Babilônia Seguir história

Yue Yue Chan

Lee, um ambicioso aventureiro, deseja ser mais do que o destino havia traçado para si, e em sua ânsia de prosperar ele encontra, em meio as dunas, uma bela e misteriosa criatura de olhos verdes e cabelos flamejantes que o convida a conhecer a cidade do pecado celestial por um preço sedutor, enlaçando-o de uma maneira que ele jamais sonhou ser possível. Ao aceitar a proposta ele se vê envolto em um mundo pecaminoso do qual não deseja sair. Até o momento em que ele passa a se questionar sobre a verdadeira identidade de Gaara.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#yaoi #naruto #gaalee
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Sleeping with the Devil

Primeiramente quero abraçar todas as minhas amadas arrombadinhas que são meus nenês amados.

 Ofereço essa fic de presente a minha a amada Mandy, nesse seu níver. Parabéns amore!

Só para constar é a minha primeira tentativa e espero ter conseguido honrar o nosso shipp. Amém.

Baseada na música Gates of Babylon do Raibow. Vou deixar o link pra quem curte ouvir a música para entrar no clima. Sugiro que veja a tradução da letra.

https://www.youtube.com/watch?v=MHCdCbTxypU&list=RDhAbWj4JL22c&index=2

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A brisa morna da manhã acariciou a pele morena de Lee, causando-lhe arrepios deliciosos que o despertaram, arrancando-o de seus sonhos mais intensos.

Preguiçosamente ele abriu os olhos e, como de costume, levou alguns minutos para se localizar e compreender onde estava.

Deveria estar fitando o teto mofado e pútrido de alguma pobre estalagem perdida em meio ao nada, porém o que via era o mais belo mármore branco trabalhado a exaustão por algum grande e habilidoso artesão.

Os lençóis não eram de algodão grosseiro, cheio de restos de sementes que incomodavam a pele e causavam extremo desconforto e coceira, mas feitos da mais pura seda, tão macia e alva que era como ter o corpo abraçado por plumas. O tecido fazia carícias, e lhe enchia de sensações prazerosas. Um conforto que até meses atrás acreditava ser inalcançável para alguém como ele que provavelmente morreria miserável como havia nascido.

Porém nada era mais prazeroso do que ter aqueles braços circundando seu torso, em uma carícia ao mesmo tempo cálida e luxuriosa, um contato ao qual havia se afeiçoado ao ponto de necessitar como se fosse algo inerente a sua existência.

Com carinho traçou cada detalhe daquele belo rosto, tão sublime e encantador. A tez macia e pálida incomum ao povo daquela região desértica que havia prosperado junto aos rios Tigre e Eufrates, os lábios carnudos e convidativos os quais não conseguia resistir nem se tentasse com afinco, como se houvesse um encanto sobrenatural naquele belo ser que o embriagava e roubava toda sua capacidade de pensar.

Sim, ser. Não sabia como devia se referir aquela bela e cativante criatura que ressonava tranquilamente em seus braços, exalando um cheiro único e inebriante que o levava a loucura e desarmava todas as suas barreiras. Apesar de se parecer com um humano – extremamente belo e sagaz-, Lee sabia que não era.

Bastava olhar e se perder naqueles belos olhos esverdeados que conseguiam hipnotiza-lo e lançar por terra toda sua capacidade de compreensão e discernimento, deixando-o incapaz de processar o mais simples pensamento, para ter certeza de que havia algo de místico nele.

Fora assim que acabara naquele belo lugar. Naquela cidade proibida de maravilhas incontáveis e exuberantes até onde a vista alcançava. Aquele ser formoso e estonteante o trouxera para aquela terra de prosperidade e perdição, onde os deuses parecem satisfeitos em ver seus adoradores em bacanais, se entregando aos desejos mais lascivos nos mais diversos tipos de uniões impudicas.

Por todos os santos! Ele mesmo sempre fora um homem reservado e otimista, que julgava outrora ser incapaz de se perder em meio a esse mundo de devassidão, estava agora ali, entregue aos prazeres da carne, subjugado pelos doces lábios e macia tez daquela deslumbrante entidade que se escondia sob a aparência de uma pessoa comum.

