Bons Sonhos Seguir história

C
C Carbonera


Existem monstros vivendo embaixo das camas. O mundo sabe disso e em Mallowfort não podia ser diferente. Hoje é a primeira noite de Yuri em seu novo emprego: o de guarda noturno da loja de camas Bons Sonhos.


Conto Todo o público.

#monstros
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Capítulo 1 de 4


– Tchau, meu amor – despediu-se a esposa indo para cama. – Boa sorte no trabalho. Não deixe os monstros te pegarem.

A mulher de cabelos lisos e negros como piche riu, cutucando de leve o braço do marido. Yuri se abaixou e beijou a esposa na testa, depois saiu do quarto e seguiu pelo corredor. Na porta de entrada, parou e pegou o casaco azul marinho que estava pendurado no armário ao lado e também calçou as botas pretas que lá estavam guardadas.

Apesar da brincadeira da esposa, Yuri sentia um frio na barriga e os pelos dos braços volta e meia se arrepiavam. Ele definitivamente não teria escolhido aquele emprego se as circunstâncias fossem outras. De fato, ninguém em sã consciência escolheria aquele emprego. Todavia, Yuri precisava pagar as contas e a esposa não conseguiria fazer isso sozinha trabalhando como garçonete­­, ainda mais agora que estavam esperando seu primeiro filho. Ou filha. Eles ainda não sabiam, era cedo demais para saber, mas Yuri esperava que fosse menino.

Depois de calçadas as botas, abriu a porta de casa e trancou-a. As luzes dos postes já afirmavam a escuridão da noite e o piar das corujas anunciava sombriamente que ele não estava sozinho na caminhada para o trabalho. Yuri se dirigia pela calçada iluminada, a cabeça baixa e as mãos nos bolsos da calça larga, ele se lembrou da conversa por telefone com o seu novo chefe.

– Então... o senhor aceita as condições de trabalho? – Yuri ouviu a voz um pouco craquelada do outro lado da linha.

– Sim... sim – murmurou Yuri depois de alguns segundos. – Apenas uma pergunta...

– Quanto ao salário? – interrompeu o homem.

– Ah... Bom, é claro que o salário é uma parte importante, mas... – Yuri engoliu em seco, o salário era deveras importante, mas havia algo de mais importante do que dinheiro. Havia sua vida. – Quando foi a última vistoria que foi feita na loja?

O homem do outro lado da linha ficou em silêncio por algum tempo e Yuri pôde ouvir o som de papéis (ele achava que fossem papéis) sendo mexidos e então a voz do novo chefe voltou.

– Eh, a última vistoria foi feita há três dias.

Yuri coçou a testa e passou a mão livre pelos cabelos, para depois tocar a ponta do nariz, gesto que fazia quando estava ansioso. Ele mordeu o lábio inferior e começou a roer a unha do dedo indicador.

– A empresa de vistoria informou que não haverá qualquer problema nos próximos trinta dias, pelo menos. Eles me garantiram – continuou o homem.

– Ok, ok, muito bem. Eu aceito! – disse Yuri em atropelo. Se pensasse mais um segundo que fosse sobre aquela hipótese, ele sabia que não pegaria o trabalho, então era melhor dizer logo que sim, antes que mudasse de ideia.

Os passos de Yuri, o novo guarda noturno da loja de camas Bons Sonhos, ecoavam pela calçada, como que marcando o ritmo do seu coração acelerado. Ele passou a mão pelos cabelos de novo e olhou a rua dos dois lados antes de atravessar e seguir pelo cruzamento das avenidas.

Alguns carros brotavam de vez em quando do asfalto, os pneus morosos como se estivessem com sono demais para continuar a andar pela noite. Yuri deu uma olhada no relógio de pulso para ver se estava atrasado. Eram 21:51. Ele tinha que render o guarda na loja às 22:00 e ficar até às 6:00 do dia seguinte. Yuri soltou o ar numa mescla de irritação e nervosismo ao avistar a loja do outro lado da rua, com todas as luzes apagadas.

Ele cruzou a rua depois de um carro esportivo lotado de adolescentes passar e olhou a vidraça da loja. De onde estava era possível ver quase todas as camas do lugar, pequenas, médias, grandes, de todos os tipos e para todos os gostos. Yuri tentou olhar para mais dentro da loja, mas ela estava completamente escura, a não ser por uma tênue luminosidade que parecia vir do lado esquerdo da loja, mas que era bloqueada por uma parede. Ele foi para porta de vidro e empurrou-a, mas ela estava trancada. Bateu no vidro com os nós dos dedos. O som ecoou pela loja.

Yuri engoliu em seco e deu uma bisbilhotada por cima do ombro, como fazia de madrugada quando era criança e estava no banheiro com a porta aberta, com medo de que alguma coisa pulasse por sobre ele ou lhe agarrasse as pernas. Ele ouviu passos abafados e um vulto do lado de dentro da loja veio em sua direção. Um homem corpulento, careca e com uma verruga abaixo do olho direito lhe abriu a porta, olhando-o da cabeça aos pés com uma carranca.

– Você é o novo guarda noturno?

Yuri balançou a cabeça e estendeu a mão direita em cumprimento.

– Sim, sou eu.

O homem olhou a mão estendida de Yuri por um segundo e a carranca sumiu do rosto dando lugar a um sorriso simpático.

