Voz Silenciosa Seguir história

hikarinohimewriter HikariNoHime Writer

Perseu Jackson não era o mais corajoso, nem o mais altruísta. Não era o mais brilhante e inteligente, nem o mais forte ou o mais misterioso. Definitivamente não era o mais bonito, nem o mais cavalheiro ou o mais valente dos homens. E ele era incrível...


Fanfiction Livros Impróprio para crianças menores de 13 anos.

#Yaoi #PercyJackson #Pernico #Percy/Nico #Mudo #Linguagemdossinais
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Capítulo Único

Perseu Jackson não era o mais corajoso, nem o mais altruísta. Não era o mais brilhante e inteligente, nem o mais forte ou o mais misterioso. Definitivamente não era o mais bonito, nem o mais cavalheiro ou o mais valente dos homens. Talvez tivesse mais defeitos do que qualidades. Talvez tivesse algum distúrbio comportamental. Talvez fosse alguém de quem todos querem distância na escola.

Nico não se importava: Percy era Percy, ele e apenas ele para sempre. Um humano comum com seus altos e baixos e suas próprias batalhas. Tão perto e tão longe, tão igual e tão diferente. Apenas mais um em um mar de pessoas.

Ele era incrível, Nico sabia disso melhor do que qualquer um.

Na segunda-feira, logo após a sra. Dodds recolher as provas de matemática, Nico percebeu o quanto Percy estava encrencado. Não era nenhum segredo que ele tinha TDAH. Ele raramente tirava notas medianas porque não conseguia se focar nas aulas. A sra. Dodds, assim como outros professores, diziam que mal poderiam esperar para que Percy fosse expulso da escola.

Como podiam ser tão cruéis? Era o que Nico sempre se perguntava. Não eram só os professores, afinal: não havia um único dia em que seus colegas não fizessem algum comentário maldoso sobre o Jackson.

Em dias de prova como aquele, Percy sempre saía da sala em silêncio e com os olhos marejados por ter falhado outra vez.

Nico só podia imaginar o quanto tudo aquilo podia ser difícil para o próprio Percy. Se ele pudesse escolher, com certeza não teria TDAH e problemas com um padrasto detestável.

As notícias sobre os problemas alheios corriam rápido pela escola. Infelizmente, tudo se transformava em fofoca e ninguém estendia a mão para ajudar.

Nico queria falar com ele, mas essa era a última coisa que poderia fazer nesta vida. Queria poder se aproximar. Ser seu amigo e comer junto dele no almoço do mesmo jeito que Grover Underwood sempre fazia até o ano anterior, quando terminou o colegial. Queria conversar com ele sobre seus filmes e animes preferidos, as músicas que gostava de ouvir e os livros que queria comprar. Esse era o desejo de Nico e o único que ele nunca teria coragem de tentar realizar.

A distância entre eles era como uma ponte de cordas. Do outro lado dela era onde Percy estava, uma forma brilhantemente distorcida e encoberta pela névoa dos medos de Nico: rejeição, nojo, desprezo. Eram coisas as quais Nico tinha se acostumado com o passar dos anos, mas que jamais conseguiria associar à Percy.

Afinal, esta é a natureza do medo. Irracional, incontido e opressor.

Nico tinha medo de dar o primeiro passo e sofrer. Não queria cair no rio negro e infinito que passava por baixo da ponte.

Ele queria ser mais forte.


Há coisas que eu quero te dizer,

Há coisas que eu preciso te dizer.

Então vamos caminhar,

Algum lugar quieto para conversar.

Talvez você veja as coisas do meu jeito.


Por bem ou por mal, Percy não era o único a sofrer nas mãos dos colegas.

Nico sempre era o alvo perfeito para a maioria: sempre sozinho, calado e sem coragem de pedir ajuda. Era raro um dia em que não tivesse que lavar seu armário ou sua blusa reserva pichada. Era doloroso e só se tornava pior quando voltava para casa e sua irmã, Bianca, perguntava como tinha sido seu dia. Nesses dias ele se trancava em seu quarto e chorava até dormir.

