amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

O que você faria se uma fome sem precedentes passasse a te dominar, fazendo-o comer desmedidamente e, durante a hora morta, ser atacado por uma mulher horrenda disposta à tudo para saciar sua própria fome? Essa capa foi presente de um grande amigo Giovanni Turim, autor da Inkespired. Mto obrigada. Amei, demais!


#15 em Fantasia Para maiores de 18 apenas.

#terror #folclore #horror #pisadeira #paralisiadosono
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Fome Maldita

Encontrava-me entre o sono e a vigília, por estar sentindo uma pressão horrenda nas costelas e no peito. Despertei, tentando puxar o ar que teimava em faltar. Abri os olhos e lá estava ela sobre meu peito. Uma velha, de pernas curtas, porém fortes, apertando-me as costelas com um prazer desvairado.

Arregalar os olhos, sentindo o horror invadir meu ser, era tudo o que conseguia fazer. Estava totalmente paralisada, encarando aquele olhar enfastiado da velha e, ao mesmo tempo, curioso. Seu nariz torto, pontudo e afiado, parecia um bico de pássaro quando ela virava a cabeça perscrutando meu rosto. Sua face era enrugada e os cabelos brancos, em desalinho, escondiam-se sob um chapéu preto engraçado. Era medonha.

Tentei gritar, respirar, mexer os braços e pernas, mas nada. Não conseguia me mexer. O relógio em cima da televisão, em frente à cama, marcava os números na luz azul: 03h31min. Ela apertou mais as costelas e o sorriso desdentado na boca chupada, fazia-a parecer uma bruxa dos desenhos animados. Senti uma lágrima de medo e dor correr dos olhos. Às 03h32min ela se foi.

O ar saiu num jato de minha garganta, num assobio agudo. Saltei da cama, sentindo o coração estourar no peito. Essa foi a primeira vez que a vi. Não contei a ninguém. Pensei ter sido um sonho daqueles que parecem reais. Naquela noite não dormi mais. Liguei a TV, fui à cozinha, fiz um lanche com tudo que encontrei na geladeira e assisti a um filme até o dia raiar.

A segunda vez que ela apareceu foi um pouco pior. Demorou mais tempo. Três minutos. A mesma coisa se deu, entretanto, no dia seguinte, acordei com um roxo enorme na costela do lado direito, onde sua perna torta havia apertado com um pouco mais de intensidade. Percebi o prazer que ela trazia nos olhos negros e fundos quando, pela primeira vez, consegui abrir um pouquinho a boca em protesto. Ela parecia se divertir.

Ao longo do dia comecei a ficar ansiosa, com medo da velha. Passei a sentir uma fome medonha. Começou lentamente. Um pão francês no café da manhã, já não bastava. Tentei me controlar. Manter o peso sempre foi uma questão importante para mim. Não queria de forma alguma deixar de entrar em minhas roupas preferidas.

Passei a dois pães, porém, cortei a manteiga. No meio da manhã, frutas. Muitas frutas. Entretanto o problema com elas é que parecem simplesmente limpar o estômago ao invés de saciá-lo, abrindo espaço para a fome. Chegava a olhar o relógio a todo o momento, esperando pelo horário do almoço. Deixava o trabalho quase passando mal de tanta fome. Corria ao restaurante e me esbaldava na pista de comida. Minha amiga Ceci me encarava abismada, já que sempre almoçávamos juntas e eu nunca comera daquele jeito. Sentia como se um bicho feroz estivesse dentro de mim, necessitando cada vez mais de comida.

De início Ceci apenas me observava calada, de cenho franzido, mas com o tempo passou a me questionar, e eu sem saber lhe explicar o que acontecia comigo. E posso dizer que à noite a coisa ficava pior. Jantava às dezenove horas e antes de cair de sono, fazia um lanchinho básico com presunto, mozzarella, cheddar, ovo, salsicha, resto de macarrão do jantar, mostarda, catchup, maionese e tudo que visse pela frente.

Seguia para o quarto. Deixava a luz acesa com medo de dormir e a velha aparecer. Mesmo assim ela vinha. Passou a se servir de mim. 03h30min. Abri os olhos, sentindo o conhecido peso sobre mim. O aperto estava ficando cada vez mais forte. Aos poucos fui percebendo sua necessidade, e abrindo a boca cada vez mais quando isso acontecia, observando seu rosto passar de enfastiado para contagiante.

