Réquiem - anexo do protocolo Seguir história

crazyclara Crazy Clara

O réquiem de despedida do pássaro que não canta. | Spin-off de Protocolo, spoilers até o XIX.


Fanfiction Anime/Mangá Para maiores de 18 apenas.

#Spin-off #ua #sai #naruto #oneshot
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Javali


~

Seis meses


Sai nasceu e cresceu como ANBU. Antes disso, não era ninguém. Não era Sai. Até completar 14 anos, sequer existia para o mundo.

Apesar de ainda praticar a inexistência, agora compartilhava de companhia. Companhia essa que sentiria sua falta caso fosse morto ou sequestrado. Era um lado positivo.

O negativo era também sentir falta.

— Coelho morreu. – anunciou Kakashi. – Lamento.

Sabia que não deveria, mas sentiu tristeza. Sua boca se abriu com emoções confusas borbulhando em seu peito. Não conseguiu vocalizá-las, pois não sabia como. Não havia sido treinado para aquilo.

Então vocalizou a dúvida que era programado para ter.

— Como? – afinal, ele sabia que Coelho era tão bom quanto ele.

Não soube o que viu nos olhos de Kakashi, mas não era a seriedade habitual.

— Sacrifício para não ser pego.

Morrer antes de se entregar. O lema que tinha enraizado dentro de si.

— Você foi designado a outra iniciante. – Kakashi continuou. Para Sai não havia espera ou luto. – Javali. Ela o aguarda na sala de treino corporal.

Tudo o que lhe restava era prestar continência, esperar Kakashi desviar de si para então descansar a postura e seguir pelo corredor.

Coelho e ele haviam sido separados na última missão para que Coelho pegasse as informações restantes dos alvos. Sai estava esperando notícias do parceiro há dois dias na sua viagem de volta para a base principal. E ali estava ela. Entregue no corredor após seu breve café da manhã.

Antes de ser Sai, era um ninguém a quem chamavam de ‘branquelo’. Junto de Shin, vivia nas ruínas da cidade que um dia foi chamada de Dehradun. Não se lembrava de se conhecerem. Nem sabia se eram mesmo irmãos, mas se apresentavam como se fossem. Cuidavam um do outro como se fosse.

Embora os ANBU’s também usassem as salas de treinamentos tradicionais onde os soldados comuns frequentavam, havia locais como aquele para que os agentes treinassem ao máximo com os equipamentos da divisão. A primeira grande mudança era que, durante os treinos, ninguém ali era visto sem máscara. Cada um estava munido da peça branca encaixada no rosto, além dos trajes com padronagem de pequenos hexágonos sobre o tecido entre o azul e o negro.

Precisava encontrar aquela com máscara de javali.

Levou alguns minutos, pois procurava uma mulher. Não deveria ter se sentido tão estranho ao encontrar as presas sendo usadas por uma garota.

Ela estava sobre um homem com o dobro do tamanho dela, o joelho infantil cravado sobre o antebraço dele preso às costas, as pequenas mãos o segurando pelo queixo e cabelo. Um giro e ele teria o pescoço quebrado. Mas bateu a mão livre no tatame antes disso e a garota o soltou, saltando para trás e parando de pé em perfeito equilíbrio.

— Próximo. – ela disse. Sim, uma garota. Sim, muito nova. Muito mais que ele ou Shin.

— Javali? – chamou antes que o próximo da fila de treino avançasse.

Ela se virou. Fez uma análise indiscreta sobre Sai, o olhando dos pés à cabeça.

— Canário?

Ele assentiu. Javali olhou para a fila que aguardava e fez uma breve reverência antes de se afastar para perto de Sai.

De perto, era ainda mais surreal pensar nela como um soldado operante. Era franzina e a cabeça dela mal chegava à altura do peito de Sai. Ela mal deveria ser capaz de aguentar o recuo de um revólver, quanto mais um fuzil, que era exigido na ANBU. Estava ponderando se era seguro subestimá-la, mesmo depois de vê-la dominar um homem daquele tamanho.

Seus segundos de análise foram notados por ela, que não se moveu ou disse nada, aguardando a reação de Sai. Se perguntou por que não havia mais detalhes a respeito da natureza do recrutamento dela, já que era obviamente fora do protocolo. Deveria ir perguntar?

Não, não estava pensando direito. A morte de Shin estava afetando seu raciocínio. Se haviam lhe designado ela, criança ou não, ela aguentaria.

— Se importa de vermos o nível um do outro? – perguntou. Sorriria, mas a máscara lhe poupava aquele incômodo.

— Não. – ela olhou para o lado. Apontou para um espaço livre entre os tatames e para lá seguiram.

Mãos erguidas, pernas flexionadas. Um segundo que se permitiu de humor lhe rendeu a divertida percepção de que os dois possuíam posturas semelhantes. Tão logo percebeu isso, voltou à seriedade, pois não cometeria o erro de tratá-la como criança.

Segundos de silêncio.

Imobilidade.

E avançaram.

Sim, ela era perfeitamente instruída e muito boa. Não, ela não deixava que sua falta de força lhe fosse uma fraqueza grande. A velocidade e tamanho compacto foram um desafio para Sai enquanto ela girava em torno dele, buscando golpear seus pontos de pressão. Quando notou isso, se tornou mais incisivo, usando mais força. Era o que podia fazer com ela, pois estavam praticamente empatados em técnica.

Seria um erro dá-la como um alvo fácil. Foi estranho e pouco satisfatório quando, cinco minutos depois, conseguiu prendê-la no chão com uma chave de perna, segurando o pequeno braço pronto para parti-lo como um galho fino. Todavia, saiu vencedor e a soltou assim que a ouviu bater no tatame.

Levantou-se em um salto e ela também.

— De novo. – a ouviu dizer.

Assim fizeram. Ela aguentou mais um par de minutos, mas logo caiu novamente. Ainda era fraca. Nenhuma surpresa para sua possível idade, mas logo ela poderia ganhar força o suficiente.

Ao fim de sete imobilizações, ela não pediu outra rodada. Sai percebeu que ela havia notado o próprio limite e sabiamente se limitado.

— O que acha do treino com armamentos? – ela sugeriu.

Sai assentiu. Estava mesmo curioso em como ela lidaria com eles.

Deixaram a sala. Javali chamava muita atenção. Não era para menos. Ela devia ter chegado na última semana, ou já teria ouvido falar de uma criança no regimento. Assim foram acompanhados de olhares até a próxima sala com treinos de pontaria.

A arma escolhida por Javali foi uma colt de calibre 45. Ridiculamente grande nas mãos dela. A acompanhou também com uma pistola e ficou ao seu lado enquanto a simulação iniciava com os hologramas saltando de trás do cenário.

Ela aguentava o recuo, tinha uma pontaria satisfatória e era rápida em recarregar. Se olhasse apenas para suas mãos, poderia imaginar que quem atirava era apenas um adulto pequeno.

