amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Uma estranha ilha surge após uma densa neblina, encalhando o Serena, uma caravela de exploração comandada pelo Capitão Cortés. Ao adentrá-la, percorrendo a floresta em busca do farol que emitia uma luz difusa, Ruivo, Olhos de Águia, Língua Solta e Risca Faca logo se encantam pela mulher que os encara com olhos de sanha e coberta de jóias, sem imaginar o que os aguardava. Esta capa é um presente de Giovanni Turim, autor da Inkespired. Amei, demais.


#15 em Conto Todo o público.

#mistério #ilha #ofarol
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Montezuma

Ele fora considerado um grande conquistador espanhol após dizimar a capital Asteca, ordenando a morte do grande Rei Montezuma II no ano de Nosso Senhor de 1521. Mesmo após ser aclamado e tornar-se o governador geral de todo o território da Nova Espanha, após alguns anos, motivado por seu orgulho e gana por riqueza, sendo acusado de não pagar com regularidade as taxas devidas à Coroa, fora destituído de seu cargo, retornando à Espanha.

Dessa feita voltou aos mares para conquistar as riquezas que havia perdido, esquecendo-se de todas as mortes que carregava nas costas antes de ter perdido sua última batalha. O que o fez esconder-se em terras Mexicanas até à sua morte. Dizem que morreu ali, pobre e esquecido. Contudo, afirmo que não foi esse o seu fim. O que deixo nessas linhas é algo que me atormenta e está custando minha sanidade.

O Serena navegava pela costa da América Central. A tripulação de marinheiros cansados limpava o convés sob minhas ordens. Chamavam-me de Ruivo. Eu era o braço direito do velho Capitão Cortés. Na tarde em que tudo aconteceu, soltava impropérios contra o Língua Solta, que resmungava enquanto jogava o balde de dejetos no mar.

Antes que me indispusesse contra o moleque, alguém passou a cantar a canção dos mares, amainando o desassossego dos homens. Abaixei os olhos e, quando os ergui, vi através do vidro da escotilha o Capitão Cortés passar a escrever no diário de bordo, ao mesmo tempo em que uma estranha neblina surgia na imensidão do mar. No alto do mastro, o Olho de Águia deu o alerta causando alvoroço na tripulação. Ela rolava pelas águas, como se soprada por um vento inexistente, branca e sólida. Algumas vezes era possível distinguir descargas elétricas em seu interior, deixando-a com um tom azulado.

Enquanto os homens observavam o estranho fenômeno, amontoados na amurada, as velas do Serena desentumeceram subitamente, tirando o capitão de seus afazeres. Ao subir ao convés notou a tripulação sobrepujada, de olhos fixos na névoa que se aproximava cada vez mais rápida.

— O que diabos está acontecendo? — questionou o Capitão Cortés, dirigindo-se a mim, desconfiado.

Não sabia o que lhe responder. Apenas me mantive mirando a densa neblina que já estava a um palmo do Serena e, quando ela nos engoliu, um estrondo foi ouvido. As águas abaixo do casco tornaram-se revoltas diante da onda que o abateu, fazendo a caravela balançar levando os homens ao chão. Gritos e impropérios foram ouvidos. Mais um balouçar e, dessa vez, quase a fez virar. Depois que o mar serenou, a densa neblina que nos impossibilitava enxergar o próprio braço, passou a dar trégua. Um pequeno jato de luz foi avistado, para alívio de todos.

Olhos de Águia escalou o mastro quando já era possível distinguir os vultos dos companheiros e de lá gritou: “Terra”, deixando-nos embasbacados.

— O que o senhor acha, Capitão? — questionei, mirando a vasta extensão da ilha à frente, iluminada por um farol que lançava uma luz branca, opaca, tal qual a neblina que nos cercara minutos atrás.

— Não faço ideia do que está acontecendo e nem que ilha é essa! — respondeu, de cenho franzido.

— Acho melhor conferirmos, Capitão. Parece que estamos encalhados em algum banco de terra. Talvez alguém lá possa nos ajudar.

— Leve consigo apenas três homens. Se encontrar algo, ou alguém, volte imediatamente — ordenou, embora tenha percebido uma sombra em seus olhos ao mirar a luz do farol.

Escalei o Olhos de Águia, o Risca Faca e o Língua Solta. Assim que saltamos do Serena notei que estávamos encalhados na própria ilha. Havia apenas um veio de água entre nós. Andamos calados pela praia, notando a densa vegetação que se apresentava no lusco-fusco.

Munidos de facões, abrimos espaço por ela, seguindo a luz do farol. A noite caiu de vez e quando a primeira estrela apontou no céu, algo revolveu as folhas de um arbusto no aclive do caminho. Estacamos assustados, levando a mão à cintura, onde repousavam as armas de pederneira.