Sempre em silêncio.

E então, um dia, Nico teve uma grande ideia, um jeito de ajudar Percy sem ter que se aproximar e simultaneamente se distrair das coisas ruins que aconteciam. Na semana seguinte, deixou um caderno sob a carteira de Percy antes do início das aulas com a melhor explicação que conseguiu para ele. Usou exemplos de séries, músicas, animes, desenhos e até mesmo nomes de alunos que os atormentavam em situações idiotas — tudo para superar a barreira do TDAH e fazê-lo se interessar e prestar mais atenção à matéria.

A cada semana que se seguia um novo caderno “aparecia” para o Jackson. Nico ficou feliz e animado ao saber que as notas dele estavam melhorando. Seu esforço estava valendo a pena. Percy não seria expulso por notas vermelhas tão cedo se isso dependesse de Nico. Além disso, o sorriso de Percy ao descobrir que conseguiu um 8 na prova da sra. Dodds foi impagável.

Havia uma coisa que ele podia fazer mesmo do outro lado da ponte, afinal.

Nico não se importou com a sujeira do armário, nem com os sorrisos maldosos de alguns idiotas em sua direção. Nada perturbaria seu bom humor naquela semana. Ou, ao menos, era o que pensava.

O tempo estava quase insuportavelmente frio quando foi arrastado para uma área mais afastada por Christopher, irmão de Will Solace. Ele era bem mais corpulento e violento que o irmão e seu soco conseguia ser ainda mais doloroso que o de Ethan Nakamura. Nico quis gritar e chamar ajuda, talvez até implorar por clemência, mas apenas as lágrimas salgadas caíam de seus olhos.

Ele não podia fazer nada disso.

Nico não tinha uma voz para isso.

Não mais.

Os socos e chutes pararam antes mesmo que Nico se lembrasse da oração que sua mãe o ensinou. Relutante, abriu os olhos para descobrir o que estava acontecendo. Christopher Solace corria como se não houvesse amanhã com o lado direito do rosto vermelho. À frente de Nico estava um garoto de bagunçados cabelos negros e olhos verde-mar.

Era ele.

Era Percy.

Nico não deu o primeiro passo na ponte. Ele não precisou. Percy foi aquele que se aproximou, brilhante em meio à névoa. De certa forma, isso era mais assustador que todos os medos de Nico juntos porque Percy era a razão para a existência de vários deles.

Ele estendeu a mão para ajudar Nico a se levantar. Suas sobrancelhas se franziram ao ver o corte na testa causado por Christopher.

— Pode me dizer onde dói? — perguntou, sua voz soando grave e rouca aos ouvidos de Nico.

Hesitou sem saber como e se conseguiria responder. Entretanto, também não queria que Percy pensasse que era grosso ou ingrato. Nico sentiu-se tremer. Não por causa da dor, mas por causa do medo de passar uma má impressão.

Nico sempre soube o quanto Percy era incrível, por isso não deveria se surpreender quando ele começou a gesticular com as mãos. Seu coração bateu mais forte ao perceber o que o Jackson fazia. O próprio Nico começou a gesticular rapidamente com uma mistura de incredulidade e surpresa em seu olhar.

Você sabe a linguagem dos sinais?

A pergunta foi formada antes mesmo que se desse conta do que estava dizendo. Percy sorriu, aliviado e satisfeito ao mesmo tempo. Ele voltou a falar pausadamente, acompanhando os movimentos de suas mãos:

— Você pode me ouvir?

Dessa vez, Nico assentiu.

Não posso falar”, disse, “estou bem”.

— Isso é ótimo! — disse Percy, seu sorriso um pouco maior e mais suave que antes. — Vem, vou te levar até a enfermaria. Ah, e obrigado.

Pelo quê?”, perguntou, confuso.