Às 03h33min o aperto foi tão forte, a imobilização do corpo tão plena, que pensei que morreria ali, sem poder fazer absolutamente nada. Minha boca se abriu num “óh” mudo de dor e ela aproximou a sua boca banguela, bem perto da minha. Senti o estômago cheio se revirar diante do cheiro mefítico que saía da boca da velha. Ela gargalhou, vendo o medo e o nojo em meus olhos. Então algo aconteceu. Ela apertou um pouco mais minhas costelas e senti um tranco no estômago. Um jato de comida macerada saiu de mim, alimentando a velha. Seus olhos eram de puro prazer. Às 03h35min ela se foi e eu me senti vazia e horrorizada.

Passei a me comportar como um zumbi no trabalho até que não pude mais esconder de Ceci o que estava acontecendo. De início foi difícil pôr para fora todo o terror que sentia. Entre lágrimas falei da velha e do que ela fazia comigo, sempre no mesmo horário. Para meu espanto minha amiga não disse nada. Em nenhum momento sugeriu que eu estivesse sonhando ou, mesmo, ficando louca. Ao contrário. Seus olhos estavam sérios e pareciam tão amedrontados quanto os meus, enquanto ouvia meu angustiante relato.

— Você tem ideia do que está acontecendo comigo, Ceci? — indaguei a ela, que me encarava, pensativa.

— Existe uma lenda em minha cidade, Tânia.

— Uma lenda? Do que você está falando? — insisti, sentindo o coração acelerar.

— Você está sendo atacada pela Pisadeira. A velha que se alimenta das coisas que você come antes de dormir. Você precisa parar de comer à noite.

— Mas eu sinto fome, Ceci. É algo que não consigo controlar. Meu estômago dói.

— É ela usando você, amiga. Precisa parar de comer, senão...

— O que vai acontecer?

— Você não percebe que, pelo tanto que está comendo, não está engordando? Pelo contrário, está emagrecendo. E pensar que cheguei a sentir inveja de você. Por Deus! Eu devia ter desconfiado. Você tem que se controlar. Não pode mais alimentá-la.

— Não tem outro jeito de impedi-la?

— Não sei. Tenho que perguntar para alguém da minha cidade. Vou para lá esse fim de semana. Se descobrir algo, te aviso. Você tem que me prometer, Tânia, que vai se controlar. Tem que parar de comer tanto, principalmente à noite.

— Vou tentar, amiga. Prometo que vou tentar.

Minha promessa foi em vão. Não consegui me conter. Não era uma fome normal a que sentia. Era uma fome com dor. Uma dor que só passava quando o alimento atingia o estômago. Uma noite tentei não comer antes de dormir. Tive sonhos horríveis. Entreguei-me à fome e me esbaldei comendo todas as bolachas que havia no armário da cozinha. Dormi feito um anjo até a hora de ela chegar.

Foi horrível. Ela gorgolejava, em regozijo, enquanto se alimentava de mim. Seu cheiro era putrefato. Engasgava-me. Pensei que aquela seria minha última noite na terra. Mas não. Ela não me mataria. Precisava de mim. Estava cativa sob seu peso, seu nariz bicudo e seu chapéu negro, engraçado.

Cecília voltou de viagem e foi minha salvação, embora o esforço para me livrar da bruxa quase custou minha vida. Ela me disse o que teria que fazer. Às vinte e três horas fui à cozinha. Fiz o maior lanche que consegui. Sentei no quarto, liguei a TV e comi tudo, enquanto focava no filme à minha frente. O sono chegou à uma hora da manhã. Às 03h30min ela surgiu empoleirada em mim. Observou meus olhos com um prazer indescritível na face enrugada. Pela primeira vez eu a encarei com ódio. Senti sua pupila estremecer ao mesmo tempo em que eu tentava mexer os dedos da mão. Ela pareceu ficar curiosa, como a se perguntar o que estaria acontecendo.

