O silêncio do vazio (2017) Seguir história

alicealamo Alice Alamo

Não era fácil sair de casa para competir, deixar seu lar, sua família... Não era fácil sorrir o tempo todo como queriam que ele fizesse. Não era fácil... fingir que estava bem...


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#Viktor&Yuri #YurionIce #Viktor #Yuri #Yurio #Amizade
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Capítulo Único


Chegaram ao hotel. Viktor bagunçou os cabelos de Yuri no carro, como se não soubesse o quanto ele odiava quando fazia aquilo. Yuri não respondeu, apenas afastou-lhe a mão.

Yuri tinha concordado em não arranjar problemas. E cumpriria isso, mas... assim que chegaram ao hotel, seu avô ligou para avisar que não poderia ir lhe ver. Ele entendia, sério, preferia mil vezes que o avô ficasse em casa e cuidasse de sua saúde, mas... patinar sem ele na plateia era tão... vazio.

Viktor o olhou sob o ombro assim que saíram do carro. Yuri colocou o capuz da jaqueta sobre a cabeça e andou a passos rápidos, ignorando a tudo e a todos. Antes que alguém pudesse perguntar sobre ele, ouviu Viktor chamando a atenção para si, rindo e fazendo alguma piada idiota para os jornalistas.

— Yuri...

Suspirou, de novo, e ignorou a voz de Viktor perto dos elevadores. Ele não cederia, não admitiria que aquela viagem lhe fazia mal, que estava com medo, que queria correr de volta para casa. Não. Aquela não era a primeira vez que viajava para competir e não seria a última, tinha que aprender a lidar com aquilo, com a solidão, com a angústia, com a massa azeda e pesada que se entalava na garganta e o fazia querer largar tudo.

Era a Grand Prix, a final, seu último ano no júnior, e ele garantiria o ouro. Se ao menos seu avô pudesse vê-lo...

O décimo andar estava todo reservado para a federação russa, e ele entrou no quarto antes que Yakov começasse a dar sermão por ter ignorado boa parte de suas fãs.

Não teriam treinos naquele dia e, por isso, permaneceu em seu quarto, ligou para seu avô, certificou-se de que ele alimentaria sua gata e de que se cuidaria e, quando desligou o telefone, o silêncio do quarto o engoliu.

Abraçou o travesseiro e mordeu a fronha. O coração acelerado era um idiota, uma disfunção fisiológica que ele não entendia e não queria entender! Foda-se ele!

Mudou de posição, encolhendo-se ainda mais. Suas mãos suavam. Tentava pensar que deveria manter o foco, que estava sendo um idiota por se sentir tão nervoso, mas era inútil.

Sentou-se. Colocou uma música no celular e tentou fingir que estava em casa, no seu quarto. Do outro lado da porta, estaria o corredor, perto das escadas que o levariam à cozinha onde seu avô estaria preparando sua comida favorita. Ele, com certeza, soltaria um ou outro palavrão e, depois, olharia para Yuri assustado, acrescentando um severo:

— Nunca repita essas palavras, ouviu? Enquanto não for maior de idade, nada de palavrões para você!

Yuri riria. Sua gata com certeza estaria sentada sob a mesa e miaria para chamar sua atenção ao pote de ração já vazio, e ele reclamaria sobre o quanto ela come, apesar de achar extremamente saudável ela se alimentar bem.

E, o melhor de tudo, sentado à mesa, comendo com seu vô e ouvindo as notícias na televisão, ele se sentiria bem, acolhido, protegido... Não haveria desconforto, seu humor não variaria e nem ninguém o cobraria toda hora para sorrir, ser educado, ser amável!

Mas os trovões do lado de fora do quarto lhe lembravam de que não estava em casa... a Rússia ficava bem longe naquele momento.

É só mais uma competição, só por alguns dias, relaxe, vamos, relaxe!!

Passar a dar ordens para si mesmo era um hábito frequente naqueles momentos. Mas de nada valia. Levantou-se. Fechou as janelas e as cortinas, apagou a luz e entrou debaixo das cobertas. Colocou os fones de ouvido e selecionou uma música qualquer.

Não dava certo, ele sabia, já havia tentado aquilo inúmeras vezes, mas o desespero sempre o forçava a tentar uma vez mais. Ele não queria o silêncio, era horripilante ficar naquele quarto impessoal sem ouvir nada a não ser sua respiração, seu coração e a chuva do lado de fora! Os fones ajudavam com isso, contudo, a falta do sono, do ter o que fazer, deixavam-no inquieto, e a sensação de vazio se expandia, como sombras sob a cama que estendiam braços invisíveis em sua direção e o sequestravam para o completo nada.

Antes que se desse conta, as lágrimas enchiam os olhos. Saco! O choro vinha sem que fosse convidado, contra a merda da sua vontade, simplesmente não dava para entender ou pará-lo! A massa, que antes estava na garganta, parecia ter subido aos olhos procurando um meio de se exteriorizar, então, as lágrimas vertiam, caindo silenciosas até que o som dos seus soluços superasse a música em seus ouvidos.

A mão em seu ombro não o assustou porque ele, em um primeiro momento, não a sentiu ou se recusou a acreditar que alguém o estava vendo naquele estado deplorável. A coberta foi tirada de cima dele com calma assim como os fones e o celular. Viktor estava de joelhos na cama, um dos braços passou por baixo das pernas de Yuri e a outra pelo pescoço para o erguer minimamente enquanto ele se sentava na cama e ajeitava Yuri entre suas as pernas.

De novo...

Não era primeira vez que ele aparecia no meio de uma dessas suas cenas. E Yuri já tinha entendido que não conseguiria simplesmente expulsá-lo do quarto, ele o ignoraria e permaneceria ali, por mais que Yuri gritasse, o insultasse, batesse...

A mão de Viktor foi ao capuz dele, abaixando-o para poder colocar os dedos no cabelo loiro em um gesto de afeto enquanto trazia-lhe a cabeça para seu peito. Yuri apertou a camiseta que Viktor vestia e escondeu o rosto, deixando que o outro apoiasse o dele no topo de sua cabeça.

— Não sou bom com pessoas chorando — Viktor disse, tentando fazer graça, e apertou os braços em volta de Yuri. — Hey, Yuri, você devia ter ido para o meu quarto. Eu odeio ficar sozinho. O que acha de sairmos para conhecer a cidade?

Ele não respondeu. Viktor continuou a falar.

O chorou passou, e Yuri se permitiu ficar na letargia que nos assola após o pranto. Recusou-se a encarar Viktor, era orgulhoso demais para isso, mas não soltou sua camiseta. Enquanto ele estivesse ali consigo, podia suportar a falta que o vô fazia, o medo que a competição lhe causava, o peso do mundo sobre seus ombros. Enquanto Viktor falasse, não haveria silêncio, enquanto ele o abraçasse, não haveria vazio... E era por isso que Yuri acabava por abraçá-lo de volta minutos depois, um agradecimento mudo que Viktor entendia e não recusava, permanecendo no quarto até que Yuri perdesse para o cansaço e dormisse, velando pelo outro como ninguém havia feito por si! Como queria que tivessem feito...

2 de Março de 2018 às 01:39 0 Denunciar Insira 2
Fim

Conheça o autor

Alice Alamo 23 anos, escritora de tudo aquilo em que puder me arriscar <3

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