O alarme que indicava o fim das aulas soou e logo as vozes dos alunos espalharam-se pelo corredor. Percy guiou Nico pelos corredores mais vazios que encontraram até a enfermaria. O lugar estava vazio. Leitos velhos e desgastados eram separados por cortinas encardidas. Um dos vidros das janelas estava quebrado e as paredes azul-claro rabiscadas com caneta e corretivo. Não era difícil encontrar sinais de depredação e descaso como aqueles pela escola, mas nunca se tornava mais fácil de suportar.

Percy limpou e colocou um curativo sobre seu corte e deu-lhe um analgésico para aliviar a dor. Enquanto Nico esperava o remédio fazer efeito sentado em um dos leitos, ele também buscou os materiais dos dois na sala de aula. Como se isso ainda não fosse o suficiente, Percy o acompanhou até perto de sua casa, segundo ele, para garantir que ninguém mais o machucasse.

Só quando já viam a residência di Angelo no fim do quarteirão, ele disse:

— Eu sei o que você fez, Nico. Os cadernos têm me ajudado muito. — Nico corou. Não sabia dizer se era por Percy saber o seu nome ou por saber que era ele o tempo todo. — Eu ficaria muito feliz se você pudesse, você sabe, continuar me ajudando... — Sua voz diminuiu alguns decibéis e ele coçou a nuca, visivelmente constrangido.

Pela primeira vez, Nico sorriu.

Claro”, respondeu e Percy sorriu também. Ele era uma dessas pessoas que quando sorriem todo o rosto parece se iluminar.

Não houve mais palavras. Não eram necessárias no momento. Se separaram com um gesto simples, mas que fez o coração de Nico quase saltar do peito de alegria.

Até mais”.


Eu senti por um momento que estávamos à deriva

Sem razão para ficar ou ir,

Mas espero que qualquer que seja o vento que nos uniu

Seja mais forte do que pensamos.


Nico agora podia conversar com mais alguém. No último mês, descobriu que Percy era mais divertido do que pensava e seu jeito de falar era suave e gentil — estranhamente tranquilo para alguém com hiperatividade. Ao contrário de Bianca, que não sabia a língua dos sinais, as conversas com Percy eram mais espontâneas. Às vezes eles até mesmo preferiam usar os sinais para que os ouvidos alheios não se intrometessem em suas conversas.

Eles costumavam falar sobre coisas aleatórias durante os intervalos. Nico se lembrava de um dia, uma semana atrás, em que eles começaram a debater sobre quem era a melhor banda japonesa: The GazettE ou Linked Horizon. De algum jeito a discussão se estendeu tanto que eles acabaram comendo um crepe por conta de Percy no Central Park.

Eu odeio ele”, Percy confessou. Ele suspirou, continuando: “Minha mãe não tem coragem de mandar Gabe Cheiroso embora. Às vezes eu tenho a sensação de que ela só está com ele por minha culpa”.

O pai de Percy tinha morrido em um acidente de barco. Percy sempre foi uma criança problemática e sua mãe vivia com um carrasco que, apesar de tudo, pagava parte das contas. Nico não podia culpá-lo por chegar a uma conclusão como aquela, por mais absurdo que aquilo ainda soasse para ele.

Percy era um amigo maravilhoso, se esforçava ao máximo que sua TDAH permitia e amava a mãe mais do que a si mesmo. Ele não merecia sofrer por causa de um cara horrível como Gabe Cheiroso, professores e alunos que não sabiam valorizar a joia rara que ele era.

— Desculpe por te chatear com isso — pediu, coçando a bochecha sem graça.

Nico abanou a mão em descaso, como se dissesse não esquenta. Eles ficaram em silêncio por um tempo. Os sons do parque pareceram mais altos agora: as risadas das crianças e as vozes espalhafatosas dos adolescentes fofoqueiros, os vendedores ambulantes e o canto dos poucos pássaros que ainda ousavam se aventurar pela região.

— Nico? — Percy chamou. Sua voz estava baixa e receosa, a hesitação mesclava-se ao medo em seus olhos. Ele respirou fundo, como se estivesse prestes a dizer algo particularmente difícil de ser dito.

