Sirenia Seguir história

paloma-machado1524178432 Paloma Machado

Todo pescador tem sua história sobre o mar. A pesca do maior peixe, a batalha contra um monstro, o encontro com uma seria. Todos que se prezam têm uma própria versão da lenda ou se gabam de uma aventura romântica. Acreditam que se uma contemplação dessas fosse concedida, conseguiriam sair ilesos, que suas façanhas fúteis terminariam em um desfecho tão simplório. Sereias nunca deixam suas presas escaparem realmente. A fuga, propositalmente facilitada, é apenas um artifício que tona a caça mais empolgante. Elas são seres sedutores, implacáveis e mortais. Entretanto, por um golpe de sorte, um pescador conseguiu sobreviver e contou sua história por longos anos. Achou que estava livre, mal sabia que a benção dada a ele, ainda tinha que ser paga.


Conto Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#romance #suspense #oneshot #original #Sereia #conto
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A Maldição da Sereia

Joaquim, um hábil pescador de vinte e poucos anos, gostava de desbravar os mares a procura de grandes aventuras para vivenciar, amava mergulhar nos recifes para admirar as mais belas espécies aquáticas que conviviam em paz em meio aos coloridos corais.

Em uma tarde ensolarada, depois de uma farta pesca, o rapaz descansava deitado no píer da praia. Os pés submersos na água cristalina, o peito nu sendo bronzeado pelo sol e os cabelos médios ondulados pelo vento fresco. Respirava fundo, sentindo as narinas serem invadidas pelo cheiro do oceano e sua língua salgada pela forte maresia.

Os olhos semiabertos, protegidos dos raios solares pelas mãos estendidas sobre a face, de repente ofuscaram-se com algo que brilhou intensamente na água, achou que podia ser apenas um objeto reluzente, mas então uma cauda longa, de cor acobreada, surgiu sobre a maré.

Em um salto Joaquim se pôs de pé, correu sem dificuldade sobre a areia fofa e escaldante da praia, estava ansioso para ver que tipo de peixe majestoso era aquele. Adentrou o mar sem se importar com as pedras que cortavam seus calcanhares descalços. Atrás de uma grande pedra ovalada estava o peixe, debatendo-se no raso, com uma rede a prender-lhe o corpo sobre os crustáceos.

O pescador aproximou-se com cautela, não queria assustar ainda mais a pobre criatura, mas assim que teve uma visão completa do ser, foi ele quem se espantou. Era metade humana, metade animal... A parte inferior era uma longa calda de peixe; a nadadeira ampla boiava levemente como um tecido fino; as escamas pareciam moedas de bronze e subiam até o dorso. A parte superior era semelhante a uma mulher, a pele humana levemente bronzeada; na lateral dos braços possuía pequenas barbatanas; os seios fartos estavam cobertos pelo longo cabelo cor de ébano que caía em cascata sobre os ombros.

A sereia parou de se mover e passou a observar o homem que a admirava com surpresa e fascinação. Um sorriso delicado se formou em seus lábios chamativos e então se comunicou na língua humana.

— Você pode me ajudar?

Joaquim piscou pausadamente, desprendeu as linhas dos corais e lançou a rede de volta a praia.

— Está ferida?

— Não. Mas não consigo voltar para o mar aberto, sinto que minha pele já está ressecada demais.

Joaquim alisou a barba rala, olhou para os lados procurando uma forma de devolvê-la ao seu lar.

— Posso? – perguntou estendendo os braços.

A sereia balançou a cabeça num gesto afirmativo.

O jovem homem a pegou no colo com grande esforço, pois sua calda era pesada; adentrou as águas em ritmo lento, parando assim que alcançou o nível do peito, então soltou a bela criatura delicadamente.

— Nem sei como te agradecer – disse a sereia de voz aveludada.

— Apenas me diga seu nome – ele pediu.

Ela pareceu surpresa, seus olhos negros e profundos como um abismo o observaram sem pudor – Sirenia.

— Um belo nome. – Joaquim coçou a nuca sem jeito – adeus – deu as costas e foi embora.

À noite, já em sono profundo, deitado com os braços dependurados para fora da rede, Joaquim sonhou com o ser mítico. Os dois nadavam e riam juntos sobre o pôr do sol, a luz alaranjada exaltava ainda mais o brilho cobre das escamas de peixe, fazendo com que a sereia parecesse um precioso tesouro. Acordou na manhã seguinte com o cantar do galo, os primeiros raios de sol invadiam a cabana através das frestas nas paredes. Lavou o rosto e fritou algumas bananas para comer com farinha. Pouco depois já estava de volta ao mar, remando com seus companheiros de pescaria.

Depois de horas no sol quente, o pequeno barco voltou quase vazio. Era difícil obter uma pesca farta, com a mudança de lua a maré começava a baixar, o que afugentava os peixes. No fim da tarde Joaquim foi até a varanda para descansar sob a sombra, enquanto observava os minutos finais de sol a colorir céu e mar como uma extensa tela de pintura.

