wesleydeniel Wesley Deniel

Como parte da coletânea "Nós não pedimos por suas guerras", apresento a vocês Kareen ibn Nassif, nascido em meio ao infindável conflito no Oriente Médio, onde dezenas de povos lutam, cada qual por suas ideologias políticas, crenças, territórios e interesses próprios. Aos doze anos, Kareen está sozinho, órfão e separado da única pessoa que lhe restava: sua irmã, Zarah. Kareen está para se tornar mais um dos "Mensageiros", mártires que entregam a mensagem de um grupo extremista ao mundo. Mas, quando algo inesperado acontece, o garoto se vê obrigado a uma jornada com um aliado improvável. Pacifista, Kareen deverá espalhar a verdadeira mensagem de Allah por onde for. Mas, estariam os homens dispostos a ouvi-la?


#3 em Drama Impróprio para crianças menores de 13 anos.

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Capítulo 1

Kareen ibn Nassif morria de medo do escuro, e até aí, tudo bem. Entendia que não era a única criança a sentir-se assim. Mesmo gente adulta, como o tio Jared, temia a noite, pelas mais diversas razões. Então não estava tão envergonhado por ter-se urinado.

Não era uma simples questão de infantilidade. Se você tivesse doze anos e houvesse passado os últimos cinco deles entre escombros, vendo corpos por toda parte, constantemente tendo de se mudar, de buraco a buraco, de cavernas a porões e fundações com água e podridão até o pescoço, orando do instante em que abria os olhos até se deixar levar pelo cansaço outra vez, só para poder viver outro dia, talvez teria medo até de sua sombra.

Durante a noite, tudo se tornava mais terrível. Os gritos ao longe, os riscos de luz cruzando o ar, incandescentes, em busca de infiéis para punir em nome de Allah. E haviam os fantasmas. Quantos não vagavam por aquela terra destruída?

Seus pais, por exemplo. A noite levara aos dois. Mamãe fora atingida por um disparo vindo do nada, enquanto tinha Zarah envolta nos braços, e por muito pouco o risco de fogo não a acertara também. E papai... O chão não o tinha simplesmente engolido?

Kareen e a irmã sequer puderam parar para tentar vê-lo, no fundo da mesquita que desmoronara. Nem gritar lhes fora permitido. Se o fizessem, teriam posto a todos os demais em perigo.

Temer aos próprios pais era triste, mas quando você é só um menino no meio do inferno, fantasmas são fantasmas. Kareen cerrava os olhinhos assim que uma boa alma o deixasse se aquecer junto a ela, e só os abria novamente quando os raios de sol penetravam por vidraças quebradas ou rachaduras nas paredes em ruínas.

Eles podiam estar lá... Papai e mamãe. Faruk todo rasgado pelos vergalhões e farpas afiadas que o atravessaram, e a mãe, Nadine, com a cabeça tombada para trás – o disparo que a atingira no pescoço quase a decapitara. Viriam na escuridão até ele, acusando-o de não ter sido um bom irmão, de deixar que o afastassem de Zarah.

A noite de agora havia sido fabricada. O sol ainda brilhava forte, inclemente, fora do caminhão em que fora forçado a subir. Tinham-no vendado quando o líder dos sunitas que aprisionara a ele e a irmã o escolhera para fazer parte do grupo que entregaria ao mundo (acima de todos, ao demônio Bashar al-Assad) a mensagem daquele dia.

Já não importava tanto. Queria que os pesadelos acabassem, que o tormento de jamais saber quando viria o fim, se fosse. Ser parte do grupo significava o fim. Saber disso não o assustava. Mas então alguém viera e lhe cobrira a visão.

Fizeram-no caminhar numa fila trôpega e constantemente ameaçada, do salão de um velho hotel transformado numa prisão improvisada e fedorenta, até um ponto desconhecido onde ouvia ordens dadas por um homem com voz rouca, e choros e súplicas. Acima de tudo isso, o ronco de motores grosseiros.

O garoto da frente, o qual Kareen fora instruído a segurar nos ombros para se manter na fila, havia tropeçado e caído pouco antes de chegarem aos veículos. Fora arrastado aos gritos por alguém e uma rajada de metralhadora fizera o silêncio cair sobre todos outra vez.

Kareen não se enganava: o rapazinho tinha sido um dos apanhados na tarde anterior, e não devia ter muito mais idade que ele; treze anos, quem sabe. Agora estava morto.