— Quem está aí? — gritei, enquanto os outros se aglutinavam ao meu redor, formando um círculo, temendo ser atacados.

Não obtivemos resposta e só então percebemos o total silêncio que imperava no lugar. Nem mesmo o crocitar de coruja ou o cricrilar de um grilo era ouvido nas árvores. Os homens engoliram em seco, ao notar novamente o farfalhar, agora bem próximo. De arma em punho, no círculo dançante, Olhos de Águia apontou para o facho de luz do farol que incidia sobre uma pedra que se parecia com um obelisco. No alto dela havia uma figura feminina, coberta de ouro e pedras preciosas, que nos encarava com olhos de sanha.

Levei a mão à pederneira, contudo a figura desapareceu assim que o farol girou para o outro lado. O Língua Solta se atreveu a sair do círculo indo em direção à moça. Segurei seu braço, mandando-o ficar onde estava.

— Você viu aquela mulher? — encarou-me, enfastiado — Ela estava coberta de joias. Deve ter muito mais de onde ela vem — disse puxando o braço, enquanto os outros assentiam em silêncio.

— E se for uma armadilha? Podem ter guerreiros à nossa espera. Vamos ao farol pedir ajuda. Lá deve ter alguém.

Assim que terminei de falar aquela luz tênue iluminou novamente a mulher, agora a alguns metros de onde a vimos. Parecia nos incitar a segui-la, o que aumentou o alvoroço entre os rapazes. As pedras em seu pescoço e na tiara no alto da cabeça pareciam faiscar. Eles correram atrás dela, deixando-me para trás. Eu tinha uma missão e a cumpriria. Segui na direção da luz baça, perdendo-os de vista. Subi o aclive de arma em punho, atento a qualquer som estranho, até ganhar o platô onde o farol fora erguido. Caminhei até ele e empurrei a porta tombada nas dobradiças, chamando por alguém. Notei, embasbacado, que aquele lugar há muito se encontrava abandonado. Os vidros estavam embaçados e o lugar revirado, como se tivesse presenciado algo terrível que fizera o faroleiro sair em desabalada carreira. Galguei a escadaria, sentindo o coração ribombar no peito. Era como se olhos estivessem a me espreitar. Corri até a uma das vidraças, após perceber uma estranha luminosidade no coração da floresta. Quando a luz do farol recaiu sobre ela, vi o templo de pedra, ricamente iluminado, ao mesmo tempo em que sons surdos, possivelmente de tambores chegavam aos ouvidos.

Desci rapidamente e me pus a caminhar em sua direção. A estagnação da floresta me causava arrepios. Deparei-me com uma trilha de pedras e, mesmo sabendo onde ela daria, resolvi segui-la. Minha tripulação estava lá. Tinha certeza. Para meu espanto, não havia ninguém à minha espera. O som dos tambores morreu assim que entrei no templo, iluminado por archotes. Notei, logo na entrada, a estátua de uma divindade: cabeça de serpente quadrada coberta de plumas ao longo do corpo extenso. Ergui a arma e chamei pela tripulação.

A estátua passou a ganhar vida, para meu horror e, no lugar da cabeça surgiu o rosto da mulher da floresta. As plumas se transformaram em joias faiscantes.

— Estão mortos. — disse o grande o guerreiro que se materializou ao lado da mulher, mostrando-me os corpos mutilados da tripulação — Kukulcán os condenou. Traga-me Cortés para o sacrifício e serás recompensado.

— O Capitão? Mas por quê? Quem é você?

— Montezuma. Traga-o para mim e terá todo o ouro que desejar — disse, jogando-me um enorme rubi.

Aquelas palavras me enfeitiçaram. Por mais que eu quisesse me dissuadir de trair o capitão, imagens de extrema brutalidade, mortes de homens, mulheres e crianças varriam minha mente, torturando-me. Voltei ao navio e pedi que Cortés viesse comigo, pois ali havia algo que o interessava. Agucei-o com o rubi, sem mostrar o saquinho de ouro que me fora ofertado assim que anui. Seus olhos cresceram. Ordenou que partíssemos imediatamente.

Assim que o capitão viu o templo, assustou-se. Quis retornar, contudo o impedi. Meus olhos se encheram de terror diante da visão de um povo inteiro, tendo Montezuma à frente, surgir trôpegos, com feridas abertas, membros faltando, sorrindo em contentamento com bocas apodrecidas, enquanto Cortés gritava e tentava fugir dos efeitos de sua obra, tendo Kukulcán a se enrolar em seu corpo. Em poucos minutos eles o levaram. Jamais me esquecerei de seus braços estendidos em minha direção, enquanto seu corpo era arrastado por aqueles espectros do inferno. Houve um tremor na ilha quando desapareceram, restando apenas seu rei a mirar-me em agradecimento.

