Luzes Seguir história

zephirat Andre Tornado

Ela é uma cantora famosa. Eu sigo-a deslumbrado com a sua luz...


Conto Para maiores de 18 apenas. © Este conto é de minha autoria.

#Música #Luzes #KPop #JPop #Como eu era antes de você #Ilusão #Teenager #Teen Dream #Estrela
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Capítulo Único


O brilho era intenso, fazia-me doer os olhos quando não estava com paciência para aquele circo.


Como era antes de toda essa luz ofuscante? Como era? Acho que me lembro… Ou não sei…


Era mais gordo, tinha mais cabelo. Era também mais impulsivo, insistente, inquieto e sobretudo sonhador. Agora, depois de te conhecer, mudei… Acho que me lembro… Não sei. A sério que não sei.


Como eu era antes de você?


Tinha uma imagem no espelho, agora tenho outra. Sem dúvida que gosto da mudança. As roupas são novas, perfumadas, caras. De lojas com marcas que só existem em Nova Iorque, Paris, Milão ou Tóquio. Acessórios a condizer, que tu gostas que os teus brinquedos sejam bonitos e vistosos, para fazer par com a tua figura impecável. És tão perfeita! Digo-to eu e dizem-te todos os outros meninos que andam à tua volta como borboletas em redor de uma lâmpada.


Há tanta luz. Tu és a nossa luz. Sem ti não seríamos ninguém. Adoramos-te como se fosses uma deusa. Consegues perceber cada um dos teus adoradores no meio de tantos, que gritam o teu nome quando sais da limusina, quando acenas para a multidão em histeria, quando sobes ao palco e cantas com a tua voz divina? Consegues ver cada um dos meninos que te seguem e que querem tocar na tua fama?


Mas olha só para mim… Estou mais refinado e aprumado, mas perdi os sonhos.


Tu nunca olhas para mim, pois não? Sou demasiado igual a todos os outros… Demasiado plastificado para perceberes que existe diferença entre mim e os outros que compõem o grupo que ajuda a que os teus dias sejam fáceis, famosos e excitantes.


No passado houve um dia, no entanto, que olhaste para mim. Houve outros entrementes, mas aquele foi o primeiro. Estavas a descansar de um ensaio, foste ao fundo do palco onde o chão se cobre de cabos grossos e coloridos. Sorriste-me. E perguntaste-me:


- Como é que te chamas? Não me lembro de te ter visto por aqui antes…


- Paulo… Vim com o senhor Rodrigues. Ajudo na parte eletrónica… Cabos e ligações, coisas dessas… Respondi ao anúncio… Não sabia que era para trabalhar para ti… Gosto… das tuas músicas… Quero dizer, gosto de te ouvir cantar. És uma grande cantora. Tenho umas canções no meu note


Gaguejava como um imbecil. Tu abanaste a cabeça.


- Paulo?! Que nome tão vulgar! Não podes ter um nome desses se fazes parte do meu staff.


- Sou só da parte eletrónica…


- Vais ser o Hikaru. Adoro nomes japoneses!


- Ah… sim? Serei o Hikaru?


- Esse nome tem um significado, sabias? Qualquer coisa relacionada com luz… Todos os nomes japoneses significam alguma coisa… Mas não tenho comigo o caderno com esses apontamentos. Estão sempre a perder-me as coisas! – gritaste irritada e eu saltei para trás.


Como eu era antes de você?


Era eu. Agora sou o que tu queres que eu seja.


Demasiado brilho da estrela que és tu, minha divina artista. Escondo-me nessa luz, à espera que nos possamos encontrar outra vez, sozinhos, como depois daquela festa.


Voavas pelos terraços do grande hotel onde estavam a celebrar outro dos teus concertos triunfais. Eu corria atrás de ti. Já não tratava da parte eletrónica, tratava das tuas coisas que tu não querias que outros mexessem porque as perdiam. Quiseste o Hikaru contigo porque ele era zeloso, responsável, querido. Perguntaram, quem é esse Hikaru? Descobriram que era o Paulo, que era eu… E assim subi de categoria no pessoal que empregavas. Passei a ser um agente auxiliar de digressão ou coisa parecida, não me importava o que eu me tornei depois de exigires que querias o Hikaru contigo, batendo o pé e fazendo beicinho, gritando numa monumental birra. O que importava era que eu partilhava o teu espaço pessoal, conhecia os teus quartos de hotel, os camarins, já não ficava simplesmente nos bastidores a ligar consolas e aparelhos para que, no palco, tu fosses a maior cantora de sempre. Era eu e umas dezenas de outros meninos, todos vestidos como bonecos vivos, de olhos maquilhados e punhos de renda, sapatos engraxados, uma assistência particular que te seguia como um coro de bajuladores a quem exigias elogios e uma veneração demente.


- Quero ser livre! Quero ser livre! – gritavas ao vento noturno que te batia no rosto enquanto voavas.


- Somos sempre livres quando queremos. Tu és tão livre. Olha para ti!


Paraste e abraçaste-me. Confessaste-me com a voz trémula:


- Não, Hikaru… Eu não sou livre. E também te prendi na minha jaula.


- Eu queria que me prendesses.


Afastaste-te, rodopiaste, murmurando uma das tuas canções. O meu coração batia frenético.


- Tens de perder mais peso. Continuas gordo.


Apalpei, envergonhado, o meu corpo. Passei uma mão pelo cabelo.


- Tenho tentado… – murmurei. Não queria ser imperfeito ao pé de ti.


De repente, agarraste-me numa mão e puxaste-me. Senti-me o homem mais feliz do mundo nesse momento em que me tocavas, mesmo com aqueles supostos quilos em excesso.


Nunca mais estivemos sozinhos como nessa noite, a dançar debaixo de uma lua plena gigante que ofuscava todas as estrelas, porque não havia outra mais importante que aquela que dançava comigo, na Terra e na galáxia e no firmamento inteiro, brilhando como uma supernova.


Como eu era antes de você?


Pensava que conhecia o mundo e que podia dobrá-lo só pela força das minhas convicções. Pensava que te podia transformar e fazer com que fosses mais humana… Bastava que eu conseguisse que te sentasses comigo, sem confusões, sem alaridos, no silêncio. Coisa que nunca vi quando tu estavas. Havia sempre ruído e movimento em teu redor, transtornando-te, mentindo-te, enganando-te. Um véu que dissimulava a verdade.


Admirava-te como uma grande cantora, continuo a admirar-te, claro. Entrei no teu círculo íntimo convencido de que eu era especial e de que olhavas para mim de uma maneira especial, mas não foi nada disso. O Hikaru era uma marioneta que nem sequer era manipulada pelo Paulo de antes. Os seus cordéis eram puxados por ti. Com violência, crueldade, com carinho e desespero, com algum amor e carência.


Há tanto brilho contigo. Comigo também.


Como eu era antes de você?


Mais verdadeiro. Agora sinto-me um desenho animado, uma garatuja de uma deusa divertida e fútil que se diverte com a sua própria indiferença para com aqueles que lhe são inferiores. Ainda me lembro? Não sei… Não sei se me quero lembrar.

Importo-me? Julgo que não… Neste ponto, já não consigo voltar para casa.


Como eu era antes de você?


Era um anónimo, sem graça, infeliz.


Agora continuo anónimo e infeliz. Mas já tenho alguma graça.


Quando voltarmos a dançar juntos, vou declarar-te, finalmente, o meu amor. Ou acabas com o que resta de mim, ou fazes-me acreditar que valeu a pena deixar de ser gordo e de perder parte do cabelo.

16 de Março de 2018 às 15:50 0 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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