straussilver Joalison Silva

"O incompreensível é inexorável. Se admirado de longe é belo como uma flor, e tangivelmente feio quando observado demasiado perto, pois os que possuem olhos, ao ver de um sábio, estão cegos. A verdadeira beleza repousa no inexplicável" - Citação de O Diário Antológico do Inexplicável. Unerklärlich é uma antologia de contos baseada no livro anteriormente citado, nunca publicado ou sequer escrito, mas imaginado e desenvolvido por diversos autores.


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Era uma vez... um cadáver?

No primeiro domingo do ano, o Sr. Derville desceu as escadas e encontrou um cadáver na sala de estar. Dentre todas as esquisitices da vida marciana, a cláusula dos domos confederados, a insistência dos nativos em sorrir e fingir a inexorável inexistência da IA soberana sentada no simbólico trono terráqueo, as sucessivas peculiaridades da Elisa, aquela, definitivamente, foi a pior. O idoso continuou observando, hipnotizado pela própria descrença.

Um barulho no segundo andar o despertou.

— Deus do céu... — Deu meia-volta. Das escadas ao quarto, nem vira o caminho até bater a porta atrás de si.

Lá, a genoide cuidadora arrumava a cama.

— Elisa... — ele balbuciou, tremendo. — Deus do céu... Elisa!

— Perdão, Sr. Dervile? — ela perguntou, com a comum expressão sem emoções, a mesma que acolhera o Sr. Derville há cerca de dois anos quando os filhos o largaram no planeta vermelho.

— Meu Deus... — Foi a resposta. — O que diabos é aquilo?

— Sr. Derville, qual o problema?

— Na sala, diabos! — gritou, saltando da poltrona. Porém, a fúria se esvaiu. Ele voltou ao assento, tremendo e impossibilitando qualquer resposta verossímil.

Sem maiores explicações, a ginoide saiu do quarto. Provavelmente, para sala. Ou não. Ele tinha suas dúvidas. Elisa era uma ginoide autônoma capaz de decidir as próprias ações e, como o Sr. Derville já declarara certa vez a seguradora, ela se mostrava insatisfeita com a função de cuidadora.

— Já basta as quedas de energia, os fantasmas holográficos, os ruídos à noite... — ele murmurava. — Agora um cadáver?!

Pouco depois, a cuidadora retornou.

— Você viu?

— Sim, tem um cadáver na sala.

— E?

— Não é meu. Os meus ficam guardados no porão. — E a imparcial expressão da ginóide se configurou num singelo sorriso.

— Ah! Maldita hora em que pedi uma bem humorada. Não compreende a situação?

— Perdão...

O idoso, tremendo, levantou da poltrona.

— A situação está péssima. Nunca houve relatos de um assassinato em marte desde o arrebentamento. Como vou contatar a patrulha e dizer: "eu não sei como, mas tem um corpo em avançado estado de decomposição na minha sala. Você poderia mandar alguém vir buscá-lo, por favor?".

— O senhor o matou?

— Não!

— Então? O senhor não tem culpa. Alguém invadiu a casa e o largou aqui.

— Isso! A porta foi arrombada?

A ginoide balançou a cabeça de um lado ao outro.

— Hackearam o sistema de segurança?

Ela repetiu o gesto.

— Então, como? Como?!

Desta vez, ela ergueu os ombros.

— Por que não me deixou descer?

— Por que deveria? O seu trabalho é aqui no meu quarto.

Na verdade, sentia medo dela e de alguma brincadeira sem sentido, embora a programação da ginóide jamais admitisse algo do gênero.

— Devo ligar para a concessionária e pedir que alguém venha me buscar?

O idoso enrugou a testa.

— O senhor precisará de mim depois da execução — ela fez o gesto de aspas com os dedos —, no céu?

O Sr. Derville baixou a cabeça.

— Estou perdido — ele disse, tapando o rosto com as mãos. — Perdido! Serei preso e executado. Deus!

— Senhor, seja racional. A polícia investigará e concluirá que o senhor não o assassinou.

— Sim, vai sim não é mesmo?