Ao fim da sessão dela, ela o encarou.

— Você.

Assentiu e assumiu a posição. Sua vez de ser avaliado.

Ele e Shin haviam sido encontrados depois de um bombardeio. Sai sabia que era de um grupo terrorista defendendo questões religiosas, mas não sabia como um deus poderia se felicitar com o fogo que ardia da casa que uma vez foi sua e de Shin.

Konoha enviou soldados para cuidar dos refugiados e também recrutar. Ele e Shin concordaram que não queriam a cabana onde ofereciam comida. Queriam aquela que aceitava assinaturas.

O soldado os olhou com clara descrença. Sai… não. ‘Branquelo’ não devia ter mais do que oito anos naquela época, nunca saberia dizer. Ele e Shin eram fracos e magros, dizendo que estavam dispostos a ajudarem os soldados a pararem aqueles que queimaram as casas.

Alguns riram. Disseram para que voltassem para seus pais. Não tinham, então foram convidados para ganharem abrigo na barraca de alimentos. Não queriam, então foram enxotados. Voltaram, então alguns ficaram com raiva. Outro soldado pediu tempo. Então ‘Branquelo’ e Shin foram levados para o centro de crianças refugiadas no Nepal.

Shin era um pouco diferente de Branquelo, pois tinha nome. Os japoneses que os receberam naquele casebre lotado de crianças ficaram confusas em como lidar com o menino sem nome, pois não havia nenhuma referência. Por alguma razão, aquilo pareceu uma brecha para que Branquelo pudesse ter aulas especiais.

Como limpar uma arma. Como atirar. Como cortar. Como caçar. Como programar uma bomba. Como desarmar uma armadilha.

Repassou a Shin seu conhecimento e logo os japoneses acharam útil deixá-los praticarem aquelas aulas juntos de outros poucos.

Com idade aproximada de 13, foram apresentados a um homem que posteriormente desapareceria da vida deles e de Konoha. Danzo, o treinador de uma divisão especial em Konoha. Mostraram o que sabiam, então receberam acenos de aprovação. Ganharam o ingresso à base e lá Branquelo se tornou Sai. E quando ganhou a máscara, se tornou Canário.

Danzo havia sido apagado, era óbvio. Konoha não aprovava aquele tipo de recrutamento, crianças sendo contrabandeadas como soldados. Sai e Shin foram de uma das últimas colheitas do homem e agora Sai não saberia mais dizer se ele era o último deles.

Foi mantido na ANBU por ser acima da média dos agentes, mesmo os com vigor e experiência superiores. Javali não tinha com o que preocupar com seu desempenho. No geral, era apenas ela a estranha ali.

Abaixou a arma ao fim do treino e recebeu apenas um aceno da criança.

Criança. Por que uma criança?

Alguns ANBU’s se permitiam andar sem máscaras pelos corredores do andar exclusivo da divisão. Sai ou Shin nunca foram permitidos àquilo por serem facilmente detectáveis devido à idade. Com Javali era o mesmo. Recebiam as refeições pelo almoxarifado e comiam dentro do quarto.

Assim, após o banho recluso e rápido do qual Sai tornou a vestir a máscara e o uniforme limpo, passou pelo almoxarifado para pegar a bandeja com a marmita do dia e, finalmente, foi para seu quarto.

Que antes dividia com Shin.

Sabia que não deveria, mas sentiu tristeza mais uma vez.

Respirou fundo. Não havia um só objeto pessoal deles. Apenas uniformes extras e roupas de treino que raramente usavam. Logo após o jantar, teria que se livrar deles para dar espaço aos de Javali.

A garota entrou poucos minutos depois dele. Havia se sentado na cama inferior do minúsculo quarto composto apenas de uma cômoda e camas sobrepostas como um beliche colado à parede. Tinha a comida no colo, mas não tinha fome. Javali também não pareceu ansiosa para degustar logo de sua refeição, pois permaneceu de pé perto da porta olhando na direção de Sai com a própria bandeja em mãos.

Deixou a bandeja de lado e, devagar, retirou a máscara. Se sentiu exposto como não se sentia ao estar nu. Pele não lhe preocupava, mas sua identidade parecia muito íntima desde que havia assumido o nome de Canário.

Apoiou a máscara no colo e olhou Javali.

Ela foi ainda mais lenta. Deixou a bandeja sobre a cômoda e se voltou para Sai. Ergueu as duas mãos até a máscara, segurou o objeto e o desprendeu do rosto como se tentasse não despertar a atenção de um pássaro de verdade.

Até o rosto dela era infantil. Pequeno, arredondado, olhos grandes e feições delicadas. Talvez o olhar fosse a parte mais adulta. Era duro e afiado, desafiando Sai a julgá-la. Também possuíam uma cor perolada bonita e única.

— Me chamo Hanabi. – ela se apresentou mantendo o tom firme de mais cedo.

Sai sorriu, como aprendeu a sorrir.

— Sai. É um prazer conhecê-la.

Deixou a máscara do lado e voltou a colocar a bandeja em seu colo. Havia espaço o suficiente para que Hanabi se sentasse, mas a garota ficou estática no lugar enquanto Sai erguia a tampa da marmita e pegava o garfo. Havia falado e agido corretamente certo? Ou teria feito algo errado para ela não fazer nada?

Ergueu o olhar novamente para ela, encontrando olhos confusos.

— Algo errado? – perguntou. Talvez houvesse algum ritual que não conhecia para jantar perto de crianças.

— Não vai me perguntar? – ela retrucou, o tom com menos severidade.

— Perguntar o quê?

— O porquê eu estou na ANBU.

— Você quer contar?

A pergunta pareceu pegá-la de surpresa, pois, pela primeira vez durante o dia, ela estava com a guarda baixa. Em uma luta, seria sua morte.

— Eu… – suas sobrancelhas se franziram. – Acho que sim.

Sai sorriu, não que quisesse realmente sorrir.

— Então me conte.

Continuou a observá-la. Hanabi, antes parecendo tão certa do que fazia, de repente parecia apenas uma… criança. Ela olhou a bandeja de Sai e depois a própria sobre a cômoda. Foi hesitante pegar a comida e se sentar devagar ao lado de Sai, numa distância que ficava claro que ele não a deixava confortável, como uma planta venenosa que não pudesse tocar.

Hanabi tamborilou os dedos sobre o alumínio da marmita e fixou seu olhar sobre Sai. Ainda sentia que estava fazendo algo errado, pois ela o encarava como se esperasse algo mais. Não tinha ideia de que algo mais seria aquele. Não havia sido treinado para lidar com crianças.

De repente, ela voltou a aprumar a postura e a endurecer o olhar. Estava se posicionando novamente como um soldado, algo com que Sai se sentia melhor para lidar.