E mais uma vez um brilho misterioso lhe chamou a atenção. Levantou e forçou os olhos tentando enxergar, viu o movimento sobre a água rasa, desta vez ao lado do píer. Correu como da primeira vez, não ficou assustado ao ver o que era, mas sim feliz.

— Sirenia? – a sereia havia se escondido debaixo da plataforma de madeira, ao ouvir a voz do rapaz, foi se mostrando aos poucos. — O que faz aqui?

— Queria te ver – ela respondeu com um olhar meigo e de bochechas coradas.

— É perigoso, se algum outro pescador te ver... – Joaquim calou-se ao ser tocado pela morena.

— Você vai me proteger – Sirenia se aproximou, colocando as mãos em torno da nuca do homem.

— Ainda assim... – ele corou ao sentir os grandes seios sendo pressionados contra seu tórax despido. – Acho que a noite seria melhor. Mais difícil de enxergar.

A encantadora criatura afrouxou o abraço, concordou com um menear de cabeça e partiu para as águas profundas. O rapaz voltou para casa, colheu alguns galhos e acendeu uma pequena fogueira. O estomago roncou com o cheiro do peixe assado, encheu uma tigela de arroz e espremeu alguns limões num copo de água. Com a fome saciada, pôs-se a descansar sobre a esteira da varanda, observando os caranguejinhos saindo de pequenos buracos na areia.

O brilho, agora já familiar, o fez arregalar os olhos e correr em euforia até o píer. Ela estava sentada na beirada das tábuas, seus cabelos pareciam uma fonte de petróleo a escorrer pelas costas, a calda longa movimentava-se suavemente dentro da água, enquanto os olhos intensos admiravam a lua crescente.

— Linda, não é? – Joaquim se sentou ao lado da sereia, mas ela nada disse. – Adoro suas curvas.

Com isso ela o olhou, tocando os dedos de sua mão.

— Falo sobre a lua... Claro – tratou de se explicar, mas percebendo o descontento na face dela, completou – não que você também não seja linda.

A sereia sorriu e lhe acariciou o rosto. Deslizou para dentro da água e o chamou.

— Não posso... Está muito tarde. – Joaquim se levantou – boa noite Sirenia.

Ela apenas o observou voltar para a cabana. Ele não era como os outros, parecia quase que imune aos seus encantos. Mas isso só tornava o desafio ainda mais prazeroso.

Os dias e noites se passaram. Os encontros foram se tornando mais íntimos e duradouros, mas nada parecia realmente surtir efeito. Então ela resolveu usar de seu artifício mais poderoso... A voz. Joaquim parecia finalmente hipnotizado... Mas não do jeito que ela queria.

— Uau! Você tem uma voz realmente linda. Acho que tive uma ideia, não saia daqui – ele foi até sua casa e voltou com um violão em mãos.

— Você só pode estar me sacaneando! – a sereia explodiu. Havia sido divertido até o momento, mas aquilo já era demais. Sentiu-se ofendida e furiosa pelo mais forte encanto de sua espécie não ter causado nem se quer uma pequena alucinação naquele homem. Lançou-se ao mar com força, mergulhando de forma enraivecida.

— Sirenia! – Joaquim ficou perdido, não conseguiu entender o que tinha feito de errado. – Espere...

O homem recolheu o instrumento, voltou pra seu lar a passos lentos e se arrastou para a cama. Longos dias de pesca se passaram, Joaquim se perguntava se um dia iria rever a sereia. Sempre olhava para o mar antes de dormir, esperando pelo sinal do brilho acobreado.

Certo dia, depois de uma forte tempestade, chegou exausto e estressado. Lavou-se, jantou e logo dormiu. Espiando através das ondas, Sirenia esperou seu amado vir observar o oceano, mas ele não apareceu. Desesperada, nadou de um lado para o outro tentando encontrar uma solução. Foi então que uma ideia estalou em sua mente, algo sobre o que suas irmãs haviam lhe alertado dos perigos, mas não importava, ela teria Joaquim a todo custo.

Depois de uma dor lancinante e de cuspir muita água, Sirenia se pôs de pé sobre a areia da praia. Havia se transformado, substituindo sua calda por um par de pernas humanas. Mas não tinha muito tempo, correu até a cabana e entrou sorrateiramente, avistando sua vítima adormecida na cama de palha.

Joaquim acordou ao sentir algo quente sobre seu corpo, tentou se levantar, mas o peso e o cansaço não deixaram. A luz prateada da lua invadiu o pequeno cômodo através da janela aberta, iluminando a face da estonteante mulher que repousava nua sobre seu colo.

— Sirenia? Mas como você... – o pescador teve sua boca calada por lábios macios e volumosos.

— Perdoe-me por fugir daquele jeito – Sirenia inclinou o corpo para frente, beijando o tórax bem definido do rapaz.

