Ela & Ele Seguir história

sweet-mary Mary

"Ver a esperança escorrer das mãos junto com o tempo é mais cruel do que aquela ventania que anunciou a tempestade que agora dá espaço para uma chuva mais calma que colocou a temperatura a patamares mais aceitáveis."


Conto Todo o público.

#romance #tristeza #crônica #drama #conto #amor-impossível
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Capítulo único

Os dedos seguram a xícara branca de porcelana, a essa altura da narrativa o café deve estar frio, inconcebível de beber, mas ela está sentada numa banqueta de couro olhando para a vidraçaria, sabendo que não poderá permanecer ali até decidir o que fazer, embora não fazer nada também já se mostre uma escolha, uma reação adversa ao torpor.

Fim de tarde. Chove forte lá fora. É possível ver as pessoas se protegendo da chuva de verão da maneira que podem, cobrindo a cabeça com o casaco, armando o guarda-chuva, correndo e se molhando, outros se refugiando debaixo de toldos, espremidos no formigueiro humano que é a cidade no horário de rush. Buzinas impacientes apertadas por motoristas que perderam a calma e querem apressados fugir da atmosfera estressante com hora marcada para começar, por tantos anos quanto possível.

Ela já pagou pelo café. O mousse de chocolate estava no ponto, mas amargo no paladar. Olha para a tela do smartphone, não há nenhuma notificação recente. Relê aquela mensagem que colocou fim ao silêncio, que respondeu sem revisar as palavras, escrevendo tudo de que se lembrou, sem rebater com mágoas ou porquês, foi pela primeira vez ela mesma, e embora a tenham aconselhado a jamais dizer que se ama, não se importou em ser julgada, ponderou razão e emoção, o acordo foi unânime, cumprido sem ressalvas.

Ela lê à procura de uma entrelinha que sirva de cipó emocional. Não num mau sentido. Ver a esperança escorrer das mãos junto com o tempo é mais cruel do que aquela ventania que anunciou a tempestade que agora dá espaço para uma chuva mais calma que colocou a temperatura a patamares mais aceitáveis. Poderia falar do tempo com algum garçom, puxar conversa com algum estranho, escrever uma carta aberta e enviar “por engano”.

Sair de casa deveria servir para não levar a dor na bolsa, pelo menos em tese, aquietar os ímpetos de escrever uns versos bobos, abraçar o fim sem se debruçar nele. Ninguém pode puni-la por não querer acreditar em outro amor. Tendo fim ou não, uma marca ficou, uma pequena cicatriz que serve como o hieróglifo de uma época em que ainda era menina por dentro. Ainda é. Mas só quando ninguém pode ver. Porque seu melhor amigo é também sinônimo de problema. O dom.

Ela deixa a xícara na mesa e ajeita a bolsa que estava no colo, levantando-se como se fosse incapaz de sustentar o peso do corpo, não tão frágil e desnorteada para estar catatônica, todavia muito longe de ostentar um contagiante vigor, guiando mecanicamente cada passo, cuidando-se sem se cuidar de verdade, apenas sobrevivendo.

Como gostaria de voltar para casa e não precisar fazer força para sufocar as lágrimas, não abraçar o travesseiro e afundar o rosto nele até abafar os protestos. Prometeu a ele com um sorriso que a vida prosseguia, se o destino não os reuniu para aquele amor predestinado a juntar dois em um. Ter aquele amor faria a diferença, porém dessa vez foi um adeus, e ainda pode ser cedo para dizer se de fato suas suspeitas se confirmaram ou se o tempo ainda precisa fazer alguns ajustes nos escritos vitais.

De qualquer forma, heroico seria não chorar, declarando que a indiferença é a mestre de cerimônias e cumpre bem o papel de interceptar a coragem e trocar pelo orgulho que foi o culpado por tudo que se passou, porque ambos em dimensões diferentes foram afetados pelas palavras.

Ela veste um pijama, se deita na cama e faz de conta que teve um dia ótimo. Quando a porta do quarto se fecha e os fones de ouvido servem de refúgio à insanidade do mundo, ela pode enfim lidar com a sua própria, tendo todo o tempo do mundo para gastar do modo que melhor puder, e em contrapartida ser uma perspectiva desoladora pensar num futuro onde as coisas a princípio não fazem sentido, sobretudo porque quem deveria estar nele faz parte do que não é presente e nem passado, apenas um intervalo entre uma estação e outra.

Escrever para ele é um desafio maior do que qualquer redação valendo mil pontos. Tocar aquele coração requer mais do que a aplicação crua da norma culta, mas uma especialização em empatia, porque embora se tenha a intenção clara do que almeja dizer, nem sempre a expressão é compreendida na mesma proporção, tudo porque eles são diferentes, ainda que experimentem sentimentos que os igualam, podem interpretar uma palavra de mil jeitos.

Ela tem curiosidade de saber se ele está tranquilo, se dormiu sem se atormentar com dúvidas e problemas, se por um pedacinho de tempo pensou nela, se vai procura-la algum dia em sigilo, se o coração ainda acelera e escolher o certo lhe trouxe a paz que tanto a desejou. Ele parecia tão consciente da realidade, de si mesmo, da verdade, tão diferente dela que mesmo transparecendo tudo isso, está em pedaços por dentro, mas amanhã precisa se apresentar em público com um sorriso que não é verdadeiro.

Apesar de o destino ser um rio que corre sem falhas, eles não são donos do amanhã, apenas estão aprisionados por uma sociedade que mais uma vez separou dois grandes amigos por conta de conveniências estúpidas, se no fim das contas nunca vai conseguir apagar a chama que vai reacender aquela marca sempre e sempre, porque quem uma vez amou nunca vai poder desamar...

12 de Maio de 2018 às 20:17 0 Denunciar Insira 0
Fim

Conheça o autor

Mary Curitibana, futura jornalista, escritora em constante progresso, escorpiana com ascendente e lua em peixes. Apaixonada por todas as singelezas da natureza, onde se encontra o olhar compassivo de Deus. Em matéria de livros, filmes e músicas, minha lista tende a crescer, mas sempre há aqueles que têm um espacinho especial no meu coração. Prazer, eu sou a Mary.

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