— Estou aqui como estagiária. – ela disse por fim. – Estou sendo moldada desde os sete anos para ser o futuro da ANBU e beneficiar Konoha com um serviço secreto de maior qualidade integrando o conhecimento teórico e vivenciado.

— Será uma das regentes da ANBU então. – confirmou apoiando o garfo nas batatas de sua marmita. Mesmo que o cheiro fosse agradável, ainda assim, a fome não lhe vinha.

— Positivo. – ela assentiu junto da palavra. – Meus mestres ficaram satisfeitos com meu rápido avanço e me designaram a uma missão de seis meses de convivência com o regimento da ANBU antes de voltar para a instrução teórica. Serei sua parceira enquanto tenho meu nível calibrado pela equipe do General Hyuuga Hizashi para melhor adequação de minhas novas lições.

— Seus pais não se preocupam? – aquilo Sai sabia que podia perguntar, pois ele e Shin ouviram com frequência.

“Tão novos para entregarem sua vida ao exército.”

A voz de Hanabi espantou a lembrança.

— Sim, mas também sentem orgulho. – ela ergueu o pulso esquerdo, onde o elo metálico dos ANBU’s brilhou refletindo a luz artificial do ambiente fechado. – Sou monitorada com mais precisão que qualquer outro agente da base. Se eu for agredida de qualquer forma fora do treino ou passar do meu próprio limite físico, serei localizada, auxiliada e meu estágio interrompido imediatamente.

Acertou ao pensar que estava tudo sob controle. Não que parecesse mais natural. Ainda era bizarro demais pensar em alguém tão fisicamente fraca andando entre eles, assassinos ferozes e treinados com extremos.

Mas não vocalizou. Sorriu.

— Ajudarei para que não seja ferida.

Mas, para sua surpresa, as palavras pareceram ter um péssimo efeito, pois os olhos de Hanabi se arregalaram antes que ficassem estreitos em repreensão e o maxilar endurecesse.

— Agradeço por não ter me subestimado hoje e apreciaria se permanecesse assim. – anunciou com a voz firme. – Conheço meus limites e estou aqui para vivenciar. Não terá o efeito desejado caso alguém amenize a experiência.

Sai se viu novamente diante dos soldados na cabana de alistamento. Os risos, o deboche, a raiva, a descrença. Dessa vez era ele o soldado a fazer o deboche e sabia o quão ruim era estar do outro lado.

Não sorriu. Algo lhe dizia que sorrir não seria bom. Também não queria fazê-lo.

— Entendido.

Hanabi assentiu uma única vez, ainda com a expressão dura. Porém, segundos depois, a relaxou e voltou a parecer curiosa.

— E você? Parece bem mais novo que a maioria para estar aqui.

— Eu fui recrutado por um homem que chamavam de louco. O tiraram daqui, mas nos mantiveram por sermos bons.

— Nos? Você e mais quem?

A curiosidade era inocente, mas Sai a detestou. E os olhos perolados pareceram notar.

— Perdoe-me. – ela voltou à seriedade, encerrando a curiosidade.

Sai não podia permitir que se deixasse levar assim. Voltou a se concentrar e sorriu.

— Meu irmão. Ele morreu cumprindo bem seu treinamento. – apontou para a bandeja dela. – Não vai comer? Precisa de comida para deixar de ser tão fraca.

Foi a primeira vez que Sai viu um olhar ofendido.

Mas não a última. Hanabi era séria e determinada com sua máscara de Javali durante a rotina de ANBU. Entretanto, quando ela e Sai conversavam despreocupados ou dentro do quarto, ela se permitia demonstrar sentimentos. Ela era bastante expressiva, por mais que se obrigasse a recuperar o porte severo após algum deslize muito brusco, e Sai aprendeu rápido com suas mudanças.

Ela sempre o surpreendia. Sempre.

— Sai, o que você acha de códigos?

— Que tipo de códigos?

— Do tipo que você pode usar diante de todos e ninguém que não pode entenderá.

Avaliou o teto em silêncio. Hanabi estava na cama abaixo, ainda sem conseguir dormir, como ele.

— É uma boa ideia. – disse, por fim. – Como imagina isso?

— Com palavras chaves. Como as que são usadas em missão. Mesmo que alguém ouvisse a conversa, não entenderia tudo. Por exemplo, quero dizer que percebi inimigos se aproximando para você, que ainda não notou. Então vou dizer ‘situação espinhosa essa, não é?’

Riu. Seus risos eram imitações de outros que ouvia. Não era nada original ou empolgante. Aquele nasceu tão naturalmente que não saberia dizer se havia sido um riso apropriado para uma interação social.

— Espinhos para inimigos. – repetiu e cruzou os braços atrás da cabeça. – E como indicar a direção?

— Que tal… horários? – a voz dela soava empolgada.

— Isso é padrão. Norte às 12, sul às 6.

— Então não funcionaria?

— Dependendo do contexto. – olhou para o lado, vendo a beira da cama e a parede, mesmo que não pudesse ver Hanabi. – Quais outros códigos você pensa?

Um mês de convivência depois foi a vez de Sai ser mais observado e imitado. Hanabi aprendia rápido e sua técnica começou a se adaptar a de Sai. Sendo tão nova, a energia dela e velocidade de recuperação eram estrondosas, embora ainda não pudesse dizer que estava sendo levado ao seu limite.

Não, não era limite que Sai sentia. Era… simpatia. Gostava de ver o quanto ela melhorava. O quanto ficava mais forte e se endurecia. Quando pulava mais alto, quando aguentava um coice mais forte, quando derrubava outro oponente. A sombra da perda de Shin o perseguia, mas usou todas as suas energias para observar o crescimento de Hanabi e mantê-la protegida. Ela ficaria furiosa se soubesse disso, mas Sai olhou por sua segurança. Como não fez por Shin.

Não que fossem parecidos. Hanabi tinha… cor. Vibrava como nem Sai ou Shin fizeram algum dia. Ela era feliz e Sai sabia que aquilo significava que sua presença na ANBU a destruiria.

Esse tipo de pensamento começou a surgir com mais frequência em sua mente a medida que os meses avançavam. Não recebia missões e imaginava que aquilo se devia a Hanabi. A rotina era fixa nos treinos e convivência com outros ANBU’s, nenhum lado sujo ou sanguinolento apresentado à pequena.

Sai não queria que ela visse, pois se lembrava de como foi ver aquele pequeno barracão que chamavam de casa incendiar e os gritos correrem pela vila, sem ninguém para ajudá-los. Sequer ouvi-los.

Foi o lapso de distração que Hanabi precisou para fazê-lo cair de joelhos em um dos treinos e chutar-lhe no rosto tão forte que Sai, por um segundo, achou que quebraria o pescoço.

Caiu para o lado com a visão turva e todo o lado esquerdo da cabeça ardendo sob a pressão aplicada violentamente sobre a máscara. Sentiu o gosto metálico na boca e percebeu que havia se mordido.

