nonna.ayanny Nonna Costa

Alguns contos de terror para quem tem coragem. Aviso: Alguns dos contos abordam temas sensíveis (como Morte, Body Horror, Ass@ssinato, Suic*dio, Transtornos Mentais, Problemas Familiares e etc), portanto, não leia caso acredite que será afetado, afetada, afetade. Tenha em mente que o objeto dessa coletânea são CONTOS DE TERROR, não contos com a presença do terror ou horror.


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A Princesa e o Cavaleiro - parte 1

2009, num banheiro escolar de portas riscadas por mensagens adolescentes, sofrer era brincadeira de mau gosto.

O dia das Bruxas é amanhã, mas a minha história de terror acontece todos os dias.

Eu ouço os seus passos e as suas risadas. Não demora para que as piadas ecoem pelos azulejos sujos, outrora brancos. São sobre mim, eu sei. São sempre sobre mim, sobre o quanto pareço uma palhaça quando me maquio, uma pata choca quando uso salto, uma prostituta quando tento me vestir melhor, uma ridícula quando tento falar com algum rapaz. Uma das garotas dá um soco na porta do banheiro, provocando risos nas outras, porque sabem que eu estou aqui. Encolho-me sobre a privada.

Só queria que Edward Cullen aparecesse e me levasse deste maldito lugar para bem longe, para qualquer outro lugar, outro mundo. Eu sei que ele me amaria e jamais me chamaria de palhaça ou de prostituta. Ele me adoraria, eu sei que sim, sem se importar com o que eu sou, com quem eu sou de verdade. É um dos poucos caras que iria me querer. Observei minha edição de Crepúsculo dentro da mochila, respirei fundo, fechei meus olhos e imaginei que Edward silenciaria todas elas.

Esperei as garotas irem embora para chorar baixinho enquanto abraçava a minha mochila como forma de afastar aquela dor violenta no meu peito.

Edward Cullen não existe, nem mesmo Jacob Black - qualquer um dos dois serviria, desde que cuidassem de mim, de verdade -, mas eu existo, eu sou real. O meu sofrimento é real. Tal como a minha inveja de Isabella Swan, por ter alguém que cuida dela de maneira incondicional.

Depois de alguns minutos, deixei o banheiro com o rosto limpo da maquiagem porque as lágrimas mancharam tudo e eu precisei lavar antes que alguém visse. Não me sinto mais leve, a cabeça lateja e dói um pouco, mas estou acostumada, é uma reação comum a estes momentos de grande estresse e ansiedade. Por sorte, não furaram os pneus da minha bicicleta hoje, então vou para casa pedalando, observando as pessoas se prepararem para a Noite de Halloween.

Aqui se leva muito a sério o feriado do Dia das Bruxas, ao ponto de criar um festival baseado numa lenda que faz parte da fundação histórica dessa cidade. Uns dizem ser pura lenda, outros que é um aumento de uma pequena coisa. Eu acredito que seja verdade. Cresci ouvindo esta lenda, contada pelos meus avós, pelos meus pais e até pelos meus professores, então posso te contar o que sei.

Posso te contar a história do homem que eu amo.

Há muitos séculos, Ravenhill era apenas um assentamento de trabalhadores rurais servindo a um senhor feudal, um rico o bastante para financiar soldados e ter o título de um nobre. Uns dizem que ele era um conde, outros dizem que ele era um duque. Não há registros de sua existência. Só as histórias que os mais antigos passam adiante. O nobre era devoto ao seu deus porque precisava ter o apoio da igreja para controlar Ravenhill, ter poder sobre ele, porque queria enriquecer.

Eram dias de violência e de perseguição aos cristãos e nossas terras recebiam visitas constantes de criminosos porque era afastada para dentro das montanhas, então o nobre decidiu pedir ajuda ao bispo com o qual tinha estreita amizade. Um destacamento vindo diretamente do exército santo das Cruzadas chegou a Ravenhill para proteger os trabalhadores e cuidar das fronteiras. Todos acharam que dias de paz seriam aqueles, dali por diante, porque eram homens encouraçados e bem armados com espadas, escudos e tantas outras coisas que os faziam cavaleiros perfeitos.

