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I

Nas Caldas da Rainha

Na quarta feira de manhã, o comboio em que eu vim para as Caldas da Rainha regorgitava de viajantes.

E desde quarta feira não tenho visto senão chegar ás Caldas gente, gente, gente!

Os hespanhoes vão mandando os seus primeiros contingentes, e d'aqui a poucos dias chegará o grosso do exercito.

Principia a ouvir-se já esse infatigavel chalrar das hespanholas, que ao longo da alameda vão agitando a ventarola e... os quadris, passando como um bando de cigarras palreiras, seguidas de grande numero de cigarrinhas não menos garrulas do que as suas mamãs de olhos pretos e os seus papás de patillas.{8}

Muitas caras de Lisboa: pessoas da alta finança... com dyspepsia; e da grande roda... com rheumatismo.

Algumas pessoas da provincia, com ar de principes que viajam sob incognito.

Toda esta humanidade, mais ou menos espectaculosa, que passeia no Olympo da alameda, de tridente na mão, desce do alto da sua importancia ao razo da fragilidade do barro commum, logo que entra as portas da Copa.

Ahi, perante as aguas, são todos eguaes.

Portuguezas de chapeus de palha, hespanholas de mantilha, janotas do Chiado, anciãos venerandos, sentados em torno da casa das pulverisações, voltados contra a parede, de bocca escancarada, n'uma immobilidade paciente, deixam penetrar na garganta, em pequenissimas gottas de agua do tamanho de missangas, a aspersão d'esse hyssope therapeutico, que os ha de benzer... para o inverno.

Vêl-os alli e imaginal-os devotos romeiros que estão collando os seus labios a uma nascente milagrosa de agua de Lourdes, é tudo uma e a mesma coisa. Reverentes deante da torneira, de bibe de borracha em volta do pescoço e toalha de algodão sobre os joelhos, parece entoarem mentalmente um hymno védico em honra e louvor da agua das Caldas: «Gloria a ti nas torneiras, ó milagrosa agua, que borrifas{9} a minha garganta, desces pelo meu esophago, penetras no meu corpo! Abençoada sejas tu e mais os sagrados Pintos Coelhos da medicina, que mandam que a gente te sorva em pequenas doses, tal qual como em Lisboa!»

Mas, feita esta oração naturalistica, as damas, os janotas, os anciãos arremessam com desdem o seu bibe de borracha, sacodem a toalha de algodão, e readquirem, á sahida da Copa, o seu bello ar mundano, parecendo dizer aos platanos da Alameda: «No reino animal, a que temos a honra de pertencer, não somos nada inferiores a vós outros, senhores ornamentos do reino vegetal!»

E as andorinhas, que nas Caldas são em numero prodigioso, esvoaçando de platano para platano parece dizerem lá de cima: «Como v. ex.ª está fresco com as aguas! Viva v. ex.ª, e não falte cá para o anno!»

Deante do Sebastião, que ministra os copinhos de agua das Caldas com a mesma gravidade com que Ganimedes devia servir Jupiter á mesa dos deuses, toda a gente tem um vago estremecimento do espirito, seja porque o Sebastião represente a saude ou a diplomacia, pois que realmente a saude é a diplomacia com que a gente quer tratar o corpo, e a diplomacia é a saude com que as nações pretendem curar as suas mazellas.{10}

É talvez por esta dupla representação que o Sebastião da Copa tem um certo ar solemne, ao mesmo tempo de medico e de diplomata, não sendo elle nada d'isso.

Sebastião, antes de pegar no copo, do o lavar e de o encher, relanceia a sua pupilla verde, n'uma observação rapida mas profunda, pela pessoa que está deante de si.

Estuda-a n'esse relance de olhos e, silenciosamente, como um soberano que dispensa mercês, dispensa elle copos d'agua, servindo-se do seu gesto grave como se fosse um decreto.

Sim! a gente, tambem n'um relance, parece lêr isto nos seus olhinhos verdes: «Eu Sebastião, copeiro por graça de Deus, sou servido servir este copinho d'agua a este cavalheiro que o requer, com a circumstancia tacita de o julgar tolo, porque principia por tomar cincoenta grammas quando devia limitar-se a tomar apenas trinta. Mas eu, Sebastião, copeiro por graça de Deus, que estou sempre ao pé da agua, lavo d'ahi as minhas mãos,—silenciosamente.—Dada de bico callado aos tantos de tal, nas Caldas da Rainha e de copo na mão».

A gente lê este decreto, toma o seu copinho, e sáe a porta. Respira-se então melhor,—como quando se sáe da Ajuda. Até ir repetir a dose ninguem{11} pensa mais no Sebastião, porque é tambem esse um ruim sestro da natureza humana: depois de recebida a graça, ninguem pensa mais em quem lh'a concedeu.

E os que receberam a agua no copo procedem similhantemente aos que receberam a agua em pulverisação, isto é, desoppremidos, dessebastianados, espanejam-se ao longo da Alameda rindo, conversando, como se gosassem a melhor das saudes e não tivessem tomado remedio algum ha muitos annos.

A saude, que todos de manhã julgam perdida, reapparece á noite, florescente e agil, na valsa e mesmo no chá, entregando-se resolutamente aos compassos de Strauss e ás bolachas do Club.

Ora este Club das Caldas,—pois que fallei n'elle,—parece-se um pouco com as praças de guerra: é dos primeiros que o occupam. Isto seria inteiramente justo, por direito de conquista, se os primeiros que chegam se limitassem a occupal-o,—mas fazem mais alguma coisa: entrincheiram-se em grupos.

O grupo A arvóra bandeira, fortifica-se, e resiste.

O grupo B hasteia egualmente a sua bandeira, fortifica-se, e... resiste.

Os outros grupos fazem a mesma coisa.

É um entrincheiramento geral.

O melhor que ha a fazer, para tomar posse do Club das Caldas, é vir para cá no S. João.{12}

De resto é preciso escalar, fazer de Affonso Henriques deante de Santarem, trepar de gatas pela muralha, pendurar-se das ameias. A alguns pobres rapazes de dezoito annos, que ultimamente chegaram, temos visto realisar prodigios de acrobatismo caldense para treparem á muralha e arrancarem uma valsa.

E, porque n'essa edade tudo esquece facilmente, depois de tão trabalhosa escalada sentem-se felizes girando em torno do salão, levando presa pela cintura uma dama que lhes custou tanto a conquistar como a formosa Rachel a seu primo Jacob.

N'este caso, e sobretudo n'esta metaphora biblica, o tio Labão é representado pelo entrincheiramento dos grupos entre si.