Você não vai embora como o meu pai, não é?”, perguntou.

Nico sorriu, apontando para ele e Percy e então encaixando seus dois indicadores em forma de ganchos. Mesmo sentindo seu rosto queimar em vergonha, continuou gesticulando sob o olhar atento de Percy.

Mal terminou sua sentença e Percy o puxou para um abraço apertado. Nico sentiu-se corar ainda mais ao retribuir o abraço, mas não conseguiu evitar o sorriso que se apossou dos seus lábios. O coração de Percy batia forte e seus braços eram tão quentes e gentis quanto Nico imaginara.

Nós somos amigos. Eu nunca vou te deixar, Cabeça de Alga”, foi o que ele dissera.

A tempestade estava mais branda agora.

Nico conseguia andar sozinho pela ponte.

Até ele.

Até Percy.


Então me guie por esta ponte

O rio é tão profundo e extenso

Apenas me guie por esta ponte, meu amor,

Vamos chegar ao outro lado.


Nico não sabia o que era mais estranho: o sonho de Percy em ser jóquei ou sua fixação com comida azul. Ele entendia que azul fosse a cor preferida do amigo, mas daí a conseguir carne assada azul eram outros quinhentos. Conseguir carne assada azul deliciosa já passava dos limites. Foi o melhor lanche que comeu na escola em meses.

Nico deu a Percy um pacote de biscoitos azuis junto ao caderno de estudos semanal. Talvez fosse a incredulidade, a diversão ou a surpresa no sorriso de Percy que fez o coração de Nico bater mais forte. Tudo o que ele sabia era que queria ver aquela expressão mais vezes.

— Você está parecendo uma colegial apaixonada, Nico — disse Bianca durante o jantar. Ela tinha uma mania engraçada de estender o “Ni” de seu nome, principalmente quando estava se divertindo com algo.

Nico só conseguiu corar. Se até Bianca que estava sempre ocupada com a faculdade noturna e o trabalho de meio período na cafeteria tinha notado, ele só podia imaginar o quão aparentes suas emoções podiam ficar para Percy. Talvez não fosse tão transparente assim, ou Percy fosse tapado demais para perceber. Eles nunca falaram sobre esse tipo de coisa e Nico nunca percebeu qualquer mudança no comportamento do amigo — além, é claro, da liberdade cada vez maior e das provocações quase diárias.

Bianca apoiou o rosto na mão, pensativa. E então sorriu, um sorriso empolgado que fez seus olhos castanhos brilharem.

— Por que não convida ele pra almoçar aqui no sábado? É minha folga e eu quero muito conhecer o famoso Perseu Jackson! — Seu tom não deixava margens para discussão.

Nico apenas suspirou, usando todo o resto de noite e a manhã seguinte para fazer o convite a Percy. Eles já estavam indo embora quando Nico puxou-o pela manga da camisa.

— O que meu fantasminha preferido deseja? — ele perguntou, divertido. Havia algo no sorriso de Percy que sempre faria o estômago de Nico gelar e as palmas de suas mãos ficarem suadas.

Ele era tão perfeito e sequer se dava conta disso. Como Nico poderia não amar aquele garoto?

Gesticulou rapidamente, evitando os olhos verdes. Se o olhasse mais uma vez perderia toda a coragem que reuniu.

— Claro — Percy respondeu. A mochila escorregou um pouco por seu ombro e seu peso arrastou junto a gola da blusa. Nico tentou não se tornar um tomate ao observar a clavícula e o pouco da pele bronzeada do peitoral exposto de Percy. Ele ajeitou a bolsa, um tanto impaciente. — Bem, você sabe que eu nunca recusaria uma chance de ficar longe do carrasco. E também... — Percy mordeu o próprio lábio.

E também...?”, Nico gesticulou, incentivando-o a continuar.

Pela primeira vez em muito tempo, Nico viu Percy corar. O tom avermelhado era suavizado pelo bronzeado da pele, mas não era menos adorável aos olhos do di Angelo.