E de todos eles, o mais feroz e o mais honrado de todos era o Elmo de Prata. Seu nome se perdeu da história, mas não os seus feitos e nem os seus méritos. Esta lenda é dele. Elmo de Prata era o primeiro a chegar nas batalhas e o último a cair nelas. Nunca caiu. Sua alma se estendia para a sua armadura e a sua espada, eram partes dele como o seu coração de leão e a sua força de titã. Erguia-se como uma torre perante os inimigos e ninguém tinha forças para derrubá-lo em batalha.

Embora fosse um cruzado, diziam lutar como um demônio, que quando empunhava suas lâminas era o mesmo que ver uma dança e o tintilar do metal em movimento era pura música. Incomparável. Inesquecível. Um espetáculo de sangue e ferro. Elmo de Prata vivia pela batalha, para defender os inocentes, salvar as almas para aquele deus, garantir que todos em Ravenhill tivesse o direito de viver a vida que queriam, construir um futuro. Era o que dava sentido à vida dele.

Elmo de Prata era adorado por todas as pessoas de Ravenhill, pois não havia um especialista melhor em matar do que ele, ninguém lutara tanto, vencera tantas vezes por eles, era o herói da cidade, mas suas convicções não o permitiram ver o que estava acontecendo ao seu redor. O nobre não aceitava que outra pessoa fosse o objeto de todos os louvores e dos prêmios dados pelos moradores do assentamento. Tampouco o bispo concordava que alguém recebesse mais adoração que ele mesmo, que fosse considerado o herói, considerado um enviado de Deus, um anjo de salvação para todos, então os dois começaram a espalhar o boato do demônio, que Elmo de Prata fora tocado pelo diabo.

Que só havia um meio de ele ser capaz de lutar com tanta proeza, como nenhum outro homem que já existiu na Terra: um pacto com o diabo. Foi como se do dia para noite, a desgraça caísse sobre o vilarejo inteiro. Mulheres apaixonadas, porém rejeitadas, diziam que viam o demônio no rosto dele. Homens enciumados alegavam que Elmo de Prata não tinha sombra e que corvos o seguiam. Não importava o que ele fez no passado, quantos inimigos ele tenha deitado a espada, esqueceram as vitórias que ele conquistou, as almas que salvou e a grandeza que trouxe para Ravenhill.

Deixou de ser amado, de ser bem visto, de ser bem-vindo. Aonde quer que fosse naquele assentamento, só encontrava desprezo e repúdio, como se houvesse cometido o pior dos crimes. Eles odiavam porque o bispo e o nobre mandavam que odiassem, porque a inveja era grande demais para que um coração tão nobre pudesse entender. Ele era o inimigo, uma criatura enviada por satanás.

Só consigo imaginar o quanto de sofrimento Elmo de Prata tenha enfrentado sozinho, pois ele não tinha ninguém por ele, apenas a sua espada e sua fé nos outros. Pobre Elmo de Prata. O bispo que o enviara para o assentamento foi o responsável pela decisão de condená-lo à morte pela forca. Não houve maior traição do que esta. Seu único pedido, antes do fim eterno, era ser enterrado em seus paramentos de cavaleiro, pois assim como viveu todos os seus anos desde a tenra idade ele queria estar pela eternidade que lhe aguardava sob a terra. Foi a única gentileza concedida depois de tudo o que fez, pois no pôr-do-sol do dia 31 de Outubro a corda estava em seu pescoço e era apertada.

Muito apertada.

Elmo de Prata lutou porque nasceu para lutar.

Era o que sabia fazer.

Não morreria tão facilmente. Centenas tentaram e as mesmas centenas caíram. Ainda havia fôlego em seus pulmões, do corpo suspenso com todos os músculos queimando para manter a última centelha, todos viam a expressão feroz da última batalha que Elmo de Prata travava. Dizem que foi a maior prova da sua relação com o diabo. Eu digo que era sua persistência incomparável.

A corda não foi suficiente, o pescoço não cedeu à gravidade, mas o galho onde estava.

Elmo de Prata era muito mais forte do que todas as vontades reunidas ali, gritando pela sua morte imediata, resistindo até anoitecer, então tiveram que apelar para outro meio de matá-lo mais efetivo: usaram o mais afiado machado do assentamento para arrancar a cabeça de Elmo de Prata.

A gentileza ainda foi concedida.

O bispo dissera que o cavaleiro admitira sua culpa, seu pacto com o demônio, portanto ganhara aquele direito. Dizem que quando sua cabeça rolou, espalhando as únicas gotas rubras que estas terras haveriam de beber do cavaleiro, Mortimer, o cavalo que Elmo de Prata montou por anos, enlouqueceu de tal maneira que pisoteou os homens que o amarraram, matando-os. Sua loucura obrigou os homens a sacrificar tão belo alazão, dando a ele o mesmo destino injusto e sombrio.