Ás vezes os Jacobs do Club não dançam precisamente com a prima Rachel, isto é, com aquella dama que elles prefeririam, porque essa tem-n'a o tio Labão fechada a sete chaves n'um grupo. Mas, para não perderem de todo o tempo, vão dançando com a Lia que por muito favor lhes concederam.

A Matta é este anno um pouco abandonada. Não resiste á concorrencia que lhe fazem o Ceu do Vidro e a Alameda, onde agora mesmo, tres horas da tarde de domingo, ha numerosos grupos, conversando, jogando, observando. O amor, como um macaco na floresta, vae saltando de arvore em arvore, e, escondido{13} entre as ramarias, despede settas certeiras, ficando a rir e a baloiçar-se nos ramos...

Com a sua ligeireza simiana ora aponta a um seio turgido, afofado entre cambraias; ora, como que por ironia, dispara contra um peito já sabiamente abroquelado para estes combates.

No primeiro caso, a setta crava-se no alvo, que fica ferido, gottejando sangue ardente.

No segundo caso, resvala no broquel de aço e a dama, vendo cahir no chão a setta, fica dizendo mentalmente: «Para cá vens tu de carrinho!...»

Em duas horas observa-se toda a vida das Caldas; por isso, inteirado da situação, tenho feito pequenas excursões fóra do mundo galante da Alameda.

Fui á Lagôa de Obidos, que eu só conhecia nominalmente dos compendios de chorographia.

Passeio delicioso, por uma bella estrada marginalmente povoada de pinheiros.

Cheguei á Foz do Arelho ao cahir da tarde. A lagôa principiava a esbater-se na penumbra, n'uma doce tranquillidade. Os pescadores recolhiam nas bateiras, que singravam mansamente. Mulheres e creanças esperavam-n'os sentados na areia, mas as creanças, logo que viram aproximar-se um trem, fizeram-lhe um verdadeiro assalto, chegando a engalfinhar-se nas portinholas.{14}

E na grande paz da lagôa a primeira treva da noite ia cahindo como um véo de crepe, lentamente.

Hontem fui de corrida á Nazareth.

Ah! meu Deus! que desillusão!

Caldas da Rainha, 5 de agosto de 1888.

{15}

CHRONICAS DE VIAGEM

II

A Nazareth

Acabam de contar os jornaes que ha poucos dias, em Cautterets, os cavallos que puxavam o break de Sarah Bernhardt, assustando-se, na ponte de Renquez, com o estrondo da agua, estiveram empinados sobre o abysmo, prestes a despenharem-se na corrente.

É pouco mais ou menos a historia do conhecido milagre de Nossa Senhora da Nazareth.

E digo pouco mais ou menos porque, sobre o rochedo da Nazareth, foi miraculosamente suspenso á beira do abysmo um cavalleiro, que se chamava Fuas Roupinho, e não um break, que conduzisse Sarah Bernhardt.

A razão é simples: No tempo de Fuas Roupinho não havia ainda nem break nem Sarah Bernhardt. O{15} leitor deve ficar convencido da verdade d'esta asseveração historica.

Ora, no milagre da Nazareth, se o cavallo ficou empinado sobre o rochedo, foi porque Nossa Senhora appareceu a soccorrer o cavalleiro, que a invocára.

No caso de Sarah Bernhardt, quem acudiu á portentosa actriz não foi Nossa Senhora da Nazareth, mas a propria Sarah Bernhardt.

No momento do perigo, Sarah, que guiava o break, saltou da almofada, poz-se á frente dos cavallos, segurou-os pelos freios, e... suspendeu-os no azul, sobre a torrente...

É tragico!

Póde muita gente lançar este caso á conta das numerosas blagues que o noticiario francez borda todos os dias phantasiosamente em torno do nome de Sarah Bernhardt.

Mas, por muito grande que seja a incredulidade d'essa gente, o caso da ponte de Renquez não me quer parecer menos verosimil do que se me affigurou outro dia a historia do milagre da Nazareth.

Eu, como toda a gente, fui educado a ouvir fallar do milagre da Nazareth, e a vel-o memorado em estampas coloridas, embora grosseiras, que figuram D. Fuas Roupinho, de capinha de tenor e bonnet de penna de gallo, montando um cavallo branco, que,{17} de mãos no ar, se empinava sobre um rochedo imminente ao oceano, o qual oceano fremia em vagalhões, hyante e profundo.

Um veado, de larga armação ramosa, saltava pelo ar, prestes a afundar-se, o qual veado era nem mais nem menos que o diabo.

Nossa Senhora da Nazareth, envolta em resplendores celestes, apparecia no espaço, acudindo solicita á invocação do cavalleiro, o qual cavalleiro era, como já dissemos, D. Fuas Roupinho.

Pessoas que leram os Quadros historicos de Castilho, e n'elle o rimance da Nazareth, sabiam, além d'aquillo, que este caso milagroso occorrera n'uma fresca manhã de setembro, e que o rochedo do milagre estava pendurado sobre o oceano na altura de duzentas braças.

Rompeu-se com o sol a nevoa,
E ao resplendor que luziu,
Sobre penha, que duzentas
Braças pende ao mar se viu

Co'as mãos em vão sobre o abysmo,
Trepidar e descair,
Ennovelar-se erriçado.
Pular atraz, refugir{18}

Um cavallo! e o bom Dom Fuas,
Que o remessára até ali,
Saltar por terra, clamando:
—«Por ti, Senhora, é por ti!»

O milagre da Nazareth fôra posto em oratoria no theatro.

Um rochedo de papelão, suspenso sobre uma torrente de lona azul, apparecia recortando-se ao longe sobre o panno do fundo, que representava a vastidão infinita do ceu.

Um cavalleiro, tambem de papelão, galopava sobre um cavallo da mesma materia prima, em perseguição de um veado que não era mais consistente.

Cavallo e cavalleiro ficavam suspensos sobre o abysmo, e o veado despenhava-se no mar com grande applauso dos espectadores, que jubilavam catholicamente por vêr assim justamente castigado o diabo.

Quando outro dia fui das Caldas da Rainha á Nazareth, evoquei na minha memoria, que ainda não é das peiores, todo o apparato sobrenatural d'essa tradição piedosa, com que na infancia tantas vezes fui acalentado pela velha criada Joanna.

Não sabia eu então onde ficava a Nazareth do milagre, nem me era preciso sabel-o para o crêr.

O que eu a preceito sabia, e não precisava saber mais nada, era que o milagre acontecera, e que lá{19} estava ainda, onde quer que fosse, o rochedo pendente ao mar; e o vestigio sempre vivo de uma pata do cavallo.

Mais tarde a poesia de Castilho revestiu de prestigio, na minha imaginação, a tradição do milagre, e, finalmente, mais de um livro de Julio Cesar Machado, fallando das grandes festas dos cyrios da Nazareth, aguçara-me o apetite de ir um dia, quando podesse ser, ao local do milagre.