Alguns segundos depois, o homem de voz rouca disse alguma coisa que fez os outros rirem; Kareen não entendeu, mas ouviu direito quando o miserável mandou que buscassem mais um no hotel para entrar no lugar do garoto morto.

— Ouviram o que ele disse! — zombou alguém. — Não devemos matar os mensageiros... Não aqui, pelo menos.

Outra onda de risos veio e a fila tornou a andar.

Não fazia ideia de quanto tempo havia passado desde que o sentaram entre dois soldados cheirando à corcova de camelo e o caminhão fora posto em movimento. Tinha uma vaga noção de ainda estarem em Homs, por causa do sacolejar constante. As ruas da cidade a oeste do grande deserto vermelho já não eram mais que crateras.

Uma mulher, devia estar sentada à sua frente, pela direção do choro, levou um golpe na cabeça que a fez ricochetear na lataria da carroceria. Kareen saltou no banco e um de seus captores bufou e o puxou de volta pelo colarinho todo esfrangalhado da bata.

— Sentadinho aí, seu merdinha! — disse o soldado. — E se essa puta não parar de chorar, mato ela aqui mesmo!

— Zayn quer ela para a filmagem, seu imbecil.

— Temos mais doze.

— "Temos mais doze" — repetiu o que devia ser o que devia ser o maldito no comando daquele caminhão. Tentava imitar o sotaque estranho do pedante que o desafiara. — Já fez besteira em Homs, atirando no garoto. Se cometer outro erro desses, Zayn fará de você o próximo Mensageiro.

— Ele não... — Mas o estranho parou de falar. O que estava para dizer? Que seu líder, Zayn Fattel, não chegaria a tanto? Todos no veículo, até mesmo Kareen, conheciam o quão cruel podia ser o extremista. — Eu não vou... Não vou matar ela. Só falei por falar.

— Não, Sir Soldadinho — retrucou seu superior, jocosamente. — Você vai. Eu sei que veio só pra isso. Não liga com a causa de Zayn; o que quer mesmo é ver sangue. E verá, mas não aqui. Agora cale essa boca.

Kareen quis poder se transformar no Incrível Hulk, como nos quadrinhos de heróis que tio Jared às vezes achava para ele, e espremer cada soldado ali dentro. Porém, a vida real era muito mais decepcionante. Se tentasse dar aos malvados o que mereciam, seria espancado antes de o matarem.

O motorista dissera algo a um soldado e este fora passando a mensagem ao resto deles, até chegar no que estava junto de Kareen. Iam entrar no deserto.

— Vou colocar meu shemag.

— Nós somos feitos de areia, seu cão — respondeu o homem que parecia ter silenciado a mulher.

— Pode engolir o deserto inteiro, Kalih, estou pouco ligando.

Aos poucos, a fina areia dos ermos ia se adensando na traseira do veículo. As pessoas começavam a tossir. Uns soldados riam, outros batiam nos que engasgavam. Kareen ouvia os golpes e tentava não respirar fundo.

— Ei, Jamal, Simon está com medo da areia! — A risada meio idiota e nervosa de alguém veio de mais à frente. — É o que dá aceitarmos qualquer um nessa merda de grupo.

— Aguenta firme, inglesinho!

Então o homem de sotaque esquisito ao seu lado era um estrangeiro? Bem, isso era inesperado. Que eles, pobres infelizes nascidos ali, vivessem numa guerra sem fim, dava para entender. O que poderiam fazer, afinal? Porém, uma pessoa livre, sair de outro país e vir ao seu para ajudar aqueles homens a destruí-lo, nisso Kareen não conseguia ver sentido algum.

Mal sabia o que era um inglês ou onde ficava sua terra, quanto mais a razão de o homem estar sentado naquele caminhão, aguentando chacota de caras que não sabiam sequer rir sem parecerem uns estúpidos. Imaginava como seria o tal Simon, tentando se cobrir com o lenço, talvez mais envergonhado que ele que tinha uma mancha de urina na bata e... Um acesso de tosse o tomou.

— Até esse moleque está rindo dele! — disse o que começara com a gozação e todos os soldados gargalharam.

Antes que Kareen pudesse reunir ar o suficiente para dizer que não, de jeito nenhum estava zombando (Que ideia louca era a de alguém na situação na qual se encontrava ter motivos para rir!) de ninguém, mas sim tossindo, uma mão o atingiu na orelha esquerda e o fez ouvir o mundo como se estivesse no fundo de uma piscina.

Um dia, um dos raríssimos bons que o garoto conseguia lembrar, ele, seu pai, sua mãe e a pequena Zarah haviam se escondido num casarão abandonado, nos limites de Alepo. Durante a noite, o homem arriscara levar a família até o quintal e permitira que tomassem um banho na piscina.

