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Ayase finalmente estava conseguindo viver da forma que desejava: livre das responsabilidades impostas por possuir sangue real, ela viajava por seu fantástico mundo aquático em busca de aventuras na companhia de seu fiel dragão-serpente, Ryuuki. Um fatídico dia, porém, eles viram o mundo que conheciam ruir diante de seus olhos, os levando para um abismo sem qualquer sinal de salvação. Enquanto esperavam pelo fim, uma oportunidade para mudar seus destinos surgiu, lhes dando uma nova chance para seguir em frente. O que Ayase não sabia era que esses dois acontecimentos estavam interligados pela linha tênue que separa a criação e a destruição - e que o universo é bem mais complexo do que se imagina.


Ficção científica Todo o público.

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PRÓLOGO: Reunião de emergência

Atlansha.


Um planeta remoto situado em uma vizinhança tão primitiva que os corpos celestes sequer tinham presenciado a evolução de sua primeira anã branca (mas nem de longe poderia ser considerada a vizinhança mais nova daquele universo, que finalmente encontrava energia suficiente para seu crescimento graças às suas novas engrenagens). Para os protozoários, fungos, plantas, animais ou quaisquer seres evoluídos nos planetas mais próximos, Atlansha não passava de um pontinho azulado semi-invisível em meio às inúmeras estrelas e corpos celestes que pontilhavam os céus coloridos de suas residências. Para os poucos que conseguiam observá-lo de perto, era uma grande esfera coberta por água líquida em cem por cento de sua superfície, escondendo uma reserva abundante de matéria prima metalúrgica em seu interior.


Não foram poucas as raças que planejavam invadir o planeta e escavar até o último minério dali — ou o que quer que existisse abaixo do nível das águas, já que seus drones de pesquisa eram destruídos antes mesmo que pudessem recolher qualquer tipo de informação —, gerando pequenos conflitos que logo seriam transferidos para o planeta.


Antes que isso ocorresse, porém, algo interveio: o Império de Orfeinn.


Uma conferência emergencial foi convocada por seu líder, obrigando os representantes de cada organização, conclave, planeta ou aglomerado estelar a participarem; estes indivíduos eram chamados de Mediadores, seres de grande poder que zelavam pela manutenção das engrenagens. Desde o momento em que os Mediadores adentraram a grossa atmosfera de Orfeinn e pisaram seus pés — patas, tentáculos, matéria espectral ou seja lá o que eles usavam para se locomover — no solo do planeta, era visível que algo estava errado.


Quando todos estavam devidamente ajustados em seus assentos especiais no salão de conferências, foi anunciada a entrada do líder.


Pela porta magnética detalhada com gemas arroxeadas e adornos azuis, um jovem adulto surgiu com uma postura ereta e expressão séria; ele sequer parecia ter a experiência para comandar tantos indivíduos com o dobro, triplo ou até mesmo quádruplo de sua idade, mas não deixava transparecer qualquer sentimento negativo que estivesse consumindo o seu interior.


Cumprimentou apressadamente os gigantes rochosos da raça GEM-Gamma que montavam guarda, e com passos pesados, caminhou até a pequena plataforma de laterais ocas, onde uma fina fumaça cor-de-rosa passou a emergir enquanto uma placa de metal opaco elevava o seu corpo para o centro do salão. Por sorte (ou ciência, pois tudo era graças aos pequenos aparelhos implantados nos cérebros dos indivíduos), os Mediadores conseguiriam compreender o seu discurso normalmente, como se o ouvissem no idioma de seu planeta natal. Para o líder, aquela tecnologia era um dos espólios mais importantes que a resistência Kolasurr lhes trouxe, e tudo o que pediram em troca de algo tão útil foi proteção.


Enquanto a plataforma subia, ele pensou que suas pernas iriam lhe trair, mas conseguiu manter a sua postura quando a dona de um par de olhos dourados o observou de maneira preocupada.


Os cabelos eram tão loiros quanto os seus (era o esperado, já que todos os seus irmãos herdaram essa característica de seus pais), mas estavam presos em um coque bem arrumado, fazendo com que seus quatro chifres simétricos ficassem bem mais nítidos. Diferente dele, a pele de sua irmã tinha um aspecto saudável; rosada em grande área, mas em partes específicas com um fino degradê que ia do lilás para o azul escuro, onde algumas escamas se faziam presentes. Aquelas eram as características principais de sua raça, os Daemonias.


Os olhos da jovem pareciam fixos nele, o que lhe gerou conforto suficiente para começar seu discurso:


— Saudações, caros integrantes da Nova Era. Se tratando de uma emergência, vou dispensar as apresentações e os termos mais formais.


Seus olhos dourados passearam por toda a sala, e mesmo cobertos por alguns fios platinados (que ele tinha certeza que não atrapalhariam sua visão), o líder ainda conseguia notar o quão nervosos alguns dos Mediadores estavam. Ele já estava preparado pela desordem que seu pronunciamento causaria naqueles indivíduos com características tão únicas, mas respirou fundo e continuou:


— Devido aos conflitos causados pelo domínio das recém-descobertas minas de Atlansha, venho propor um acordo que já deveria ter feito há algum tempo. — Ele deu uma pausa, sinalizando para um estranho aparelho eletrônico de origem Mettaniana que detectou o seu gesto no mesmo instante. — Com isso, eu lhes apresento o Pacto Carmesim.


