amanda-kraft1664221938 Amanda Kraft

Ele surgia em meus sonhos me chamando, torturando-me com promessas esquecidas ao raiar do dia. Comecei a me sentir irrequieta. Cada movimento pela visão periférica me assustava. Fluía o desejo que me consumia quando pensava naquela casa, em seus corredores escuros e em suas sombras. Refreava-me na consciência e me perdia na inconsciência. Aquela voz sussurrava meu nome, enquanto me arrastava para junto dela.


#12 em Conto Todo o público.

#romance #amor #vampiro #passado #reencontro
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A Casa


Era uma casa branca com uma escadaria de pedras cinza, de degraus quebrados, que conduzia a um alpendre de tábuas escuras. A porta grande, de madeira maciça um tanto gasta, possuía uma aldrava dourada. O andar superior levava aos quartos, de janelas retangulares e vidros foscos. Era para lá que meus olhos corriam sempre que a vislumbrava da calçada, enquanto apertava o passo. Havia algo naquela cena morta que me causava desconforto e um arrepio quase de prazer.

Surgia em meus sonhos me chamando, torturando-me com promessas esquecidas ao raiar do dia. Comecei a me sentir irrequieta. Cada movimento pela visão periférica me assustava. Fluía o desejo que me consumia quando pensava nela, em seus corredores escuros, em suas sombras. Refreava-me na consciência e me perdia na inconsciência. Aquela voz sussurrava enquanto me arrastava para junto dela.

Suores me acometiam nos delírios e no afã de adentrá-la, dominá-la e tê-la para mim. Ansiava por seus recônditos, lançar-me nas mãos da voz que me chamava nos tormentos febris.

— Venha! — pedia num sussurro.

— Deixe-me vê-lo — implorava-lhe, na inconsciência dos sonhos.

— Ainda não. Precisa confiar em mim, minha doce Helena.

Ergui-me da cama, leve feito pluma. A janela era um empecilho a me dominar. Nada do que eu tentava, a fazia abrir. Colei o rosto no vidro frio e lamentei o calar da voz.

O sol das manhãs me deixava letárgica, porém precisava deixar o mundo dos sonhos, que a cada vez mais me consumia. Não via a hora de o dia acabar para mergulhar na escuridão, apenas para ouvir a voz cândida a proclamar meu nome. Sei que vinha da casa de alpendre.

Fiz uma pesquisa e há muito tempo não havia ninguém lá. Seus donos desapareceram. Deixaram-na e nunca mais voltaram. Entretanto, seu aspecto era de uma casa que não se deteriorou no abandono. Talvez algumas tábuas no tempo a maculasse. Ninguém a rondava. Nem mesmo os mendigos ou os jovens à procura de um canto escuro para namorar, ou sabe-se lá o que mais esses garotos teimam em fazer ao cair da noite.

Não. Era uma casa que pulsava vida, embora não parecesse diante dos olhos. Uma casa bela que me chamava, convidando-me a desvendar seus segredos. Meu coração dizia que algo se escondia ali. Algo doce e vibrante. A voz que me inebriava provava que eu estava certa.

À noite, quando me acobertava e em meio aos lençóis, sentia uma silhueta a me vigiar. Era a de um homem alto, de ombros largos e peito firme. Suspirei ao vê-lo ao pé da cama. Analisava-me sem dizer palavras. A força que emanava dele me insultava. Ergui-me em um salto.

— Não! — sua voz era vibrante e firme.

— Deixe-me vê-lo — pedi, quase em súplica.

— Ainda não, doce Helena. Em breve.

Tortura maldita. Sentia-me fraca diante de sua conduta firme. Queria tornar-me cativa em seu santuário. Noites e noites mal dormidas, desejando-o, cortejando-o.

Durante os dias longos, mal conseguia me concentrar. Meus pensamentos eram os seus, minha fome era a sua. Decidida, em um dia nublado, parei em frente ao portão da casa. Agarrei a maçaneta que impedia meu acesso, num ímpeto tresloucado. Girei e não pude movê-la. Olhei para as janelas que me atraíam e pensei ter visto uma sombra. Forcei os olhos, mas não havia nada ali.

Naquela noite ele veio. Pela primeira vez senti o vento invadir o lençol.

— Você chegou — sussurrei em êxtase.

— Você foi me ver. Não deveria ter ido.

— Por que se esconde? — questionei, erguendo-me na cama.

— Não! — disse com voz férrea, refreando-me.

— Por quê? Não sente como lhe busco em sonhos? Ouço-o me chamar.

Ele se calou e me fitou com um olhar duro, lutando com uma força que parecia não querer mais controlar.

— Sou velho para você, menina. Tenho a idade do tempo a me torturar.

— Então por que me chama?

— Sua beleza é minha ruina, criança, e poderá ser a sua também.

— Não entendo.

— Durma, doce Helena. Estou velando por ti.

