hopzismo Le Loustic Hop

(NOIR PSICOLÓGICO) - Phishing é a obtenção ilegal de informações sigilosas. Nada é mais sigiloso que a intimidade. Portanto, nas águas da psiquê, de quem é a mão que segura o anzol?


#5 em Crime Impróprio para crianças menores de 13 anos. © Todos os direitos reservados. Proibida a reprodução total ou parcial, ainda que ínfima, sem o consentimento expresso e por escrito do autor.

#noir #suspense #thriller #crime #cult #mistério #policial #psicológico #criminal #mistery #futurista #olembretepermanece #suspense-psicológico #noir-psicológico
12
11.1mil VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

RED-PHISHING: Onde Caçam os Peixes



QUANDO OS IRRIGADORES se acionam, instintivamente o investigador Collin coloca a mão sobre a arma. Dezenas de hélices d’água começaram a girar espargindo bioestimulantes líquidos e fertirrigando com nutrientes agrícolas os diversos retângulos de hortaliças.

— Porra.

A reação teria sido desproporcional mesmo se estivessem à noite, e, vendo-a, a mulher que o acompanhava perguntou:

— Assustado, investigador?

Ela, que o recebia em sua fazenda, talvez tenha sido bonita um dia, mas seus olhos azuis estavam agora emaranhados em sulcos de culpa e rugas precoces. Rugas de 70 numa mulher de 55. Infelizmente, era difícil deixar de notar que Catharina parecia um vago rascunho do que poderia ter sido se não tivesse convivido tantos anos com um fantasma que a imprensa, com tantos, tantos assédios, nunca deixou descansar. Verdadeiras violências institucionais e midiáticas que se fazia em prol de somente audiência. Invasão de propriedade, invenção de calúnias, distorção da opinião pública, tudo isso adoeceu aos poucos o pai de Catharina, Cerezzo Santiago, fazendo com que ela sozinha tivesse que lidar e assumir todo o negócio da família.

— É só água.

Collin foi o primeiro policial a ser contatado depois de muitos anos desde a ocorrência do assassinato.

— Como você teve acesso ao RED-PHISHING? — perguntou ele, anotando. A arma já estava de volta ao coldre abotoado.

Catharina dava instruções a alguns empregados e buscava algo num armário. Aos trancos, removia caixotes e instrumentos pesados enquanto dizia aos homens e mulheres latinos que trabalhavam ali: Llúvia! Ela procurava por uma pá, a qual entregou a Collin assim que a achou, e a ele disse:

— Coloca na carroceria pra mim.

Fishing/Phishing...

Obtenção de informações confidenciais.

Collin pôde ver que o céu começava a se impregnar com um tom branco de uma barra cinza que assomava no horizonte.

— Meu avô tinha um ditado — ela disse, subindo no carona. — Quando os peixes percebem que todo o seu mundo é água, descobrem também que, quando não estão caçando, estão sendo caçados.

— É bom — Collin disse. — Mas eu tenho um melhor.

Peixes são iscas que o lago usa para atrair o pescador.


Quem dirigia a Dodge Ram era Collin.

Sacolejavam por uma estrada de terra que cortava duas outras fazendas e era ladeada por centenas de cercas: pintadas; não pintadas e, então, por cerca nenhuma.

No rádio, tocava Three Wooden Crosses.

E, enquanto Catharina olhava pela janela, Collin lhe dizia:

— Deixa ver se entendi.

Pingos já começavam a cair no parabrisas e na lataria da picape fazendo um chiado surdo. Catharina ligou o desembaçador, e, Collin, os limpadores.

— Então, você matou Angelique Faraday.

— Isso.

— No ano de 1999? — ele quis confirmar.

Os olhos azuis dela se demoraram nele, e então ela confirmou que sim.

O carro sacolejava.

— Mas você tinha 3 anos.

— Policial — Catharina olhou o retrovisor antes de falar, apesar de atrás deles não existir nada a não ser o rastro de lama que a picape deixou no barro molhado —, eu te disse que era complicado.

Já havia te explicado por telefone.

Se você veio, é porque acreditou em alguma coisa.

Certo?

A chuva caía forte.

Certo.

O caminho demorou-se um álbum inteiro do Randy Travis e mais duas faixas para chegar ao fim da segunda fazenda: um cruzamento.

O pisca-alerta da picape tic-tec-tic-tec.

Demoramos a acreditar naquilo que não faz parte de nosso arcabouço de conhecimento. Mas tudo se torna mais fácil quando há verossimilhança nas alegações, ainda que elas soem completamente impossíveis ou absurdas.

— Para onde? — ele disse. Não passava nenhuma pessoa, ou carro.