Quando o encontrou, Lee estava perdido, sem muitas expectativas ou esperanças de se salvar. Havia empreendido uma longa jornada além dos reinos que conhecia, ávido por libertar-se das amarras que o destino parecia querer lhe impor a força, desejoso por uma oportunidade de ser alguém diferente e vitorioso. Tinha arriscado as poucas economias de uma vida em um negócio que parecia próspero, porém se mostrou seu erro e ruína. Seu camelo tinha morrido há poucos dias e a água de seu cantil estava para acabar, restando poucas doses, talvez o suficiente para um dia ou dois se soubesse poupar e administrar com parcimônia.

Exausto, ele já tinha aceitado que a morte o abraçaria, embora dentro de seu coração o desejo de superação e vitória ainda palpitasse indômito. Oh, o que ele não daria por uma segunda chance para prosperar?

O desejo em seu coração era alto e ainda retumbava. De olhos fechados, cansado e perdido ele desejou com a força que lhe restava e o movia, em uma prece poderosa e inquieta permeada de fé em alguma entidade sobrenatural que poderia vir a seu auxílio.

Ao abrir os olhos ele o viu.

O ruivo se erguia sobre as dunas de maneira quase espectral, tão belo, imponente e arrebatador que a princípio, Lee acreditou se tratar de uma miragem, apenas uma peça de sua mente fatigada e entorpecida.

Todavia não pode conter o interesse por aquela bela figura.

Tão místico e surreal.

Cuidadosamente Lee se aproximou sentindo os membros entorpecidos desobedientemente falharem ao comando do cérebro que tentava lhe avisar sobre os perigos que podiam se esconder naquele semblante misterioso e convidativo. Os cabelos vermelhos como o fogo do inferno, em uma tonalidade rubra que nunca havia visto em toda sua vida, os olhos cativantes clamavam sua presença. Bastou um dedo erguido em sua direção para que ele se entregasse e fosse até ele.

Mesmo sem nunca ter sido libertino, ou mesmo tomado a liberdade sem permissão para tal com ninguém, ele o tomou entre os braços, sentindo-se uno, completo com aquele corpo unido ao seu em uma junção perfeita embora parecesse ilógica.

Pela primeira vez ele permitiu que seus instintos mais animalescos viessem à tona. Estava sedento, todavia já não desejava se refrescar com água; apenas o toque daqueles lábios, a carícia daquela língua o levara a loucura e saciava sua sede. Sentiu-se na ânsia de dominar e ao mesmo tempo corresponder ao desejo que via arder naquele olhar indômito e convidativo, sem conseguir se controlar ou pensar no que estava fazendo.

Gaara despertara nele o desejo sem precisar lhe dirigir uma única palavra. Apenas os toques nos lugares certos, as mãos que guiavam sem pudor, a língua que resvalava pela extensão do corpo do outro, enquanto seus olhos fitavam-no sem descanso, sem jamais se desviar por um segundo que fosse, fixos aos dele como se amarassem sua alma.

Ele tremeu ante o contato daqueles dedos, tão absorto as novas sensações que não se deu conta de que já não estavam mais em meio ao calor do deserto, e sim em um suntuoso quarto, refrescante. Ainda atônito, com a mente enevoada pelo desejo ele se permitiu ser conduzido ao alvo aposento de banho cujo aroma de flores imperava.

Naquele momento ele era incapaz de raciocinar sobre o que estava acontecendo. Logo ele, um homem enérgico, porém comedido em seus atos estava aos beijos lascivos com um desconhecido, em meio a um ... quarto?

Foi quando se deu conta do espaço onde estavam e apavorou-se. Como haviam ido parar ali, afinal se não tinham sequer se movido? Estavam em meio as dunas em um segundo, e agora se encontravam e um cômodo ricamente decorado, no qual Lee nunca imaginou que seria capaz de por os pés um dia ou mesmo ver de longe, tamanha opulência que seus detalhes arquitetônicos ostentavam.

O ruivo a sua frente sorriu frente ao seu semblante de dúvida, como se estivesse se divertindo com sua perplexidade, e o mundo pareceu derreter ao seu redor. Os lábios perfeitamente desenhados se curvando e levando consigo a sanidade de Lee quando ele mordeu o inferior levemente em um convite libidinoso.

