Merum - Sangue meruniano Seguir história

murilo-faustino1526987381 Murilo Faustino

Joseph baltazar não era nada além de um órfão rejeitado pelo sistema, pobre e bandido. Preso por roubo e agressão a uma agência lotérica ele não esperava nada da sua mísera vida além de dureza e sofrimento, que já eram comuns aliás, até que no dia em que ia ser solto, recebeu a visita mais inesperada de sua vida. Um advogado amigável. E para lhe dizer que ele recebera uma herança, e o mais confuso de tudo; De seu pai! Mas como ele poderia ter recebido uma herança de seu pai se fora abandonado ainda bebê na porta de um orfanato? Quem seria aquele, seu pai mesmo ou um impostor? O que seria tudo aquilo? O que esse pobre homem não sabia era que ele não estava recebendo uma herança, mas sim um legado. O legado do Sangue Meruniano.


Fantasia Todo o público.

#magia #merum #fantasia #brasil
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A herança

Seis anos, seis anos….

Joseph estava de acordo que seis anos era muito tempo na vida de qualquer um, poderia até parecer pouco quando se falava em uma vida inteira mas era muito quando se falava em prisão.

E a prisão era um lugar podre onde tudo era sujo e fedia e as paredes engorduradas estavam encharcadas de rabiscos feitos à mão, de canetas, lápis, tintas, corretivos, esmaltes e tudo o mais que pudesse deixar alguma marca, várias redes se amontoavam por entre colchões, sacolas dependuradas em pregos, cordas e todo tipo de tralha que fazia parte do “mobiliário” dos detentos.

Entrou no banheiro que era um mísero pedaço de parede dividindo o box e o chuveiro da cela, deixando claro que ali ninguém tinha privacidade e olhou para a pia antes de lavar o rosto na água imunda que jorrava da torneira, o líquido saía quase negro mas não tão preto quanto os cabelos longos e ensebados de Joseph que lhe batiam nos ombros, lavou-lhes com o mesmo carinho de sempre, ou seja, nenhum, e tirou o pedaço sujo de espelho que havia sido improvisado pelos colegas de cela e ficava em uma rachadura na parede do minúsculo lavabo.

O homem que o encarava no reflexo tênue era uma criatura cansada e em desalinho, os longos e negros cabelos rebeldes eram ainda lisos apesar do desleixo, o rosto magro de pele morena e bonita contrastava com a barba desgrenhada e por fazer e o nariz afilado e pontiagudo era uma característica marcante assim como os olhos castanho-claros, era ainda um homem belo mas marcado pelas nuances de uma vida errante, como a cicatriz abaixo do olho esquerdo que sempre estava lá para lembrá-lo do dia em que fora enclausurado naquela cadeia.

Sim esse dia ele se recordava bem, o maldito dia em que fora preso.

Deveria ter ocorrido tudo bem, Joseph ficaria na porta da Casa lotérica com uma espingarda Calibre.. .12 afinal sempre fora o brutamonte da turma, o tamanho avantajado contribuíra para o aspecto marrento que lhe conferira o apelido que lhe acompanhou desde a adolescência.

Grandão

Portanto era ele quem ficara de guarda na porta para o caso de algum problema enquanto seus comparsas entravam e roubavam a agência lotérica de pagamentos, um de seus comparsas, o Lucas, ficara sabendo através de um primo seu que ali trabalhava que naquele dia chegaria um malote contendo duzentos e cinquenta mil reais.

Como sonhara com o que ia fazer com o dinheiro...

Compraria um lugarzinho para morar e montaria algum negócio lucrativo, sim, o sonho de todo bandido.

Tudo correu bem, dia ensolarado e poucos clientes no estabelecimento, todos foram rendidos na hora que o dinheiro estava sendo entregue e os dois seguranças armados que acompanhavam foram surpreendidos e neutralizados.

Mas a polícia tinha de aparecer para estragar tudo!

O pior é que a maldita viatura estava somente andando a esmo e achou de passar logo na frente daquela lotérica, Joseph não pensou duas vezes e mandou logo fogo com a Calibre .12, o problema é que quando se fala em polícia eles também estão armados e ele nunca fora um bom atirador, na verdade Joseph jamais havia disparado antes com arma alguma.

A retaliação foi rápida e enquanto só conseguira acertar um disparo porta da viatura e mal se descobriu com um tiro no braço e outro no abdômen e sem sua arma, os companheiros fugiram como puderam e o deixaram ali, também o que podiam fazer? Estavam desarmados e seu guarda-costas neutralizado, a surra que se seguiu foi realmente feia.