Catharina olhava a água que escorria pelo vidro.

— Me diz você, policial. Siga seu instinto. Para onde devemos ir?

Era um desafio?

Collin olhou as três possibilidades à sua frente. Um T invertido.

Tic-tec-tic-tec-tic-tec

Então deu a seta à direita, mesmo sem necessidade, e fez a picape seguir por nenhum caminho, mas sim por cima de um matagal, mastigando cascalho de fora da estrada.

— Por aqui?

Catharina só o respondeu com a cabeça. Os olhos azuis percorriam tudo ao redor, como que gravando a paisagem.

A Dodge teve de pegar caminhos pelos quais, por cima deles, há muito tempo, não andavam outra coisa senão patas de boi. Então desceu em direção à área pantanosa do fim de uma terceira fazenda, semiabandonada, cuja posse uma família brigava há anos numa disputa de herança.

A luz do dia estava deixando-os, mas Collin e Catharina só saíram do carro depois que Catharina terminou de fumar. Seus faróis iluminavam um pântano sobre o qual já caía a chuva. As gotas deixavam o solo lamacento arrepiado, espantando os pássaros.

— Então você tem acesso às memórias do seu irmão Robert como se fossem suas.

— Isso — ela disse.

— Engraçado — Collin diz, retirando as chaves da ignição.

— O quê?

—Também me chamo Robert.

Catharina vai até a carroceria para retirar-lhe a lona: — Não são mais memórias dele. Ele está morto.

Collin tinha olheiras lilases.

— Eu não vejo as memórias dele como se as visse por um aquário; eu as vivo. Sabe? Como se eu estivesse dentro desse lago.

Entregando a pá a Collin, Catharina diz:

— Imagine todos os monstros/loucuras que nadam obscuros nas águas da psiquê.

Não à toa a letra PSI (Ψ) é como o tridente de Poseidon.

E, lembre-se: o Hades fica no abismo do mar.

Apontando o pântano, ela diz:

— Pode pescar.

Sem o terno, a camisa social do policial ficou tão encharcada que colou no corpo. Corriam fios de água da gravata e da ponta do nariz. E enquanto relâmpagos rachavam o céu, a pá pontuda batia repetidas vezes na lama fazendo THAC, THAC, THAC cada vez que o buraco se abria mais.

No fundo dele, já começava a formar uma poça marrom.

THAC

THAC

Como você pode ter certeza, se nunca veio aqui?

THAC

THAC

É o que tenho.

THAC

THAC

THAC

TUM.

TUM!

Encontrei.

Collin confirmou a ossada usando luvas de borracha, tentando manter a higidez da cadeia de custódia até a chegada da perícia. Os ossos eram tão antigos e amarelados que pareciam ter sido untados com açúcar caramelizado e banhados em café agora seco.

Preciso pegar seu depoimento.

Tudo foi lavrado em documentos por escrito, assinados. Catharina também testemunhou em juízo. Diante do juiz, “confessou” o assassinato de Angelique Faraday, e o imputou a seu irmão, Robert. O termo registrado na sentença foi “confissão”, apesar de essa ser uma capacidade permitida somente a quem, em tese, teria praticado o ato confessado. No entanto, como Catharina já havia explicado, ela teve acesso às memórias do irmão como se fossem suas, praticando, por ele, o ato de revelação; ainda que sem autorização inter vivos.

A promotoria recorreu da decisão, alegando que o RED-PHISHING não era um meio de prova moralmente admissível, haja vista que a apropriação das memórias de uma pessoa morta feriria o direito constitucional à intimidade.

Ilegal, portanto.

Contudo, os tribunais superiores entenderam que, uma vez limitado o uso ao esclarecimento de fatos penais, não haveria ilicitude no uso desse meio-de-prova.

O caso fora encerrado.



A AGENTE CATHARINA amarrava seu coturno, encerrando seu expediente.

Pelos corredores da delegacia de pisos xadrezes, e por onde passava, recebia olhares de admiração de colegas.

“Tamo junto sempre”, diziam.

“Heróis protegem heróis”, diziam.

O caso estava repercutindo há semanas.

Desde que o divulgaram na imprensa, a mídia passou a cobrir as audiências do caso “FARADAY v. RED-PHISHING/USA”.

Nos noticiários, a foto do fazendeiro Robert Collin Faraday, que matou sua esposa Angelique Faraday por herança, sempre encimava todas as reportagens. Os restos mortais de Angelique foram descobertos pela Agente Especial Catharina Santiago, hipno-tecnóloga, que usou pioneiramente a tecnologia RED-PHISHING para implantar uma falsa memória no acusado e extrair dele uma confissão espontânea da localização do corpo.