Fui. Não era pelo tempo dos cyrios, não havia portanto nem festas, nem romeiros, nem lôas, nem offerendas. Nada d'isso. Mas o que eu esperava que houvesse, n'aquelle dia de agosto em que fui á Nazareth, era o rochedo em cima e o mar em baixo. Isso me bastaria para que eu, encontrando todos os pormenores da tradição em inteira conformidade com as minhas recordações, continuasse a acreditar no milagre com o mesmo prestigio e com a mesma fé.

Fui, com estimaveis companheiros de viagem, que n'esse dia eram tres.

E, não devo occultal-o por vergonha, á medida que da estação do Vallado avançava para a Nazareth, o meu coração não trotava menos do que as miseras pilecas que iam arrastando o char-á-bancs.

Não desgostei de vêr de perto a Pederneira, que eu ha annos escolhera para localisar ahi um pequeno{20} conto que, se me não engano, anda impresso no livro Homens e datas.

Alexandre Dumas pae diz algures que não podia descrever os logares sem que primeiro os visse. Creio que é n'um dos volumes das Causeries. Eu, para em nada me parecer, infelizmente, com Alexandre Dumas, affoutava-me a escolher logares de que algumas pessoas me haviam fallado com certo agrado, motivo por que me não ficavam desagradando tambem a mim.

Ora um d'esses logares fôra a Pederneira.

E a Pederneira lá estava com a sua egreja e com as suas casas, um pouco conforme ao que eu havia imaginado a seu respeito.

Mas já então se via no horisonte o planalto da Nazareth, a que chamam o Sitio, e nenhum rochedo avultava tanto, que eu pudesse desde logo gritar aos meus companheiros de viagem: «É aquelle!»

Havia effectivamente alguns rochedos alcandorados á borda do planalto, mas nenhum d'elles destacava por imminente ao mar, como nas estampas coloridas, que tantas vezes eu tinha, quando pequeno, contemplado em credula camaradagem com a velha criada Joanna, a minha velha e querida Joanna.

O que havia em baixo, mesmo por baixo dos rochedos, era a praia,—areia e casas.

Póde a praia ser muito boa para banhos, mas não{21} é para isso que eu quero as praias. Mais uma vez declararei que o meu ideal balnear não vae além da tina e da esponja. Gosto simplesmente das praias para vêr o mar; mas quero vel-o d'alto, que é a unica maneira que a gente tem de contemplar o oceano sem tamanho vexame para a pequenez humana...

É certo que na Nazareth poderia, para vêr o mar a meu modo, subir ao planalto, ao Sitio, como lá se diz.

Mas custa tanto subir na Nazareth da praia para o Sitio, emquanto o ascensor mechanico não estiver prompto, que é esse um prazer que mal se póde ter todos os dias, pelo incommodo que importa.

Assim, os banhistas da Nazareth teem que contentar-se de vêr o oceano como naufragos que estivessem mettidos dentro d'elle. Parece, pelo menos, que está a gente tomando banho dentro de uma tina, e que dentro d'essa tina está o mar. Não gosto. É um capricho, uma idyosincrasia, mas não gosto. Prefiro a Ericeira á Nazareth, porque na Ericeira a gente vê sempre o mar do alto das ribas ou das arribas, como diz a gente da terra, e assim, visto do alto, o mar parece que não deprime, que não esmaga tanto a pequenez do homem.

Mas na Nazareth é possivel que o solo tenha passado por alguma grande commoção, que alguma revoluçcão{22} geologica haja feito recuar o oceano para além da perpendicular do rochedo.

O scenario do milagre póde ter mudado muito desde os tempos da fundação da monarchia até hoje.

Como porém já não encontrei o mar vagalhando debaixo do rochedo, e como o rochedo, visto de longe, não me deu a impressão do milagre, peguei a descrer do milagre por causa do rochedo, Deus me perdôe!

Bem sei que era muito audaz a minha exigencia de querer encontrar tudo como no tempo de D. Fuas Roupinho e na hora do prodigio. Mas assim mesmo é que eu queria ter encontrado ainda as coisas... E quer-me bem parecer que só me haveria contentado inteiramente toda a mise-en-scene do milagre: o cavallo empinado sobre o rochedo, o veado descrevendo na queda uma larga curva, e o mar em baixo, espumoso e vasto. Tal qual como nas estampas.

Fui acima, ao Sitio, em trem, para vêr se podia reconstruir, deixem-me dizer assim, o meu ideal da Nazareth mais do seu caso milagroso.

O Sitio é, fóra do tempo dos cyrios, de uma tristeza morta, de uma solidão sepulchral.

Que mau senso teve o diabo! Comprehendia-se que tivesse querido attrahir D. Fuas Roupinho a um sitio deleitoso, infernalmente bello e convidativo. Mas áquelle logar! áquella solidão! Ali não ia ninguem,{23} ali ninguem cahiria na tolice de se deixar attrahir pelo diabo, de mais a mais disfarçado em veado! Ainda se fosse em mulher!...

Eu conheço varias partidas do diabo, que mostram que elle não tem tão mau senso como isso! O diabo é sempre artista nos logros que arma, tão bem armados que os proprios logrados costumam dizer: «Esta só pelo diabo!»

Isto é: só armada por elle.

Desconfiado, parti logo do principio de que Fuas Roupinho se não tinha deixado engodar tão tolamente pelo diabo, n'aquelle sitio, como a lenda dizia.

O rochedo, visto de cima como visto de baixo, continuou a não me dar a impressão do milagre. Vi um signal na pedra, e um rapazito disse-me que era o vestigio de uma das patas do cavallo.

Confesso que me fizera maior impressão,—muito maior!—a cruz de pedra que Santo Antonio, tambem segundo a lenda, riscára com a unha na sé de Lisboa, quando era menino do côro, e o diabo lhe appareceu feito mulher.

—Sim—disse eu quando vi a cruz na sé—devia ser isso... para um santo que quizesse resistir!

Mas na Nazareth, espreitando para o rochedo por cima de um muro que me dava pelos hombros, nenhuma voz disse dentro em mim:{24}

—Sim... é o signal da pata do cavallo. Devia ser assim para um cavallo... que não quizesse cahir!

E a historia do milagre galopava no meu espirito para o abysmo da incredulidade, como o cavallo de D. Fuas Roupinho, na lenda, para o abysmo do oceano.

Mas entrei na egreja, doirada de bella obra de talha, vi a imagem de Nossa Senhora no throno, fixei por alguns momentos a sua rude esculptura, e pareceu-me que bem podia ter sido tudo como a lenda contava...

Quando o homem está de joelhos, sente-se sempre menos propenso á duvida...