Numa cova fria, profunda, segurando sua espada, vestindo sua magnífica armadura de metal escuro, com o cavalo ao seu redor, enterraram-no.

Sem a cabeça.

Temiam o toque do diabo.

Achavam que se a cabeça estivesse perto do corpo, ele voltaria, o mal ressuscitaria Elmo de Prata para levar as almas que condenaram sua existência. Tão severo castigo dado a tão pura alma, só um crime seria pago por ele: a inocência. No monte que era sua tumba, nas profundezas do castelo, plantaram uma árvore para que ninguém soubesse onde era. O problema, no entanto, era os incontáveis corvos que todas as tardes pousavam nos galhos da árvore e ali ficavam até amanhecer.

O assentamento se afastou cada vez mais daquele bosque porque os corvos atacavam quem por ali estivesse. Construíram um cemitério para purificar aquele solo ao redor de uma capela, mas ainda distante da árvore dos corvos, porém acontecimentos estranhos continuaram acontecendo, dia após dia, noite após noite, até os que fatos virassem memórias e as memórias virassem lendas. Séculos depois, o bispo, o nobre, aquelas pessoas desapareceram, abandonaram-se na história. Ravenhill transformou-se numa vila, depois numa cidade e se transformou completamente.

Os corvos, porém, permaneceram.

Sempre estão lá.

Encontrei a árvore dos corvos, onde fazem os seus ninhos e permanecem durante o entardecer. Foi num dos meus passeios de bicicleta, procurando espairecer das minhas angústias e dos tormentos que me perseguem todos os dias. Eu devia ter 13 anos na época e me sentia desesperada pelo medo.

Pensei que fora só uma coincidência, afinal, achar uma árvore cheia daquelas aves no meio de um lago criado por anos de chuva constantes que inundaram o rio que abastece a nossa região do vale e suas águas se acumularam naquela vasta depressão até alcançar águas subterrâneas - assim disseram quem pesquisou a geografia do lugar -, perto do primeiro cemitério de Ravenhill, mas eu voltei lá várias e várias vezes, em ocasiões diferentes do ano, e os corvos sempre estavam lá.

Era uma árvore enorme, com raízes saindo para fora como dedos cavando a água e a terra mais abaixo e os galhos pesando até o chão. Outras árvores crescem ao redor, formando um labirinto aquático e pantanoso, e à noite, quando é mais frio, uma persistente névoa se levanta e esconde o solo e o lago, criando uma armadilha para os desavisados. Nenhum outro animal vive aqui, apenas os corvos e os peixes dos quais eles se alimentam.

A sensação que tenho todas as vezes que vejo esta paisagem é do lago engolindo o bosque, puxando-o para dentro das suas profundezas barrentas e negras, onde centenas de lápides se transformaram nos lares de peixes de água doce.

Sinistro e poético, pois a vida cresce de onde a morte se assentou.

É o meu refúgio, meu lugar secreto de toda Ravenhill.

É para onde vou quando preciso estudar, quando quero um tempo sozinha, quando preciso ficar em silêncio ou simplesmente quero me imaginar vivendo outra vida.

Tomei um barco de madeira para investigar aquela enorme força da natureza se erguendo sozinha, vasta, talvez precise de três pessoas adultas para circundar o seu tronco e sua sombra se estende por vários metros, como uma tenda de pesada sombra, afugentando o sol mesmo nos dias mais quente e com menos nuvens no céu.

Ao chegar à pequena ilha formada pelas grossas raízes, eu vi uma velha lápide incrustada na madeira centenária, cuja identificação se perdera por conta da ação do tempo, exceto pela data final. Uma cruz ao lado do número 1695. Era uma prova de que a lenda carregava em si um grande fundo de verdade, o que me deu uma grande esperança de que Elmo de Prata fosse real. Criei um afeto imensurável pela lenda e pelo meu refúgio, ao ponto de buscar todas as informações possíveis sobre os eventos que aconteceram naquela época.