— Sa… Canário?! – Hanabi se colocou na frente dele. Estava abaixada, a máscara o encarando fixamente e a mão pequena no ombro de Sai. – Tudo bem?

Assentiu. Sentou-se devagar, cuidando para sentir o que o chute havia lhe provocado. Tontura, com certeza. Dor, definitivamente. Talvez um pouco de humilhação, nada demais.

Ouviu um riso baixo vindo do javali diante de si. Ela logo tratou de se conter, como se o momento não houvesse existido. Mas existiu.

— É a primeira vez que acerto você.

Era verdade. Cinco meses e finalmente havia baixado a guarda. Estava claro que, para o bem de Hanabi, não poderia repetir a falha.

— Aposto que não conseguirá de novo. – disse voltando a se levantar, ignorando a atenção alheia que o treino de Hanabi sempre provocava.

Não permitiu que Hanabi ganhasse outra vez e a pressionou cada vez mais, ampliando a dificuldade até o ponto em que ela precisava lhe pedir tempo.

— Sai, tenho um questionamento. – ela perguntou ainda naquele dia, enquanto comiam dentro do quarto.

— Estou ouvindo.

— Você canta?

Terminou de levar o garfo até a boca e ergueu o olhar para Hanabi, que comia com os olhos curiosos voltados na direção dele. Analisou a pergunta, pois ela lhe parecia muito fora do contexto.

Assim que engoliu, retrucou.

— Não. Por quê?

Ela ergueu o garfo.

— Não tenho certeza ainda – falou como se segregasse algo realmente muito sério. – mas acredito que os nomes não sejam dados ao acaso. Cada um recebe um animal que remeta a uma característica do agente.

— Isso poderia comprometer a identidade.

— Se você conhecer a identidade, claro. Ninguém aqui dentro fica procurando o rosto ou a personalidade um do outro. Inimigos lá fora também nada saberiam disso. Mas para colegas de time, por exemplo, facilita a ligação do animal com o agente.

Comeu mais uma garfada antes de tornar a falar.

— E no que eu pareço com um canário?

— Não sei. Mas deveria ser assim, faz todo o sentido. – ela aprumou a postura, como sempre fazia quando sua opinião era expressada. – Eu, por exemplo, carrego a máscara de javali porque iniciantes acham que é fácil lidar com um suposto porco selvagem, quando na verdade são necessárias várias pessoas para lidar com apenas um. E basta um segundo para ter suas entranhas rasgadas por uma das presas.

Saiu riu e lhe apontou o garfo.

— Uma fracote como você? Ainda precisa treinar muito para se vangloriar assim.

— Quem foi que levou um chute na cara hoje, hein?

Era divertido falar com Hanabi. Era fácil.

Foi estranho quando, seis meses depois de se conhecerem, eles se levantaram, colocaram as máscaras, apertaram as mãos e ela se foi.

Simples assim.


~

Quatro anos


Sai fechou a janela após encerrar sua leitura. Livros explicando sentimentos não eram de grande ajuda quando se tratava daqueles oito. Eram difíceis de se compreender e cada um diferente demais um do outro. Não sabia porque havia sido designado para um grupo tão complexo.

Naquele momento, estavam berrando uns com os outros na ala designada para o time. D37, a equipe ANBU da qual Sai agora era encarregado de liderar. O que uma vez lhe parecera o maior fracasso de Konoha de repente estava se tornando o maior sucesso.

Os outros arranjos em que esteve, foi apenas temporário. Eram grupos simples e intuitivos que não precisavam mais da presença de Sai em questão de semanas. Já a D37 havia se tornado um único corpo, como havia proposto, e ele era um dos órgãos a colocar aquele corpo para funcionar. Foi uma surpresa até para ele que ficasse tão atado a eles.

— Vamos lá, senhores? – sorriu para o time antes de colocar a máscara. Tornaram a berrar alguma comemoração e os oito mais Akamaru se ergueram em um pulo, se preparando para mais uma simulação.

Sai os liderava pelo corredor como o professor de escolinha guiando duas linhas perfeitas de homens rindo uns com os outros. Kyuubi, era como eram chamados há um ano. Ninguém sabia que eram eles, mas o nome era conhecido e temido. Caminhavam entre outros ANBU’s rindo entre brincadeiras, nenhuma pista do grupo de assassinos de elite que eram.

Estavam passando em frente ao almoxarifado quando a máscara com presas de Javali cruzou seu caminho.

Era ela, certamente. Não mais uma criança, mas ainda não era mulher. Não, continuava pequena e franzina, uma cabeça mais baixa que Sai, o caminhar confiante, a postura ereta.

Eles se encararam. Sai se virou para acompanhar a caminhada dela, sendo imitado, enquanto os dois ainda seguiam em direções opostas. Quantos anos ela deveria ter? 15? 16? Provavelmente 16, era a idade média permitida pela ANBU. Devia estar mais forte e mais rápida. Sua técnica deveria estar impecável.

— Nem disfarçou. – disse Lee logo atrás de si. – Caras, o Canário flertou!

— Ela olhou de volta. – disse Kiba em algum outro ponto. – Hoje tem, hein?

Sai riu enquanto voltava a olhar para frente, quando se tornou impraticável olhar para trás e caminhar ao mesmo tempo.

— Concentrem-se nos pênis de vocês. – disse sobre o ombro, ganhando risos e exclamações de protesto.

— Ele tem coragem de falar isso! – Naruto falou alto.

— Ainda pouco depois de falar que o Coruja era uma menina bem-dotada. – Shino ressaltou.

Tornou a rir, mas não lhes deu corda. Para a segurança de Javali, agora sua tarefa era fingir que não a conhecia.

O que se provou ser uma tarefa complicada, uma vez que ela aparecia em quase todos os cantos que olhava no andar da ANBU. Era como se alguém orquestrasse para que se esbarrassem o maior número de vezes e cuidou para que ninguém da Kyuubi percebesse e marcasse sua máscara. Neji e Shikamaru fatalmente já haviam percebido, mas não era algo a se preocupar tanto. Sabiam que Sai já havia tido colegas antes de fazer parte da Kyuubi, não era grande surpresa.

Eles mesmos tinham seus próprios encontros para resolver. Naruto e Sasuke, por exemplo. Finalmente haviam se acertado e não conseguiam desgrudar um do outro. Nem quando Sai passava por trás do sofá onde os pombinhos se atracavam com violência, e seguia para a saída da ala da D37.

Encontrou Javali do lado de fora da base, a céu aberto, os dois usando suas respectivas máscaras e uniformes. O aguardava na área afastada da pista de corrida. Ela voltou o rosto para ele e desapoiou do tronco.

— Você parece bem entrosado com sua nova equipe. – foi a primeira coisa que ela disse.