Quando voltei ás Caldas, disse a Julio Cesar Machado, que estava lá:

—Olha que tu, com os teus livros, tiveste muita culpa n'esta passeiata que eu fiz hoje á Nazareth. Não gostei...

E elle respondeu-me:

—Aquillo é muito bom quando é pelo tempo dos cyrios e pelo tempo... dos dezoito annos, que foi quando eu vi bem os cyrios...{25}

CHRONICAS DE VIAGEM

III

Alcobaça

Quando eu escrevi a Porta do Paraiso, que tão boa fortuna alcançou, como prova o facto de estar hoje em terceira edição, foi na villa de Alcobaça, á sombra do vetusto mosteiro cisterciense, que localisei o principio da novella, a qual depois se desdobra em Lisboa.

Clarinha era d'ali, d'Alcobaça, de cujos vergeis floridos eu fallei sem os ter visto. Foi em Alcobaça que lhe desabrochou no coração o primeiro amor, primeiro e unico de toda a sua vida, o que já então era raro e hoje é rarissimo. Eu não tinha visto os coutos pittorescos de Alcobaça, abundantes de fructas e aguas, de sombras e frescura, mas conhecia-os pela Alcobaça illustrada de Frei Manuel dos Anjos e pela descripção{26} oral, muitas vezes repetida, sempre calorosamente, de um rapaz que era d'ali natural e estava desempenhando no Porto o cargo de guarda-livros da Companhia Viação, a Entre-Paredes.

Ha quinze annos eu conhecia pouco o paiz: um bocado do Minho, outro bocado do Douro, e mais nada. O scenario de que podia dispôr era, pois, muito resumido, acanhado. Depois d'isso é que me pude dar o prazer de touriste, e hoje, com excepção do Algarve, conheço menos mal o paiz. A paizagem agreste do Douro abundava já nos meus primeiros livros, de modo que, posto curasse por informações, foi por amor da variedade que eu desferi vôo para Alcobaça a fim de pendurar nos seus arvoredos a minha novella, como um ninho de tristezas brandas, que a minha imaginação, timida andorinha, se propunha fabricar...

Quando se abre o livro, está-se em Alcobaça; assiste-se a um serão de Clarinha: o tio a um lado, a outro lado o primo revolvendo livros.

Não me demorei em pormenores de paizagem; descrevi-a em dois traços, de fugida, porque o que eu queria era achar um sitio de eleição, que fosse ameno e formoso, e cujo nome bastasse ser indicado para que se comprehendesse que n'esse meio geographico não podiam gerar-se caracteres abominaveis.

Eu sempre detestei... o abominavel, então e agora.{27}

Rodaram annos, estive de passagem n'outras localidades, bem menos agradaveis por certo, e sempre me ficava no fundo da alma, como uma violeta antiga, perdida entre as paginas d'um livro, o desejo saudoso (deixem-me dizer saudoso...) d'essa villa opulentamente fradesca, onde eu só mentalmente havia estado alguns dias, com Clarinha, com seu tio e com seu primo, assistindo em espirito a esses doces serões de provincia.

Foi só agora que pude apagar a saudade d'esse desejo.

Quando nas Caldas o revelei ao meu velho amigo Carrilho, elle, que tinha estado poucos dias antes em Alcobaça, disse-me com a sua habitual energia:

—Homem, amanhã, no comboio do meio dia, partimos ambos para Alcobaça.

—Mas lá perdemos nós uma tarde de aguas, e foi para tomar as aguas que eu vim ás Caldas.

Elle replicou:

—Tomaremos as aguas de manhã; de tarde tomaremos Alcobaça. Á noite estaremos a jantar nas Caldas, de regresso. Um passeio que se faz por gosto, vale por um bom remedio.

Fomos. Já tinhamos ido á Nazareth, o que quer dizer que já conheciamos a linha da Figueira até á{28} estação do Vallado. A surpreza, para mim, começava d'ahi por deante.

A planicie verdejante do Vallado, essa immensa campina plana como a palma da mão,—propriedade do snr. Manuel Iglesias,—era para mim o bello prologo da viagem a Alcobaça pela linha da Figueira.

O Vallado é realmente um sitio delicioso, vasto, lavado de um puro ar saudavelmente temperado com o oxygenio dos campos e o iodo do mar, que não fica longe. Principia ahi o grande pinhal de Leiria; uma guarda avançada de bastos pinheiros faz sentinella ao chalet encarnado onde reside um fiscal da matta. Ao longe, dominando a estrada da Nazareth, o morro de S. Bartholomeu, phantasiosamente recortado, com a sua ermidinha entalada entre rochedos, parece olhar desdenhosamente para a planicie infinita que se lhe desenrola aos pés, timidamente, longamente...

Do Vallado para Alcobaça ha diligencias, a tostão por pessoa. É preciso deixar passar o comboio para podermos atravessar a linha. Esperam-se cinco minutos, o comboio parte, e a diligencia do Gallinha parte logo depois do comboio.

A estrada é graciosa, alegre como um sorriso luminoso da natureza, feito de claridade e de verdura. A breve trecho estamos na Fervença, cujo nome provém{29} das suas aguas sulphurosas, e onde um velho portico de propriedade nobre me enleiaria o olhar, se não tivesse de voltar-me logo para vêr o edificio da fabrica de fiação e tecidos, estabelecida alli em 1874.

Sombras, frescura, agua, a flux,—uma estrada que mais parece uma avenida de recreio cortada atravez de uma floresta banhada por nascentes abundantes.

Avista-se Maiorga, avistam-se casaes alvejantes, frescos e claros, brilhando na palpitação suave da verdura, levemente batida por uma pontinha de ar refrigerante. A agua corre nos campos, em ondas de abundancia, entornando diamantes ao saltar de pedra em pedra, como uma princeza louca, que vae estragando thesouros. E o arvoredo põe no solo branco e crú grandes manchas de sombra, que parecem ligar-se caprichosamente pelos seus contornos irregulares, phantasticos.

Surge-nos á margem da estrada outra fabrica, de louça, dando-nos a conhecer que vamos entrando n'um concelho vitalisado pela industria, laborioso e rico. Depois as primeiras casas da povoação, brancas e baixas, enfileiram-se em linha, correndo a par da diligencia, e um palacio, dominador e vasto, abre á luz sobre a estrada as suas janellas em longas series parallelamente dispostas.

Vejo, de relance, sobre um cunhal de muro o letreiro{30} que diz: Rua de Frei Fortunato. E penso n'este nome. Emquanto a diligencia roda, lembro-me que aquella rua memorará frei Fortunato de S. Boaventura, alcobacense, miguelista acerrimo, polygrapho fecundo, author da Historia chronologica e critica da real abbadia de Alcobaça. E d'ahi talvez não seja; mas aposto que será esse mesmo, o de S. Boaventura.

