Martírio Seguir história

rosenrot huru

Pobre homem! Tinha de revisitar o palco do seu martírio para relembrar os bons momentos com aquela que o Mar lhe tomou.


Romance Todo o público.

#amor #morte #one shot #romance
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[Único] - Onde o Mar tocava a Terra


Tão quente e tão apertado. Tão perto e parcialmente tão longe, que pareciam ser um só. Um nó. Uma cobra? Uma corda, pronta para ser despedaçada e separando ambos os corpos.


As mãos frias masculinas agarravam o antebraço de sua garota, que nada dizia, e sentia a água tocando a terra e os seus pés. O vento que vinha havia roubado suas palavras — a verdade! —, consequentemente sussurrando juras de amor ao mar.


Não era preciso dizer mais nada — ele sabia! —, mas, meu Deus, como sabia...? O seu semblante enfermo e decadente havia entregado tamanho vexame...? Ou o amor preto e difícil que se encontrava no coração de seu amado havia descoberto tão rapidamente? Dane-se! Aquele sentimento tinha dessas...


Ela tinha começado a tremer — e já era tempo! —; resolveu puxá-lo rapidamente à borda da praia; a noite serena sendo carregada com vigor em seu peito dolorido, mas só ela sabia o quanto carregou durante aquela vida nefasta.


Enquanto sua vitalidade se esvaía, a jovenzinha levantou o olhar, e era como se aquele simples ato dependesse de toda a sua força. O pouco do ânimo que lhe restara fora o suficiente para pedir uma última coisa...:


— Beije-me! Beije-me, agora, sem hesitar!


E então ele a beijou, tomando cuidado para memorizar cada movimento.


O lenço que cobria a cabeça calva foi-se embora junto ao cheiro agridoce do mar, e no mesmo momento, os anjos, inúteis, que pendiam acima das nuvens, testemunhavam as súplicas internas do casal, desejando — ao mesmo tempo! — que a névoa também levasse o martírio compartilhado.


Ele parou de beijá-la assim que o gosto amargo do sangue invadiu o seu paladar, todavia, não era algo novo: aquele carinho que trocavam tinha sempre o sabor férreo. Havia chegado a hora, ele sabia, mas não queria saber. Arranjou um pouco de coragem, sabe-se lá de onde, e a afastou devagarinho. Ela caiu dura em seus braços, os lábios pálidos e enfraquecidos estavam entreabertos enquanto os olhos, outrora meigos, umedeceram-se por conta de suas lágrimas póstumas.


Subitamente, ele abriu os olhos e viu a mesma paisagem de sempre: a praia remota; o palco da sua desgraça...! Desde que a amada falecera, havia uns sessenta e poucos anos, gostava de visitar aquele local, para forçar sua mente em lapsos de memória daquele dia tão fúnebre.


O último beijo fora há tanto tempo — e ele nem se lembra mais!

27 de Fevereiro de 2018 às 18:31 1 Denunciar Insira 5
Fim

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Celi Luna Celi Luna
Eu li essa fic hoje a tarde, mas nao pude comentar por que estava forade casa, entao faco isso agora. E digo uau, que historia linda e triste, tanto sentimento envolvido entre os dois e nao precisamos saber um contexto para saber do amor deles, nao precisamos saber a historia desse casal enm como eles chegaram ali por que ja ta tudo tao completo. E ainda esse final que me fez chorar no onibus (tentando imaginar o que pensaram de mim hahaha) triste como ele seguiu a vida da forma que pode e passou tanto tempo longe dela, sempre a amando, mas o mais triste e ele nao conseguir mais lembrar do beijo da pessoa que ele amava tanto. Parabens por essa historia e realmente muito bonita
27 de Fevereiro de 2018 às 23:49
~