Quando eu completei 15 anos, meu quarto virara um santuário particular que apresentava todo o meu respeito e carinho por quem fora, de verdade, Elmo de Prata. Para um trabalho de escola, de História, eu consegui fazer de papel uma reprodução fiel do capacete usado pelo cavaleiro, com base em descrições da época feitas por cronistas e por magistrados. Tornei-me completamente dependente dele, da lenda dele, de todas as cartas escritas com letra difícil de ler que traziam algo dele.

Eu estava viciada e a lenda era a minha droga. Não conseguia me relacionar com ninguém, ainda que minimamente, como uma amizade, algo simples, porque meu mundo girava em torno do único homem que eu sabia que cuidaria de mim, que me protegeria porque eu sou inocente. Não mereço os castigos desse mundo por ser quem eu sou. O que eu fiz de errado para ser castigada?

É porque eu não me pareço tanto assim com uma mulher? É porque eu não sei me vestir de maneira bonita e agradável? É porque eu sou alegre demais e sempre tento fazer amigos? É porque eu me interesso mais do que qualquer um pela história da minha cidade? É porque meu sonho é ver Elmo de Prata e dizer o quanto eu o amo? Eu não pedi para ser assim, não foi uma escolha minha. Apenas nasci desse jeito, diferente do que eu me imagino sendo, grosseira e atrapalhada.

Meus pais não se importam tanto comigo quanto eu precisava em momentos críticos como os que vivo agora. Eles parecem ter entregado a toalha. Desistiram de tentar me mudar, convencer-me de que só tenho a cabeça confusa, que tudo é uma fase passageira, que estou cometendo pecados contra o deus deles, que fiz uma escolha errada para a minha vida e estou sendo impertinente. Como posso escolher a violência que sofro todos os dias por conta de um capricho, uma escolha desajuizada?

Hoje, porém, nesta noite eu vou dar um fim ao meu sofrimento, eu já me decidi. Não tem quem me ame e o meu amor por mim não basta mais porque meu corpo não aguenta tanta pancada, tantos insultos, tantas ameaças de morte diárias. Eu esperei até a meia-noite. Em uma coisa, pelo menos, eu sou boa. Sou boa com linha e agulha, eu gosto de fazer minhas próprias roupas.

Costurei minhas próprias roupas de pioneira, com direito à touca e a luvas, baseada na moda do século 17 na Inglaterra e na América. Meus pais passavam o dia inteiro trabalhando e vivendo a vida deles - vivendo sob o mesmo teto, mas com pessoas diferentes porque não se suportam mais -, então eu podia me vestir do jeito que quisesse sem sofrer represálias. Então punha minhas roupas de pioneira. Por alguns anos, foi legal, eu me sentia mais coerente comigo mesma, mais natural. Tentei ir assim para a escola algumas vezes, mas sempre voltada com o vestido rasgado ou manchado, destruído por aquelas pessoas que não aceitam que eu sou diferente.

Parei de ir como eu queria, passei a usar algo mais “aceitável” pela escola. Anulei-me mais uma vez. Hoje, porém, tudo acaba. Já me decidi. Encontrei um livro embaixo de uma das raízes daquela árvore quadricentenária. Era tão velho que dele saía raízes. Um diário, escrito por uma mulher que fugira de Salem e deixara seu segredo escondido ali para que ninguém soubesse da verdade. Que ela acreditava ser uma bruxa capaz de lidar com os mortos e com as forças das trevas.

A última página escrita descrevia a noite que ela passara escondida na árvore, protegida pelos corvos, pois eles atacavam com a ferocidade de lobos quem se aproximava daquele terreno, daquele velho cemitério. Era estranho e incomum. A bruxa investigou aquela região e descobriu que ali havia uma grande fonte de ódio e de poder, que nem mesmo ela, a mais poderosa bruxa de Salem, herdeira e sucessora de Bathsheba naquele grupo mágico, era capaz de canalizar e controlar.

Ela tentou, uma vez, invocar o que os corvos guardavam com tanta cautela e impetuosidade, porém arrependeu-se amargamente, pois lançou sobre Ravenhill uma praga incomensurável que quase condenou toda a população ao destino das cidades fantasmas.

Aquela época entrou para a história como a Praga de 1695, divulgaram como uma doença vinda de um bicho que infectou a água e a terra, apodrecendo os alimentos e aumentando o número de corvos em vista da quantidade pessoas mortas pelas ruas, quase tanto quanto o número dos exércitos que caíram por terra pelo fio da espada de Elmo de Prata.

Quem acreditaria que um homem erguido dos mortos teria chacinado Ravenhill?