Sai sorriu, mesmo que ela não pudesse ver.

— Ninguém diria isso há dois anos. – caminhou até o lado dela, onde parou e deixou o corpo pender para o lado até o ombro apoiar na madeira. – Todos se odiavam e me detestavam como líder.

— Só como líder? – ela riu. – Mas o grupo vingou, se foi por dois anos.

— Surpresa para mim, confesso. E você? Acabou de voltar para a ANBU?

— Sim. Acho que ficarei sozinha. – ela voltou a apoiar as costas no tronco e cruzou os braços. – Meu parceiro acha minhas ideias tolas. Pouco concordamos. É um grande babaca na maioria das vezes.

— Já tentou chutar a cara dele? Talvez coloque algumas ideias no lugar.

Seu riso foi um pouco mais alto. Quase lembrava Naruto com a empolgação. Mas, diferente do loiro, ela se controlava rápido e logo estava com a pose austera mais uma vez.

— Foi quase. É normal me subestimarem.

— Caçadores iniciantes que acham que conseguem lidar com um javali sozinhos.

— Melhor para o javali. – ela ergueu o rosto, encarando as copas das árvores. Sua voz abaixou e ganhou um tom solene de segregação e seriedade. – Você é da Kyuubi, não é?

Sai olhou a amiga em silêncio. Ainda não havia visto seu rosto novamente desde que ela ainda era criança. Podia apenas imaginar os olhos perolados e curiosos focados no céu.

— Mesmo se eu fosse, eu não poderia dizer. – respondeu. Hanabi assentiu.

— Eu sei. – ela cruzou uma perna sobre a outra, ainda de pé. – Só quero me gabar um pouco. Você disse que ninguém diria que você e sua equipe conseguiriam se dar tão bem quanto se dão agora. – ela balançou o pé no ar. – Eu apresentei o projeto de união de habilidades com personalidades. Os regentes acharam interessante aplicar em um teste e acabou sendo uma equipe de quatro duplas e um agente solitário. Nove homens muito diferentes, cada um com uma habilidade que completava o outro da forma que eu havia estruturado. – ela fez uma pausa. Espiou Sai e voltou a olhar para cima. – Fui informada um ano depois que a abordagem havia sido um sucesso. O grupo que eu selecionei se tornou o melhor da divisão e cresceram tanto como exemplo que estão usando o método como padrão agora na ANBU, calibrando personalidade e habilidade.

Não sabia qual parte apontar como mais surreal. Hanabi ser tão influente daquela forma, ter sido tão bem-sucedida, Sai ser parte de um projeto experimental ou a Kyuubi só existir por causa daquela garota ao seu lado.

Não duvidou que fosse verdade. Sabia que as ideias de Hanabi eram aplicáveis e avançadas com um frescor que pouco via entre os agentes. Esperou que ela voltasse a falar mais alguma coisa, mas o silêncio pairou sobre eles até Sai ter certeza de que não haveria mais comentários a respeito. Ela não poderia falar mais ou insistir em lhe pedir o nome de seu time. Ele não poderia confirmar, nem agradecer como queria. Pois estar naquele grupo com aquelas oito pessoas tão diferentes havia se tornado uma de suas coisas mais preciosas.

Hanabi não havia deixado de ser fascinante. Ela possuía duas faces da qual Sai só era permitido ver uma delas quando isolados e longe de qualquer outros olhos, pois Javali queria manter sua aparência de intocável. E era assim. Ela não era vista com frequência nos treinos ou nas missões. Ninguém comentava a respeito. Sabia que só conseguia notá-la por tê-la conhecido antes. Do contrário, seria apenas mais uma máscara. Nada marcante ou que a delatasse.

Então foi raro que conversassem, mas quando o faziam, eram sempre conversas interessantes. Deixavam nomes e assuntos pessoais demais de lado. Focavam-se nas missões, no que encontraram, nas ideias de Hanabi e em formas de colocá-las em prática na ANBU.

Mais uma vez ela estava em um período experimental, dessa vez de quatro anos. Agora com a idade mínima necessária e com a capacidade de aguentar o recuo de um fuzil, ela participava de missões e sentia na própria pele o que era ser um ANBU. Sua principal tarefa era observar o que sua nova fórmula para união de grupos era capaz na prática e buscar melhoras, falhas ou possíveis mudanças.

Além disso, ela já era uma ótima agente. Não precisava vê-la nos treinos para saber daquilo, bastava ouvir seus relatos das missões. Sua precisão em detalhes e técnicas. A facilidade com que narrava um embate como quem descreve uma partida de xadrez. Ela parecia a união de Neji com Shikamaru em uma figura feminina.

Foi ela quem amparou o primeiro surto que teve na vida.

Já estava chegando a data de encerramento do período de teste dela. Mas aquilo não vinha à mente de Sai, apenas a agonia da falha, da perda e da amarga incapacidade de fazer algo.

Kakashi tinha o olhar severo sobre eles. Kiba socava um sofá sem parar, assim como havia feito a viagem inteira dentro do avião. Shikamaru tinha a cabeça segura entre as mãos, Lee e Chouji cabisbaixos no luto, Shino mexendo as mãos nervosamente e Neji andando impaciente no canto da sala.

Sai sentia todo o seu ser dizendo para fazer algo. Não podia. Mas ainda precisava. Não sabia o quê. Chorar? Não, não queria chorar.

Falharam. Da pior forma possível. E perderam dois dos seus.

— Como… – Kakashi tinha a voz baixa e falava pausadamente, como se formular uma frase fosse uma das tarefas mais difíceis com que teve que lidar. – Sasuke e Naruto se separaram de vocês?

— Foi minha culpa. – Shikamaru respondeu rápido. – Sasuke disse que havia encontrado um servidor-

— Eu deveria ter proibido. – Sai o cortou. Podia não saber o que queria fazer, mas sabia o que não podia deixar que seu time sentisse. – Eles saíram do plano, Sasuke devia querer algo com a Akatsuki sobre Itachi.

— Eu estava cuidando das posições, você precisava se concentrar no avanço de Shino.

— Eu sou o líder. Eu protejo vocês.

— Calem a porra da boca! – vociferou Kiba. Akamaru ao seu lado permaneceu com a cabeça e orelhas baixas. – Todos nós sabíamos que era uma ideia de merda, ninguém falou nada!

O silêncio recaiu sobre os oito presentes. Viu Lee respirar fundo e estremecer, os lábios curvos, segurando o choro. Apenas Sai, como líder, era responsável por aquela feição. Pela reação e agora peso que recaía sobre a Kyuubi, até então a imbatível equipe de Konoha.

Kakashi aguardou mais um minuto, então voltou a falar.

— Disseram que eles tinha informações sobre uma arma.

Sai assentiu.

— Biológica. – falou com o que restava de seu controle. – Estava em um servidor isolado da vila. Sasuke encontrou e se atrasou para baixar. – respirou fundo. – Não temos detalhes do que se trata.

