Quando o sol se puser Seguir história

C
C Clark Carbonera


Em certo dia, no Vale do Ribeirão, o Sol se recusou a levantar.


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Capítulo único


Esse conto é para minha avó que na vida

me ensinou a ver e a viver a simplicidade dela.



Em certo dia, no Vale do Ribeirão, o Sol se recusou a levantar.


Clarice acordou e, devido à escuridão, achou ainda ser noite.

Ela se levantou com certa dificuldade, pegou a pequena lanterna que repousava na cômoda ao lado e foi ao banheiro, guiada pelo feixe de luz branca. Abriu a porta e acendeu a luz.

Após o uso, acendeu a lanterna novamente e apagou a luz do banheiro para a claridade não atrapalhar o sono do marido.

O feixe de luz a levou até a sacada do quarto. Afastando a cortina, espiou lá fora.

Apenas escuridão e algumas estrelas pontilhadas; uma parca claridade podia ser vista a noroeste, onde se avizinhava Bonfim, a cidadela próxima.

Clarice ficou pouco enervada, pois sentia que o sono agora se afastara. Voltou com cuidado para não tropeçar no tapete e jogou a luz da lanterna no relógio, que indicava 7:20 da manhã.

Em primeiro momento, pensou estar o relógio com bateria fraca, entretanto o ponteiro continuava firme e inabalável, tal como o tempo devia ser.

Colocando o relógio no pulso, se dirigiu ao armário de roupas a fim de pegar uma muda, se trocar e fazer o café da manhã.

A casa estava silenciosa como se fosse madrugada. Clarice mirou a porta ao lado, onde dormia Miranda, sua neta e afilhada. Ponderando sobre o que colocaria na mesa do café. Ela desceu as escadas e foi até a cozinha.

Acendeu as luzes, bebeu um copo d’água. Esquentou leite na leiteira, tirou três pães dormidos de dentro da cesta e postou na mesa algumas frutas frescas que tinha comprado na feira do dia anterior.

Como não lhe agradava comer sozinha, tomou apenas meio copo de leite puro e percorreu a casa noturna.

Tudo aquilo era muito curioso, mesmo os relógios da casa mostrando ser quase oito da manhã, o céu de fora era tão negro como a noite mais escura...

Na varanda da sala de estar, Clarice ouviu uma porta se abrir e o barulho de chinelos batendo abafados no chão. Seu Romeu tinha acordado.

– Mas que é isso, Clarice? Acordo achando ser dia, mas é noite! – ele bate as mãos no quadril inconformado.

– Pois é, Aderbal, também estranhei quando acordei e vi tudo escuro... Achei que era meio da noite, mas todos os relógios dizem o contrário.

– É, mas e agora? – insistiu o marido ainda inconformado.

– Ora, agora a gente vai tomar o café da manhã, Aderbal, que outra coisa há de fazer? Se não comermos nada agora, daqui algumas horas vamos sentir o estômago fundo, pedindo comida. Aí não há quem aguente!

Clarice foi para cozinha, seguida por Aderbal que permanecia amuado pelo dia não ter começado como normalmente.

Em poucos minutos, os dois ouviram Miranda descer pelas escadas, impressionada com a escuridão de fora.

Os avós explicaram que o Sol ainda não tinha nascido.

– Uh, isso explica porque não acordei com o galo do seu Florentino... – enchendo a xícara com leite quente e café, Miranda continuou – Como será que está a vizinhança num dia desses?

O avô, debruçado no prato cheio de caqui, meneou a cabeça. Clarice, como de costume, chamou a neta para a simplicidade da situação.

– Ora, ela está como sempre esteve. Não é porque o Sol não está alto que a vida para. As galinhas ainda botam ovos, as vacas ainda dão leite e os bois ainda dão carne...


Sete dias se passaram e o Sol permanecia sem os radiantes raios.

Clarice, Aderbal e Miranda tentavam viver os dias como de costume.

Clarice percorria a casa todos os dias, como que encantada por reconhecer lugares que havia muito não notava em seu lar: uma cômoda antiga, cujas gavetas continham cartas de amigos e familiares; um banquinho de plástico que a neta usava quando pequenina; um estojo de madeira que guardava lápis coloridos; todos resquícios de várias vidas.