Ninguém, até hoje, mas é uma boa história para encenar quando chega Outubro durante os eventos oficiais da cidade.

Descrevia que custaria parte da vida da bruxa enviar aquela força maligna de volta para a cova maldita de onde viera, que nem mesmo o Inferno ousava tocar após o abandono do Paraíso. Acho que ela escondeu o diário para que nenhuma outra bruxa tentasse aquela arriscada loucura. Eu não sou uma bruxa, não tenho sangue e nem descendência, já pesquisei, mas eu não tenho nada a perder e se este for o único jeito que eu tenho de encontrar o amor verdadeiro, agarrei a oportunidade com unhas e dentes. Será o meu último esforço mortal com o meu último fôlego de vida.

Meu despertador me avisou que já era hora, mas eu estava desperta com a mochila pronta. Pensei em escrever um bilhete de despedida, mas quem irá sentir falta de mim? Ninguém. Peguei a minha bicicleta e pedalei até o Museu de História de Ravenhill. Eu pesquisei dos 15 até os 18 anos e, porque todos queriam me silenciar e evitar a minha persistência, davam-me os arquivos que eu queria sobre aquela parte da história. Gastei muitas horas do meu dia nessa pesquisa, mais do que eu me dediquei à minha escola, porém consegui o que eu queria.

Eu encontrei o crânio de Elmo de Prata. Não é o segredo mais secreto do mundo, as pessoas apenas deixavam de lado década após década a verdade, ignorando-a por medo de que a história seja verdade, que a Pandemia de 1695 foi um massacre, na verdade. Entrei no museu pela porta dos fundos. Não é como se houvesse algum tesouro valioso a ser protegido de bandidos. Esta é uma cidade de interior que cresceu demais e prefere esquecer do seu passado, portanto, guardam as coisas sem cuidado, sem pensar no significado daqueles tesouros para a cidade. Não há segurança aqui.

E se tem algum sistema de proteção, está desligado. Eu entro sem dificuldades. O guarda está dormindo e o barulho da televisão é alto o bastante para abafar a minha passagem. Vou ao porão. O tesouro mais importante de Ravenhill foi precariamente guardado numa caixa de sapatos, embaixo de poeira, coisas velhas e esquecimento. Por sorte, puseram uma tarjeta de identificação na tampa.

Abri só para ter certeza de que ainda estava lá dentro. Um crânio de 400 anos. Envolto em papel e em plástico. Do jeito que deixei da última vez que vim aqui. Levei-o dali. Ele não merece tamanha solidão, então lhe farei uma última gentileza. Uma gentileza de verdade. Fui para o cemitério ainda na minha bicicleta, atravessando as plantações de alguns dos moradores mais proeminentes da cidade, cujos filhos são considerados a elite da escola. Há espantalhos com cabeças de abóboras cujas roupas balançam por causa do vento noturno, pressagiando algo. Há sorrisos frios voltados para mim.

Acenderam velas dentro das abóboras, lançando uma luz estranha através das vendas feitas de qualquer maneira, olhos tenebrosos que vigiam quem passam pelas trilhas entre os trechos de plantios. Continuei pedalando, ignorando o arrepio na minha nuca. Passei pelo novo cemitério, que fica nos limites da cidade, acompanhando sua murada o mais rápido que eu conseguia por conta dos bêbados e drogados que vagueiam por essas bandas. Eu temo mais a essas pessoas do que as histórias de fantasmas. Por sorte, porém, como todo o resto da cidade, eles estão tão envolvidos nas festividades dessa semana que culminarão no Dia das Bruxas, que nem me notam.

Pelo menos não desta vez.

Já fui assaltada e, uma vez, golpeada por essas pessoas que se julgam melhores do que eu porque sou assim, diferente de todas as outras mulheres.

Não quero lembrar disso agora. Esta é a noite mais importante de todas e eu quero ter pensamentos tranquilos e alegres em meu coração. Atravessei a floresta sem grande dificuldade porque conheço o caminho e o caminho me conhece. A luz da lua brilha forte por entre os galhos e ilumina as passagens por entre os troncos e os galhos. Ouço a canção das corujas, dos sapos e dos grilos, todos celebrando o que irá acontecer em alguns minutos. De alguma forma, estou feliz.