O veterano assentiu. Então olhou para o chão. Um suspiro duro e pesado deixou a segunda máscara do antigo ANBU e ele levou as mãos à cintura, a imagem de um homem muito, muito cansado.

— Veado e Canário, Tsunade quer vê-los. – ele anunciou por fim. – Na sala do conselho. Já.

A conversa foi longa, precisaram repassar o relatório de cada um três vezes para serem mandados repassar mais uma quarta vez. A Kyuubi foi afastada, passaram por exames psiquiátricos, desenharam mapas, simularam posições, assistiram buscas e ouviram sermões sem fim.

Ainda assim, queria fazer algo. Só não sabia o quê.

Javali o chamou por mensagem. Uma curta linha, como sempre, mas foram se encontrar na área de treinamentos padrão, onde os soldados comuns frequentavam.

A área das piscinas pela madrugada era surpreendentemente vazia e Javali estava lá sozinha, chamando atenção como um facho de luz.

Não, Javali não. Hanabi. Sem a máscara e sem o uniforme ANBU. Estava com roupas de treino padrão, camiseta branca e calças camufladas. O cabelo dela, antes cortado rente ao queixo, agora chegava na metade da cintura, caindo numa cascata castanha extremamente parecida com a de Neji. O rosto ainda era muito delicado, os olhos ainda carregando seriedade. Uma maturidade que aqueles que cresciam na guerra eram forçados a obter.

Ela não esperou por ele. Fechou a porta passando o elo do braço na tranca e os isolando dentro. Parou ao lado de Sai e o observou em silêncio. Mas ele não sabia o que queria.

— Vamos, tire a máscara. – ela falou.

Devagar, Sai retirou e lhe sorriu.

— Quanto tempo, não? – falou. Hanabi, no entanto, não gostou do sorriso. O encarou com o olhar estreito e torceu a boca.

— Pode parar. Sei que não quer sorrir.

Verdade, não queria. Não queria estar ali também. Mas não sabia o que queria de fato.

Desfez o sorriso e sentiu os olhos pesarem. Estava tão cansado. E mesmo assim não se achava no direito de dormir.

Hanabi o encarava de perto, como se lesse uma escritura antiga e complexa. Estava difícil usar seus conhecimentos adquiridos em livros no momento, não sabia que tipo de raiva ela sentia ou se estava mandando algum sinal.

— Grite.

Piscou, confuso.

— Desculpe?

— Grite, vamos. – ela deu alguns passos para trás, mais para dentro da área, e abriu os braços. – Grite tudo. Só deixe sair.

Franziu o cenho. Sentiu-se desconfortável sobre as próprias pernas.

— Por quê?

— Sai, inferno. Só grite. Forte, para o alto. Assim. – era ergueu o rosto e gritou.

Foi estranho. Ela nunca erguia a voz. E a voz dela repercutiu aguda contra as paredes. Os olhos perolados voltaram a lhe encarar.

Sai fechou os olhos, balançou ligeiramente a cabeça e gritou. Ou disse um ‘Ah’ alto, não sabia.

— Mais alto! – ela falou.

Sai a encarou, franziu o cenho novamente. Hanabi ergueu as sobrancelhas e gesticulou na direção dele como se dissesse ‘anda’. Desviou o olhar para o teto. Era estranho, mas gritou mais alto.

— Mais!

Fechou os olhos e gritou mais alto.

— Mais! Forte!

Gritou. Sua garganta doeu, suas mãos se fecharam firmemente.

— De novo!

Mais um grito. Ela gritou com ele. Sai fechou os olhos. Sua voz parecia rasgar as paredes de seu esôfago. Sentia qualquer coisa afiada deixar seus pulmões e passar por seus lábios. Sentia as próprias unhas quererem perfurar as luvas do uniforme e ferir suas palmas. Gritou para o teto, para as paredes, para o chão. Grito com Hanabi que era uma doida. Gritou para si mesmo, que era um inútil. Gritou para a Akatsuki, que era uma desgraçada de uma organização terrorista. Gritou para Sasuke e Naruto, dois mongóis que se deixaram capturar e agora poderiam estar mortos. Ou pior.

Devia ter ficado muitos minutos gritando. Estava sem voz quando finalmente caiu sentado e chorou aos soluços enquanto seus dedos arranhavam o chão querendo se segurar em alguma coisa.

Hanabi surgiu diante dele e o abraçou. Sai a abraçou de volta, afundando o rosto em seu ombro. Não sabia se era certo, mas pareceu certo. Tremia e soluçava, seu interior uma confusão que não sabia nomear.

Mas, de alguma forma, sentiu que finalmente havia feito algo que queria e que precisava.


~

Duas semanas


Sabia que ela havia sido promovida, mas não sabia quando. Haviam parado de se comunicar desde aquela noite estranha em que gritaram para um lugar vazio e Sai chorou como uma criança. Ela voltou a desaparecer e Sai voltou a servir com a Kyuubi. O que restava dela. Javali devia ser a mais jovem regente da ANBU em toda a história de Konoha desde sua fundação.

Hanabi agora era uma mulher feita, nada mais lhe lembrava a garotinha que conheceu há quatorze anos. Nem mesmo a máscara, que agora possuía grafias diferentes, com adornos nas presas, enfeitando-as como se fossem de ouro. Vinte e quatro anos no auge de sua carreira militar. Seu parceiro era Jaguar e os dois ficavam lado a lado como esfinges fazendo o julgamento.

— Eles já foram ANBU’s. – ela falou com a voz firme. Sai sentiu arrepios com sua autoridade. Não, não havia nada da garotinha. – Um ex-ANBU é melhor para avaliar um ANBU que alguém que nunca praticou o treinamento.

— Que assim seja. – disse Tobirama. – Enviem informantes para colocarem os novos analistas a par dos acontecimentos e necessidades. Iniciaremos o procedimento de adaptação das equipes dentro e cinco dias. Dúvidas?

Sai viu aquela como sua oportunidade e ergueu a mão.

— Só uma coisa. – sorriu por baixo da máscara. – Posso dar uma sugestão de quem pode atualizar nosso analista?

Houve um breve silêncio interrompido por um ‘sim’ simultâneo entre Hizashi e Javali.

— Texugo. Os dois se conhecem menos que todos da Kyuubi, então acho que um tempo para entrarem em sincronia antes de chegarem aqui seja proveitoso.

Não era bem verdade. Queria apenas dar tempo para Gaara conversar a sós com Naruto com a privacidade que eles dificilmente teriam ali.

Hizashi e Javali cochicharam um com o outro. Por fim, o general assentiu.

— Dispensados. – anunciou Tobirama.