Quando pensava nisso dava graças de seus tiros terem sido tão amadores que só acertaram os lados da viatura e mal, afinal mesmo sem machucar nenhum policial a violência fora extrema, imaginava então o que teria acontecido se realmente tivesse chegado a acertar algum homem da lei.

Foi naquela surra que ganhara a maldita cicatriz em forma de lua que habitava sua maçã esquerda do rosto, os socos foram tão fortes que romperam a face deixando um corte tão profundo que nunca se fechou abrindo um enorme buraco em forma de lua logo abaixo do olho esquerdo, isso fora a perna quebrada pois os policiais não se contentaram em lhe acertar um tiro no braço e outro no abdômen e cuidaram também que quebrar-lhe a outra perna a chutes com o bônus de três costelas no processo, ainda doía quando respirava.

E lá estava ele, preso, seu metabolismo como sempre fora bondoso e as únicas sequelas de tudo isso eram as cicatrizes de bala, as dores ao respirar devido às costelas e claro a maldita cicatriz em forma de lua abaixo do olho esquerdo pois a perna foi recuperada com o vigor que Joseph sempre tivera, o apelido de Grandão não era à toa, além de grande era forte e tinha o vigor de um touro.

Saiu do banheiro e adentrou a cela para encontrar os outros presos, a superlotação do presídio lhe gerava muitos companheiros mas os principais eram Marcos e Maike.

Marcos era um velho oriental que havia sido preso por estelionato e assassinato, havia matado seu sócio na tentativa de roubar sua parte na empresa, já Maike era um jovem rapaz moreno e bem-humorado que fora pego traficando drogas em sua comunidade.

Na cadeia esqueciam-se os crimes, todos eram iguais ali, exceto os crimes de estupro, contra os próprios pais, contra crianças ou contra idosos, esses nunca eram perdoados.

Marcos estava sentado à beira da parede lendo uma revista velha que já havia visto umas cem vezes e maike conversava com Miruca e Jozelias.

-Oras, tá aí o premiado do dia em?- Brincou Miruca Logo ao ver Joseph - É hoje em moleque?-

-É, é hoje Miruca.- Respondeu Joseph animado.

Seis anos preso naquele complexo e sairia naquele dia, a tentativa de assalto e reação à prisão fora o porte ilegal de armas lhe concederam belos dez anos de cadeia mas o fatos de ser réu primário e ter tido um bom comportamento contribuíram para diminuir a pena para seis anos e aquele era seu último dia na cadeia.

Marcos finalmente levantou a cabeça de seu canto.

-Ta quase na hora, eles chamam você umas seis horas por aí.- Disse com um sorriso.

Marcos cumpria pena há mais tempo do que Joseph era vivo, seus cabelos grisalhos e sua paz no olhar e na fala denunciavam seu extenso tempo cumprido ali, sabia de todas as rotinas do presídio e fora o primeiro amigo de Joseph na cadeia.

-O Guarda deve me chamar já já.- Respondeu apreensivo.

-Relaxa Grandão, é hoje que você ganha o mundo de novo!- Sorriu Marcos enquanto voltava a ler a revista.

As vezes ainda sorria quando lhe chamavam de Grandão na cadeia, era engraçado como os colegas de cela começaram a chamá-lo pelo apelido de adolescência mesmo sem Joseph ter lhes dito nada sobre isso, tinha a impressão de que aquele nome o acompanhava como um estigma.

O guarda veio seis e dez como predito por marcos, com um atraso aceitável claro e como sempre fazia chamou o nome completo do detento a comparecer na porta da cela:

-Joseph Baltazar Merum- berrou o homem fardado.

Já havia se despedido dos companheiros mas bradou ainda algumas saudações aos colegas e dirigiu-se a porta, chegando lá ficou esperando o guarda abrir mas ele não o fez, ao invés disso disse:

-Tenho um recado do diretor pra você.-

Aquilo o pegou de surpresa, o que o diretor do presídio queria com ele? Será que havia dado algo errado e ele não sairia mais?

-Recado do diretor? O quê?- Foi somente o que conseguiu rebater confuso.

-Ao que parece um parente seu morreu, algo assim, e tá vindo um advogado aí falar com você.-

Parente!? Advogado!? Tudo aquilo soou como uma bomba na mente de Joseph, as primeiras lembranças de vida que guardava já eram as do orfanato Central.

