Conto
0
955 VISUALIZAÇÕES
Completa
tempo de leitura
AA Compartilhar

- E porque você quer saber dessas coisas menino?

- Ahh tia, curiosidade mesmo, papai não acredita nessas coisas, mamãe disse que por causa da fé dela isso não acontece e ela nunca tinha visto nada, ela comentou que a senhora podia saber algo então vim perguntar.

- Então tá certo, o que você quer saber? - Tudo que a senhora souber e quiser contar.

- Tudo, tudo é muita coisa, puxa essa cadeira aí, pega um pedaço de bolo, vou te contar uma história.

- História? - Então não aconteceu.

- Quê isso, você nem ouviu ainda.

- Tá bom. Disse ele revirando os olhos.


- Muitos anos atrás em uma manhã de sol, quase sem nuvens no céu eu resolvi ir no cemitério, conhecia os coveiros, como conhecia todo mundo lá na vila, sabia o dia que podia ir, até que horas poderia ficar sem me preocupar, quis levar umas flores pros túmulos dos meus mortos.

- Seus mortos, como assim?

- Meus é modo de dizer, familiares e amigos que amei demais pela vida, quando as pessoas se vão continuam com a gente em forma de lembrança.

Fui no jardim, apanhei umas quatro braçadas de de flores e separei em ramalhetes, arranjos, algumas eu trancei em coroas, separei velas, um paninho, tá vendo aquela vassoura lá fora? - Sim, mas porque ela tá lá?

- O que vai para o cemitério pertence a ele, só os vivos voltam pra casa, o certo é antes de entrar lavar os pés bem lavados, jogar um sal, as mãos, tudo na água corrente, tirar as roupas e colocar pra lavar imediatamente.

- Sim tia, eu vou lembrar disso quando for lá, só não sei se volto de tanta leseira da senhora, e aí?

- Aí que eu fui arrumando tudo pra ir pra lá e fui o portão tava aberto, curvei a cabeça mostrando meu respeito ao entrar e cruzei o portal.

Lá na frente um dos coveiros estava trabalhando, ele me viu e acenou, acenei de volta e fui caminhando pros túmulos dos meus entes queridos, no caminho sempre gosto de ver as fotos daquelas pessoas, as datas de aniversário, eu tinha uma brincadeira com seu avô de tentar achar a pessoa mais velha sepultada na vila, era tradição, todo finados a gente ia lá procurar, achamos uns 3 que andaram com o conde Drácula na terra, de tão velhos que tinham sido levados pra lá, andei uns 10 minutos e já fui achando cada um deles, fui limpando os vasinhos, acendendo as velas, trocando as flores, colocando as novas, estava bem entretida naquela tarefa até que ao chegar no túmulo da minha mãe me demorei um pouco mais, faz muitos anos que perdi ela e sempre que vou lá me pego no mesmo desespero do dia fatal, parece que foi ontem.


- Ahh tia, não chora, não quero ver você chorar.

- Tudo bem meu anjo, tá tudo certo, chorar não faz mal, o que é ruim é guardar aqui, e antes que divague novamente, eu estava lá, limpando a sepultura, ajeitando as velas no cantinho delas e vi de canto de olho quando chegou alguma coisa do meu lado, pensei que o gato tinha me seguido como ele fazia sempre, mas não era, era uma menina, uma menininha toda bonita com um vestido azul claro, meias altas, sapatinhos brancos, cabelos cacheados amarrados em duas chuquinhas assim, na lateral da cabeça, ela olhou pra mim e sorriu, me perguntou se eu ainda ia precisar das flores mas apontou pra aquelas que eu já havia retirado e ia jogar fora, eu disse que não e ela se abaixou pra apanhar elas mas antes que eu falasse voltou - se pra mim e perguntou se podia. - Essas não meu bem, espere eu acabar aqui que separo umas que apanhei hoje e dou pra você tá certo, só espere um pouquinho. Ela sorriu de novo e acenou com a cabeça, eu terminei a limpeza, fiz minhas preces, acendi as velas e quando me virei pra entregar as flores a menina não estava mais lá.

Procurei, olhei por todo canto mesmo, ela tinha ido embora, me preparei pra ir também mas antes ainda ia passar no cruzeiro, deixar umas velas pelas almas perdidas e esquecidas. Me ajoelhei, posicionei as velas, fiz outra prece e acendi, quando olhei pra frente a danadinha da menina tava lá apontando pra o outro lado do cemitério, levantei, sacudi a poeira dos joelhos e gritei pra ela vir pegar as flores, ela continuava insistentemente apontando pra lá longe e eu fui, segui ela, pedi pra ir mais devagar que eu não queria torcer o pé pisando em uma cova ou coisa parecida, a terra do cemitério é fofa demais, qualquer coisinha a pessoa afunda sabe, quando tava quase chegando perto dela sumiu de novo, eu rodei os mausoléus próximos andei, me abaixei, cobri os olhos e nada dessa criatura voltar até que dei uma última volta num cantinho assim bem espremido um túmulo antigo, pedras desgastadas tinha uma foto preservada em uma redoma de vidro e junto uma bonequinha de porcelana, daquelas bochechudas e coradas que raramente se encontra hoje em dia, cheguei mais perto achando que tinha me enganado mas não era o caso, a menina da foto era a mesma que tinha me pedido as flores.


Vendo aquilo recuei assustada mas senti algo segurar minha mão, e ao contrário do medo senti calma e uma pena tão grande da menininha, arrumei as flores que restavam, algumas velas e acendi, limpei os cantinhos, arranquei as erbas daminhas e sempre que vou na vila deixo algo lá pra ela.

- Agora é você que tá chorando.

- Coitada tia, a menina, ela ainda tá aqui, sentindo falta das pessoas.

- É meu bem, se você acredita nisso.

- Mas não é óbvio, se não porque ela teria ido lá pedir pra senhora?

- Talvez a gente nunca saiba, mas já pedi pra ajudarem ela.

- Ajudar como?

- Como quem sabe faz, o que fazer é o mistério do existir meu filho, e esse mistério é o tempo de uma vida todinha, é o que temos.

- Mistério é bom, conta mais.

- Quando você voltar, se quiser ainda ouvir te conto de uma amiga minha, tem uma voz bonita e asas bem grandes só ela sabe o mistério.

- Só ela mesmo, tem certeza?

- A certeza fica pra outra história.

12 de Setembro de 2022 às 16:00 1 Denunciar Insira Seguir história
4
Fim

Conheça o autor

Siph Ferreira Nerd de maquiagem, amante de música, livros e quadrinhos, amiga de Meia Noite e Qliph, viciada em podcast e buscando seu rumo nesse mundo.

Comente algo

Publique!
Norberto Silva Norberto Silva
Adorei... Consegui visualizar todas as cenas, do neto com sua avó, da criança pedindo ajuda no cemitério... Uma história que, para mim, passou muita ternura e carinho, bem coisa de avó. Parabéns.
October 14, 2022, 13:54
~