A água era suja e não cheirava nadinha bem, mas ele desejava que seus filhos conhecessem a sensação de estarem envoltos por água. Aquilo talvez seria o mais próximo que chegariam do mar e Faruk o sabia. Kareen mergulhara sua cabecinha empoeirada na água meio esverdeada e os sons da noite apenas desapareceram.

Era um pouco como o que sentia agora (exceto por, em vez de refrescancia, só o que havia ali era dor).

Seu próprio grito viera de longe, com um curioso atraso em relação a dor que explodiu imediatamente e tomou sua cabeça em ondas nauseantes.

— Mostro pra você, seu merdinha!

— Abaixa essa mão, Simon! — disse o que o outro chamara de Jamal. — Já falei que Zayn não os quer feridos! É idiota ou só não entende nossa língua?

— Calma... Só estava amaciando um pouco a carne.

— Vá cagar, inglesinho. — O tom de voz brincalhão de Jamal se fora. — Saia já daí. Vamos trocar de lugar.

O estrangeiro não discutiu. Confusos sons de passos tomaram a traseira do veículo e alguém cheirando ainda pior que o tal Simon enfim se sentou.

— Ele é mal educado demais para um cavalheiro inglês, não acha? — disse. — Você não estava rindo, não é?

— Não, senhor.

— Certo. Então, boca fechada.

Dez minutos correram num espaço de tempo que parecia infinito a Kareen, até que reunira coragem para se dirigir ao fedorento que o escoltava.

— Senhor, posso cobrir meu nariz com a minha bata? — perguntou baixinho ao sunita.

— O quê?

— Meu... — Kareen apontou para o nariz. — Eu não quero tossir outra vez.

Silêncio.

Quando o rapazinho se preparava para falar de novo, o soldado disse:

— Tanto faz, moleque. Eu não me importo. Em seu lugar, sufocaria agora. Não sei o que Zayn tem em mente pra vocês, mas...

Mas nada. Apenas um estrondo, maior que qualquer coisa que Kareen ouvira antes. E então ele voava.

8 de Junho de 2023 às 13:08 12 Denunciar Insira Seguir história
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Ana Maria Jesus Ana Maria Jesus
Uau... Chocante pra dizer o mínimo. E o que mais incomoda é imaginar que tudo isso ainda tá acontecendo. 😢
December 03, 2023, 21:59
Maria José Gal Maria José Gal
Como não ser sua fan? História após história você nunca deixa de me encantar. Como consegue aterrorizar e encantar ao mesmo tempo?! Aqui acredito que não temos um terror, mais ver a maldade humana da forma como descreve e saber ser algo real e que tá acontecendo agora mesmo em algum lugar no mundo, me choca. Que primeiro capítulo poderoso!!!! Já estou seguindo. Mais uma vez você me arrebatou!
September 07, 2023, 05:55
Samir Marmud Samir Marmud
Massacrante. Dá para sentir o medo dessas pessoas, desse pequenino. A insanidade impera entre aqueles fanáticos e o modo como você captura tudo isso é sensacional e opressivo. Já estou preso a tua história. 👏🏻👏🏻
July 11, 2023, 08:52

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Olá, Samir ! Eu fico honrado por tê-lo aqui. De que descendência você é ? Se me permite a pergunta. Digo isso, pois imagino o quão difícil é para um povo acompanhar tanto sofrimento. Se é terrível para mim e tantos outros que não conhecem a cultura e história do Oriente Médio, que dirá aos que de lá trazem raízes. Espero tê-lo honrado com esta pequena obra que busca pela paz. 🙏🏻❤️ August 20, 2023, 05:23
Francisco de Assis Francisco de Assis
Pesado meu irmão. Me parece ser uma daquelas tuas que a gente não sai inteiro. Que parte da alma fica. Nosso mundo é um lugar maravilhoso mas também é cheio de coisas terríveis, de gente desumana. Ver um menino sozinho nessa dezolação é assustador. Parabéns por um primeiro capítulo de dar nó na garganta. Já estou seguindo!!
June 14, 2023, 06:49