Apertou minhas costelas com tal força que pensei que dessa vez iria quebrá-las. Acho que sentiu que eu iria enfrentá-la, pois dessa vez havia ódio em seu semblante. Apertou suas pernas pequenas e tortas mais uma vez, esperando que minha boca se abrisse. Abriu, porém na mente passei a dizer-lhe palavras ofensivas:

— Não tenho medo de você, sua velha horrenda. Você está aqui, pois é fraca demais. Precisa escravizar alguém para se alimentar, mas não fará mais isso comigo. Não tenho mais medo de você.

Minha mente lhe dizia tudo que estava entalado na garganta enquanto ela acuava, afrouxando o laço das pernas em torno de mim. Nesse momento minha mão se soltou. Continuei ofendendo-a, chamando-a de fraca e de coisas que nem me lembro. Antes que ela saísse de cima de mim, arranquei aquele chapéu esquisito de sua cabeça desgrenhada. Ela gritou e tentou agarrá-lo. Pulei da cama e ela se encolheu no canto do quarto. Corri ao banheiro, joguei aquela coisa nojenta e grudenta na privada e dei a descarga. De dentro dela saiu um jorro negro e fétido. Ela pareceu se encolher toda, guinchando sem parar, enquanto derretia bem na minha frente, sobrando apenas uma gosma no canto do quarto.

Ela se foi e a fome maldita também. Por um tempo ficou tudo bem. Até que Ceci passou a se alimentar de forma estranha. Quando a questionei ela deu de ombros. Disse que era impressão minha. Mas eu sei que não é. Talvez a velha queira vingança.

30 de Novembro de 2023 às 19:47 14 Denunciar Insira Seguir história
18
Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Leonardo Alcântara Leonardo Alcântara
Muito boa história! Como feito doido também de noite. Já não vou comer mais kkkkk
February 23, 2024, 10:40

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Kkkk. Mto obrigada pela leitura. Eu parei de jantar. Kkk. February 23, 2024, 11:25
EH Elias Hönig
Ótimo conto.
January 26, 2024, 21:36

JJ Juddy Joaquim
Senti ate um arrepio com essa narração. Tânia meu bem, que força. E Ceci, vai ficar tudo bem. Que história boa!
January 17, 2024, 15:28

Elisangela Matos Elisangela Matos
Já tá no meu top 3 escritores(as) prediletas da Ink. Você é demais com suas histórias. Eu como pouca comida, e senti náusea pensando no que a Cecília estava passando. Que drama! Eu em...
December 28, 2023, 21:57

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, flor! Mto obrigada por suas palavras! Dá mesmo aflição! December 29, 2023, 01:40
Giovanni Turim Giovanni Turim
Dos contos que havia lido na Scriv, é outro dos incríveis da sua contínua e sempre surpreendete criações, Amanda.
December 28, 2023, 16:08

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada, meu querido. Amei a capa. December 28, 2023, 19:06
Samuel A. Palmeira Samuel A. Palmeira
A forma como a velha aparecia e apertava a protagonista me fez sentir como se eu estivesse lá, sentindo tudo aquilo. E a fome que ela sentia? Meu Deus, eu quase corri pra cozinha várias vezes enquanto lia! PARABÉNS!!!
December 25, 2023, 14:51

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Muito obrigado, meu amigo. Essa era uma fome sem fim. Kkk December 25, 2023, 19:50
Wesley Deniel Wesley Deniel
Ah, Amanda ! Você e sua maravilhosa vivência com o folclore ! Como me fascinam suas histórias, os temas. Eu sou um apaixonado e estudioso dos folclores do mundo (confesso que nem tanto do nosso, apesar de ler muito dele, sou mais curioso sobre o asiático, russo ou de terras centro-americanas), mas não perco uma oportunidade de lê-la por nada ! E você abordou também outro assunto que me interessa demais (inclusive tenho projetos em andamento que o abordam), que é A Hora Morta, La Hora del Diablo, como alguns a chamam, que é o horário das 3 da manhã, mais exatamente às 3:33h. Parabéns, adorei mais essa experiência. Você manda bem pra caramba ! Fique com Deus. 🙏🏻😊
December 22, 2023, 02:20

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, meu amigo. Que bem me faz suas palavras. Nosso folclore é mto rico. A hora morta é algo que rende boas estórias e, conhecendo sua escrita, sei que seu projeto será maravilhoso. Espero encontrá-lo aqui. Mto obrigada! December 22, 2023, 10:49
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