Acordei com a luz do sol a me cegar e um gosto amargo na boca. A lembrança de sua presença se fazia nítida a me torturar. Sentia um ímpeto forte em adentrar àquela casa. Seus segredos sombrios tinham que ser revelados. Arrumei-me depressa e parti, disposta a tudo. Escalei a grade de ferro fundido quando a rua encontrava-se deserta. Ao pisar no solo inerte, senti-me petrificada. Ouvi um rosnado baixo, que se intensificava a cada passo dado, amedrontando-me. Não havia nada naquele jardim, mas o rosnado continuava furioso. Vi-me mais uma vez impedida. Voltei à rua. Esperei pela noite, impaciente.

— Helena! — sua voz cantava em meu ouvido, despertando-me.

Abri os olhos e lá estava ele. Ergueu-se nas sombras e senti certa ferocidade em sua voz.

— Você veio — constatei num sussurro.

— Não deveria ter feito o que fez — disse-me, nas sombras.

— Diga-me quem és! O que queres de mim?

— Sou aquele que te conhece, que te esperou ao longo dos anos.

— Por que, então, se esconde de mim?

— Talvez meu destino seja sofrer sem poder te tocar.

— Ao inferno com esse destino. Eu te desejo.

— Não posso condená-la a passar a vida comigo, Helena.

— Não pode me condenar a viver na tortura dos sonhos, onde só neles você está.

Ele me encarou através do luar. Mal podia ver seu rosto, mas o conhecia de alguma forma. Sabia que, se a luz o revelasse, veria seus olhos claros a mirar–me de forma luzidia. Seus cabelos negros faziam ondas na base do pescoço. Conhecia o toque suave de suas mãos.

— O que faço com você, criança? — Sua voz estava aflita.

— Mostre-se.

— Se você soubesse o quanto te esperei, Helena. O quanto sofri à sua espera, talvez não me pedisse isso.

— Suas palavras me ferem. Diga-me ao menos o seu nome.

— Feche os olhos, Helena.

— Não quero que vá.

— Não irei. Apenas quero lhe mostrar algo.

Obedeci e senti sua mão fria tocar-me a fronte. Então o vi. Estávamos em uma floresta de árvores com copas altas. Pássaros cantavam ao nosso redor. Seus ombros eram tão largos quanto eu me lembrava, sustentando feixes de madeira, que derrubou no chão assim que me viu sair pela porta da cabana. Correu até mim, pegando-me pela cintura, rodopiando comigo em seus braços. Eu ria feito criança, feliz com os braços abertos que recebiam a benção de um amor verdadeiro. Abaixou-me, de modo que nossos olhos se encontraram. Vi-me em sua íris clara. Encostou sua testa na minha e disse:

— Eu te amo, Kendra. Sempre vou te amar.

— Também te amo, Mael.

Seus lábios se uniram aos meus e pude sentir a verdade nas suas palavras. Abri os olhos e o encarei nas sombras.

— Mael! — senti cada letra de seu antigo nome roçar por meus lábios.

— Sim, meu amor. Estou aqui.

— Leve-me com você.

— Tem ciência do que está me pedindo? Você sabe o que sou?

— Você é Mael. O homem dos meus sonhos, o homem que um dia amei.

Ele me encarou e seu olhar na penumbra do quarto era duro feito aço. Ergui-me da cama e dessa vez não ousou me impedir. Fiquei em pé, bem próxima a seu corpo. Levei a mão ao seu rosto. A pele era fria. Passei o dedo por seu lábio. Ele suspirou. Desci a mão até seu peito largo. Coloquei-a em seu coração. Assustei-me quando não o senti bater. Mael segurou minha mão. Seu aperto era forte.

— O que aconteceu a você? — questionei, sentindo sua dor.

— Foi quando eu te perdi. — Havia uma tristeza profunda em sua voz.

— Não me perderá nunca mais.

Puxei seu rosto para junto do meu. Senti-o retesar diante das batidas do meu coração. Beijei seu lábio. Era tão gélido que me fez arrepiar. Suas mãos agarraram minha cintura e quase desfaleci quando ele me puxou para si. O beijo se intensificou, para depois sua boca percorrer, com uma fúria insana, o meu rosto, entre palavras incompreensíveis e sussurros. Eu o desejava mais do que tudo em minha parca vida. Porém, não o tive naquela noite. Mal me lembro dela, depois de seus beijos incessantes.

Os sonhos continuaram por algum tempo. Sentia-me sem forças para levantar da cama. A luz da manhã ofuscava e feria meus olhos. Aguardava a noite chegar quase em desespero. Ele retornava e então, podia sentir seu corpo entrelaçar o meu em uma viagem de tempos antigos, perdidos naquela cabana no meio da floresta, onde nosso idioma era-me desconhecido. Gaélico, soube depois, onde a vida pertencia apenas a nós dois. Seu corpo se fundia ao meu e nos tornamos um, numa dança perfeita.

Não sei por quanto tempo isso se deu, até que o silêncio se fez no meu ser. Tudo se apagou, talvez por dias sem fim, onde nem mesmo podia sentir meu corpo.