Nunca viu Gaara tão empolgado. Claro, no limite do que o rosto inexpressivo que o soldado de Suna possuía. Durante os próximos dois dias em que eram levados de Konoha para Kansas nos Estados Unidos, viu seus colegas de time fermentarem em ideia de como recepcionar o antigo companheiro. Ele mesmo estava ansioso, mesmo que nunca conseguisse expressar em palavras como ou porquê. Era apenas a sensação de Naruto voltando e o grupo tendo uma imitação da forma que já tiveram um dia.

Havia um prédio inteiro servindo como base para a ANBU na cidade texana, onde Gaara recebeu as ordens, o itinerário e suas falas com o olhar atento e dedicação de um devoto. Sai se pegou sorrindo enquanto o observava junto de Shikamaru, o estrategista repassando pela terceira vez o que era necessário ser dito.

Deu as costas e acenou para Chouji, o mais próximo da porta.

— Vou tentar conseguir alguns detalhes da missão. – avisou antes de sair.

O que não deixava de ser verdade, mas não era sua prioridade. Sua curiosidade era quem estava ganhando no momento, e o fascínio de mais uma ver aquele ser que tanto lhe instigava.

Javali, oficialmente, fazia parceria com Jaguar, mas imaginava que nem mesmo o outro regente conhecia seu rosto, como Sai conhecia. Regentes deveriam manter sua vida sem a máscara em absoluto segredo assim que assumissem seu posto e isso demandava quartos separados.

Apertou a campainha da porta de Javali e aguardou.

Quando ouviu o trinco se abrir, entrou.

O ‘quarto’ era um apartamento inteiro, quase do tamanho do da Kyuubi, que mesmo comportando oito homens e um cachorro, ainda era grande demais.

Hanabi ocupava aquele sozinha. Estava de pé, próxima a uma mesa onde o jantar dela estava servido. Não usava o uniforme ANBU, havia colocador calças de moletom e uma camisa que devia ser dois números maior que o ideal.

O cabelo agora estava mais curto. Tinha as laterais raspadas em um corte militar e uma franja longa que caía sobre seu rosto. O sorriso era suave, o olhar sempre afiado e agora tinha uma sobrancelha erguida. Combinada com a mão na cintura, era quase como se ela já risse da situação.

— Desde quando Sai, o Canário da Kyuubi, é um cupido? – ela perguntou.

— Desde que compreendi que agentes felizes são agentes melhores. – sorriu enquanto se aproximava. Ela havia crescido alguns centímetros e ficado mais robusta. Mais curvas, mais força. Tudo nela agora era mais. – E desde quando Hanabi, o Javali das sombras, é regente da ANBU?

— Há dois anos, acredite ou não. – ela caminhou para a mesa. – Quer jantar? Porque eu estou faminta.

Desencaixou a máscara de Canário do rosto e lhe deu um breve, mas verdadeiro sorriso.

— Será uma honra.

A comida dela não era diferente da deles. Não era mais requintada ou mais fresca. Embora tivesse mais espaço, ela também desfrutava apenas das coisas que soldados comuns desfrutavam. Mesmo equipamentos, mesma tecnologia.

— Neji entregará a máscara para Naruto? – ela perguntou. Claro que ela sabia que ele havia pedido.

— Ele está com vergonha. Provavelmente serei eu.

Agora não havia porque esconder identidades, já que a posição dela era a de suprema entre os ANBU’s. Tudo e todos eram de conhecimento dela, mais até que Kakashi.

Todavia, Sai tinha como verdade para si de que regentes apenas conheciam o básico dos relatórios. Hanabi parecia o tipo de pessoa que dava atenção a cada um. Conhecia-a bem o suficiente para saber que era bem provável. Era parte do plano de organização da ANBU dela, afinal.

— Posso fazer uma pergunta íntima? – perguntou quando já estavam servidos. Ela lhe lançou um olhar desconfiado. Comeu uma garfada da massa escura que devia ser soja e assentiu devagar.

— Só não garanto responder. – falou após engolir.

— Você é irmã de Neji?

Ela manteve o olhar estreito, como se avaliasse até onde poderia ir com ele. Sai comeu em silêncio, sem se importar em ser analisado. Teria feito o mesmo.

— Não. – finalmente falou. – Sou irmã da Hinata.

Foi quase instantâneo sentir as próprias sobrancelhas se erguerem com surpresa. Tudo bem, era fácil ver as semelhanças físicas. Mas acreditava que irmãos teriam personalidades mais semelhantes na personalidade também. Hinata era uma analista tímida, mesmo que determinada em seus argumentos. Hanabi era… feroz. Até quando lhe encarava em silêncio, lentamente levando o talher com comida à boca.

— Ela sabe?

Hanabi assentiu discretamente.

— Não quis esconder dela. Todos precisamos de alguém para dar total confiança e ser um ombro amigo. – ela comentou, voltando a comer.

Sai sorriu. Mas sentiu algo estranho com aquela frase. No fundo, bem no fundo, em uma parte que não sabia que existia, quanto mais poderia compreender.

Achava que ele seria esse ombro amigo de Hanabi, assim como ela era o dele.

E, claro, não vocalizou aquela estranha sensação.

Manteve-se no itinerário. Recepcionaram Naruto e para ele foi como sentir-se mais uma vez a completude que a Kyuubi não tinha em anos. Estarem juntos de novo foi uma paz que não se lembrava de sentir. Vê-lo feliz com Gaara, ver os colegas rindo juntos.

Naturalmente, não podia esperar que a felicidade durasse para sempre. Não naquela guerra.

Quando Suna foi atacada e precisaram conter Gaara que recebeu a notícia de Temari morta. Quando Naruto voltou a se quebrar e Sai os guiou para a nova base. Quando ouviram finalmente a história da captura de Naruto e Sasuke pela boca do loiro. Sai voltou a sentir a estranha necessidade no peito clamando por ser liberada. Não podia fazer na frente dos garotos. Era o apoio deles e um bom apoio devia ser rígido e inabalável pra dar sustento.

Hanabi, como Javali, já tinha conhecimento do surto de Gaara e disse que seria melhor afastá-lo de qualquer possibilidade de se encontrar com a Akatsuki para buscar vingança. Já tinham histórico daquilo com Sasuke e nem mesmo Sai queria arriscar aquele cenário de novo. Não agora que Naruto havia finalmente voltado a sorrir.

Esperou que a reunião acabasse e disse para que Shikamaru e Naruto seguissem em frente enquanto ele pegava alguns detalhes. Eles foram e Sai rumou para outro corredor do labirinto da base até a porta de Javali.

Ela abriu a porta. Nada de sorrisos, nada de máscaras. Sai não se forçou a parecer bem e Hanabi não o expulsou. Deixou que entrasse e trancou o cômodo.

— Prometa cuidar de Gaara. – pediu. Estranhou a própria voz. Havia se acostumado a pincelar emoções, mesmo que falsas, e deixar sair em seu tom natural foi ímpar. – A Kyuubi não pode com mais perdas.