A diligencia entra n'um triumpho de estrondo e poeira—egual a todos os outros triumphos—no Rocio de Alcobaça, e á nossa esquerda, como um leviathan de pedra, ferido pelo arpéo do vandalismo, o mosteiro avulta na sua vastidão enorme, fria e dura, remendado, propinado, cuspido na face vetusta pela antiguidade e pelo progresso.

A egreja, encravada no mosteiro, exhibe n'uma confusão chaotica os seus numerosos estylos architetonicos, especie de bric-á-brac de todas as grandezas de um passado extincto, e por entre as pedras e as imagens que negrejam como carvões contrastam remendos de cartão branco, farrapos de pedra nova, fazendo lembrar uma capa de pedinte pendurada do alto das torres, e aberta ao sol.

Imaginem que visitando um dia a feira da ladra se recordaram subitamente de D. Affonso Henriques ao vêr um capacete de armadura posto sobre uma farda de soldado da guarda municipal.{31}

Foi o que me aconteceu.

D. Affonso Henriques passou por ali, e plantou um mosteiro. Mas veio depois a invasão de Miramolim, e derrubou-o. Poz-se uma estaca á arvore partida, e a arvore renasceu. Vieram ainda depois os caprichos realengos, os accrescentos anachronicos, os terremotos, os raios, e D. Affonso Henriques, se voltasse a este mundo, não conheceria a sua bella arvore de pedra, plantada em honra de Nossa Senhora, por memoria do feito de Santarem.

Aberta a porta do templo, talhada em arcos ogivaes, as suas vastas tres naves alongam-se n'uma fria extensão silenciosa, e ao fundo a capella mór, em semi-circulo como todas as charolas das grandes basilicas, esfuma-se n'um como nevoeiro, que duvidosamente deixa entrever columnas e imagens.

Á esquerda, uma porta abre sobre a chamada casa dos reis, que se nos patentêa com os seus altos azulejos allegoricos, o seu caldeirão bojudo de Aljubarrota e as suas estatuas grotescas, de reis antigos, presididas por Affonso Henriques, recebendo a corôa, curvado aos pés de S. Bernardo, essa montanha de santidade, como lhe chamou frei Luiz de Souza.

Á ilharga de Affonso Henriques, n'uma prateleira, um pequeno busto, em gesso, de D. Pedro V, põe n'essa galeria de antigas estatuas de reis, modeladas{32} ao natural, uma nota acre do contraste moderno, mostrando como os reis teem ido perdendo na grandeza da sua exhibição...

Tudo o que em Alcobaça é moderno, é atroz: especialmente o vandalismo.

É verdade que os francezes roubaram todas as alfaias valiosas do mosteiro; que abriram sacrilegamente os tumulos de D. Pedro e de D. Ignez, para arrancar aos cadaveres as suas ricas vestes reaes; mas, em nome da liberdade, os indigenas foram depois roubando, a exemplo dos francezes, as reliquias e as pedras, indifferentemente, os santos e as cantarias; a verdade é que os governos do fim do seculo não são menos vandalos do que os francezes do principio d'elle, porque não tardará muito, talvez, que toda a abobada do templo, já fendida, desabe.

Aquelles dois tumulos que, entre outros, se encontram n'uma capella do cruzeiro, estão immensamente divulgados pela photographia, pela gravura, pela poesia, mas hão de ser eternamente o assombro de quem visitar Alcobaça, porque tudo n'elles é grandioso e sublime, desde o mais subtil pormenor dos arabescos até ao doce perfume de amor que parece exhalar-se desses dois sarcophagos, como do calix de dois lyrios brancos sempre frescos...{33}

CHRONICAS DE VIAGEM

IV

Os tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro

Aqui temos pois deante de nós, como dois lyrios brancos de marmore, os sarcophagos de que parece exhalar-se, como um perfume fugitivo, a lenda medieval d'essa grande catastrophe amorosa.

Da historia d'esses tragicos amores pouco se sabe ao certo, mas a lenda embala a nossa imaginação desde os primeiros annos da infancia; todos a conhecemos, e todos a acreditamos.

Sabemos o que nos disse Camões, que copiou a tradição legada por Garcia de Rezende, servindo-se ás vezes das mesmas phrases. E, verdade verdade, n'este moribundo seculo de reconstrucções historicas, nenhum documento que fizesse luz e que fizesse fé{34} veio a lume para esclarecer a tradição dos amores de Ignez de Castro.

Camillo Castello Branco tem na sua pasta, recolhidos e colleccionados, materiaes importantes, que farão revelações de alto valor sobre esta nublosa questão historica; mas, infelizmente, não poude ainda dispôl-os, ligal-os, conglobal-os n'um livro, que deverá causar sensação quando apparecer.

Todos temos caminhado até hoje ao capricho das incertezas da lenda, que ora faz de Ignez de Castro um caracter perfido, ora um caracter angelico, segundo a lenda é recolhida n'esta ou n'aquella provincia.

Nem a propria individualidade de Ignez de Castro está fixada ainda historicamente; e os pormenores dos seus amores com o infante D. Pedro, depois rei de Portugal, envolvem-se n'uma especie de via-láctea romantica, de veu poetico atravez do qual não foi possivel ainda descortinar com segurança a verdade.

Mas seja qual for a historia d'esses pormenores, qualquer que venha a ser a liquidação definitiva d'esse acontecimento historico, o que não póde pôr-se em duvida, deante dos dois sarcophagos de Alcobaça, é que houve n'esses amores todo um idyllio de sublime poesia do coração, todo um drama vibrante de sentimento, poetico e grandioso.{35}

Seria preciso que no animo duro de um tal homem como D. Pedro I houvessem cantado e raivado todas as doçuras e todos os desesperos do amor para que elle phantasiasse a fabrica delicadissima d'esses dois tumulos tão similhantes nos traços geraes da sua tonalidade artistica, e tão irmãos na homogeneidade da expressão sentimental que a pedra conserva ainda atravez dos tempos.

Foi elle que planeou a construcção d'esses dois sarcophagos, diz a tradição, e que para um d'elles ordenou fosse removido desde Coimbra o cadaver de Ignez, ficando o outro vazio, á espera que soasse a hora de o ir povoar na solidão eterna da morte...

Assim devia ter sido; assim foi decerto. Dil-o a pedra dos sarcophagos mais eloquentemente do que as chronicas. Só o amor poderia ter inspirado a concepção d'esses dois tumulos monumentaes; só um fino amante, como se diz fôra D. Pedro, poderia ter mandado fabricar esses dois leitos de marmore para um noivado infinito, insaciavel.

