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Lolaway Paola Britto

Às vezes tudo que você precisa é... confessar.


Conto Todo o público.

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Capítulo único

Sabe quando os ventos parecem conversar com você em uma sinfonia tênue, oculta e conflituosa? Como se cada elemento da natureza presente apenas o tirasse o foco, ou conflitassem suas ideias porque, na verdade, é você quem não está nem um pouco certo do que está fazendo.

Suas mãos suam, seus pés diminuem o ritmo dos passos, seu olhar fica distante e você tenta repassar tudo o que tem para dizer, mas no meio das frases ensaiadas, uma voz irritante te atrapalha tentando lhe dizer o quanto tudo é insano e idiota.

Dentro de você uma chama queima necessitando daquilo, mas em outro lugar mais lógico de seu interior tem um aviso gritando, esperneando e piscando insistentemente, lhe dizendo repetidas vezes o quanto aquilo é irracional, e lhe avisando para parar enquanto há tempo. Mas, ainda assim você quer e precisa fazer de uma vez por todas, não aguenta mais a dúvida, apesar de não saber se consegue lidar com a certeza. O difícil é... falar.

Então, pela última vez você tenta achar o jeito certo de começar. Seus lábios tremem sibilando alguma coisa inaudível, enquanto o seu cérebro tenta formar uma frase coerente e nada assustadora. Entretanto, para atrapalhar um pouco seu coração palpita mais do que nos últimos minutos – mesmo você achando que aquilo não seria possível. Neste momento sua respiração se atrapalha como se você nunca tivesse respirado na vida e tivesse que aprender a organizar o ar dentro e fora de si.
E então chega a hora. Do pior jeito possível. Não, você não tomou enfim coragem e descobriu como começar. Você é cruelmente confrontado e colocado na parede. Você sabe que não tem escapatória. Está ali para isso e deve continuar. E aquela pessoa, a qual você tanto estima e teme, lhe faz a pergunta de forma inocente e nada cruel. E talvez nem assim a resposta escape fácil, de forma coesa e natural de seus lábios.

Não, com certeza não sai.

Você tenta a saída mais fácil no momento, gagueja, desconversa, faz piada sem graça, ri sem motivo. E seu nervosismo a entrega. Você é novamente confrontado, questionado, mas dessa vez também confortado. A pessoa ali tão próxima lhe tranquiliza. E você sabe que pode confiar, e é por todos os motivos positivos em relação a isso que você está nessa situação neste exato momento. Então você, por um breve momento, viaja, flutua sobre todos os bons motivos que lhe despertaram tais sentimentos que de tão fortes e espaçosos precisam ser liberados... Confessados.

E por pensar em tudo isso novamente você sente aquele sentimento aquecer-se imediato por dentro, ele firma, se faz presente, e então você tenta se sentir seguro o suficiente para falar. Os olhos se entrelaçam em um olhar de cumplicidade, suas mãos voltam a suar, ou talvez nunca tenham deixado de qualquer forma. Seus batimentos cardíacos aceleram, um sorriso apreensivo escapa, seu olhar desvia. E você apenas deixa que aquele sentimento se liberte humilde e tímido enquanto sua voz falha, suas pernas parecem ceder com o peso do seu corpo, sua pressão corporal, por um breve momento, se torna insuportável.

Neste instante as palavras saem uma atrás da outra, rápidas como tiros. E antes que o ouvinte consiga associar tudo que você acabou de falar, desculpas e soluções atrapalhadas já emendam em seu discurso. Em instantes você parece entender o que acabou de falar. Aí o pânico toma conta de você até que quase te sufoque. Então você se cala, respira como se fosse algo pesaroso. Não tem mais volta. Os segundos que se passam são mortais, mas lá no fundo você se sente aliviado.

A resposta para sua confissão? Você parece não querer ouvir mais. Por fim você até contempla o momento, sente-se orgulhoso, satisfeito consigo mesmo.

A resposta?

De qualquer forma ela vem, mais cedo ou mais tarde.

Talvez sigam mais alguns olhares confessos, frases atrapalhadas, mãos trêmulas. Talvez lhe cause sorrisos eternos, lágrimas efêmeras, ou apenas conforto. Mas seja qual for a resposta e a sua possível sensação, você faria tudo de novo. Talvez simplesmente porque não conseguiria mais conviver com aquele sentimento, unicamente dentro de si. Ou apenas porque algo tão verdadeiro merecesse ser dito. Talvez mais que isso, você não conseguiria conviver com a dúvida por mais tempo.

E o melhor é que no fim de tudo você se livra desse insistente e cruel “talvez”.

28 de Março de 2018 às 02:32 0 Denunciar Insira 2
Fim

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