Admitir aquilo também era estranho. Eram soldados, afinal. Perderiam colegas, mas ainda avançariam. Ou era o que deveriam fazer. Mas percebeu com a morte de Sasuke e a desestabilização de Naruto que não demorariam a desestabilizar completamente e sucumbirem. Pois aquele era o preço a se pagar quando se tinha companhia.

— Eu darei minha vida para protegê-lo. – ela respondeu.

Sai se virou para Hanabi. Por um minuto inteiro, passou a imaginá-la morta. A garotinha que conheceu, erguendo o queixo determinada a não ser julgada por sua aparência, para a mulher forte e líder da ANBU. Sua boca calada para sempre, sem mais vocalizar as brilhantes ideias que seu cérebro processava ou sorrir da forma empolgada enquanto narrava suas aventuras. Os olhos opacos, encarando o vazio. Uma perda tão infeliz para o mundo. O planeta não seria o mesmo sem aquela mente.

Não percebeu o passo que deu para perto dela, mas estava a apenas alguns centímetros de distância. Tinha as mãos abertas ao lado do corpo, querendo avançar. Tinha o rosto voltado para baixo, encarando a face delicada, dona de uma expressão que, como Sai, queria algo, mas não sabia o quê.

— Prometa cuidar de si também. – falou baixo. – Por favor.

Seus lábios estavam repartidos. Seus olhos corriam pelo rosto de Sai. Viu sua pele corar e a respiração aumentar, batendo contra a sua. Parecia ansiosa de um modo que Sai viu em poucos, de uma forma muito mais suave. Seu peito ainda clamava por alguma coisa. Mas não era gritar.

— Farei o possível. – foi um fio de voz que ouviu dela. Nunca a ouviu pronunciar naquele tom.

Ainda queria algo. Era tão mais fácil ajudar outras pessoas do que compreender a si mesmo.

Não saber o que queria o fez ficar parado por muito tempo. Também o fez se virar e seguir para fora, voltando a colocar a máscara.

Nunca mais viu Hanabi novamente.


~

Um dia


Sai parou diante do mural com as estrelas. Nenhuma delas tinha um nome, mas todas eram alguém. Hanabi ainda não possuía a dela, já que a loucura das últimas semanas impediam uma cerimônia para os ANBU’s falecidos.

Não estava contente em pensar que ela teria uma, de qualquer forma. Que estrela de metal poderia substituir alguém tão brilhante quanto era Hyuuga Hanabi?

Torceu a boca sob a máscara. Ainda sentia aquela estranha sensação no peito. Havia piorado quando soube do desaparecimento dela e de Gaara e depois do anúncio de que Gaara havia sido escondido. Apenas ele.

Ela havia cumprido uma das promessas. Havia dado a própria vida para proteger Gaara. Gaara, a tão comentada nova peça do quebra-cabeça. A cura para um vírus que mataria dois terços da população mundial. O soldado desgarrado que conseguiu lhes dar um grande trunfo que foi encontrar um dos membros mais misteriosos da Akatsuki.

Respirou fundo. Via pessoas indo até ali para conversarem com a parede, como se as estrelas fossem capazes de entregar a mensagem para os mortos, já que a maioria deles não possuía túmulo. Como Hanabi, que nunca seria encontrada.

E o que falaria? Que ela havia salvado Gaara e que agora o mundo estava contra eles? Provavelmente ela ficaria furiosa, como todos eles. Estavam dando a própria vida e felicidade para defender pessoas que os julgavam e condenavam.

Talvez devesse falar que gritar sozinho não era o mesmo de quando havia gritado junto dela. Ou de como Naruto estava fissurado na busca por Gaara, novamente desaparecido. Talvez devesse falar que ainda estava sustentando a Kyuubi. Fora ela que o colocara naquela posição, afinal. De líder do melhor time que Konoha já havia visto.

Gostava de pensar que Hanabi se orgulhava deles. Era um dos significados quando ela dissera que queria se gabar, não era? Devia ser.

Esperava que fosse.

Canário, saímos em quinze minutos. – anunciou Shikamaru pelo comunicador. Levou a mão até o microfone e o ligou.

— Me dê cinco minutos. – respondeu antes de voltar a desligar.

A jornada para buscar Gaara e salvar o mundo.

Ainda que não quisesse sair dali, sabia que precisava. Hanabi seria a primeira a lhe lançar um olhar repreendedor por deixar a guarda abaixar, quando já deveria ir se concentrar nos planos de invasão.

A sensação do peito não ia embora. Não era gritar, já havia feito bastante aquilo dentro da água, onde ninguém podia ouvi-lo desmoronar.

“Você canta?”

Riu ante a lembrança da pequena e inocente Hanabi. Aquela que não mais existia e merecia o mundo. Talvez ela merecesse uma canção daquele pássaro que não cantava.

Tomou fôlego. E cantou.


12 de Abril de 2018 às 13:27 2 Denunciar Insira 5
Fim

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Crazy Clara Eu sou só doida mesmo. Mas é um grande prazer conhecê-lo!

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Stolas Stolas
uau eu amo o jeito que você escreve, eu me sinto na pele do personagem, como se tivesse passando por aquele turbilhão de sentimentos junto com ele. Cara, é muito louco saber com o Sai se sente e como ele se sentia antes da Kyuubi e da Hanabi e eu fiquei bastante triste por ele porque por mais que os outros agentes da Kyuubi sejam amigos e próximos quando eles tão passando por algo não tem muito como eles se apoiarem pq cada um tem seu demônio interior pra enfrentar e saber que o Sai tinha a Hanabi pra fazer ele desabafar foi bom e ruim ao mesmo tempo, pq ele tinha essa pessoa que apoiava e que tava observando ele o tempo todo, mas agora ele não tem mais e isso é uma perda muito grande.
13 de Abril de 2018 às 23:19

  • Crazy Clara Crazy Clara
    Eu tiiive ataque de felicidade me contorcendo aqui. Nossa, fico muito feliz que eu consiga passar esse clima de imersão. Uma das coisas que eu gosto muito em histórias é quando não só colocam os coadjuvantes lá para enfeitar o caminho dos protagonistas. Gosto muito quando eles têm profundidade, acho que a história ganha outro discurso. Hanabi, principalmente, foi uma que senti que estava sendo injustiçada. Dei tão pouca atenção para ela, tão pouca dica, que nem chegaram a me perguntar quem era a Javali. Foi uma homenagem para mim e para Sai. E aí, sim, Sai perdeu a pessoa em qual se apoiava. Pessoalmente, acho que todos temos esse apoio. Seja uma pessoa, um lugar ou uma ideia. Meio que me sinto um monstro agora 😂 Socorro. Perdão, Sai. Muito obrigada pelo feedback <3 Continuarei dando meu melhor. 15 de Abril de 2018 às 08:01
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