Houve no espirito de D. Pedro uma preoccupação dominante, que elle fez comprehender ao esculptor: que a posteridade visse bem n'essa figura de mulher, lavrada a vulto sobre o sarcophago, uma rainha posthuma, e um anjo torturado. A corôa, o manto, as armas reaes de Portugal testemunham claramente{36} que jaz ali uma princeza em toda a pompa funebre da magestade real. Os anjos, ronflando as azas, de joelhos, e sustentando as almofadas de marmore sobre as quaes a cabeça de Ignez repousa, deixam comprehender que essas duas creanças aladas estão alli acarinhando uma irmã que passou pelo mundo soffrendo, e que partiu sorrindo...

Aos pés de Ignez, enroscado n'uma indolencia amortecida, um lebreu, symbolo da lealdade, representa como que a firmeza d'esse amor inconsolavel, a constancia d'essa dedicação heroica, parecendo chorar em silencio, na tristeza de uma grande dôr, como se fosse o proprio coração de D. Pedro.

Nenhum outro symbolo teria ali logar mais proprio nem mais exacta representação. O que esse pensativo lebreu exprime não o poderia dizer nenhum poema, nenhum epitaphio. É por isso que o symbolo se repete no tumulo de D. Pedro: bellamente esculpturado, um grande cão de marmore vigia atravez da eternidade aos pés do rei amante, como para significar que o seu amor sobreviveria ao aniquilamento do coração, quando o cadaver do rei baixasse a descançar n'aquelle seu ultimo leito.

A luz triste, coada atravez da verdura das arvores, que entra na capella, põe uma nota de doce e delicada melancholia no ar silencioso; e em torno dos{37} dois sarcophagos alguns tumulos de reis e infantes affiguram-se nos mesquinhos, e como que perdidos na irradiação absorvente d'aquelle poema de amor, feito de dois blocos de marmore, que o espaço separa, mas que o pensamento une.

Depois da visita aos tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro sente a gente que nenhuma outra commoção poderá brotar dentro das paredes do templo ou do mosteiro. A casa das reliquias, que aliás brilham pela sua ausencia, o claustro, a farrapagem hybrida de remendos architectonicos que no edificio se atropellam e baralham, a vastidão glacial dos pavimentos e das paredes, o latim barbaro dos epitaphios, as largas fendas que por toda a parte ameaçam ruina imminente, todo esse espectaculo ao mesmo passo apparatoso e maltrapido de um monumento que se desconjunta, não consegue apagar no nosso espirito a impressão dolente que nos deixaram os dois tumulos de Ignez de Castro e D. Pedro e que continúa soluçando no nosso coração como o murmurio de uma fonte ou o rythmo de uma elegia.

O que está em volta de nós é já uma coisa muito differente, é a devastação do antigo pela invasão do moderno, é o mosteiro convertido em quartel, em tribunal, em escola, em habitação particular, é o vaso{38} de barro, aqui fendido, ali modernisado, mas todo elle profanado, que contém ainda dentro em si dois lyrios brancos de marmore, que guardam nos seus calices rendilhados o aroma subtil de uma grande paixão antiga.

Tirassem de Alcobaça esses dois sarcophagos, e não valeria a pena lá ir.

O que falta n'esse colosso de pedra que se chama o convento de Mafra, para de algum modo o vitalisar na sua inutilidade monumental, para lhe dar uma pulsação, um toque de vida, uma scentelha de espiritualidade, é um poema de amor como aquelle que se perpetua sob as abobadas rôtas do templo de Alcobaça, salvando-o do esquecimento.

Nenhuma brisa refrigerante de sentimento, de poesia, de nobreza immaterial passa por aquella aridez pesada de Mafra para suavisal-a um pouco. Tudo ali é frio como o coração de D. João V, resistente como a sua voluptuosidade nunca farta, dispendioso como a enormidade dos seus caprichos egoistas, pessoaes...

A Alcobaça aconteceria a mesma coisa, porque o edificio é no tom geral da sua architetura tão carregado e monótono como o de Mafra, se não tivesse a espiritualizal-o esse romance cavalheiresco que se encerra nos dois tumulos da capella de S. Vicente, e{39} que atravessa o nosso espirito como uma onda de éther, elevando-se para as alturas.

Do mais que eu vi em Alcobaça, na egreja e no mosteiro, não vale a pena fallar.

Ha muita gente que se encanta vendo a cozinha, onde bois inteiros podiam ser assados, sem que os cozinheiros corressem o risco de acotovellar-se, e onde a agua corria de numerosas torneiras cahindo sobre bellos tanques de marmore n'uma abundancia torrencial, diluviosa.

Francamente, só de alongar os olhos pela cosinha de Alcobaça me senti enjoado, indigesto, como se estivesse a olhar para uma grande escudella de orelheira com feijão branco.

Todas as materialidades fradescas do mosteiro passaram sem relevo pelo meu espirito, perdendo-se na vulgar noção de egoismo e opulencia que caracterisavam por toda a parte certas ordens monasticas.

Sahindo do mosteiro, onde o cheiro a bolôr é acre e irritante, banhei os pulmões com delicia na frescura oxigenada que se exhala do arvoredo dos antigos coutos, onde a agua canta pagãmente o velho poema mythologico da Mãe-Terra, Alma-Mater, fonte perenne de abundancia, rasgando eternamente o seio fecundo para alimentar os filhos ephemeros.{40}

E uma hora depois, dentro da diligencia do Gallinha, que rodava para a estação do Vallado, vinha eu dizendo ao meu bom amigo Carrilho:

—Mas que diabo de auctoridade temos nós para queixarmo-nos do vandalismo dos francezes, se ainda somos mais vandalos do que elles?!...{41}

CHRONICAS DE VIAGEM

V

Em Obidos

Ha muitos annos que eu conhecia de nomeada o Padre Antonio das Caldas.

Ouvia dizer que, sem menospresar os seus deveres sacerdotaes, era um homem de sociedade, amavel e jovial, intelligente e insinuante.

As senhoras que voltavam das Caldas da Rainha vinham contar agradabilissimas impressões d'esse homem estimadissimo, cujo talento se repartia por multiplices aptidões:

Padre Antonio orador sagrado;

Padre Antonio valsista;

Padre Antonio cantor;

Padre Antonio poeta.

Eu fui este anno para as Caldas com um grande{42} desejo de conhecer este bom Padre Protheu, que se fazia estimar de toda a gente pelas variadas modalidades do seu talento.

