rochapablo Pablo Rocha

"Como eu poderia me sentir princesa se me tratavam como uma escrava sem alforria?".


#11 em Horror #6 em Suspense romântico Todo o público. © Pablo Rocha

#drama #comunismo #melancolia #
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Bebê Arco Íris


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"Um fio começou a enrolar

Como um mágico a te hipnotizar

Seus olhos verdes revelavam a sua cor preferida

E na sua pele a cor mais sofrida

Chora, chora passarinho verde e tarda

A sua mãe não flora"



"Nenhuma ave voa muito alto se voar em suas próprias asas" - William Blake.







Minha família foi mandada para o Brasil pelos colonizadores. A ideia era que meu pai assumiria o estado do Ceará, e foi tudo certo, até meu pai começar a namorar com uma das escravas levadas da África. Em nome do amor que sentia pela minha mãe, ele começou uma revolta armada e assumiu o trono do Brasil. No mesmo dia em que Portugal declarou lesa-majestade, eu nasci, daí vem o "Leza" Elara da Rocha em meu nome.


"É menina!"


Essa foi a primeira coisa que escutei quando saí da barriga da minha mãe. Eu não sabia quem era a mulher que falava isso, mas foi a primeira vez que me senti segura. Fui retirada daquele lugar escuro e coube perfeitamente na mão daquela mulher.


Minha avó dizia que fui um bebê arco-íris, pois nasci 10 meses depois de um parto mal realizado que matou o meu irmão. Mas não consegui colorir nada na vida da minha mãe, que até então vivia em uma tarde chuvosa onde as nuvens cinzentas acizentam tudo. E isso começou depois que meu irmão morreu. Eu não fui a cura dela, sua luz, sua cor... Vovó me disse que ela morreu assim que nasci, ela não conseguiu me ver. Mas a Vovó só percebeu isso quando me colocou nos braços de minha mãe. Em vez de nossos corações se conectarem e sincronizarem como o meu primeiro sinal de amor, apenas o meu bateu.


Desde a época que eu era uma princesa herdeira, que eu não me sentia a princesa. Talvez por quase não existir princesas negras, e que eu só seja representada como pobre e faminta, ou porque eu sofri bullying na escola. Eu estudei numa escola para a elite brasileira. Cearense e negra, não faltava assuntos para os xingamentos. Mesmo princesa, eu não sentia que minha cor passava da carta de alforria.


Eu lembro de estar andando sob um dos corredores da escola, abraçada com meu caderno verde, olhando desconfiada para ver se o grupo que me xingava não estava perto. Eu ainda lembro da dor nos ombros que era para carregar a minha mochila cheia de livros. Eu passei em frente a uma sala de aula, mas de longe eu ouvi o professor gritando porque tinha perdido algumas moedas de ouro de seu salário. Quando me viu passando na porta, me chamou e gritou:


"Foi aquela vagabunda que me roubou!"


Eu não tive reação. Da porta, eu olhei para ele, afastando a mesa de licenciatura e levantando-se em minha direção. Não poderia ter sido eu, né? Eu não sou ladra e nem vagabunda, não é? Esse era o pensamento de uma criança de apenas 6 anos.


Como poderia me sentir uma princesa, se sempre fui tratada como uma escrava sem a carta de alforria?


Mas eu sabia que esses insultos eram coloniais e não naturais do Brasil. Assim, eu comecei a odiar o colonialismo, não tanto quanto os colonizados e escravizados odiavam. O colonialismo é um dos pilares da monarquia... "Monarquia", será que um dia ela funcionou? Eu não poderia participar disso, a monarquia é um erro que desencadeia o preconceito, miséria e fome para a maioria.


Pior que minha infância e meu nascimento foi a minha adolescência. Enquanto os meus colegas tinham uma adolescência "legal", como ir em festas, falar palavrão ou apenas conseguir socializar na aula sem ser repreendida pelos meus próprios colegas que diziam que o pai não deixava falar com gente da minha cor... Eu vivi isolada. Na minha adolescência, eu passava os intervalos lendo livros de José de Alencar e outros escritores que eu gostava apenas dos livros. Eu me sentia isolada do resto, afastada, como se eu vivesse dentro de uma bolha que me separa do mundo real, me impede de tocar, falar e viver ao lado de outras pessoas. A maioria das coisas que falei na escola foram defensivas daquilo que até então não "existia" como palavra. "Racismo", a primeira vez que li isso foi em um livro, mas era um termo novo no mundo.


A minha cor, a minha descendência africana, fez com que eu vivesse em uma bolha em meio àquelas crianças loiras, barrigudas e brancas. Eu tive tanto medo que pensei em abandonar a escola, mas a educação derruba o estado, e não a "justiça" que suja as mãos de sangue como na revolução francesa. A única justiça que tarda é a verdadeira, a falsa justiça, aquela para diminuir os impostos aos ricos e os proporcionar mais luxos, ou aquela que faz a população negra passar cada vez mais perrengue, essa falsa justiça, é a mais rápida.


Aos 18 anos, quando terminei a escola, escrevi meu próprio livro, um livro encantado de traumas escritos. Eu queria expor tudo, tudo que vivi, mas ao mesmo tempo eu só queria esquecer e fugir daquelas memórias como um pássaro fugindo da sombra da águia que o assombra. Fugir do passado para criar uma vida, não um museu dos contos de fadas de outras pessoas. Eu lembro que comecei a perceber gatilhos durante o dia. Como quando meu pai xingava alguém do governo de "vagabunda", eu sentia a mesma sensação daquele dia. Eu sentia o mesmo medo, a mesma dor nos ombros, a mesma sensação de inferioridade, de ser uma vagabunda, uma ladra...


E então, aos meus 21 anos, meu pai achou minha madrasta, outrora a história da minha mãe, ela era filha dos colonizadores.


Quando ele me disse sobre ela, eu senti o maior sentimento de ódio que já senti um dia. Me senti traída pelo meu próprio pai, senti que ele traiu minha mãe, a carta Auria e principalmente o meu sofrimento escolar. Ele estava trazendo o racismo colonial encarnado para liderar o reino.


"Como você achou que isso seria o certo, pai?!"

"Você está trazendo uma descendente de colonizador para liderar o país colonizado!"


Ao ouvir isso, ele suspirou, pegou na minha mão e disse:


"Eu também sou português, filha."


É claro. Ele age desse jeito pois é simpatizante com o colonizador. Por isso não me defendeu com o bullying escolar? O racismo que estrutura esse país mesmo depois da carta de alforria a todos os meus irmãos de traumas.


"Você que criou a estrutura racista deste país! O racismo brasileiro não é colonial, é paterno."

7 de Maio de 2024 às 22:50 2 Denunciar Insira Seguir história
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Bella Oliveira Bella Oliveira
Amei
October 03, 2023, 18:47
Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Sou membro da Embaixada Brasileira do Inkspired. Gostaria de lhe parabenizar pela Verificação de sua história. Que ela seja apreciada por diversos leitores presentes em nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
September 03, 2023, 00:17
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