Ótimo.

Imoral?

Talvez.

Mas heróis também descansam, e Catharina terminara seu plantão.

Precisava de: cama.

E de um valium.

Só que, apinhados ao redor da televisão do corredor mais estreito da área interna, os agentes discutiam sobre o futuro da polícia com essa nova tecnologia. Amontoavam-se e impediam a passagem, de modo que Catharina teve de forçar o caminho.

Espremia os peitos com um:

Licença?

Licença.

Obrigada.

Só ao ser cuspida do outro lado é que sentiu um papel ser colocado em sua mão.

Junto com ele, uma angústia repentina.

Numa folha de caderno rasgada, lia-se em vermelho:


Ver banco de DNA. Intranet.

Minha senha M41R-DNA.

Pesque.

Psequê.

Ψ


Catharina tinha apenas a tela do laptop como fonte de luz naquela noite. O gato dormia em seu colo enquanto ela navegava pela página de acesso restrito da NYPD, no banco-intranet de DNA.

Usara a senha que lhe deram.

Na tela, uma notícia em pop-up.

O governo promulgou uma lei na qual todos os agentes públicos mortos poderiam ter seu hipocampo clonado a fim de que o RED-PHISHING extraísse qualquer informação do interesse da administração pública.

Qualquer informação.

De qualquer agente morto.

Psi(Ψ)cografia.

Não pode ser.

Com uma mão na testa, Catharina batia involuntariamente o pé no chão.

Não pode ser.

Discava um número no celular sem ao menos ver.

— Alô?

— Deu merda — ela disse.

— Como assim?

Ela estava em frente ao closet.

— Avisa ao Cerezzo que vão descobrir sobre a Miranda; sobre o esquema; tudo. Manda ele sair da cidade por uns tempos.

— Do que você está falando, Catharina? — disse o homem.

Retirava roupas e as jogava em cima da cama.

— Deu merda, não entendeu? Vão descobrir que entreguei a Miranda. Vão chegar em mim logo, e, então, na casa do lago.

Já era a quarta blusa igual que ela retirava dos cabides e punha em cima da cama...

— Acabou, entendeu? Temos, sei lá, algumas semanas.

Cinco.

Seis.

Sete.

Sete blusas iguais.

Só na sétima ela percebeu.

M41R-DNA era um anagrama para M1R4NDA.

— Quem está falando?

Ela disse, retirando o celular do ouvido, e o recolocando de volta.

E o homem respondeu:

— Corregedor Robert Collin.



O CORREGEDOR ROBERT COLLIN estava num churrasco de família.

Em sua casa no lago, o churrasco costumava a ser divertido. Suas filhinhas pegando gravetos, sua esposa e o cunhado bebericando cerveja, diversão.

Mas desde que fora designado como operador do RED-PHISHING, um sistema que permitia uma hipnose-artificial na qual dois cérebros entrariam num fluxo de brainet, e instaurou processos-administrativos que culminaram na prisão de policiais corruptos – como foi com a agente Catharina, que entregou sua própria parceira, Angelique F. Miranda para ser morta pela máfia –, o Corregedor Robert Collin passou a ser um homem soturno.

Sentado na quina de duas paredes, com os pés em cima do sofá e os joelhos próximo ao peito; com olheiras lilases ao redor dos olhos arregalados, ele se deu conta de que tudo ao seu redor é água.

Água.

Olhando pálido para o lago, ele se perguntava:

Eu caço?

Imaginava se o investigavam.

Se estava morto.

Se era sua suposta mulher quem o investigava.

Ou sou pescador atraído?

Imaginava se tinha filhas.

O cunhado Cerezzo?

Imaginava quando iriam descobrir sobre... aquilo.

Quando descobrirão?!

Quando...

Quem?

Eu morri?!

Abismos levam a outros abismos.

Quem escapa dessa água?



28 de Agosto de 2023 às 02:36 10 Denunciar Insira Seguir história
12
Fim

Conheça o autor

Le Loustic Hop Escritor - Ficção, Fantasia & Terror

Comente algo

Publique!
Usuário Inativo Usuário Inativo
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
October 13, 2023, 14:54

