amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Paulo finalmente descobre os segredos do Pântano Proibido, contudo, impedir os acontecimentos que ainda virão na noite de Halloween será bem mais difícil do que ele imagina, já que há dois deles à sua espera. Essa capa foi um presente de um grande amigo aqui da plataforma: Giovanni Turim. Muito obrigada, amigo.


Horror Horror teen Todo o público.

#suspense #halloween #mistério #zumbis #mundo-paralelo #setealém #anoitedosmortosparte2
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O Pântano Proibido. Continua...

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— Deixem-me entrar! — gritava Ricardo, espancando a porta.

— Quem é você e o que faz aqui nesse lugar abandonado? — questionou Paulo, encarando a desconhecida que acabara de lhe dizer para não abrir a porta. Antes que ela pudesse responder, Tainá, atordoada pelos últimos acontecimentos, levantou-se do chão onde estivera até o momento e correu à porta, abrindo-a, antes que Vanessa pudesse impedi-la.

— Ricardo, você está...

Tainá não pôde terminar a frase. O corpo de Ricardo caiu aos seus pés revelando o rosto de pele amarelada e olhos negros, sem esclera, que lhe encarava a lhe sorrir com dentes escurecidos, dono de um hálito mefítico, iluminado pela gloriosa lua no céu. Mal teve tempo de gritar quando o homem de roupas rotas a puxou para si, levando a mão em seu pescoço antes de lhe cravar os dentes. O sangue jorrou quando a artéria foi rompida. Vanessa gritou após ver a vida se esvair dos olhos da amiga. Paulo fechou a porta o mais rápido que pôde e, através da janela, viram aquelas pessoas estranhas se aproximarem apressadas do prédio, caindo esfomeados sobre os corpos de seus amigos.

— Eu disse para não abrirem — proferiu a mulher, dando as costas a Paulo.

— Aonde você vai? Não pode nos deixar aqui sem nos dizer o que está acontecendo. Quem é você? — elevou a voz, em meio aos rosnados do lado de fora, enquanto lançava a luz do celular no rosto da mulher. Assustou-se ao ver que um de seus olhos também estava totalmente negro, como os daquele homem.

— Venham comigo. Esse lugar não é seguro — ordenou a estranha, com um suspiro cansado, enquanto Paulo pegava o braço de Vanessa que se encontrava atônita. — Apague a luz desse celular. Ela os atrai.

— Não vai nos dizer o que está acontecendo? Quem são aquelas pessoas e que lugar maldito é esse?

Ela não respondeu, caminhando determinada à frente, por entre longos corredores com várias portas escancaradas que absorviam a luz através dos vãos de madeira que cobriam as janelas. Levou-os até uma sala onde o rapaz de camisa vermelha se escondera, aguardando-os. Um candeeiro antigo sobre uma mesa deixava o lugar, visivelmente abandonado, ainda mais sinistro.

— Quem são vocês? — questionou Paulo, impaciente, enquanto os dois estranhos o encaravam com pesar.

— Eu sou Giovanna e ele é Mateo — revelou, apontando o rapaz. — Somos os criadores da Cápsula Mundi — continuou em um português arrastado, meio cantado.

— O que diabos está acontecendo? Vocês não abandonaram esse lugar? — questionava Paulo, por entre dentes, ainda amparando Vanessa que encarava os dois com olhos vítreos.

— Vocês ainda não entenderam? — indagou Mateo.

— Entendemos o quê? Que nossos amigos foram mortos por aquela gente horrível e que muitos outros serão se não fizermos nada para impedir? O que são eles? Um experimento que não deu certo? Eu vi vários deles seguindo pela estrada rumo à cidade.

— Vocês não estão em seu mundo — apressou-se em dizer Giovanna, deixando-o embasbacado.

— Vocês estão loucos! Vou sair daqui — respondeu, puxando Vanessa pela cintura.

— Não! — estacou Vanessa, encarando Mateo e Giovanna — Deixe-os dizer a verdade, Paulo. Aquelas coisas são perigosas. Não podemos enfrentá-los. Tenho certeza que eles já teriam feito algo se pudessem.

— Você tem razão, Vanessa.

— É melhor contar logo, Giovanna — pediu Mateo, encarando-a, desconfortável.

— Como sabem, a criação da cápsula foi um sucesso, por um tempo. Um sonho realizado. Muitos aderiram à ideia de gerar vida após a morte. Cada árvore plantada sobre a cápsula trazia a plaquinha com o nome do falecido, florescendo forte, marcando a fazenda com uma beleza de cores jamais vista em nenhum outro lugar. Até que...

— Fala logo de uma vez! — ordenou Paulo, impaciente.

— Talvez vocês tenham percebido que ao chegarem à trilha de madeira, algo sutil aconteceu! — interrompeu Mateo, fazendo com que Paulo e Vanessa se entreolhassem.

— Sim — concluiu Vanessa, antecipando-se — Foi bem estranho, na verdade. Um frio nos acometeu e então surgiu a neblina.