— E também... quero ficar mais tempo com você, Nico — disse. Ele tinha um sorriso pequeno e tímido nos lábios.

Adoravelmente belo, era como Percy estava naquele momento. Nico sentiu suas bochechas mais quentes do que nunca. Estava encantado, envergonhado, apaixonado, tudo ao mesmo. E então, lá estava Percy, confessando algo assim.

Nico só se lembrava de ter dito a única coisa que veio à sua mente naquele momento:

Idiota”.


Às vezes eu te conheço por dentro e por fora,

Às vezes eu não te conheço,

Mas não importa pelo que passemos,

Eu estarei aqui te amando,

Mesmo que você não me ouça chamar.


— Sua irmã é adorável — disse Percy.

Os dois estavam sentados juntos aos pés de uma das várias estátuas douradas dos parques de New York. A área em que se encontravam estava um tanto vazia e uma brisa agradável bagunçava ainda mais os cabelos de ambos.

Ela é terrível, isso sim”, Nico disse com a expressão contrariada.

Bianca tinha feito tudo o que podia e não podia para constranger Nico. Típico de uma irmã mais velha cansada de ser a irmã mais velha responsável. Ele só se perguntava como diabos ela tinha conseguido fotos de quando Nico era um bebê sendo que o próprio se certificara de esconder todos os álbuns tão bem. Mistérios de irmãs, supunha.

Percy passou o braço sobre os ombros de Nico, coisa que vinha se tornando cada vez mais comum e que deixava o di Angelo cada vez mais desconcertado. Os olhos de Percy brilhavam quando ele sorriu divertido, seu rosto muito mais próximo do que Nico consideraria seguro.

Suspirou, olhando para os feixes de luz que eram refletidos pela superfície lisa da estátua. Tinha algo para contar a Percy, algo que não tinha contado nem mesmo para Bianca.

Tirou seu bloco de notas da jaqueta e começou a escrever. Sabia que Percy entenderia que o assunto era sério, pois havia pouquíssimas coisas que Nico julgava serem melhores em um pedaço de papel.

Levou alguns minutos até escrever tudo. Passou o bloco para Percy, sempre atento às reações dele durante a leitura. Por fim, ouviu-o suspirar. Ele passou os dedos pelos cabelos. Nico não sabia o que aquela expressão significava: nunca antes tinha visto os olhos verdes tão escuros.

— Se você acha que vale a pena tentar, que pode dar certo e se for o que você realmente quer fazer — Percy engoliu em seco ao olhar Nico nos olhos, como se as palavras o machucassem por dentro —, fique tranquilo que eu vou estar aqui para o que precisar. Sempre.

Nico sorriu fraco, gratidão e alívio mesclados em seus olhos escuros. Ele abraçou Percy com toda a força que tinha. Ao menos podia contar com ele, pensou.

A conversa com Bianca não foi tão pacífica. O transplante de laringe era uma cirurgia relativamente nova no meio médico. Poucos transplantes haviam dado certo ao redor do mundo e as chances de sucesso eram baixas. Nico recebeu a proposta de fazer a cirurgia de graça em uma universidade local. Se não respondesse logo, outra pessoa tomaria o seu lugar.

Bianca gritava que não iria permitir aquilo e que não perderia seu irmão também. Nico mal conseguia escrever uma resposta para cada questão imposta por ela. Foi quando se cansou de tentar se justificar. Uma única frase foi escrita na folha, a ponta do lápis quase rasgando-a no processo: ao menos você tem uma voz para gritar como quiser.

Eles mal se falaram nos dias que se seguiram. No máximo algo como “acabou o leite” e “vou comprar”. Percy acompanhou-o até a universidade para confirmar e marcar a cirurgia. Nico sabia que ainda tinha um longo caminho pela frente. Mudanças na alimentação e rotina de exercícios e vários exames foram feitos nas semanas que antecederam a cirurgia. Só a parte dos exercícios poderia ter sido o suficiente para fazer Nico desistir, mas ele tinha Percy ao seu lado, ajudando-o do jeito que prometera.