Quarenta e oito horas depois de eu ter chegado ás Caldas da Rainha, um amigo meu, acompanhado por outro cavalheiro, ia a balbuciar algumas palavras de apresentação, quando esse outro cavalheiro, para mim desconhecido, o interrompeu dizendo:

—Nós somos amigos desde creanças: Eu sou o Padre Antonio das Caldas. Teriamos nós dez para onze annos quando nos encontrámos pela primeira vez, na Foz do Douro, em casa de Joaquim Corrêa de Oliveira, de S. Pedro do Sul. Lembra-se? Nunca mais me esqueceu a sua physionomia. Vi-o uma vez em Lisboa, em S. Bento, e você acabava de sahir justamente no momento em que eu o ia procurar. Dê cá os seus ossos.

Encantado com a surpreza, dei-lhe os meus ossos, e a minha amisade. Uma hora depois, estávamos de pedra e cal,—para a vida e para a morte.

Padre Antonio, com ser das Caldas, vive em Obidos, onde tem capellania.

Sabendo isto, fallei-lhe logo de Obidos e dos quadros da celebre Josepha de Ayalla, que eu desejaria vêr.

Padre Antonio respondeu:{43}

—Isso arranja-se. Você vae almoçar comigo um dia d'estes, e eu mostro-lhe Obidos de fond en comble.

E como eu hesitasse, acrescentou:

—Sim, snr. Você vae almoçar comigo e eu dar-lhe-hei para almoçar a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres. Serve-lhe?

—Serve-me que apenas me mande servir a supradita vacca e o sobredito riso do sobredito arcebispo. N'essas condições, acceito.

—Está tratado.

Padre Antonio quiz dar-me para esse almoço um excellente companheiro: o meu velho amigo Pereira Carrilho, com quem em menos de quinze dias fiz uma larga serie de passeios: á Nazareth, a Alcobaça, á Figueira, á Foz do Arelho e a Obidos.

E, note-se, não perdemos um dia de aguas. Digo isto aqui para que o meu medico, e tambem velho amigo, dr. Ferrer Farol, não ralhe comigo na volta a Lisboa. Não, snr. Eu tomei sempre a minha agua, eu tomei sempre o meu banho, e não perdi occasião de passeiar,—para de algum modo coroar a obra therapeutica do dr. Farol.

Se fosse n'outro tempo, ter-me-ia custado ter que abandonar á noite o club das Caldas, onde a valsa era adorada com idolatria.

Mas com trinta e oito annos ás costas—o peso{44} de uma cruz!—a valsa seria para mim um tour de force incomportavel, um calix de agonia.

Nada d'isso. Nas Caldas da Rainha não provei d'esse calix, nem do chá do club. Não ingeri lá outros liquidos além da agua da Copa e do vinho das Gaeiras.

Quanto a solidos, já não posso dizer outro tanto, pois que prestei, como devia, gastronomica homenagem ás cavacas das Caldas.

E, ao comel-as, reconheci que ainda vale muito, n'este mundo, ter uma lenda.

É que as cavacas das Caldas teem mais lenda do que assucar.

Nós, os dois convidados para o almoço de Obidos, recebemos da mão do honorable Sebastião da Copa o nosso copinho de agua das Caldas, e, entrando para um trem, partimos caminho d'Obidos.

A manhã estava serena, como se dizia nos romances antigos. A neblina matinal levantava vôo do alto dos montes, como se fosse um bando de aves transparentes, de grandes azas abertas. E dos campos vinha esse cheiro sadio a ervas verdes e viçosas, que faz a delicia dos pulmões. A estrada é excellente, se bem que nem sempre plana. Obidos fica muito elevada, dentro das ruinas do seu famoso castello: a estrada sóbe colleando como uma serpente.{45}

Avistava-se já a muralha do castello, que era enorme, rota em muitos lanços, alguns dos quaes escancaravam para o azul da manhã a sua hyante goella de pedra.

Horisontalmente, desenhavam-se, ao longe, os arcos do extenso aqueducto de Obidos, atravez dos quaes a luz passava como n'uma vista de scenographia.

E em baixo, á beira da estrada que iamos seguindo, cada vez se avisinhava mais de nós a egreja do Senhor da Pedra, denunciando logo na sua construcção a mão dadivosa de D. João V.

E o nosso apetite, espicaçado pela agua das Caldas, ia cantando gloria antecipada em honra do almoço de Padre Antonio.

Não era assim, Carrilho?

Entrámos a velha porta do castello, que conserva o seu feitio antigo.

E logo o estrondo do trem attrahiu ás janellas dos predios, arrimados contra a muralha ou encravados n'ella, caras curiosas, petrificadas de surpreza, justificada surpresa n'aquella solidão montanhosa, que raros touristes visitam, áquella hora, especialmente.

O nosso trem parou um pouco ao acaso. E nós dissemos ás caras das janellas e ás caras das portas que iamos alli sobrescriptados para o snr. Padre Antonio.{46}

Então uma voz, cahindo do alto de uma janella, disse:

—O snr. Padre Antonio foi caçar perdizes para os senhores almoçarem.

A minha consciencia bradou mentalmente:

—Maroto! O que elle nos tinha promettido era a vacca e riso de frei Bartholomeu dos Martyres; nunca as perdizes de Padre Antonio d'Almeida!

E o meu apetite, que tem bom ouvido, replicou do lado:

—Deixa lá! Não ha, para almoçar, como uma perdizinha fresca. O Padre sabe disto...

Apeiámo-nos, e entramos na primeira egreja que se nos deparou aberta. Em Obidos ha, principalmente, egrejas e ruinas. Além d'isto, ha tambem bellas perdizes, que Padre Antonio caça. Mas isso fica para logo...

Ora n'essa egreja havia muitos e grandes quadros.

—Cá estão elles, dissemos nós, os quadros da Josepha!

E eram. Estavamos, sem o saber, na egreja de Santa Maria Maior.

Assumptos sacros, que foram os que mereceram a predilecção de Josepha d'Ayalla. As suas duas maneiras, antes e depois da viagem a Italia, estão{47} bem accentuadas n'esses quadros. A segunda maneira,—depois da viagem,—accusa um sensivel progresso pela imitação dos pintores italianos da Renascença. Pelo menos, pareceu-nos isto.

Josepha de Obidos tem decerto defeitos como artista. Mas as cabeças das figuras dos seus quadros estão, por via de regra, excellentemente tratadas. Era uma habil retratista, que sabia tocar as physionomias com grande verdade e expressão.

Áquella hora, a luz não nos ajudava muito; a melhor hora, disse-nos depois Padre Antonio, seria o meio dia. Ainda assim, estudamos os quadros durante longo tempo.

Uma mulher que estava rezando, levantou-se para dizer-nos:

—Quem sabe explicar tudo isto é o snr. Padre Antonio, mas elle foi caçar perdizes para uns hospedes, que talvez sejam os senhores.

Que sim, que eramos nós; e que as perdizes e Padre Antonio já iam tardando... todos.

—E aquelle tumulo? De quem será aquelle bello tumulo, de tão primorosos ornatos, que alli está mettido na parede?