Onde estamos? Eu... nós estávamos... quem é você?- indagava ainda surpreso, embora sentisse a mente relaxar a cada passo que o outro dava em sua direção como se dele emanasse uma aura tranquilizante.

Enquanto caminhava o ruivo se despia lentamente em um convite claro, deixando que a túnica primeiramente resvalasse por seus ombros, deixando-os a mostram antes de permitir que escorregasse pelo corpo. Os sublimes e convidativos olhos verdes não deixavam aos de Lee, travando uma intensa conexão visual que fazia pequenas ondas de prazer subir por sua espinha.

E isso importa?- a voz saiu rouca, sexy como se o convocasse.

— Eu não te conheço... e...- perdeu a capacidade de falar assim que sentiu a mão dele lhe tocar a face. Tão suave e acolhedora como nunca havia experimentado em sua vida. Normalmente as mulheres com as quais se deitava tinham as mãos calejadas dos trabalhos árduos que realizavam diariamente, diferente daquele belo homem que tinha as mãos delicadas como as de uma pessoa da nobreza.

— Isso importa?- repetiu agora próximo ao ouvido dele, em tom baixo e sedutor, rindo ao sentir ele se retrair com a proximidade, contraindo-se pelo desejo que tentava controlar a todo custo. – Porque apenas não aproveitamos o momento em vez de perdermos tempo com tolas perguntas?- convidou mordendo o lóbulo de sua orelha.

—Eu... nunca me deitei com um homem antes. – Revelou já de olhos fechados, entregue, o corpo pulsando implorando por mais daquele toque. Desejava aquele ruivo como jamais cobiçado nenhuma outra pessoa. Uma fome lasciva e carnal que -surgida sabe-se lá de onde-, varria sua consciência, deixando-o entregue ao seu lado primitivo.

— E não deseja?- provocou mordendo seu pescoço levemente.

Sim ele desejava, ansiava como nunca havia desejado alguém em toda a vida. Percorreu os dedos pelo corpo alvo, se deliciando com a maciez e com os suspiros que o ruivo emitia a cada resvalar, como se fosse sensível ao mínimo contato. Perdia-se no cheiro de almíscar e damasco que se desprendia de sua pele, nos toques devassos que não se importavam de alcançar todos os lugares possíveis, nos beijos demorados e ardentes carregados de volúpia e paixão.

Todavia ele precisava de mais, algo novo, que nunca havia provado, e a medida que suas caricias se tornavam mais exigentes e rudes e ele recebia gemidos luxuriosos de volta, absorvendo a todos com sofreguidão, ele sentia esse desejo crescer ainda mais, preenchendo cada espaço de seu ser. Exigia de maneira cada vez mais urgente e imperativa a língua dele em cada beijo, sugando enroscando-a na própra de maneira sôfrega.

Uma experiência intensa que se repetia todas as noites, e por vezes durante o dia. Não havia hora, lugar ou momento para dar vazão ao desejo que sentiam. Não importavam os detalhes, e sim saciar a necessidade de pertencer um ao outro.

Somente no quinto dia após se conhecerem, depois de compartilhadas muitas horas em intimidade, Lee descobriu enfim o nome do homem que havia roubado sua sanidade, e com quem, a esta altura- de uma maneira que não compreendia- não se importava mais de estar deitando e realizando suas mais pervertidas fantasias sexuais.

Aqueles orbes esverdeados o seduziam e o extasiavam, fazendo promessas eternas nas quais ele cria e atendia prontamente. Lee simplesmente não se cansava de se perder naquele penetrante olhar luxurioso e malicioso, sentindo o corpo vibrar como se a sua alma fosse sugada pouco a pouco toda vez que fitava aqueles olhos. O corpo dele, belo e macio, era uma tentação, até mesmo sob as túnicas. Os toques libidinosos que ele lhe dedicava o deixavam extasiado. Aqueles lábios... poderia se perder neles e não se importar com nada mais, pois a realidade parecia desaparecer quando estava entregue em seus braços, submisso as suas vontades e desejos mais íntimos e luxuriosos.