Mesmo Bianca cedeu ao ver o quanto Nico estava sério em relação a cirurgia. Os dois já haviam perdido o pai para a guerra e a mãe para o mesmo acidente de carro que roubou a voz de Nico há mais de oito anos. Ela não queria perder a única pessoa que lhe restara, mas também não queria perder mais nenhum tempo precioso.

— Me desculpe — pediu quando seu irmãozinho voltou da caminhada com Percy.

Nico sorriu e a abraçou. Naquele momento Bianca soube que estava tudo bem. Isso a deixou feliz. Afinal, às vezes vale a pena engolir o orgulho. Acenou para Percy, que sorriu de volta para ela. Viu o irmãozinho gesticular alguma coisa para ele. Por algum motivo, Percy corou e o sorriso de Nico aumentou.

Ele entrou na casa e logo voltou com um caderno pequeno e um cupcake, ambos azuis. Entregou-os para Percy, que se despediu com um gesto simples que Bianca não tinha certeza se significava “até mais” ou “obrigada”.

— Então, mocinho, o que acha de me contar como estão as coisas entre vocês? — perguntou.

A expressão tímida e alegre de Nico foi o suficiente para Bianca se sentir a irmã mais velha mais feliz do mundo.


Eu sei que o que temos vale a pena,

E eu sei que o que vem a seguir vale ainda mais,

Então vamos caminhar,

Algum lugar quieto para conversar,

Vamos ver o que a vida nos reserva.


As férias de verão chegaram e, junto com elas, a cirurgia. Nico estava tão ansioso, nervoso e assustado que não se surpreenderia se um tufo de cabelo branco aparecesse em sua cabeça. Ele tentava, realmente tentava não pensar nos riscos de uma cirurgia tão delicada, mas ele não era de ferro. Tinha medo da mesma forma que tinha esperança.

Bianca prometeu que compraria um cachorro quando tudo terminasse. Isso aliviou um pouco o humor de Nico, que só sentiu que podia respirar realmente aliviado quando soube que Percy tinha sido aprovado no ano letivo e recebera uma carta de recomendação para uma importante escola de jóquei.

Era difícil acreditar que já eram amigos há mais de sete meses. Perseu Jackson não era o mais inteligente, o mais forte ou o mais misterioso. Definitivamente não era o mais bonito, ou o mais valente, nem o mais corajoso dos homens. Percy era apenas Percy: viciado em comida azul, gentil e divertido. Devoto à família — que era como ele passou a considerar Nico, Bianca e sua mãe —, talvez um pouco lento para perceber as coisas e muito determinado e persistente. Ele era incrível, com seus defeitos e qualidades, mais qualidades do que defeitos.

E era a pessoa que Nico di Angelo amava.

Foi na companhia de Percy e sua irmã que Nico foi ao hospital universitário. Eles estavam juntos dele quando aplicaram um sedativo em Nico. As últimas palavras que ouviu vieram de Bianca, uma promessa emocionada e temerosa de fazer a tão esperada reforma no quarto de Nico. Quando a consciência já deixava seu corpo, Percy gesticulou para ele. Um gesto que fez o coração de Nico se apertar por não poder responder como gostaria.

Eu te amo”, foi o que ele dissera.

Os dias que se seguiram foram um borrão na memória de Nico. As únicas coisas que sabia era que queria sua manta de volta. E um chocolate quente. E Percy ao seu lado.

Médicos e enfermeiros iam e vinham. Nico se lembrava de ter passado por uma bateria de exames e do gosto horrível dos xaropes que o fizeram tomar. Sabia que era necessário todo aquele cuidado devido ao risco de rejeição do transplante. Uma das estudantes de medicina que acompanhavam sua recuperação, Annabeth, disse que em breve poderia ir para um quarto normal e receber visitas. Ela ficava com ele e o ajudava a tomar sua sopa — um processo lento e doloroso por causa dos pontos internos. Nico não podia tomar nada quente, ácido ou salgado demais. Alimentos que exigiam mastigação? Nem pensar!