Fora abandonado ainda Bebê na porta do orfanato e nunca soubera de nenhum parente, seus parentes foram os moleques da rua já que fugiu aos doze anos e passou a viver nas ruas da Grande capital do Recife até os dezesseis, onde arrumou um emprego informal no porto do Suape e começou a ganhar o suficiente para ao menos alugar uma casa e começar a entrar na bandidagem, fora preso com dezenove anos.

-Como assim? Parente meu? Que parente é esse? E o que esse advogado quer comigo?-

-Olha, não sei, parece que você herdou alguma coisa aí, o advogado chega amanhã de manhã então olha, o diretor disse que seu dia de soltura é hoje mas que se você quiser pode ficar até de manhã para falar com esse advogado aí, pro chefe não faz muita diferença um dia a mais ou a menos você que sabe, e ai?-

Não teve dúvidas.

-Eu fico.-

-Beleza, então até amanhã, vou passar o recado pro chefe.-Concluiu o guarda e saiu corredor adentro, deixando as portas da cela fechadas do mesmo jeito que as encontrou.

Nesse momento a cabeça de Joseph era um turbilhão de curiosidade e perguntas.

Parente, Herança, Advogado? Mas que diabos era aquilo afinal? Nem mesmo percebeu quando Marcos chegou ao seu lado.

-Nossa, o que será que esse advogado quer com você?-

Não pôde notar que obviamente o velho japonês tinha ouvido toda a conversa.

-Não faço a mínima ideia cara, estou curiozaço aqui.-

-Bom, mas pelo que parece é coisa boa né? Vai ganhar uma herança pelo que ele disse né?- Continuou marcos querendo manter o assunto.

-Ele não pareceu saber muito sobre a história, acho que o diretor falou por alto pra ele, essa história tá muito esquisita cara... Bom, não adianta ficar me matando aqui né? Só vou mesmo saber amanhã de manhã, então a parada é dormir e esperar.- E saiu pra tentar distrair a cabeça com um grupo que jogava cartas nas camas ao lado esquerdo da cela.

A noite chegou e retirou-se para sua rede pendurada embaixo de mais três e em cima de outras duas, o problema de superlotação do Presídio Aníbal Bruno era uma coisa bem evidente e qualquer espaço era um local para redes ou colchões na hora do sono, a cela ficava parecendo uma verdadeira colmeia, montou sua rede como fazia ha seis anos e não acreditava que ia fazer mais uma vez e por uma última vez pôde sentir sua velha rede pois no outro dia não sabia nem onde ia dormir, Joseph não tinha nada, a casa na qual morava alugada quando foi preso não poderia voltar claro e nem tinha parentes e nem patrimônio nenhum a não ser a roupa do corpo do dia em que foi preso que lhe seria devolvida quando saísse.

Mas agora havia poderia haver uma herança, e um parente...

Por mais que tentasse não conseguia dormir, os pensamentos não deixavam, queria logo que amanhecesse para esclarecer aquilo mas os minutos se arrastavam e o sono não chegava.

Sentiu a chuva começar a cair lá fora, adorava quando chovia, lembrava que no orfanato olhava a chuva cair da janela de seu quarto e gostava de como batia no vidro mas agora não eram mais vidros e sim grades.

O que havia feito da sua vida? Um maldito órfão depois menino de rua, trabalhador informal e por último, bandido mal sucedido e presidiário, um currículo terrível e já estava com vinte e cinco anos, na verdade havia feito aniversário um dia antes.

Quando pensava sobre isso só sentia raiva.

Raiva.

Raiva da sua mãe, que nem sabe quem é, mas teve coragem de abandoná-lo, e de seu pai que nem sequer conhecia mas que podia ser qualquer um e das freiras que cuidaram dele, da polícia, das mulheres que amou e das quais não amou.

Mas principalmente:

Raiva porque nunca tinha tido uma chance.

Mas talvez amanhã seja uma chance... Quem sabe... Uma herança...

E assim mal percebeu quando o sono chegou.

Mal sabia ele que a partir daquele dia sua vida nunca mais seria a mesma.

22 de Maio de 2018 às 11:29 1 Denunciar Insira 1
Continua… Novo capítulo Todas as Terças-feiras.

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MM Marcos Miranda
Ótima historia
22 de Maio de 2018 às 07:11
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