—Eu acho que você está pronto para conhecer o meu reino.— o ruivo revelou com a voz divertida enquanto ele ainda sentia o corpo trepidar depois de mais um orgasmo, vigiando-o com aqueles brilhantes e convidativos olhos vivazes.

Foi então que ele o levou para o único lugar da terra onde Lee jamais imaginou que pisaria. Em meio a vindoura e prospera civilização mesopotâmica.

Lá estava ele em frente ao Portal de Ishtar, no império de Nabucodonosor II, apreciando a beleza daquele imponente pórtico, atravessando o corredor adornado com azulejos azuis brilhantes, cobertos por dragões dourados e leões em tijolos com vidro que pareciam ganhar vida ao refletir os raios do sol.

Olhava maravilhado para as construções se perdendo em meio ao luxo e a libertinagem que pareciam incrustrados no coração daquela bela cidade. Nenhum dos relatos que havia ouvido, por mais bem elaborados e detalhados que tivessem sido, podiam se comparar com a grandiosidade daquele lugar.

— Eu posso te levar aonde quiser, lhe transformar em quem você quiser, Lee.— o ruivo ofertou com um sorriso charmoso após ouvir a confissão tímida do moreno que lhe revelou todos suas ambições.

Ele o olhou e se perdeu novamente naquele aroma de damasco e almíscar que se desprendia do ruivo, um cheiro que lhe tirava a sanidade e o desorientava. Os orbes verdes pareceram brilhar com a sabedoria e o poder de milhares anos, sem jamais perder a tenacidade.

Você é um jovem obstinado e pode ter o que desejar, basta me aceitar.

Nem mesmo a beleza e imponência dos Jardins Suspensos da Babilônia, tão belos e majestosos eram capazes de desviar a atenção de Lee daqueles olhos. Por todos os deuses, ele não fazia ideia do que estava se tornando, ou se estava sendo ludibriado, e não se importava pois toda vez que se perdiam em meio aos lençóis, sempre que ouvia os gemidos roucos recheados de prazer dele se misturando aos seus urros selvagens já não era mais o mesmo e nem se importava em compreender.

Ele ascendeu, prosperou como comerciante e agora vivia em meio ao luxo, enriquecendo cada dia mais, sob a tutela de seu amante. Não tinha necessidade de se deitar com mais ninguém, tampouco sentia vontade de fazê-lo, mesmo que por vezes se envolvesse em orgias a pedido de Gaara que parecia possuir a necessidade pungente de estar em meio a devassidão – embora ele também sempre o escolhesse como parceiro único- e por quem se desmanchava de amores.

Por ele seria capaz de se perder sem se importar com as consequências só para poder sentir sua a pele, cheiro e toque.

Naquela manhã, porém foi atingido por uma epifania enquanto seus olhos vagueavam a esmo e encarava, através da janela, o Zigurate de Etemenanqui, dedicado ao deus Marduque, e as enormes e belas muralhas da Babilônia que circundavam a cidade que aprendera a amar.

Quem era Gaara. Mais precisamente, o que ele era?

— Isso importa?- o ruivo perguntou abraçando-o pelas costas como se lesse seus pensamentos, algo comum e rotineiro, o qual o moreno jamais tinha se atentado antes.

Porém dessa vez ele percebeu e a constatação desse estranho fenômeno o deixou aturdido e incomodado.

— Como posso continuar me deitando se não conheço a identidade de quem divide o leito comigo?

—Ora, tolinho, já lhe disse meu nome. – riu, e Lee sorriu em concordância por um segundo pego na mesma armadilha de encantamento que aquele sorriso lhe prendia. Mas dessa vez ele se controlou, precisava saber. Há tempos essa pergunta tentava tomar a frente de seus pensamentos, mas sempre era ofuscada e esquecida quando Gaara lhe tocava, como se o fizesse de proposito para desviar-lhe a atenção.

— Não é a seu nome que estou me referindo. - usando todo o autocontrole que conseguia ele soltou os braços que envolvia seu dorso amaldiçoando mentalmente a falta do calor do ruivo, e o encarou nos olhos lutando para não se perder no encanto deles. – Quem de fato é você?