Eles cantam para mim porque sabem que em pouco tempo serei parte deles, parte deste barco, deste bosque. Depois de muito caminhar, empurrando minha bicicleta - que carregava minha grande bolsa e a caixa de sapatos, após avançar por caminhos tortuosos e quase invisíveis, eu cheguei ao lago. O barco estava onde eu o deixei desde minha última visita, embaixo de uma camada de arbustos e de folhas que eu forjara. A névoa está lá, escondendo os caminhos para a árvore, mas eu os conheço mesmo de olhos fechados, então troco a bicicleta pelo barco e vou sem medo.

A lua cheia ilumina o lago, deixando-o transparente como vidro. Apesar da névoa, eu posso ver as algas, os peixes coloridos, as lápides manchadas pelo tempo e pelo musgo, algumas tinham desenhos, outras pinturas, palavras e quadros embaçados pela própria água, nada mais estava claro ou reconhecível abaixo da superfície, metros até o fundo. Todos descansam lá embaixo. Eu quero descansar lá também, onde é quieto, tranquilo e acessível, o local perfeito para estar.

Quando chego às raízes, amarro o barco numa delas, pego a minha mochila e me equilibro até chegar ao tronco, contorno-o e encontro a lápide.

-Chegou a hora. - disse a mim mesma. - Não posso esperar um minuto.

Primeiro, eu me troquei. Pus o mais bonito vestido à moda dos pioneiros que eu já fiz, de um tecido listrado azul, ajustei o avental marcando a minha cintura e prendi meus cabelos loiros dentro da touca, ajustando as mangas ao redor dos pulsos. Eu me observo num espelhinho, estou linda. Da bolsa tirei várias velas, colocando-as ao redor da lápide para iluminar o nome que se perdeu. Bem ao centro, depositei o crânio e diante dele, uma garrafa que eu mesma decorei. É o meu presente para ele.

-Eu ficarei ao seu lado para sempre agora, meu amor. Nunca mais ficará sozinho. Nem eu. - eu enchi a garrafa com um vinho que me custou uma boa parte das minhas economias, muito caro e antigo como só os bons vinhos podem ser. Elmo de Prata merece o melhor. Tirei um recipiente da mochila e o coloquei aberto perto da garrafa. É uma torta de maçã, que eu mesma fiz. Em diversas cartas que li, mencionam que Elmo de Prata apreciava bastante esta guloseima. Por fim, coloquei ao lado da garrafa um embrulho com carne seca. São os favoritos dele e fazem parte do ritual.

É a minha cerimônia de despedida porque eu acredito que mereço um jeito especial deixar este mundo e ir viver eternamente com quem eu amo.

Abri o diário para checar o próximo passo.

Sangue. De quem chama. O meu. Há uma anotação que me avisa das chances maiores de sucesso do ritual caso o sangue seja de uma virgem. Com uma faca, corto a minha mão e deixo que as gotas caiam sobre a caveira até estar suficientemente vermelha. Sem me importar com a dor, coloco as pétalas secas de crisântemos coloridos que guardei debaixo da minha cama por sete luas cheias ao redor da caveira, depois a adorno com margaridas - a flor favorita dele e a minha também - e um óleo balsâmico perfumado. Agora, eu devo dizer as palavras.

Não quero invocá-lo, quero estar com ele, então direi as palavras do ritual.

-Eu te amo. - sussurrei antes de beijar a caveira. - Nunca mais ficará sozinho na escuridão. Já, já estarei contigo. Espere-me. - coloquei-a no lugar com cuidado e tirei o último item da bolsa, após guardar o meu celular. Subi na árvore com a corda, fiz o nó correto e prendi-a no mesmo galho indicado pelas gravuras que fizeram do seu julgamento. - Estou indo, meu amor.

Pus no meu pescoço e saltei.

A tensão no meu pescoço agiu imediatamente, uma luta entre a gravidade e a força da corda sobre mim, comprimia a minha garganta, mas eu não lutei. Deixei que acontecesse. As chamas das velas estavam sob os meus pés, eu podia sentir o calor vindo de lá, quase lambendo os meus calçados, concentrei-me meus olhos na caveira, no rosto que poderia ter sorrido para mim, os olhos mirando os meus com desejo e com paixão, uma necessidade latente de me ver. As lágrimas descem pelo meu queixo até embaixo conforme minha visão escurece e eu não sinto mais o ar.

Se o deus dos meus pais pudesse me conceder um último desejo, eu queria conhecê-lo.

19 de Março de 2023 às 02:06 0 Denunciar Insira Seguir história
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