As feições de alguns de seus companheiros mudaram quando um grande projetor com fundo lilás-claro passou a exibir inúmeras palavras no idioma dos Daemonias; à frente das cadeiras acolchoadas dos Mediadores, uma versão menor também apareceu, traduzindo cada uma das palavras para seus respectivos idiomas. Antes mesmo que alguém pudesse falar algo, o líder passou a se movimentar pela plataforma e prosseguiu:


— Qualquer raça a partir da Classificação 5 está impedida de colonizar, comunicar-se, levantar pesquisas e extrair recursos de qualquer planeta com Classificação 6 ou superior. Existem mais algumas cláusulas no contrato, então peço que leiam o documento com paciência. Caso algum de vocês descumpra com o acordo, seus respectivos planetas ou aglomerados estarão expulsos da Nova Era. Iremos cortar todo tipo de benefício para os que forem expulsos, o que inclui o comércio ou permuta de alimentos, medicamentos, vestimentas, força bélica, força robótica, ciborgue ou artificial, cientistas, pesquisadores e até mesmo trabalho escravo.


A revolta era eminente.


Vozes irritadas começaram a preencher aquela sala; alguns Mediadores acharam aquele pronunciamento tão absurdo que até mesmo levantaram de suas cadeiras e ameaçaram partir para cima do líder (o que teria acontecido caso os gigantes rochosos não os interceptassem), que mesmo em meio à revolta de seus aliados, permaneceu firme em sua decisão. Era uma questão de tempo até que todos se acostumassem com as novas leis.


Ele fez um pronunciamento final e deu as costas, deixando claro que não estava aberto a negociações, por mais tentadoras que pudessem ser.

— A reunião emergencial está encerrada — disse, se retirando do salão de conferências em meio à discussão.

Para sua surpresa, ninguém o seguiu.

Nenhum dos engenheiros de Mettania, dos pesquisadores de Sinky ou dos bastardos de Kolasurr o parou enquanto ele atravessava os longos corredores daquele lugar. Apenas o barulho de suas botas pesadas e de sua respiração podiam ser ouvidos, o envolvendo em um silêncio cada vez mais perturbador. Desde quando ele estava tão sozinho?


Quando estava prestes a sair do local, uma presença finalmente se manifestou ao puxar a sua roupa levemente. Ele se voltou para a pessoa enquanto encostava o seu corpo em uma das paredes esculpidas com gemas roxas, deixando todo o seu nervosismo se esvair em um sussurro:


— Você não precisava ir aqui — resmungou, encarando a mesma jovem que vira mais cedo.


— Eu precisava. É seu primeiro discurso emergencial e eu não podia perder por nada!


Ela sorriu, mostrando pequenas presas que saíam de seus lábios rosados.


— Como acha que… que me sai?


— Como um líder.


Com aquela resposta, ele também sorriu.


Fazia algum tempo que estava preocupado com a sua imagem como líder; diferente de seus pais, não havia adquirido aquele título com um grande feito ou com algo realmente digno. O título foi simplesmente passado para ele, primogênito de um Imperador que era reconhecido e respeitado por todos os indivíduos, mesmo aqueles com Classificação mais alta e os que desejavam tomar o poder de Orfeinn na primeira oportunidade que tivessem. Ele precisava ser digno do nome “Imperador”, caso contrário, lhe roubariam tudo o que o seu pai havia dado a vida para conquistar.


Mas proteger aquele título não era a única coisa que desejava.


Enquanto era acompanhado por sua irmã até a saída, ele refletiu em suas decisões. Antes mesmo de ser um Imperador de Orfeinn, ele era um Daemonia, mas nunca pensou no quanto conciliar seus desejos egoístas seria cansativo; como ele protegeria alguém que não tinha mais permissão para vê-lo (“Para onde quer que você vá, estarei rezando para seu sucesso, pequena estrela”) ou aliviaria o fardo para seus irmãos mais novos, que ainda não tinham consciência do poder e responsabilidades que teriam? Pensar em soluções lhe dava dores de cabeça.


— Está prestando atenção? — perguntou sua irmã, o tirando de pensamentos.


— Sim — mentiu, mas ela não pareceu perceber. — Só estou pensando em como ele está.


— …


Ele.


Seu segundo irmão. Seu braço direito. O Daemonia que manchou a honra de sua raça ao cometer um crime imperdoável.


Porém, ao invés de condená-lo à tortura da prisão perpétua, o líder forjou provas e pôs a culpa em um dos cúmplices de seu irmão: um humanoide de baixa Classificação que jamais seria julgado da maneira correta, o sentenciando à vida de cobaia em experimentos que sequer tinham a aprovação do Imperador. Também condenou outros cúmplices à sentenças não condizentes com o crime real, não se importando com quaisquer consequências que isso traria para eles.


Seu segundo irmão, agora sem os poderes e vínculos de Orfeinn, recebeu a pena mais desproporcional: foi fadado a proteger um planeta como Atlansha por toda a eternidade como um simples Mediador.


A Nova Era pareceu acreditar naquela versão sem muitos problemas; para alguns, foi mais uma prova de que os filhos do antigo Imperador de Orfeinn não tinham o necessário para liderá-los, o que quase gerou um conflito interno (e se mais algumas raças fossem a favor, provavelmente os Daemonias perderiam o posto de representantes da Nova Era).

Durante muito tempo, o líder torceu silenciosamente para a verdade nunca ser descoberta, e quando o último culpado foi sentenciado, ele finalmente se viu aliviado; não havia uma forma dos condenados abandonarem seus planetas-prisão, o que enterraria toda aquela história sob mentiras não questionadas.


Pelo menos até aquele desastre acontecer.


22 de Abril de 2018 às 06:19 0 Denunciar Insira 2
Leia o próximo capítulo CAP.1, Epi.1: A busca pelo meu lugar

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