O sorriso de Gaara pareceu ampliar ante a dúvida dele, porém agora era mais misterioso.

— Cuidado com o que deseja, querido. Não vai querer saber.—Balançou negativamente a cabeça como em uma repreensão embora mantivesse o mesmo bom humor – Algumas verdades devem ser mantidas em segredo, pelo bem de todos.

Não havia dúvidas do que ele era. Mesmo que não admitisse, ou tentasse ludibria-lo com falsas palavras ou toques, Lee sabia qual sua verdadeira face, e que sua existência, por si só, já lhe era uma ameaça constante.

Eu sei o que está pensando, querido, e lhe rogo para que pare de se preocupar.— Lee virou o rosto encabulado por ter sido pego em seus pensamentos e se perdeu mais uma vez ao sentir a palma da mão do ruivo lhe segurar pelo queixo. – Se fizer isso que está tramando, não será bem recompensado. Pode se arrepender amargamente.

Mesmo ante o aviso ele partiu. Não havia porque manter relações com uma criatura como Gaara. Ele não era humano e o tinha prendido em uma teia de mentiras, pois era sua especialidade.

Afinal, quem melhor para convencer os outros de algo do que o pai das mentiras?

Porém suas falácias não mais o convenceriam.

Aguardou que o ruivo se ausentasse em um de seus muitos desaparecimentos repentinos e partiu, atravessando o suntuoso pórtico da Babilônia enquanto levava consigo apenas o essencial, disposto a se afastar daquela entidade maligna que o fazia se perder em desejos devassos.

Todavia, por mais que se distanciasse, sentia algo em seu interior clamar pela presença do outro, um sentimento que buscou silenciar a força, mesmo que fizesse seu coração arder. Estar com Gaara era um mistério perigoso do qual deveria manter distância antes de se perder por completo em um abismo no qual não poderia se libertar. Amava-o como nunca amou a ninguém, mas temia sua essência e propósitos. Como saber se ele o amava? A resposta parecia bem clara agora que estava longe daquele olhar e cheiro que lhe adormeciam a mente eo impediam de pensar.

O diabo não ama a ninguém a não ser a si mesmo.

Mas e todos os beijos, carícias e palavras de amor? Será que realmente não significavam nada para ele?

Lee se sentiu estupido por considerar algo assim. Como podia uma entidade maligna, cujo único proposito é arrastar almas desesperadas ao inferno amar alguém? Era totalmente irracional. Um pensamento tolo de um humano que ousou se apaixonar por uma criatura egoísta.

Era um fato, uma verdade que o magoava profundamente.

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Quando retornou ao quarto que ambos dividiam, Gaara se deu conta de que ele realmente havia partido como havia planejado.

Suspirou pesadamente enquanto ajeitava o terno manchado de sangue que, com um estalar de dedos, o trocou pela túnica de seda alva. Não seria a primeira vez que isso acontecia, e ele realmente não se importava com a fuga de seus humanos depois que o contrato já havia sido finalizado. Normalmente quando isso acontecia, dependendo do nível de empenho que ele tinha dedicado a colher aquela alma, o ruivo apenas partia para a próxima presa que o aguardava nas diversas camadas de tempo.

Todavia dessa vez se sentia incomodado com a falta que aquele mortal lhe fazia. Sentia-se estranhamente solitário.

Podia agora se aventurar a encontrar algum novo candidato a perdição na Idade das Trevas, quem sabe. Sempre haviam almas disposta a se dobrarem aos seus desejos naquela época, suscetíveis a qualquer acordo.

No entanto ele amava aquela época, a sua cidade e reino que havia construído com tanto carinho, e agora também havia se afeiçoado aquele mortal de uma maneira que nunca lhe acontecera antes.

Lee era realmente diferente, cativante e sedutor. Mesmo tendo estado nos braços de muitos homens e tomado muitas mulheres para cumprir com seu destino amaldiçoado – uma tarefa a qual se dedicava com prazer-, Gaara dessa vez se via ligado de uma maneira quase arrebatadora e inédita a uma simples criatura. Adorava se perder nos braços fortes dele, a paixão que vibrava em seu olhar.