— O mesmo aconteceu conosco — informou Giovanna — Mas não foi de imediato, foi depois que aquela “coisa” despencou sobre a árvore. Era um fim de tarde quando a vimos pelos monitores da sala de segurança. De longe parecia uma camada gelatinosa que havia coberto a primeira e a maior árvore plantada no cemitério. Eu e Mateo corremos até ela para ver o que era aquilo e foi com horror que notamos que aquela camada gelatinosa, densa e de cor vermelho escuro, se mexia como se respirasse. O grito morreu em minha garganta quando vi que dela saíam tentáculos que fincavam o chão abaixo de cada árvore, alimentando-se principalmente das cápsulas recém-enterradas. Não sei por quanto tempo ficamos paralisados diante daquele horror...

— Até que vimos pessoas maltrapilhas saindo de dentro da árvore — concluiu Mateo, com um olhar trêmulo — Seus olhos eram totalmente negros e exalavam um cheiro pútrido. Elas... passaram a cavar sob as árvores e... As cápsulas se romperam e os corpos que ali estavam foram restaurados, ganhando vida e se tornando iguais àqueles esfarrapados, enquanto todas as árvores que plantamos passaram a murchar e a derreter, formando o pântano. Quando os mortos-vivos deixaram seus túmulos, aquela coisa gelatinosa passou a sugar a seiva da árvore onde estava, deixando-a ressequida e negra. O mundo ao nosso redor de alguma forma havia mudado. Vocês precisam entender que esse mundo se parece com o nosso, mas algo aconteceu aqui que o deixou assim. Durante o dia o céu possui um tom sépia. O sol há muito perdeu a força. Nada sobrevive nessa terra, por isso eles buscam comida em nosso mundo, transformando os mortos em um deles e nos caçando.

— Você está dizendo que aqui não é a Terra? Que estamos em outro mundo? É isso? — questionou Paulo, contrariado.

— Sim. Aqui é Arret Além. Um lugar sete vezes além do nosso. Eu e Mateo estamos presos aqui. Levamos muito tempo para entender que aquela árvore era um portal para esse lugar e quando aquela coisa a matou, não pudemos mais voltar.

— Seus olhos... — indagou Paulo, encarando Giovanna, assustado.

— Sim. Estou me transformando em um deles. Por isso vocês precisam regressar pelo mesmo lugar de onde vieram. O portal não dura muito tempo. Apenas sete minutos. Vocês têm que se apressar.

— Sete minutos? Você está louca. Estamos aqui à noite toda! — exclamou, Paulo, furioso.

— O tempo aqui é diferente da Terra. Têm que chegar até a trilha de madeira e retornar.

— E nossos amigos? — retrucou, Vanessa, assustada.

— Eles não sobreviveram — respondeu Mateo.

— Não entendo. Por que vocês sim e eles não?

— Nos escondemos e com o tempo descobrimos como passar por entre eles sem que nos molestem.

— O que vai acontecer se conseguirmos sair ilesos daqui?

— Eles continuarão abrindo portais para a Terra. Você nunca se perguntou para onde vão as pessoas que desaparecem sem que a polícia descubra seu paradeiro? Sim. Você já deve ter se perguntado. Pois agora já sabe.

— Não há nada que possamos fazer para impedi-los? — questionou Vanessa, aflita.

— Não. Mas vocês têm a chance de fugir e alertar às pessoas. Essa é a noite de Halloween na Terra e eles poderão se misturar com os fantasiados trazendo-os para cá. Alimentar-se-ão deles, como sabem. Tomem — Giovanna estendeu a eles dois frascos com um líquido escuro.

— Que diabos é isso? — questionou Paulo, afastando o líquido do nariz, enojado.

— É água do pântano. Esfreguem nas mãos, braços e rosto e busquem a trilha. Corram o mais que puderem e deixem esse mundo.

— Venham conosco — pediu Vanessa, enquanto Paulo agarrava seu braço, apressado.

— Não podemos. Só se sai por onde se entra. Vão depressa.

Mateo os acompanhou até a porta, depois que Paulo e Vanessa se besuntaram com o vidrinho nojento, guardando o que restara no bolso da calça. Giovanna não os acompanhou. O vento passou a soprar mais forte e a neblina já havia encoberto quase todo o lugar, dificultando a visibilidade.

— Siga por aqui, sempre reto. Não desviem do caminho, mesmo se ouvirem qualquer uivo ou som estranho. E não acendam a luz do celular, a menos que seja necessário. A luz os atrai, mas também os ferem se jogadas diretamente nos olhos. Vocês encontrarão a trilha a uns trezentos metros daqui. Quando voltarem ao seu mundo, destruam-na.