— Alguém veio te ver hoje de manhã — Annabeth comentou. Ela tinha um livro sobre o colo e anotava algo nas páginas com uma lapiseira.

Nico estava tomando a horrível sopa com mais calma do que se lembrava de ter; a primeira coisa que faria quando finalmente saísse do hospital seria ir ao McDonald’s e comer um belo McLanche Feliz. E, de preferência, por conta de Percy.

Sorriu ao se lembrar do amigo. Entre os períodos de inconsciência, exames e o desafio das refeições mal teve tempo para pensar em Percy e no que ele disse antes da cirurgia. Foi um gesto tão simples, mas tão marcante. Só em pensar que seus sentimentos eram, de fato, correspondidos sentia suas bochechas esquentarem. Muitos demonizariam aquele sinal por ser o tão famoso símbolo do rock, a música do diabo. O que não sabiam era que aquilo significava, também, eu te amo na língua dos sinais.

Como a falta de informação podia mudar tanto o sentido de uma mensagem tão linda?

— Acho que era um amigo seu. Ele trouxe flores. Mais flores, na verdade — dizia sem erguer os olhos cinzentos do livro. — Eu coloquei todas em jarros para você. Amanhã você vai para a UTI e depois para um quarto normal. Vai ver como são todas lindas. — Sorriu.

Nico engoliu a última colherada de sopa e então escreveu um obrigado em um bloquinho de papel. Entregou-o para Annabeth junto ao prato vazio, vendo-a abanar a mão em descaso.

Uma enfermeira de azul-claro veio aplicar outro remédio em sua veia. Annabeth se despediu com um aceno e os cabelos louros balançando às suas costas foram a última coisa que Nico viu antes de adormecer mais uma vez.

Quando acordou, as enfermeiras se organizavam para mandá-lo para a UTI. Doze horas de observação e finalmente tiraria os pontos. Segundo elas, já era a quarta semana pós-cirurgia. Nico deveria permanecer no hospital por, ao menos, mais duas semanas. Em três dias começaria as sessões com a fonoaudióloga, Silena Beauregard. Ele estava empolgado para passar para a próxima etapa do tratamento. O médico disse que ele poderia se assustar com a mudança da própria voz, mas que a mudança era normal.

Não era como se fosse falar com a voz do dono da laringe implantada em seu corpo — que ele descansasse em paz. De acordo com o doutor, são os movimentos dos lábios, língua e garganta que moldam a voz. Nico continuaria com a própria voz, mas com as várias mudanças causadas pelo crescimento. Ele só esperava não começar a falar como uma foca engasgada ou pior.

Só mais doze horas, pensou. Ele tentou ler, dormir e se distrair observando os prédios além da janela. Nada disso fez o tempo passar mais rápido. Sendo sincero consigo mesmo, Nico nunca pensou que algumas horas poderiam se arrastar tanto.

— Por que está chorando? — um enfermeiro perguntou. Era um sujeito que todos chamavam de “Quíron” por ser quase um monge da paciência.

Nico enxugou as lágrimas que caíam silenciosas e frias.

Só mais alguns passos e ele estaria do outro lado da ponte.

Faltava tão, tão pouco.

Quíron também conhecia a língua dos sinais, então Nico não se conteve ao gesticular avidamente:

Estou feliz”.


Então me guie por esta ponte,

O rio é tão profundo e extenso,

Apenas me guie por esta ponte, meu amor,

Por favor seja o meu refúgio.


No dia seguinte, Nico estava em um quarto comum cercado pelas flores que Percy levou ao hospital. Dezenas de flores coloridas davam vida ao quarto branco, arranjadas em delicados buquês. Já tinham tirado os pontos e, ao contrário das expectativas, Nico logo começou as sessões com a doutora Silena.

Bianca foi visitá-lo junto a Percy à tarde. A irmã tinha lágrimas nos olhos e despejava tudo o que aconteceu nas últimas semanas, esbaforida. Nico também contou sua experiência na CTI e UTI usando a linguagem dos sinais e Percy serviu como intérprete para Bianca.

