Noite Eterna Seguir história

lilithempire Plutao .

"A sua raça miserável nada entende. Vocês subestimam a vida e a morte. Você nunca leu nada. Você esteve aqui. O tempo todo. Pois a mente humana é fraca e tola. Os maiores venenos que vocês mesmos possuem são a sua mente e as suas palavras. Você se envenenou."


Horror Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#terror #conto #one shot
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Capítulo Único

   Foi em uma noite tão fria e tão escura quanto consigo me lembrar, a nevasca forçou a minha parada no que parecia ser uma hospedagem. Ressalto seu afastamento do que era considerado como uma pensão usual era mais similar a uma velha mansão.

   Ainda na entrada me foram oferecidos chá e banho quentes, os quais aceitei com uma quase alegria. A estalagem apresentava quartos que me deixaram estupefato; papel de parede vermelho-sangue, pinturas desgastadas pelo tempo e por maus cuidados e camas que pareciam querer arrastar-me para o sono sem fim.

   Após o banho, me foi apresentada a biblioteca com uma infinidade de livros que mal consigo descrever. Livros dos mais variados tipos: romance, histórias policiais, científicos; tudo extremamente atualizado com alguns exemplares que haviam acabado de serem lançados. Acabei por escolher um título atrativo no qual eu nunca havia ouvido falar e me acomodei junto a outros hóspedes na sala de estar, ao lado de uma grande janela.

“Aos vermes com quem convivi,

Dedico com louvor

Este conto amaldiçoado.”

   Uma súbita explosão de luz e um som tão estrondoso quanto o de uma bomba preencheram a velha estalagem. Trovões? Em plena nevasca? Depois do curioso acontecimento constatei que me encontrava sozinho no amplo cômodo e também que passava das nove da noite, resolvi então retomar minha leitura nos aposentos a mim designados.

   Ao tentar abrir a maciça porta de madeira, notei que a mesma havia sido trancada pelo lado de fora. O que seria isso? Algum tipo de escárnio? O fato é bastante incômodo, já que desprezo locais fechados. Decidi que tentaria não pensar no caso já que nada poderia me afetar dentro daquela mansão.

   A estória de meu livro passava-se em uma cidade japonesa isolada em alguma província. Seu início era extremamente similar a como cheguei na estalagem nesta noite, mas o personagem principal era um detetive de renome e os demais envolvidos eram: uma médica, um estudante de ensino médio, um banqueiro e uma nobre. Na mesma noite de sua chegada, o grupo testemunha o assassinato do único empregado da hospedagem. Quando o protagonista entra no aposento do mordomo, se depara com o seguinte micro poema escrito a sangue no chão:

“Se é em um olhar,

Ou em uma palavra,

Das nove batidas

Você não pode se livrar.”

   Nove batidas? Falaria o assassino de um relógio? Não, parecia óbvio demais. Lido o trecho em voz alta, ouço um breve grito masculino e corro em direção à porta que, para minha surpresa, havia sido aberta e, portanto, consegui chegar ao quarto do mordomo. Após a minha chegada, ouvi uma batida acima de minha cabeça e olhei, apenas para perceber que nada havia lá. Depois disso, o relógio soou pelo cômodo com apenas uma batida para marcar nove horas. Desconfiado, procurei pelo empregado e, quando não o encontrei, procurei por refúgio na poltrona bem iluminada e aquecida pela lareira de meu quarto.

   Sentei-me ainda com relutância e, de relance, vi uma figura alta e esguia parada em frente à janela pelo lado de fora da hospedagem. Não era possível, pois aquele era o segundo andar do prédio. Ao começar a observar a curiosa imagem atentamente notei sua expressão modificar-se; de apenas uma mancha preta, a criatura formou em seu rosto um sorriso que beirava o de um louco. Saiu, mas não sem antes deixar uma batida na janela com sua mão de dedos longos e finos, quase monstruosa. Ouvi, novamente, o som de mais uma batida do relógio.

   Duas batidas? Seria a história do livro a se concretizar? Peguei o mesmo para ler a partir de onde eu havia interrompido minha leitura e me deparei com meras páginas em branco. Defeito? Coincidência? As opções me faziam perder totalmente a calma que lutei tanto para estabelecer. Juntas se atrofiando, mãos frias como gelo, suor escorrendo pela nuca. O nervosismo me possuía por completo e tudo passava como um filme em minha mente, nada fazia sentido e, ao mesmo tempo, fazia. Em meu desespero, um novo grito foi ouvido por mim; desta vez parecia mais distante, como se fosse na sala de estar ou na cozinha.