Os olhos se abriram e fui acometida por uma sede insana. A voz de Mael sussurrou meu nome em meio ao breu da noite. Estendeu-me a mão e, mesmo fraca, o segui, mirando seus olhos intensos. Flutuei. Mordi os lábios e os feri. Passei a língua fria por eles e senti a presa pontiaguda. Ele sorriu. Apaixonei-me mais uma vez pelo homem que me deu, e me tomou a vida. Perdi-me ao encontro da volúpia de seus beijos, no ardor dos seus braços. Voltei para aquela casa, e jurei estar sempre ao seu lado.

19 de Julho de 2023 às 21:13 24 Denunciar Insira Seguir história
17
Fim

Conheça o autor

Amanda Kraft Participo com mais de cem contos em diversas antologias de várias editoras. Livros lançados: Somente eu sei a verdade; Traição; Uma Segunda Chance; A Noiva da Neblina e o Segredo de Lara pela buenovela.com e também contos e livros inéditos na Amazon kindle.

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Daniel Costa Daniel Costa
Muito bom conto, você está sempre com histórias novas e boas! Sem dúvida uma escritora de talento!
April 06, 2024, 08:41

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Fico muito feliz por suas palavras, amigo. Um grande incentivo. Mto obrigada. April 06, 2024, 10:13
Gutu Pereira JR Gutu Pereira JR
Vou por você entre meus autores preferidos dessa plataforma. Wesley Deniel, Giovanni Turim, Le Loustic Hop, Arnaldo Zampieri, e agora tu, Amanda Kraft. Estarei lendo mais histórias sua, com certeza.
December 20, 2023, 04:03

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Fico muito feliz e grata. Seus autores preferidos são amigos queridos, talentossismos. Se vc me permitir, recomendo Marcelo Farnesi. Abraços, amigo! Já estou te seguindo. December 20, 2023, 09:35
Julio Coutinho Julio Coutinho
Amanda tem realmente o dom para descrever situações...o que deixa o texto muito mais saboroso...
December 04, 2023, 19:09

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Muito obrigada, meu querido. Fico feliz por suas palavras. December 04, 2023, 21:07
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Lindo! Da maneira exata como um conto precisa ser: sensível e imersivo! Alias, sua marca registrada Parabéns, Amanda!
October 18, 2023, 11:54

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada, meu amigo. Suas palavras são bálsamos. October 18, 2023, 18:46
Bella Oliveira Bella Oliveira
Amei
October 13, 2023, 08:15

Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Parabéns, sua história foi examinada recentemente e está sendo verificada. Desejo que ela seja apreciada por diversos leitores de nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
October 09, 2023, 12:33

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Mto obrigada. Fico mto feliz por isso. October 09, 2023, 12:46
Wesley Deniel Wesley Deniel
Fantástico, minha amiga ! Mas permita que lhe pergunte: É o Mael de "As crônicas vampirescas" ??!! Fiquei de boca aberta quando fui me tocando do que poderia ser ! Faz tempo que as li, e parei no Volume 9 "A fazenda Blackwood" (preciso urgente continuar a saga, pois a amo !) e não lembro se houve uma conclusão para Mael. De todo modo, simplesmente maravilhoso seu conto ! ❤️❤️
September 08, 2023, 13:01

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, não se trata do mesmo. Ainda ñ li As Crônicas Vampirescas. Uma coincidência apenas que me deixou surpresa. Agora vou ter que conferir... September 08, 2023, 13:13
Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Vc escreveu a Casa Branca, eu escrevi a Casa Preta porém, os enredos são diferentes kkk 🤣 já publiquei o 1º Capítulo. Abraço 🤗
July 21, 2023, 22:16

Luiz Carlo's Luiz Carlo's
Que maravilha de trabalho amiga, criatividade, visão, articulação com as palavras não lhes faltam. Com sempre é um grande prazer apreciar o seu trabalho. Muito sucesso pra você 👏🏾 👏🏾 👏🏾
July 21, 2023, 16:42

Lira Pavlova Lira Pavlova
Comecei assim 😨 e terminei assim 😍😥 Perfeito, amiga 👏👏👏
July 20, 2023, 21:03

Norberto Silva Norberto Silva
Adorei! Uma história vampírica de primeira, escrita com maestria, como sempre, seguindo numa espiral crescente até chegar ao clímax com esse final incrível. mais uma vez vejo um conto aqui com potencial imenso para um livro inteiro! Parabéns!
July 20, 2023, 04:18

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, mto obrigada, meu amigo! Vc sempre gentil. July 20, 2023, 10:27
Le Loustic Hop Le Loustic Hop
Seus contos são uma música em palavras. Lê-los é como dançá-la. Parabéns, Amanda!
July 19, 2023, 21:46

  • Amanda Kraft Amanda Kraft
    Ah, meu querido! Belas são as suas palavras. Mto obrigada. De coração! July 19, 2023, 22:16
~