Aquele humano era o puro fogo da juventude e o ruivo desejou mantê-lo jovem para sempre, para que nunca perdesse aquele aconchegante colo o qual aprendera a amar.

Amar... Estaria ele louco? Será que realmente o que sentia era... amor?

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Jogado sobre o lombo de um camelo, amordaçado, fraco e dominado, Lee agora era levado em uma caravana para ser vendido como escravo. A boca seca implorava por um gole de água, o corpo quente e febril pedia pelo contato carinhoso que havia abandonado dentro dos portões da Babilônia.

O sol queimava impetuoso e ele sentiu a consciência vagar novamente para longe de seu corpo. A insolação o fragilizava mais do que os diversos ferimentos. Ele era um bom lutador, mas não pode contra uma horda de bandidos desgarrados que coletavam almas perdidas como ele para vender por uma miséria nas cidades adjacentes a Babilônia. Sorriu com a ideia irônica de que talvez voltasse aos braços de seu amado como um escravo, dessa vez literalmente cativo de seus desejos e caprichos.

Não importava. Nada mais importava. Nem o sol escaldante, ou a dor que sentia em seus membros dormentes por estarem a horas na mesma posição, ou os possíveis ossos fraturados. Em verdade já não se preocupava mais com aquele involucro de carne, desejando apenas acabar com aquele martírio que era viver sem pertencer ao homem que amava.

Nem mesmo aquele som de sabres se chocando importava.

O tilintar de metais encheu seus ouvidos, embora chegasse abafado junto as vozes exaltadas e gritos desconexos. Ele sentia a mente vaguear perdida, sem conseguir se ater a nenhum detalhe. Era algo incomum para uma pessoa como ele, sempre tão vivaz ter perdido a liberdade e a vontade de lutar. Seria cômico se não fosse trágico.

Na borda de sua consciência ele sentiu o corpo ser içado com delicadeza por braços firmes, sorrindo ao reconhecer o aroma de macadâmia e almíscar e o toque macio que envolveu seu rosto delicadamente, como se temesse que ele fosse quebrar ao mínimo toque. Antes de se perder em meio a escuridão, ao entreabrir os olhos valendo-se de muito esforço, ele vislumbrou suas belas e amadas pedras jades brilhando em sua direção enquanto os lábios de seu salvador se moviam proferindo doces palavras que ele não conseguia compreender.

Tudo havia acontecido a milhares de anos, em um passado longínquo. A bela cidade da Babilônia, monumental e esplendorosa havia ruído e jazia esquecida nas areias do tempo. Lembrar disso lhe trazia nostalgia e tristeza. Há quantos anos isso eles se conheciam mesmo?

—E isso importa?- novamente a mesma pergunta que ele ouvia a milênios. Gaara ainda conservava a beleza do primeiro dia em que se conheceram e se entregaram ao desejo sem nem mesmo trocar uma única palavra. Agora ele sabia que tinha sido uma artimanha dele para lhe conquistar, isso é claro, antes dele mesmo ser conquistado.

Lee sorriu com o pensamento de que havia ludibriado o próprio diabo, encarando-o enquanto acendia mais um charuto sob o olhar atento do ruivo.

—Não.— respondeu simplesmente encarando os olhos verdes que lhe tragavam a sanidade. Bateu na perna convidando o ruivo a sentar e acariciou seu rosto. – As vezes sinto saudades daquele tempo, quando os homens eram mais suscetíveis e fáceis de serem enganados, e eu tinha mais tempo disponível para me perder em lençóis de seda com você enquanto escutava o barulho dos comerciantes ao invés deste detestável som de motores.

Ora, meu amor, diferente de nós o tempo muda e as pessoas também. Não há porque se lamentar pelo que já não existe mais. – Consolou-o com um beijo- Sabe bem que os humanos são desse jeito, falhos e corruptíveis por natureza. Por isso seus impérios sempre ruem.

—Você diz isso porque pode visitar a Babilônia quando desejar por ser um demônio completo.