   Assim que cheguei no andar de baixo, uma das hóspedes andava em círculos e passava as mão em seus cabelos escuros, como se estivesse extremamente preocupada com algo. Quando fiz menção de caminhar até ela uma nuvem de fumaça preta ergueu-se e depois mergulhou sobre a cabeça da jovem, como se a estivesse possuindo. Com extrema força, ela correu em direção a uma parede e bateu sua cabeça. Estava morta. O relógio declarou a terceira batida.

   Amedrontado, corri para meu quarto e mais uma vez abri o livro. Desta vez, os recentes acontecimentos estavam registrados e, na história, quem havia morrido era a moça nobre. O que me restava? O que eu poderia fazer? Não poderia fugir, já que havia uma tempestade de neve. Não poderia enfrentar meu inimigo, já que eu não o conhecia.

   Ouvi barulhos como os gemidos daqueles que estão em seus últimos suspiros, procurei pelos diversos cômodos e nada encontrei, nem a origem dos sons e nem mesmo uma pessoa sequer. Tudo aparentava se mover, o chão parecia um redemoinho e minha cabeça girava. Uma batida na porta maciça e o eco do som do relógio. Quatro batidas.

   Não me atrevi a olhar e nem mesmo procurar saber sobre aquela batida na porta de entrada. Comecei a correr pela casa em busca de algum artifício de defesa; uma faca, um espeto, qualquer coisa afiada seria útil. Encontrada uma espada que servia como enfeite na biblioteca, procurei pelo livro no mesmo local onde eu havia o deixado. Nada. Nem mesmo uma página. Desci novamente, desta vez para um lavabo que se situava no mesmo corredor onde a hóspede havia batido sua cabeça. Ao olhar pela janela senti o peso de um olhar sobre mim, era a criatura. Desta vez, deu dois socos contra a janela, quebrando-a. O relógio ressoou em minha mente com duas batidas seguidas.

   E, pela primeira vez em tempos, pensei. Os ponteiros do maldito relógio! Eles nunca se moveram! Apenas quando cheguei aqui. Será que se a partir do momento em que forem quebrados o pesadelo acaba? Corri para o quarto do mordomo e derrubei o primeiro, quase não suportando o barulho. E, quando quebrei o segundo no corredor dos aposentos, o relógio da sala de estar fez soar mais duas batidas. Tudo estava predestinado? Eu não passei de um mero fantoche?

   Não pode terminar assim. Fui até a maldita sala e lá vi, pela primeira vez, a face de meu inimigo. Corpo negro como piche e retorcido, costelas à mostra, mãos com garras que pareciam cortar a alma. Eu estava farto. Farto de como ele dançou comigo a noite toda. Empunhando a espada, corri em sua direção e perfurei a sua carne mole e viscosa. Dei uma risada de escárnio. Perfurá-lo? Não. Vislumbrei a imagem horrorosa de um espelho repartido pelo golpe. Eu não havia perfurado o monstro, mas a mim mesmo. E sangrava. Como em um corte real.

- Tolo. A sua raça miserável nada entende. Vocês subestimam a vida e a morte. Você nunca leu nada. Você esteve aqui. O tempo todo. Pois a mente humana é fraca e tola. Os maiores venenos que vocês mesmos possuem são a sua mente e as suas palavras. Você se envenenou.

   Um diálogo com a própria morte. E há quem pense que a morte é algo suave e sorrateiro, que quando ela vem estamos correndo por um campo ensolarado e eterno. A morte não passa do ponto final da arrogância humana. Meu corpo já gélido e pálido caiu lentamente sobre o chão. Quando minha cabeça bateu contra o chão, o relógio anunciou a nona batida.

E é com louvor

Que dedico a todos os vermes azarados,

Assim como eu,

O conto amaldiçoado.

27 de Fevereiro de 2018 às 00:32 1 Denunciar Insira 3
Fim

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Plutao . through the distorted lens, i've found a cure.

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Saah AG Saah AG
Caraca, e se eu te disser que esse conto me lembrou muito os do Allan Poe?? Ficou muito legal, parabéns!
15 de Dezembro de 2018 às 09:05
~