Dickinson Luciana P. Dickinson
Show! Me senti vendo o filme outra vez!
February 24, 2024, 20:14

Gustavo Machado Gustavo Machado
Mais uma vez venho elogiar o uso das palavras. Os adjetivos têm acrescentado em muito a descrição do ambiente, substituindo com excelência descrições massantes. A história é escrita de forma que o leitor compartilha as emoções retratadas. Fiquei curioso quanto ao que levou a autora a centralizar o tema do capítulo à fobia de água hehe não pude deixar de notar que o capítulo resumiu a história inteira do Titanic hahaha
February 21, 2024, 02:23

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada pela leitura, Gustavo. Eu gosto de suas indicações. São pertinentes e ricas. Assim como em O Bosque Sussurrante, Olhos de Adeus foi escrita e está participando do desafio, cujo tema é como sobreviver à uma tragédia onde os autores podem criar ou se inspirar em algo real. Escolhi o Titanic. Afinal fui algumas vezes ao cinema. 🥰🥰 Por isso escrevi sobre a fobia. ❤️❤️❤️ February 21, 2024, 10:13
Le Loustic Hop Le Loustic Hop
Uaaaau. Muito bom, Maga! Adorei como a história começou de um jeito e deu uma guinada. Adorei as descrições do Titanic, e todos os eventos que se seguiram. Excelente como sempre 👏👏
February 15, 2024, 23:51

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Eita! Mto obrigada, amigo! Fico mto feliz.❤️❤️❤️ February 16, 2024, 10:39
~