— Sim, talvez. — A ginoide ponderou. — Porém, concluirá que senhor permitiu a entrada do assassino e a ocultação da vítima, e, como se arrependeu, afinal a decomposição segue em estado avançado e não há como negar sua presença no recinto, o senhor decidiu fingir sua inocência, em uma certa manhã, tentando, porventura, iludir a polícia com uma farsa elaborada, na qual até a própria ginóide, que fora proibida de descer as escadas há três semanas, está envolvida.

— Agora você compreende meu receio.

— Sim. Neste caso, a ocultação de cadáver é plausível.

— Eu sei disso. Mas... Mas por que eu faria isso?

— Dinheiro.

— Sim, faria por dinheiro. Seria a conclusão dos patrulheiros. Estou sem uma unidade sobrando. Mas, mas... O que devo fazer?

— Esconder o corpo no porão e fingir que isso nunca aconteceu. — O idoso ergueu a cabeça. — Eu jogo o corpo no porão, o senhor deleta a minha memória e o assunto é dado como encerrado.

— O que?! De agora em diante viverei com um cadáver na minha casa? Você tem ideia do tamanho dessa sandice?

— Sim.

— Jamais! Haverá outro jeito.

— É o único jeito. Entre um infinito de possibilidades, calculadas e recalculadas, não há outra ideia vagamente aceitável.

O idoso baixou a cabeça e só ergueu para ver a ginoide saindo, provavelmente foi esconder o cadáver. Provavelmente. Ou não.

Ele tinha suas dúvidas.

Novamente, a ginoide retornou ao quarto.

— Já guardou?

— Não. — Ela sentou na cama, e ela nunca sentava na cama. — Perdi alguns minutos procurando ele, e não o encontrei.

— Pro... Procurando?

— Correto, procurando.

O idoso encarou toda a inexpressão da ginóide.

— Ele desapareceu.

— Deus do céu...

— Não — Elisa corrigiu. — O cadáver.

E riu.

Um comprimido e um copo com água aplacaram o susto, e o Sr. Derville também riu. Afinal, recordou-se quem era o cadáver.

13 de Março de 2023 às 13:29 6 Denunciar Insira Seguir história
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Evaristo Ramos Evaristo Ramos
Eu adorei o ritmo, os diálogos e a simplicidade com que a história vai fluindo, definitivamente a androide foi minha personagem preferida.
March 25, 2023, 15:17

  • Joalison Silva Joalison Silva
    Agradeço os elogio, esse conto de abertura, além um dos meus mais antigos, é um do meus preferidos também. Obrigado, por ler. March 27, 2023, 01:50
Uma Desocupada🇧🇷 Uma Desocupada🇧🇷
Eu realmente não sei como explicar o qnt eu amo essa miniantologia. Tlvz seja nostalgia do velho spirit, quem sabe, mas eu amo do mesmo jeito agora. Esse primeiro capítulo é estranho e simples. Todo o contexto espacial e tecnológico é deixado como plano de fundo, sendo jogados de vez em quando pra contar mais sobre o Derville, completamente exaltado por ter um cadáver no meio da sala. Toda a discussão com uma androide alheia ao "chefe", o medo de ser pego, apenas pra chegarmos no fim e ser só coisa da cabeça dele, sem explicações sobre nada que aconteceu. Sim. Vc conseguiu deixar esse clichê idiota bom. Meus parabens! Tudo de bom pra vc, Straus
March 16, 2023, 04:09

  • Joalison Silva Joalison Silva
    Novamente, é muito bom vez alguém falar com tanto afeto de um texto meu e espero que assim continue kkkk Obrigado e até a próxima March 16, 2023, 15:59
Daniel Trindade Daniel Trindade
Saudações! Faço parte da Embaixada Brasileira do Inkspired. Estou aqui para lhe parabenizar pela Verificação de sua história. Espero que ela seja prestigiada por muitos leitores aqui em nossa comunidade. Sucesso e felicidade em sua arte! ♡
March 16, 2023, 00:56

  • Joalison Silva Joalison Silva
    Obrigado, Daniel. Bom trabalho nas futuras verificações! March 16, 2023, 15:58
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