Annabeth também foi vê-lo e se envolveu em alguma conversa sobre a “responsabilidade de ser uma irmã mais velha” com a di Angelo. Algumas meninas tem o dom de se dar bem, Nico pensou.

Obrigado”, disse aproveitando-se da distração das meninas.

— Pelo quê? — Percy perguntou em um sussurro, confuso. Nico apontou para as várias flores do cômodo.

Por se importar comigo”, respondeu. Percy sorriu e coçou a bochecha, algo que ele sempre fazia quando envergonhado. Um gesto adorável na visão de Nico.

É o mínimo que eu podia fazer”, Percy corou ao continuar, “por alguém tão importante para mim”.

Nico duvidava que seu coração pudesse bater mais rápido.

Quando eu conseguir falar”, mordeu o lábio inferior, hesitante, “eu vou responder direitinho”.

Responder o quê, senhor di Angelo?”. O sorriso de Percy deixava claro que ele sabia exatamente do que Nico estava falando. “Devo me preparar para um fora colossal?”, perguntou. O sorriso presunçoso ainda estava em seu rosto, mas parecia um pouco... forçado? Como se realmente estivesse preocupado com uma rejeição.

Quem sabe?”, brincou. Nico sorriu para Percy. “Você vai me levar para jantar se eu não chutar você?”.

Só se assistirmos o especial de tubarões da Discovery Channel juntos”, respondeu.

Estava feito.

Pouco mais de uma semana depois, Nico teve alta do hospital. Na mesma noite foi ao McDonald’s com Bianca, Percy e Annabeth. Mesmo com os encontros diários com Silena, ele ainda não se arriscava a falar. Mal conseguia dizer o próprio nome, quem dirá ter uma conversa.

Mais três dias se passaram, Percy realmente o levou para jantar. Era um restaurante de frutos do mar. A música de fundo era suave, a decoração inspirada em interiores de navios. Os forros das mesas eram azuis e velas da mesma cor davam um cheiro de maresia ao local. Nico logo descobriu que aquele era o restaurante preferido de Percy. A comida era magnífica e ele sabia que não poderia ter companhia melhor.

Nico também cumpriu sua parte do acordo. Sua casa conseguia ser bem tranquila quando Bianca estava fora estudando — longe, onde não poderia envergonhá-lo. O documentário de tubarões também não foi ruim. Afinal, quando algo vindo de Perseu seria ruim?

— Eles só não são mais incríveis que você — ele comentou. A voz de Percy deixou Nico assustadoramente consciente da proximidade entre eles. O ombro de Percy junto ao seu, o cheiro amadeirado de seu perfume e os dedos que se roçavam sobre o sofá.

E ele não se importava. Era Percy, afinal. Nunca desejaria qualquer distância entre eles.

Nico observou o rosto de Percy e ele o olhou de volta. Eram tantos sentimentos diferentes incrustados naquele olhar que Nico perguntou-se como alguém podia ter olhos tão belos.

Nenhuma palavra foi dita — elas não eram necessárias. Aquele beijo cálido e doce foi o suficiente para expressar tudo o que sentiam. Ou ao menos foi o que pensaram. Com uma coragem que não se lembrava de ter, Nico sussurrou e sua voz soou baixa, rouca e temorosa aos próprios ouvidos:

— Eo... ão... vuê...

O sorriso de Percy foi o suficiente para ele perceber que tinha sido compreendido:

— Eu também amo você, Nico.


Ele finalmente estava do outro lado.

Me guie por esta ponte,

O rio é tão extenso e profundo,

Só me guie por esta ponte, meu amor...

Nós chegaremos ao outro... lado...

25 de Fevereiro de 2018 às 20:03 2 Denunciar Insira 5
Fim

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Yui Sama Yui Sama
LINDOOOOOOOOOOOOOOOO <3
28 de Fevereiro de 2018 às 05:39

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