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Daniel, muito obrigado! Poxa, é uma honra. Agradeço-te pela avaliação também, me deixou emocionado. Valeu mesmo, cara, fiquei desconcertado e sem palavras, por isso o que posso fazer é te agradecer. Fica com Deus. October 13, 2023, 18:39
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Até que enfim, um conto estendido. Será um livro, amém! Qto ao autógrafo eu quero é um exemplar seu com dedicatória!
September 27, 2023, 23:04
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Demorei pra vir porque suas estórias necessitam de toda atenção. E de todo um tempo após para que minha inveja latente de seu talento evapore. Cerca de meia encarnação! Kkkkkkk Cara, você é um visionário. Ou, tem poder de manipulador temporal. Com certeza você vive a estória e só depois a registra. O que faria sentido, se ela não fosse imaginada. Então, só posso repetir o que venho dizendo: Cadê o livro dessa estória? Caramba, Le. Tudo aqui é uma sinopse de um livro. Tá, tá! Sei que é um conto. Mas é algo que escancara seu talento visionário. Sempre acho que vc deveria estudar cinema! Tá. Vou ali expurgar o resto de minha inveja...
September 27, 2023, 15:02

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Auahauha conta outra. Você é um gênio, Marcelo. Um grande talento literário, com quem todos nós que o admiramos aprendemos. Muito obrigado por palavras tão, tão gentis. Não sei se as mereço, mas eu fico muito feliz. Sempre ficamos, quando alguém acaba gostando de um trabalho nosso, né? Como com certeza não é diferente; até porque o feedback é o combustível que nos impulsiona. Cara, você tem razão... De fato eu queria escrever uma história maior para esse conto. Ele ficou muito espremido nessas 1.500 palavras (e a plataforma sequer se deu o trabalho de fechar o concurso...). Eu pretendo o ampliar sim. A história dele deveria ser ao menos uma novela, que demonstrasse o círculo concêntrico de caos que se cria com a quebra de direitos fundamentais (nesse caso, do conto, a intimidade). Cara, mais uma vez muito obrigado pelo seu tempo. Muito obrigado por sua gentileza. Valeu, Marcelo Farnési. Um dia quero seu autógrafo. September 27, 2023, 22:18
Amanda Kraft Amanda Kraft
Acho que o Wesley disse tudo. Sensacional.
August 29, 2023, 20:14

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Obrigado, Maga!! Ahuaha valeu mesmo. Obrigado pelo seu tempo! August 30, 2023, 15:41
Wesley Deniel Wesley Deniel
Cara, que trama ! Eu não canso de ficar de boca aberta com as suas histórias, hermano. E que estilo ! Além de a leitura ser agradável, de uma compreensão intrincada, mas que quando assimilada se torna hipnotizante, há o estilo. Os simbolismos, os parágrafos de impacto. Hop, eu não sei onde você estava antes de nos brindar com sua simpatissíssima presença, mas que bom que estava escrevendo, estudando e se aperfeiçoando, até chegar ao Le Loustic Hop. Que bom ! Mil vezes que bom ! E que bom tê-lo nessa caminhada. O mundo ainda irá ouvir sobre você, cara. Tem que ouvir ! Se houver justiça para os que estão nessa jornada, você crescerá tanto que nem dá para imaginar ! Ao menos esses são meus votos, meu irmão. Eu não sei se você vê as coisas no Facebook, e o Instagram para mim, como você sabe, é meio que um bicho de duzentas cabeças. Mas irei, se me permitir, é claro, compartilhar lá (onde sei compartilhar) no Face mais esta sua belezinha. Meu alcance é humilde, mas desejo que todos que virem possam conhecer seu trabalho. Grande abraço, meu querido !
August 29, 2023, 04:40

  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Ow, faixa-preta! Que daora, Deniel, obrigado cara! É, o simbolismo é muito importante para essa história. Eu tentei fazer com que cada "capítulo" fosse um capítulo-peixe engolindo outro capítulo-peixe, como uma matrioska. Mas quem pode se autodenominar os reis dos mares senão o próprio mar-sistema, que é maior, mais poderoso e o verdadeiro manipulador dos pescadores e pescados? No final, o personagem homem acaba se vendo como o peixe do ditado do avô da personagem mulher, que foi dito no primeiro segmento da história. "Quando os peixes percebem que todo o seu mundo é água, descobrem também que, quando não estão caçando, estão sendo caçados." Enfim, quis misturar algumas coisas (psicologia, mitologia, crime etc.). Espero que tenha surtido efeito. Acho que quando passar o evento (que acho que vai bugar e prejudicar quem está tentando participar dele, já que está cheio de problemas...), quando ele acabar, acho que vou aumentar essa história só mais um pouquinho. Só para que ela não fique espremida nessas 1500 palavras. OBRIGADO, DENIEL! GRANDE MESTRE DA ESCRITA! August 29, 2023, 14:41
  • Le Loustic Hop Le Loustic Hop
    Cara, obrigado pela Avaliação também! Poxa, sem palavras Obrigado!! August 29, 2023, 14:42
~