Paulo e Vanessa correram em meio à densa neblina. O som de mastigação os deixou atordoados. Aqueles seres estavam jantando seus amigos e eles nada podiam fazer. Uivos ao longe os assustavam, porém seguiram firme em seu intento. Assim que chegaram à trilha, estacaram horrorizados. Havia um deles bloqueando o caminho, farejando o ar. Engoliram em seco e passaram a pisar com cautela nas placas de madeira, tentando contorná-lo. Prenderam a respiração, pisando leve, contudo, o homem roto de alguma forma os pressentiu. Talvez não tivessem se besuntado direito devido a pressa. O braço de Vanessa foi agarrado. Ela gritou em desespero ao sentir a mordida fétida e, em questão de minutos, ouviram os companheiros do homem vindo em seus encalços.

Paulo puxou Vanessa, porém o homem era forte. Rosnava feito um animal, mostrando os dentes vermelhos de sangue. Vanessa se agitava nas mãos pétreas quando Paulo sacou o celular e jogou a luz sobre os olhos negros do homem, cegando-o momentaneamente. E quando o maltrapilho tentou se proteger, os amigos correram pela trilha. Um leve atordoar e atravessaram o portal, encontrando-se no portão da fazenda, tendo a noite límpida a cobri-los. Correram sem olhar para trás e, quando viram um ônibus se aproximando, riram tresloucados, enquanto o motorista e o cobrador olhavam desconfiados para o ferimento de Vanessa. Paulo fechou os olhos, aliviado e quando os abriu, estava diante de Ricardo que o encarava preocupado.

— Cara! Onde você estava? — dizia estalando os dedos na frente do rosto de Paulo — Faz dez minutos que estou te chacoalhando e você não responde. Ficou aí, encarando o vazio com olhos arregalados. Eu hein! Que susto!

— Eu... eu...

— Meu! Não faz mais isso, cara? E aí? Vamos ou não vamos acampar essa noite? Não a fim de encarar essa festa boba da escola.

Paulo o encarou, atordoado, abraçando-o em seguida, deixando Ricardo constrangido. Soltou-o assim que se tocou do que havia feito.

— Você por acaso está pensando em acampar na fazenda abandonada e convidar a Vanessa e a Tainá para irem conosco? — perguntou de chofre, deixando Ricardo espantado.

— Uai. Como você adivinhou? É lá mesmo. Vai ser demais.

— Não, Ricardo. Não vamos acampar. Vamos lá agora. Temos que fazer algo. Não me faça perguntas. Depois eu te explico. Eu ainda estou assimilando o que acabou de acontecer.

— Tem algo a ver com o estado esquisito em que ficou agora a pouco?

— Sim. Eu acho que sim. Não sei o que aconteceu. Eu tive um sonho, uma visão, sei lá. Talvez esteja ficando louco!

— Sinistro, cara!

Assim que Ricardo se expressou, Paulo ouviu uma moça chamar os alunos no pátio da escola que se reuniram ao seu redor, dizer que a festa de Halloween seria transferida da escola para a fazenda abandonada. Quando lhe foi possível ver o rosto da moça, sentiu a cor fugir de seu rosto.

— Quem é aquela moça, Ricardo. Você a conhece?

— É a nova inspetora de alunos — respondeu, enquanto o pessoal comemorava a mudança de cenário — Cara! Você ficou branco! Está se sentindo bem? — indagou Ricardo, vendo que Paulo olhava para os portões da escola, observando atentamente o homem de pele amarelada e roupas rotas, barba e cabelos desgrenhados que o encarava com olhos negros e cheios de sanha.

— Temos que ir Ricardo, antes que seja tarde demais.

— Ir aonde? Na festa com eles? Eu pensei que você detestasse...

— Eles não podem ir para lá. Vai acontecer uma tragédia se você não me ajudar. No caminho eu te conto.

Nesse exato instante, a nova orientadora se virou na direção de Paulo com um cartaz nas mãos, trazendo um estranho sorriso nos lábios. De forma quase imperceptível, ele viu um dos olhos da moça ficarem pretos novamente, sem esclera. Gritou, atraindo a atenção dos colegas, levando a mão automaticamente ao bolso da calça. Talvez fosse tarde demais para destruir a trilha. Talvez fosse tarde demais para fazer algo, contudo, a mão no contorno do vidrinho disse tudo o que ele precisava fazer para salvar seus amigos...

16 de Novembro de 2023 às 20:05 4 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Samuel A. Palmeira Samuel A. Palmeira
Não sei bem o que é uma cápsula Mundi, mas a ideia de árvores crescendo em cima das pessoas me deixou meio confuso e fascinado ao mesmo tempo. Vc tem uma imaginação daquelas, hein?
December 25, 2023, 15:01

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Se eu te disser que ela existe, você acredita? Tb me deixou pensativa, por isso nasceu o conto. Mto obrigada pela leitura. December 25, 2023, 19:53
Adorador Cthulhu Adorador Cthulhu
Incrível, gostei muito
December 19, 2023, 21:32

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, mto obrigada. Fico mto feliz. December 19, 2023, 22:15
~