– Então, bem-vindo – disse-lhe, apertando a mão de Yuri. – Sou o Falco, o guarda antes de você. Pode entrar! – exclamou ele ao ver que Yuri continuava parado na porta da loja. Os pés presos ao chão como se dele fizessem parte. – Venha, não se acanhe! Tenho essa cara de mau sujeito, mas é só uma impressão. Venha, que fiz café novinho em folha!

Falco pegou Yuri pelo ombro e puxou-o para dentro da loja, rindo e conversando. Yuri balançava a cabeça vez ou outra, fingindo escutar o que o homem dizia, enquanto olhava, desconfiado, as camas da loja. Foi por fim empurrado para dentro de uma sala iluminada e pouco mobiliada. Agora ele entendeu de onde vinha aquela luminosidade que tinha avistado do lado de fora da loja. A luz da sala iluminava uma parte da loja que não era possível ver da calçada por estar direcionada ao lado norte do estabelecimento e ser bloqueada por uma parede falsa.

Falco continuava a falar alegremente enquanto servia café numa caneca branca e sem graça e estendia um braço, indicando uma cadeira com estofado velho para Yuri se sentar.

– Açúcar ou adoçante?

– Uh, adoçante, por favor. Sete gotas – Yuri tirou o agasalho do corpo e o pendurou no encosto da cadeira antes de se sentar. Seu traseiro bateu com força no assento, ele fez uma careta e Falco o acompanhou.

– Ouch! Cuidado com essa parceira do crime aí, quase certeza que a minha hérnia despertou por causa dela – ele ergueu as sobrancelhas como que para reafirmar o fato.

Yuri deu uma meia risada, tocando o cóccix disfarçadamente, enquanto bebia um gole do café forte e escaldante.

– Ah, então – iniciou Yuri, já que Falco tinha finalmente parado de falar e estava a apreciar o café novo –, é só essa sala que podemos deixar iluminada?

– Sim, sim. Rocko diz que é para se ter menos gastos – Falco deu de ombros como se aquilo não fosse problema dele.

– Rocko?

– A-hãm, Rocko.

Yuri contraiu as sobrancelhas, esperando uma resposta mais bem respondida ou um comentário a mais que aludisse a esse Rocko, quem quer que fosse, mas Falco continuou com sua atenção na caneca de café, assoprando um pouco a bebida, antes de tomar um longo gole.

– Mas quem é Rocko?

Falco se levantou e foi até a pia, onde estava o coador do café e uma embalagem opaca. Abriu uma gaveta, pegou dois garfos e uma faca e depois dois pratos, empilhou tudo nos braços e voltou para a mesa. Yuri fez menção de ajuda-lo, mas Falco fez que não, então se sentou novamente. Yuri olhou o seu novo colega de trabalho e se perguntou se ele era louco.

– Rocko é o dono – disse Falco, só depois de pousar um pedaço majestoso de bolo de fubá na frente de Yuri e sentar-se à sua frente, voltando para a caneca.

Yuri buscou na mente o nome da pessoa que o havia contratado pelo telefone. Ele tinha quase certeza de que o nome não era Rocko.

Falco não se importou ou não notou a confusão estampada na face de Yuri, o guarda bebeu o último gole do café e se levantou animadamente.

– Bom, é isso! Ah, sim. Faltam só algumas coisinhas... – Ele foi para o lado de Yuri na mesa e abriu uma gaveta pequena que ficava acoplada à mesa de alumínio e retirou um crachá de dentro e um molho de chaves que tilintaram com o movimento.

– Aqui estão – continuou Falco. – Esse é o seu crachá e aqui, as chaves da loja.

Yuri piscou algumas vezes e pegou o crachá, colocando-o na camisa branca do uniforme, e depois o molho de chaves. Falco já estava pegando o seu agasalho azul marinho e saindo da sala iluminada.

– Ma-mas... Para que tantas chaves? – Yuri olhou para as várias chaves de cores diferentes nas mãos.

– Ora, para abrir e trancar portas! Rárárá! – Falco gargalhou, enquanto subia o zíper do agasalho fofo. – Até amanhã, parceiro!

Yuri sentiu o sangue sumir da face ao ver o homem ir embora. Certamente ele não queria ficar sozinho na loja de camas, apesar da estranha companhia que era Falco.

– Espere! – Yuri pediu alto, se levantando de um salto da cadeira.

– O quê? – Falco voltou para a porta, olhando-o intrigado. – Ah, sim! Lógico! Vish, Maria, já ia me esquecendo.

Falco entrou na sala novamente e abriu um armário superior que ficava na parte esquerda da sala, ao lado de um armário de alumínio trancado. De lá, ele tirou um objeto grande e amarelo e o entregou a Yuri com um sorriso.

– A lanterna – Yuri pegou a lanterna grande com uma mão pouco firme e engoliu em seco. O sorriso de Falco se alargou. – Você sabe, para você fazer as rondas pela loja.

Dando dois tapinhas no ombro de Yuri, Falco se despediu uma vez mais, desejando boa sorte.

Yuri seguiu Falco com os olhos suplicantes de uma criancinha abandonada na sarjeta, enquanto ele se afastava a cada passo da luz que a sala projetava na escuridão da loja e só depois que o homem contornou a parede falsa e Yuri o perdeu de vista, foi que ele voltou a respirar.

Quase arfando ao perceber que ele, Yuri, o novo guarda noturno, estava sozinho na loja de camas.



17 de Abril de 2018 às 15:12 0 Denunciar Insira 0
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