Miranda, algumas vezes, acompanhava a avó nessas andanças, mas seu coração ficava aflito ao pensar num futuro sem luz.

E Aderbal, cansado de acender as luzes da casa a toda hora e reclamar pelos cantos como é que faria para pagar as contas se as coisas continuassem dessa forma, deixou-lhe a placidez alcançar e ele se redimia relendo os jornais velhos que se encontravam num banquinho de madeira na sala de estar.

Todavia, nesse dia, a pedido do avô, Miranda pegou sua bicicleta e foi ter com seu Florentino e dona Henriqueta.

Passando pela trilha de terra batida, iluminada parcamente pela lanterna da bicicleta, e pelos pequenos morros, Miranda dividia a mente aturdida com os vira-latas que corriam atrás dela pelo caminho. Como não lhes desse deveras atenção, os cães desistiram de segui-la.

Ela ingressou na casa do seu Florentino e dona Henriqueta e mais tarde, resolveu por dar um pulo na de dona Carmen e seu Francisco, embora nenhum deles soubesse explicar o que estava acontecendo.

As galinhas do velho Chico continuavam a dar seus ovos e o gado da dona Henriqueta permanecia a pastar e vagar pelos morros noturnos. Os dois vizinhos não se preocupavam mais do que deviam, lhe disseram.

E Miranda retornou para a casa dos avós ainda mais aturdida com a cabeça daqueles velhos. Talvez a simplicidade da vida os tenha atingido tão fortemente que agora suas cabeças guardassem apenas pensamentos simples e pouco complexos, sendo incapazes de pensar além do necessário...

Chegando em casa dos avós, Miranda explicou sua frustração para a avó, ao Clarice notar a expressão desolada e magoada da neta. Ela amparou Miranda pelos ombros magros até a cozinha.

A moça, com os olhos cheios d’água, fitava a xícara cheia de chá de hortelã.

– Oh, vó... Mas isso não pode estar acontecendo! Como pôde o Sol se esquecer de nós? Como seguiremos uma vida de escuridão, se nem as corujas vivem apenas da noite!?

Clarice, com olhos opacos e desgastados pela idade, porém iluminados por uma força que nossa ciência ainda não consegue desvendar, respondeu.

– Aqui dentro, minha neta e afilhada – ela apontou para o peito –, eu tenho sinceras esperanças de que um dia o Sol nos apareça novamente.

Ela se levantou da cadeira de madeira rústica e foi até a pia, olhar com os mesmos olhos o mundo encoberto por forças estranhas e obscuras.

– Talvez – continuou a avó – como o amante que se recusa a levantar da cama devido a um amor frustrado, o Sol também esteja enamorado.


10 de Maio de 2018 às 01:21 2 Denunciar Insira 1
Fim

Conheça o autor

C Clark Carbonera “A utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar.”

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mah hendler mah hendler
não tenho palavras que expressam o quanto essa obra vale para mim, e olha que conheço essa beleza há menos de dez minutos. encontro-me numa fase complicada, e parece que ninguém entende-me mas de certa forma, essa estória diz o que eu quis ouvir. com a escrita perfeita, sem falhas aparentes, ela conta de um tema que pode ser interpretado de várias formas, decerto, essa é uma das mais bonitas que já li. parabéns, continue a escrever, moça. admiro suas obras.
13 de Maio de 2018 às 16:43

  • C C C Clark Carbonera
    Uau, @mah hendler, seu comentário é lindo e carinhoso! Muito muito obrigado, adorei lê-lo! Sei como às vezes a vida nos dá uma voadora na nuca e as pessoas ao nosso redor esperam que nos levantemos rápido. Mas a vida tem um ritmo próprio, assim como cada um de nós (temos que aprender a dançar nos conformes da nossa própria música, mas para isso, é necessário tempo para refletirmos sobre quem nós somos de fato). Quando conseguimos, é tocar o barco com um sorriso no rosto e no coração, sempre! Essa semana, espero publicar um outro conto chamado "Diga a todos que parti", vários leitores de outra plataforma se identificaram muito com esse conto e espero que outros também se identifiquem, pois o escrevi num momento muito cru de minha vida também :) Muito obrigado, hoje e sempre, e abraços o/ 14 de Maio de 2018 às 10:18
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