igorazevedoescritor Igor Azevedo

"Pela primeira vez, eu estava prestigiando o Natal. Ali parada, no vidro da janela, detrás das cortinas, sozinha, distante de todos. Os olhos aguados, emocionada a fitar a noite como se fita alguém que se ama." Data de publicação: 20/12/2022. PLÁGIO É CRIME! TODOS OS DIREITOS RESERVADOS À ©2022 Igor Azevedo.


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Fogos de Natal

Todo ano era a mesma coisa.

Na chegada de fim de ano, mamãe insistia em nos dizer que Natal não existia. Na véspera, às vezes jantávamos café com fubá. Logo dormíamos e escutávamos os fogos ao longe. Eu, às vezes, abria os olhos, no escuro, tentando captar melhor o que ocorria. Não conseguia.

No dia seguinte, acordávamos cedo. Tinha vez que se tinha o que comer logo pela manhã, às vezes não. Íamos na coleta ajudar nossa mãe. Éramos três. Ana, João e Doralice. Mas pode me chamar de Dora.

Eu sempre quis viver o Natal. Para mim, fingir que aquela data não existia era sempre difícil. Mas era o que nossa mãe podia nos dar.

Sempre me era triste ver as menininhas de minha idade nas boutiques, provando roupas caras, enquanto eu vestia uns simples vestidos de chita, encardidos com o tempo. “Precisa dar valor a aquilo que tu tem!”, dizia nossa mãe, sempre muito séria e de poucas palavras. Eu calava, na minha, mas sentia e sabia que merecia o melhor. Nós merecíamos.

Incentivava meus irmãos a estudar, a ser alguém. Sentia que era meu dever falar isso, por ser a mais velha. Na época, 11 anos. Mas me sentia uma jovem adulta. Quando mamãe saía pra coleta ou para pedir uns trocados, eu era a dona de casa. Preparava o que tinha, cuidava das crianças, ajudava nas atividades. Sempre me dediquei muito aos estudos porque era o que me sobrava. Era no que eu me agarrava.

Eu via a programação da TV aberta na tela de uma de nossas vizinhas. TVs eram caras e sempre andavam longe de nossos orçamentos. Eu amava filmes natalinos. Porque aquilo, de alguma forma, renascia em meu peito a mágica do Natal. Via as luzes da cidade e me perguntava se algum dia a minha vida seria colorida da mesma forma. E foi nesse mesmo ano que teimei em ter um Natal. Me parecia como nunca estranha a ideia de que passei todos esses anos, nessa data tão especial, dormindo. Porque nunca tive uma roupa nova a vestir naquele dia em especial. Porque nunca tínhamos uma ceia para nos servir. A nossa árvore de Natal nunca foi montada, porque esta nem sequer existia. Não confraternizávamos porque a dor de viver e o cansaço nos afligia. Porém decidi por mim mesma fazer diferente.

À noite, fugi do sono. Fingi estar deitada e logo que pude, levantei e fui ao parapeito da janela. A olhar para o céu, na espera do colorido dos fogos. Segundos pareciam horas, eu ansiava por aquilo. Pela primeira vez eu veria o que sempre quis ver.

Hoje não teve jantar. A barriga roncava e o olho pesava de sono. Porém a vontade de viver o Natal me consumia. Em silêncio, eu via a claridade das ruas. Pessoas a conversarem em suas portas, brindando à espera da meia-noite. Abraços e beijos eram trocados, assim como presentes estavam à mesa, juntamente com uma ceia bela e farta. Me questionava sobre o gosto daquele alimento, que me parecia tão apetitoso. Talvez um deles poderiam me curar da anemia, que o médico tanto dava bronca em minha mãe por conta disso, e eu a me culpar como se eu tivesse a opção de escolher comer ou não.

Minhas pernas doíam à espera do espetáculo. Sentia que faltava pouco. Enquanto eu aguardava, pensava no que eu iria pedir à meia-noite. Eu tinha tantos sonhos, tantos desejos que um turbilhão de coisas cansavam a minha mente. Alguns eram bem óbvias.

Olhar todas aquelas pessoas a se abraçarem me fez de necessidade o toque. O ato de ser abraçada, que raras vezes senti em casa. Eu e meus irmãos vivíamos a vida com medo, inseguros. Era um dia de cada vez. E, na escola, eu me sentia excluída. Por isso, vez e mais vezes eu afundava meu rosto nos livros e cadernos. A solidão era como uma amiga e eu me beneficiava de alguma forma disso.

Enquanto eu pensava em como enfrentávamos a vida, ouvi de longe a contagem. Meio atrasada, por sinal, pois presenciei os primeiros fogos. Eram lindos, coloridos, iluminavam e manchavam um céu escuro, sem graça. E eu sorria, sem sequer piscar, encantada com tudo aquilo. Ao mesmo tempo que lembrava que eu precisava fechar os olhos antes daquilo tudo acabar e fazer um pedido. Estava dormente, imóvel. Era mágico.

Pela primeira vez, eu estava prestigiando o Natal. Ali parada, no vidro da janela, detrás das cortinas, sozinha, distante de todos. Os olhos aguados, emocionada a fitar a noite como se fita alguém que se ama. Tudo era novidade para mim.

Logo resolvi fechar os olhos. Eu tinha tanto para pedir... Mas tive senso. Respeitei a tradição. Fiz somente um pedido. Um pedido que sei que era o essencial. Se ele ousasse a não se realizar, eu estaria perdida.

Eu pedi saúde. Saúde para seguir em frente. Para ajudar minha mãe e os meus irmãos. Saúde a mim e a eles, para que possamos vencer e nos tornar uma daquelas pessoas que comemoram o Natal de roupa nova, com a família reunida, a ceia feita e os presentes a serem trocados. Saúde para olhar os fogos mais de perto, quem sabe na praia, lugar onde sempre quis ir. Saúde para terminar meus estudos, ir para a faculdade e ter uma profissão decente. Saúde para ajudar a minha mãe, que merece ter seus últimos dias de forma tranquila. Eles sempre virão. Saúde para ser amada. O que toda mulher de fato quer ser. Mas mais do quer isso: ser feliz. Todo ser humano quer ser feliz.

Assim que terminei o pedido, fechei os olhos mais ainda. E agradeci por estar viva, a contemplar o colorido do Natal, que, aos poucos, foi se apagando, na medida em que se guardava em minhas lembranças.

20 de Dezembro de 2022 às 10:51 1 Denunciar Insira Seguir história
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Conheça o autor

Igor Azevedo Professor e escritor. Autor de 6 livros publicados. Poeta, contista e aprendiz da vida. 🌊✨

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Nalu Flama Nalu Flama
O senhor sempre se supera <3
December 22, 2022, 01:54
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