straussilver Joalison Silva

Na década de 1950, um escritor de jornal sofre de bloqueio criativo. Em 1860, o primogênito e herdeiro do maior engenho da região lida com a ruína emergente de sua família. Através do tempo, um conta a história enquanto o outro a esculpi. O místico, o sobrenatural. Tarcísio recorre a seu próprio ritual obscuro. Tomé investiga a natureza do mal que acomete a seus irmãos. Embora separados por mais de noventa anos, os dois vivem em simbiose, compartilhando um terrível segredo. Cheio de tensão e mistério, O caso de Tomé Álvares Machado e Alvarenga é uma viajem histórica aos mais sombrios impulsos da natureza humana.


De Época Para maiores de 21 anos apenas (adultos).

#relato #suspense #crime #de-época # #58533
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O ritual de Tarcísio

Existia a norma, partes intrínsecas de um feitiço usado em tempos de desespero para evitar que, pela primeira vez em anos, sua parcela semanal na pequena coluna, mas de pressuposta relevância no jornal municipal de Itambiá, pois quem de fato lia aquele epíteto em vida de genialidade, pouquíssimos e suficientes, que importava, ficasse em branco. Tarcísio escudrinhou a máquina datilográfica, viu a decepção.

Além do impeditivo naturalmente aceito, ele desperdiçou a vida em nome de nada. Atarefado, o amor, a esposa ou filhos, embora nem um nem outro fossem resultado da carência de afeto, nunca os teve. Mas a fraternidade, esta, sim! Falara tanto a respeito, e de amor, contra o puritanismo às avessas do desejo carnal, sexo, a frieza aquecida nos peitos de um amante e voltava a persegui-lo aquele primeiro texto, as linhas jamais expostas baseadas nas histórias de seu bisavô, histórias dos tempos de senzala, Jorge Lomelino Álvares Machado e Alvarenga, dissera a boca desdentada que dera-lhe a família o Álvares de nome, também se chamava Tarcísio Álvares de Macena e ali morriam toda semelhança, nada dos dezoito filhos, nada de quarenta netos, nada do triplo de bisnetos, nada a se orgulhar senão a clausura de antiga linha, e excluindo o relato, a contemporânea inquietude, a mulher impedido de usar em sonho e pesadelo como o filho de Jorge, o pobre Tomé.

Tarcísio se retorceu, obediente e ciente do dever. Onde começara a pedra angular de sua carreira — ficção. Foi nas histórias a respeito dos despossados da realeza colonial, os renomados senhores do açúcar e melaço caídos em desgraça graças ao brilho do ouro, contudo existiu o nobre Duarte de Portugal que encontrara fortuna na doçura da terra e tornara a família um símbolo de orgulho na região da antiga Vila de Itambiá... e, assim fora, até o início de uma ruína misteriosa. Apenas uns pares de folhas escritas a mão, lidas e ocultadas, tomadas, nunca semeadas à valsa popular dos boatos, existiam como prova. Foram aquelas as musas de Tarcísio no passado. Rendido, ele admitia.

Exasperara de início, mas dentro em pouco se debruçava contra as palavras, ouvindo como uma reza o relato décadas atrás escritos em punho por Tomé e contados pelo bisavô, compondo em notas furtivas sua própria obra prima. Abaixo o escudo dos pensamentos, tal sentir febril tomara o controle e lançara-o no abismo mítico da inspiração.

Quando por fim terminara, horrorizado, escondera porque jogá-la no lixo seria pecar contra a impureza dos despejos. Sua alucinógena genialidade, de natureza tão errada, o fez prometer sigilo para aquele primeiro ato... ainda que, em momentos de vergonha, sinta-o como a única saída. Nesses momentos, era necessário recorrer ao ritual.

A história original existia só em sua mente, mas uma parte vivia sob o alcance da mão, na gaveta superior direita, trancada a chave.

Tarcísio retraiu os dedos da máquina, iniciando o feitiço. Pegou no bolso o chaveiro, carregava-o dia e noite. A mais pequena foi a escolha, exatas duas voltas e meia, pois a terceira nunca era completa, e abriu o compartimento. Lá fitou o amarelo ofuscado no escuro, porém sem a tocar. A última ação envolvia uma batalha fingida, combater ao máximo, sentir vergonha, prometer a si mesmo que seria a derradeira vez e só então, lentamente, mover-se.

Ele pegou-a, aceitando a verdade no ritual. Sua plenitude exigia um sacrifício. Suspirou ainda mais lento. O silêncio fluía pelo quarto.

14 de Julho de 2023 às 23:42 1 Denunciar Insira Seguir história
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Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Gostaria de lhe parabenizar pela Verificação de sua história. Que ela seja apreciada por diversos leitores presentes em nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
August 13, 2023, 06:25
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