Enfim ele cedeu. Seu corpo queimava e vibrava de desejo. Se encontrar uma sereia já era algo quase impossível, deitar-se com uma era como uma dádiva concedida por Poseidon.

Os primeiros raios de sol mal surgiam no horizonte e o galo já estava cantando. Joaquim acordou se espreguiçando, olhou para o lado e contemplou a beleza mitológica daquele ser. Quase não acreditava que tudo havia sido real, perguntava-se o que tinha feito para merecer tamanho presente.

— Bom dia... – Sirenia disse abrindo vagarosamente os olhos, esboçando um sorriso preguiçoso.

Um sorriso que rapidamente se transformou em uma carranca. A sereia começou a gemer e se contorcer de dor.

— O que está acontecendo? – Joaquim se desesperou.

— Minha... – Sirenia gritou – minha calda!

Ela estava se transformando novamente, as pernas unidas começaram a criar escamas e nadadeiras. Joaquim a pegou no colo e correu para a praia, atravessou o ancoradouro e pulou no mar. Poucos minutos depois a criatura parecia mais calma.

— Você está bem? – o rapaz tinha um semblante preocupado. – Por que fez isso se lhe causa tanta dor?

— Porque eu precisava te ver – Sirenia tinha os olhos avermelhados devido ao choro – queria te ter.

— Prometa-me que nunca mais fará isso? – ele segurou o rosto delicado dela entre as mãos.

— Só se você ficar comigo.

Joaquim suspirou. Por mais que também desejasse aquilo, sabia que era algo impossível.

— Não posso...

A sereia lhe lançou um olhar diabólico, não tinha passado por aquilo tudo para não ganhar se quer uma lasca de carne humana. Abriu a boca escancaradamente, fazendo projetar da gengiva uma nova fileira de dentes, pontiagudos como os de um tubarão. Joaquim, assustado, tentou subir no píer, mas a criatura mergulhou e o puxou pelo tornozelo.

Graças ao bom reflexo, ele conseguiu se agarrar a uma das vigas de madeira, mas suas mãos começaram a escorregar pouco a pouco, pois a sereia era mais forte na água. Resistiu por algum tempo e por um momento achou que ela tinha se cansado, mas foi então que uma dor lancinante atingiu sua perna. A sereia havia o atacado com a poderosa mandíbula.

O grito desesperado de Joaquim pode ser ouvido de longe, outros pescadores que preparavam seus barcos ali perto correram para tentar resgatá-lo. Lançaram redes e arpões tentando acertar o que achavam ser um filhote de tubarão, quando enfim o animal marinho desistiu, conseguiram puxar o rapaz para fora do mar. O jovem pescador caiu inconsciente, com a panturrilha da perna direita mutilada. Foi levado às pressas para o hospital, teve o membro amputado, mas se recuperou.

Apesar da tragédia e de seus amigos não acreditarem na história, conheceu uma moça que adorava ouvir seus contos. Sentados na praça, tomando sorvete... Foi assim que se conheceram e se apaixonaram. O casamento gerou três belos filhos, e só terminou com o falecimento da esposa, após sessenta anos.

O filho mais velho acolheu o pai já de idade em sua casa, até que um dia não soube mais lidar com seus transtornos mentais. Acordava de madrugada aos gritos, sempre dizendo que ela ainda estava lá, esperando-o sobre a pedra ovalada. Não encontrou solução melhor do que deixá-lo numa clínica.

Parecia que o tratamento com remédios amenizava seus pesadelos, apesar de repetir a mesma história todos os dias. No entanto era um senhor muito simpático, sempre falante e sorridente, fácil de cuidar.

Poucos dias antes de seu aniversário de noventa anos, enquanto a enfermeira preparara sua dose diária de medicamentos, algo estranho aconteceu.

— Não vai terminar de contar? – a moça perguntou ao perceber uma pausa maior na respiração de Joaquim.

— Ela esta rindo... – continuou com a voz fraca. – Disse que finalmente vamos nos reencontrar... – virou em direção à janela, com os olhos cegos pela catarata fixos no mar.

— Está falando da sua esposa, senhor? – a enfermeira tentou lhe entregar um copo d'água.

— Não... – ele suspirou, as mãos trêmulas penderam ao lado do corpo – Sirenia.

A ambulância foi acionada, mas já era tarde demais.

Joaquim, assim como todos os outros, havia sucumbido ao grande mistério do mar.

25 de Maio de 2018 às 17:29 2 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

Paloma Machado A mente necessita de livros como uma espada precisa de uma pedra de amolar para manter-se afiada.

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Juan Nicola Juan Nicola
Me ha encantado mucho tu Historia. Te felicito y deseo éxitos.
26 de Maio de 2018 às 21:03

  • Paloma Machado Paloma Machado
    Muito obrigada! Fico imensamente feliz por ter gostado. Espero que mais de meus textos te encantem. 27 de Maio de 2018 às 14:39
~