A Estátua e o Jardineiro Seguir história

zephirat Andre Tornado

Num reino distante, o Destino vai atuar. As revelações serão feitas, fantásticas e impossíveis, e chega o momento de se fazer a escolha que tudo vai mudar - para sempre.


Conto Todo o público. © Este conto é de minha autoria.

#fantasy #literatura fantastica #Fantasia
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Capítulo Único


A estátua estava viva e ele descobriu isso casualmente. Simplesmente olhou e o rosto de pedra olhou-o de volta. Na primeira vez, fugiu. Na segunda vez evitou aquele olhar fixo que parecia morder com dentes duros como o material da escultura. Na terceira vez arranjou coragem e encarou a estátua.


“Não devias estar a varrer as folhas, jardineiro?”


Ele indignou-se com aquela observação cheia de desdém. Fincou a vassoura no chão, apoiou-se no objeto que o acompanhava durante todos os dias, braço em cima do cabo, fingiu que estava a desafiá-la. Sorria ufano, contudo, as pernas tremiam e os joelhos vacilavam.


“Cuido do jardim todos os dias e eu é que sei se devo varrer mais, ou menos.”


“Eu vejo-te.”


A curiosidade acossava-o e ele perguntou de repente:


“Como consegues ver-me?”


Arrependeu-se da ânsia demonstrada, porque a estátua riu-se.


“A tua próxima pergunta é se sabem que eu existo.”


“O Rei deve saber. O Rei sabe tudo!”, reclamou ele


“Criança insolente…”


Os ombros dele amoleceram. Estava a perder aquela discussão. Nunca julgou ser possível conversar com uma estátua, mas ali estava ele, nos jardins do castelo do Rei, a trocar palavras com aquela representação pétrea de uma deusa antiga. Não era bonita, o musgo colava-se às concavidades desgastadas pelos milénios, a elegância estava ausente das formas. Tinha uma cabeça larga, um penteado austero, um rosto esboroado de olhos vazios e uma boca que se abria discretamente para falar.


Ele voltou costas à estátua que o ofendera. Retomou o trabalho, varrendo, arranhando o chão, arrependido de ter julgado que podia falar com um ser imortal.


Na verdade, ele não era ninguém. Era um simples jardineiro, órfão de pai que morrera na Guerra dos Milhões, há mais de dez anos, que vivia sozinho com a mãe, uma lavandeira que aspirava a ser aia da rainha. Não tinha amigos, não tinha ambições. Esgalgado para os seus tenros dezasseis anos, demasiado curioso, demasiado inteligente, demasiado sensível, conhecia o jardim como a palma das suas mãos e era conhecedor competente da flora que ali se plantava.


“A profecia fala de um menino prodígio que descobre uma espada.”


Revirou os olhos. A voz da estátua chamava-o com doçura. Um sussurro manso que queria cativá-lo. Apelava às suas ambições secretas. Tantas vezes que lutara no caramanchão com a vassoura em mãos a fingir que seria a arma rutilante dos cavaleiros! Não, nunca poderia entrar na guerra ao lado dos nobres, o seu pai era um desgraçado, avisava a mãe com azedume. Ela bebia aguardente às escondidas naqueles dias em que estava mais frustrada e ele não se atrevia a contrariá-la.


“E tu sabes onde se guarda essa espada?”


Ele reaproximou-se da estátua e falou-lhe em tom baixo, ríspido. Depois endireitou as costas, riu-se da loucura, abanou a cabeça e desiludiu-se com a sua vida sempre igual.


A estátua enfeitiçou-o e ele ganhou paciência. Escutou-a atentamente. Esta contou-lhe sobre os da sua raça. Antes de a Guerra dos Milhões ter arrasado com Gea Avestan, a terra controlada pelo Rei que saíra vitorioso desse conflito, havia muitas estátuas falantes. Eram seres que partilhavam aquele mundo com os Homens, com os Eloiwin e com os Ankset. Guardavam os ritos milenares e conheciam as profecias que estabeleciam a História até ao fim dos tempos – fios invisíveis que ligavam todas as criaturas num único destino comum. Com a guerra, essas linhas foram cortadas, o equilíbrio ruiu. Os Eloiwin foram desterrados, os Ankset, escravizados e as estátuas, abatidas. As poucas que sobreviveram à redução a pó foram consideradas troféus, despojos de batalhas que ficaram na posse dos vencedores e juraram calar-se para todo o sempre.


Até que surgisse o momento certo.


Um menino haveria de nascer. Esse menino começaria a Guerra da Irmandade que retiraria do trono o Rei corrupto e cruel que subjugava todas as outras raças.


E o momento tinha chegado.


Ele largou a vassoura. Tornou-se pesada.


Grossas lágrimas despontaram dos seus olhos escuros. O momento certo tinha chegado, porque tudo o que a estátua revelava estava a acontecer. Gea Avestan estava em tumulto. A revolta preparava-se. Os ambiciosos dominavam o povo, os príncipes não tinham poder, a religião antiga fora totalmente dilacerada. A terra não tinha alma.


No chão, onde a vassoura tombara, estava a espada.


Ele sabia o que tinha de fazer. No seu peito inflou-se a chama nobre dos eleitos.


O jardineiro agarrou na espada e foi cumprir o seu destino. 

9 de Março de 2018 às 16:53 2 Denunciar Insira 3
Fim

Conheça o autor

Andre Tornado Gosto de escrever, gosto de ler e com uma boa história viajo por mil mundos.

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Ninlil Anunnaki Ninlil Anunnaki
Venho aqui também, meu amigo... para dizer que a poesia em prosa se encontra nesse universo de menos de oitocentas palavras. De uma sensibilidade e beleza incríveis! Gosto muito de realidade fantástica e aqui coloca a realidade (prosaica) em nível de fantástico. Parabéns... e obrigada por ter postado este conto poético
9 de Março de 2018 às 11:00

  • Andre Tornado Andre Tornado
    Oi amiga! Muito obrigado - as tuas palavras são extraordinárias. E fiquei sem palavras... Gosto bastante de literatura fantástica, de filmes fantásticos, de universos com infinitas possibilidades. E esta foi uma pequena tentativa minha nesse domínio tão exigente. beijo grande! 9 de Março de 2018 às 11:48
~