Gaara se ajeitou no colo dele, ladeando-o com as pernas e se dedicou a distribuir carícias em seu pescoço e orelha, traçando uma trilha enquanto alternava entre beijos e mordidas leves arrancando suspiros de seu amante.

Após salvá-lo da caravana, o moreno o aceitara de corpo e alma, e como recompensa, - e por egoísmo de não querer perder Lee para a morte- Gaara o transformara em um meio demônio, não poderoso como ele que podia atravessar eras e estar em vários lugares ao mesmo tempo, mas o suficiente para que ele conservasse a juventude e deixasse de ser um frágil mortal.

Se deseja sentir a Babilônia novamente. – disse entre afagos com a voz ruidosa e sexy- Eu posso trazê-la até você.

Com um estalar de dedos, o quarto luxuoso onde estavam hospedados se transformou. Os aparelhos tecnológicos deram lugar aos ornamentos antigos, com véus e tecidos da época. Lee sentiu o coração aquecer, imerso em lembranças. Já não trajava o terno, e sim as vestimentas da época. O alarido dos comerciantes encheu seus ouvidos mais uma vez.

Junto a Gaara ele tinha visto o nascimento, apogeu e queda das grandes civilizações humanas, experimentado todas as épocas, lugares, alimentos e climas, mas nada se comparava aquela época. Era como reviver a melhor fase de sua vida. Mesmo ciente de que aquilo não passava de uma ilusão criada pelos poderes do ruivo ele não se importou.

— Então, satisfeito? – um sorriso sapeca brincava nos lábios sedutores de Gaara e ele só pensava em como queria prova-los novamente como fazia todos os dias há mais de quatro mil anos sem se cansar ou saciar por completo.

Beijou-o com paixão, mordendo o lábio inferior de maneira provocativa do que jeito que o ruivo gostava.

— Não poderia estar mais satisfeito.— respondeu carinhosamente contornando sua boca com o dedo carinhosamente. - Podem se passar mais mil anos e eu nunca vou cansar de me encantar com você.

O diabo sou eu
E eu estou segurando a chave
Para os portões do doce inferno
Babilônia”

(Gates of Babylon- Raibow)


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17 de Maio de 2018 às 00:24 3 Denunciar Insira 6
Fim

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Políbio Manieri Políbio Manieri
Puta que pariu caralho aylla do céu... que viagem foi essa que eu acabei de fazer??? Eu to encantada! Verdadeiramente encantada! Cada descrição, cada ato, cada jogo de palavras cuidadosamente selecionado... eu senti como se estivesse eu diante dos luxuosos e libertinos portões da babilônia. Eu to bastante impressionada mesmo! Tanto com a riqueza dos detalhes quanto à atenção dada narrativa, tudo feito com um cuidado notável onde a gente não precisa se perguntar a respeito de nada, só aceitar e sentir. To muito extasiada, amiga! Mano do céu que fic foi essa....
18 de Maio de 2018 às 19:11
Inial Lekim Inial Lekim
AI MEU DEUS DO CÉU, OLHA QUE TIRO ESSA FIC! COMO VOCÊ TEM CORAGEM DE USAR UM PUTA PLOT DESSE PRA UMA ONE DONA AYLLA?? COMO EU VOU VIVER AGORA SEM NENHUMA CONTINUAÇÃO?? AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA EU NÃO SEI FALAR DE OUTRA FORMA SENÃO NO GRITO, PORQUE FOI MUITA PERFEIÇÃO EM UMA HISTÓRIA SÓ! TÔ ME SENTINDO JOGADA NO CHÃO DEPOIS DE LER ISSO <3
18 de Maio de 2018 às 19:07
Hasashi Rafaela Hasashi Rafaela
E VOCÊ TEM A AUDÁCIA DE ME FALAR QUE NÃO CONSEGUE FAZER UNS ROMANCE? EU VOU DAR NA SUA CARA! Eu to tão em choque, tão maravilhada que não sei descrever o quanto gostei dessa história, puta que me pariu, Aylla! Caralho, que hino. As questões do tempo, o Gaara como demônio, a parte poética deles dois...CACETE, EU TO CHOCADA DEMAIS. Parabéns por esse hino, meu amor. te amo
18 de Maio de 2018 às 19:05
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