A beata:

—Que o snr. Padre Antonio, quando viesse com as perdizes, explicaria tudo cabalmente.{48}

E então, n'um reccanto do templo, dentro de um caixãosinho de madeira, deposto sobre um banco, vi o cadaver de uma creança, os braços magrinhos encruzados, um lenço branco sobre o rosto, flores aos pés e no vestido.

O cadaver do uma creança! Pois póde haver nada mais triste do que o espectaculo d'uma creança morta?! Que se morra cançado da vida, vá. Mas fazer palpitar tres corações, os dos paes e o do filho, para ferir todos tres de um só golpe, chegaria a ser cruel, se Deus não fosse infinitamente bom!...

N'isto sentimos passos; voltámos-nos. Era Padre Antonio que chegava, em fato de caçador, com dois cães que o farejavam.

—Que as perdizes já estavam a cosinhar-se, tenras e gordas. Era o melhor almoço que um caçador podia dar. Tinha promettido, confessava, a vacca e o riso do frei Bartholomeu dos Martyres. Da vacca tinha mandado fazer beefs. O riso trazia-o alli, nos labios, e era patriarchal de hospitalidade sincera, como no Oriente... Mas as perdizes quizera-as ir caçar n'aquella manhã o seu amigo caçador Antonio de Almeida, para mandal-as ao Padre, que esperava hospedes para o almoço. Elle não tinha culpa de que o seu amigo caçador, apesar de lhe estar dentro da propria pelle, se lembrasse de lhe fazer um presente de{49} perdizes para o almoço e como Padre Antonio, que fôra quem as recebera, tinha gente de fóra para almoçar, pedia licença para mandal-as pôr na mesa com molho de villão. E que depois lambessem os beiços... Estava certo d'isso.

Padre Antonio explicou tudo: os quadros, o tumulo, a historia d'aquella egreja, tudo.

E a mulher:

—Que ella bem nos tinha dito que não havia para explicar Obidos inteira como o snr. Padre Antonio!

E Padre Antonio:

—Que ficasse com Deus, que nós iamos ao castello.

Fomos ao castello, subimos á torre de menagem.

Padre Antonio explicava todas as ruinas, a lettra de todas as inscripções apagadas, a historia de todas as pedras cahidas.

E, no alto da torre de menagem, estendendo o braço direito no ar:

—Aquelle logar chama-se assim; aquelle monte chama-se assado. Acolá era a Quinta das Flores, para regalo das rainhas. Aqui, n'este mesmo sitio, esteve a Senhora D. Maria Pia de Saboya. Eu vinha da caça tambem com o meu fato de caçador, ainda a pensar nas perdizes. E chamaram-me cá de cima: era o Pindella. Que sua magestade queria fallar-me. Tudo menos{50} isso: estou em fato do caçador. Que assim mesmo havia de ser. E foi... Olhe lá: Vê aquelle azul, além? É a lagôa. Você já foi á Foz do Arelho? Pois eu vou ámanhã para lá. Morro por aquillo; gosto de estar só na Foz. Faço-me pescador, e gosto! Nem já me lembro das Caldas. A Foz é melhor, por que eu na Foz sou selvagem: vivo na natureza. Ora, com a breca! as perdizes já devem estar promptas... Vamos lá almoçar... Ó Pimentel, tome cuidado; veja que não caia. A rainha subiu e desceu intrepidamente; não cahiu... Com molho de villão as perdizes não devem estar más.. Vão sendo horas. Até já os cães querem almoçar!...

Padre Antonio vive na unica hospedaria que ha em Obidos, e foi ahi que nos offereceu, não o promettido almoço de frei Bartholomeu dos Martyres, mas um banquete de Lucullo.

A cada prato que ia chegando, eu e Carrilho protestavamos. O medico da villa, que tambem estava á mesa, ria-se. Padre Antonio procurava atabafar os nossos protestos fallando insistentemente de coisas d'Obidos:

—Na Misericordia, aonde logo havemos de ir, tambem ha quadros da Josepha... Que o Malhão, o grande prégador, era d'alli. Na familia Malhão havia, além do pregador, outro homem de letras.{51}

E levantou-se, foi buscar um livro: Vida e feitos de Francisco Manuel Gomes da Silveira Malhão, Lisboa, 1794.

Serviam-nos n'esse momento magnificos linguados fritos.

—Se eu sabia a lenda romantica da capellinha da Porta de Nossa Senhora da Graça? Historia de uns amores infelizes.

Serviam-nos vitella de fricassé.

—Que no dia seguinte tinha que prégar nas Caldas...

E o medico:

—Você tambem vae cantar ámanhã á mátinée promovida pela marqueza de Monfalim?

—É verdade, tambem vou cantar. Mas de tarde metto-me na Foz, no seio da natureza, como um selvagem primitivo...

Chegámos ás duas horas da tarde ás Caldas.

—Porque se demoraram tanto? O que estiveram os snrs. a fazer tanto tempo em Obidos?!

19 de Março de 2018 às 19:17 1 Denunciar Insira Seguir história
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Eduardo Miranda Eduardo Miranda
Olá, Amanda, tudo bem? Faço parte do Sistema de Verificação e venho lhe parabenizar pela Verificação da sua história. Sempre que leio alguma crônica, tenho uma perspectiva muito grande do irei encontrar nas narrativas, pessoalmente gosto muito do bom humor, sarcasmo e do humor ácido; são formas inteligentes de prender o leitor na narrativa ao mesmo tempo em que o autor expõe suas ideias e fala sobre algo interessante. No caso de Chronicas de Viagem você uniu estes detalhes de forma brilhante. Gostei muito da forma bem-humorada e sarcástica como descreveu Nas Caldas Da Rainha, os jovens de dezoito anos no auge de sua sexualidade e libido tentando conquistar as garotas do baile. A descrição foi efetivamente bem-sucedida e me senti integrante do lugar. Também gostei muito da forma como fez a introdução de “A Nazareh”, fazendo um comparativo entre duas situações, de Sarah Bernhardt e de Fuas Roupinho, demonstrou seu conhecimento sobre o assunto e o local, lhe dando muita credibilidade sobre o tema. Eu não sei exatamente como você inseriu o texto no Inkspired, se é um arquivo único ou não, mas acredito que seria melhor inserir os textos de forma separada, capítulo a capítulo, desta forma a leitura e a organização ficam mais padronizadas, eu mesmo gosto dos intervalos entre um capítulo e outro para ter a chance de pegar uma xícara de café rsrs. Em geral, Amanda, me surpreendi com seu texto, ele ficou longe de uma escrita cansativa, é leve, descontraído e me prendeu a atenção do início ao fim. Quero conhecer o mundo através do seu olhar! Parabéns.
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