Corri em desabalada carreira ao perceber que a ilha sumiria em breve. Pulei raízes, e galhos, ao mesmo tempo em que via o mar sob meus pés, como se estivesse sobre vidro. Por pouco não consigo chegar à caravela.

Aquele rubi mudou minha vida, contudo, os gritos do capitão ainda me perseguem. Vejo-o a me espreitar durante os sonhos, em busca de vingança. Não sei dizer dos passos que ouço nas escadas e das pegadas molhadas. Passei a ver a sombra diante da porta do meu quarto. Minha arma está embaixo do travesseiro, entretanto, temo que de nada adiantará quando o vir aos pés de minha cama.

19 de Agosto de 2023 às 15:47 22 Denunciar Insira Seguir história
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Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Gustavo Machado Gustavo Machado
Adorei o uso das palavras: sanha, cenho, lusco-fusco, trôpego etc. A leitura é fluída e ao mesmo tempo em que evolui, conta um pouco do passado. Achei equilibrada as ações e descrições, levando a uma leitura fluída e carivante. Parabéns!
February 20, 2024, 01:25

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Muito obrigada por suas palavras e leitura. É um incentivo muito grande. ❤️ February 20, 2024, 10:32
Gabriel D. Luffy Gabriel D. Luffy
Estou em reflexão, quer dizer que eles voltaram meio que como zumbis? Acho que entendi errado. De toda forma, meus parabéns pela escrita envolvente e cheia de riqueza de termos e palavras, achei bem dinâmico 🥰
February 19, 2024, 17:03

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada pela leitura. Na verdade eles eram fantasmas em busca de vingança. February 19, 2024, 17:59
Lia Goes Lia Goes
História bem escrita. Cativante mesmo...
February 18, 2024, 00:38

Samuel A. Palmeira Samuel A. Palmeira
Ótimo! O comum e o fantástico, são entrelaçados de tal forma que ficam indistinguíveis.
January 02, 2024, 03:23

Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Parabéns pelo conto, Amanda! Sempre brilhante e imersiva não importando qual o tema narrativo! Merece muito estar em destaque e continuar por aqui!
September 03, 2023, 16:01

Giovanni Turim Giovanni Turim
Essa história me atribuiu um quê impetuoso de nostalgia, pois tive o privilégio de visitar Texcoco, referendando meu mesmo apelo e gosto histórico, como bem a paixão antropológica pelas civilizações antigas. Huitzilopochtli, Tlaloc, e claro! O memorável Moctezuma II. Grato por compartilhar essa história, nos permitindo o encanto dramático de toda peripécia, muito bem narrada e desenvolvida.
August 25, 2023, 19:00

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Agradeço muitíssimo. Gostaria mto de um dia poder visitar esses lugares. Compartilhamos o mesmo gosto, amigo! August 25, 2023, 19:40
Norberto Silva Norberto Silva
Uou! Prevejo uma medalha de ouro vindo por aí! Moça, mandou bem demais em mais esse desafio. Adorei todo o clima de terror que você imprimiu a essa trama, ao mesmo tempo que usou personagens como o Cortés e o Montezuma com maestria, como de costume. E, como de costume também, adorei o escalar dos acontecimentos, até chegar a esse final excelente, que dá tantas opções de probabilidades futuras... Muito bom! Parabéns moça!
August 21, 2023, 02:18

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Eita! Agradeço demais, meu amigo. August 21, 2023, 10:17
Wesley Deniel Wesley Deniel
A fúria de um guerreiro Asteca caído, só não é maior que a vendetta de um siciliano. 😄 Ótima história, minha amiga. Como sempre, a arte de encantar (e atemorizar) com sua escrita continua afiada. Sigo admirando-a. 🙏🏻😊
August 20, 2023, 04:26

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Seguimo-nos na admiração, meu amigo! Mto obrigada. August 20, 2023, 11:21
Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Que viagem no tempo, por sinal muito boa e aventurosa. Mais uma história magnífica. Parabéns amiga, talento tenha certeza que não lhe falta. Um grande abraço 🤗
August 20, 2023, 04:18

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Eita! Mto obrigada, meu amigo. Fico mto feliz! August 20, 2023, 11:20
Le Loustic Hop Le Loustic Hop
Impressionante, Amanda!! Que história maravilhosa. Que riqueza de detalhes. Parabéns!!
August 19, 2023, 16:49

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