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Triste, né companheiro ? Eu me senti terrível durante as pesquisas para esta história (me senti e ainda sinto para cada uma delas), e olha que nem me aprofundei muito, pois sei que há coisas horrendas para quem quiser ir a fundo. Mas a intenção nessa coletânea nunca foi de trazer horror (isso eu deixo para minhas outras histórias daquele gênero), mas sim a realidade e a esperança, pois ela existe mesmo nos momentos mais obscuros, e nos lugares mais improváveis. Grande abraço ! Obrigado por me acompanhar. 🙏🏻 August 20, 2023, 05:18
Clarice Foster Clarice Foster
Que bom vê-lo publicando, meu amigo!!! Notei que passou um tempo sem nos brindar com novas viagens incríveis, seja ao escuro do vazio ou ao fundo de nós mesmos. Pensei que talvez tivesse ido para outro lugar. Não sabe o quanto me deixa feliz ver histórias tuas sendo sempre tão bem recebidas. Você merece de mais. Aqui então tá, num drama não sabe como fico ansiosa pra ler! Mais também já fico preparada pra chorar, por que com aquela tua história da senhora japonesa eu me acabei aqui. Vi que em cima tem um outro nome..... Essa aqui faz parte de alguma coletanea? Enfim amei o primeiro capitulo e como sempre consegue nos chocar ao mostrar a humanidade como ela é. Acho que sofrerei com essa história, mais lerei apreciando cada linha. Tuas histórias facinam. Parabéns!
June 09, 2023, 00:19

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Olá, Clarice ! É tao bom vê-la aqui. Faz tanto tempo que gostaria de agradecê-la por todo o apoio e carinho de sempre; mas, infelizmente, não tenho quase tido oportunidade para uma boa conversa. Por isso peço desculpas. Eu espero que a jornada de Kareen, apesar de triste, tenha lhe trazido algo de bom. É o que toda a coletânea "Nós não pedimos por suas guerras" tem como missão. Esteja em paz, minha amiga. 🙏🏻 August 20, 2023, 05:00
Lira Pavlova Lira Pavlova
Só esse capítulo já me arrancou lágrimas, imagina os demais, amigo. Você descreve de forma vívida o medo, a dor e a angústia que o garoto vive, enfatizando as atrocidades de uma guerra que não poupa nem mesmo as crianças. Sua narrativa é intensa e perturbadora, expondo a realidade crua e dolorosa que muitos indivíduos enfrentam em zonas de conflito. O capítulo é forte e emocionante, e mostra bem sua habilidade em transmitir emoções e sensações pra quem te lê. Obrigada por nos proporcionar esta experiência enriquecedora 👏👏
June 08, 2023, 14:18

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Minha querida amiga. Como você está ? Espero que esteja bem ! Como disse ao meu caro irmão, Marcelo Farnési, peço perdão por não estar podendo responder a cada um de vocês, que tanto me prestigiam com sua presença e carinho, da maneira como merecem. O tempo tem sido corrido demais, a cabeça anda cheia demais. Mas nunca pense que não sou extremamente grato a cada um de vocês pelo carinho ! Quem dera eu pudesse retribuir a cada um por toda a honra que me trazem. Quanto à história, é, sem dúvida, uma tristeza sem fim. A guerra (esta aqui, uma guerra antiga e quase toda "em nome de Deus") é um flagelo para pobres almas que terminam órfãos, viúvos, viúvas... E, se consegui passar à amiga um pouco do que senti escrevendo, pesquisando, então minha missão segue bem sucedida. Espero que a história lhe tenha sido satisfatória. Fique com Deus ! 🙏🏻 August 20, 2023, 04:56
Marcelo Farnési Marcelo Farnési
Meu Deus! Meus ouvidos zumbem. Minhas pernas querem correr enquanto minha paz está congelada no meio da sala. Quase me envergonho por tanta paz ao meu redor. Quase fico feliz por ser um conto. Quase quero esquecer das cenas que desmoronam a minha frente. Parabéns, meu amigo. Trouxe uma parte do inferno que não deveria jamais existir, principalmente para crianças, para que nossa comodidade se transforme em algo em que possamos ser úteis de alguma forma. Chorei!
June 08, 2023, 13:43

  • Wesley Deniel Wesley Deniel
    Meu querido amigo, peço perdão a você, assim como pedirei a muitos mais, por não ter tido tempo de responder os comentários deixados em minhas histórias. O tempo tem sido um de meus inimigos mais ferozes. Obrigado, Marcelo, de coração, por tê-lo aqui. Eu espero que esta nova entrada em minha coletânea sobre as vítimas das guerras através do mundo e do tempo, tenha lhe sido satisfatória. Sua visão sobre minha escrita não só é uma das mais valiosas, como das mais aguardadas, tendo-o como tão admirável criador de maravilhas. Grande abraço, meu irmão ! August 20, 2023, 04:47
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